Sofia.

21:16

Pra ela. Só dela.

Sofia é a primeira das meninas, depois que a mãe casou de novo. Sofia nasceu no dia do meio ambiente, no mês do São João. Sofia deu trabalho pra nascer, a barriga da mãe estava gigante e Sofia teimou que só nasceria em outra cidade. A mãe viajou em trabalho de parto e Sofia só nasceu quando chegou em Vitória da Conquista. Minha cidade. A partir daí eu achei que Sofia queria me imitar. Sofia nasceu careca. Era engraçada. Com o passar do tempo, ela teve uma fase parecida comigo. Todo mundo dizia. Eu gostava de cuidar de Sofia e gostava quando ela dormia agarrada comigo. Sofia nasceu quando eu tinha sete anos. Um dia, a mãe foi ao supermercado e eu resolvi que tinha de trocar a fralda de Sofia. Coloquei ela na cama e fui pegar a fralda. Quando voltei, Sofia tinha fugido da cama. Aí eu olhei do outro lado: tinha despencado e ela sorria. Eu chorei. Chorei muito. Nunca mais deixei Sofia cair. Hoje em dia eu fico pensando que ela é chata assim por causa disso, deve ter batido a cabeça e ninguém percebeu. Sofia é a morena do sorriso mais lindo. Tem alguns trejeitos meus, mas a gente já não se parece mais assim. Sofia é a Jonas Sister. Ela ama os Jonas Chatos e eu não posso fazer nada. Já aprendi algumas músicas, inclusive. Eu já consegui fazer ela gostar de Los Hermanos e Teatro Mágico. Sofia sabe ser doce, mas não gosta de ser. Sofia tem amigos legais. Eles gostam de mim. Sofia fala muitas gírias. Quando ela conversa com Mariá, eu não entendo nada. Ultimamente elas dizem que tudo é ma-ra. Eu dou risada. Sofia só me abraça na hora que eu não quero. Sofia divide o quarto comigo e odeia minhas insônias de luz acesa. Ela tem ciúmes de mim. Muito. Sofia quase sempre é a primeira a ler meus textos, antes de postados. Quando ela não gosta, eu não publico. Sofia é besta, também. E é CDF. Sofia é meu orgulho. É preguiçosa, sim. Sofia dizia que ia fazer faculdade de medicina, mas eu não sei se ela ainda quer. Sofia come muito. E quando ela faz o arroz, ele vira mingau. Sofia vive no computador. É viciada em Harry Potter. Ela gosta de ler. Ela gosta do meu gosto. Isso, é ruim. Sofia às vezes usa minhas roupas, e eu piro com ela: ela tem mais corpo que eu, e estraga tudo. Sofia às vezes pega minhas sandálias e eu brigo com ela, muito: Sofia anda chutando e a sandália vira um bagaço. Eu sou organizada e perfeccionista. O guarda-roupas de Sofia só pode ser aberto com cuidado. Hoje, eu abri e caiu um livro em cima de mim. Sofia manda eu me foder pelo menos uma vez por dia. Eu considero um gesto de carinho. Sofia fala muito palavrão. É engraçada. Sofia com raiva ninguém segura. Tenho medo dela. Mas mesmo assim eu pirraço, MUITO. E esmago ela na parede da cama, porque ela começa a rir e perde todas as defesas. Sofia é super moleca, e um dia disse que não quer crescer nunca. Sofia é grande. Treinava basquete. Mandava bem. Sofia foi assaltada ontem à noite, com os amigos, enquanto voltava pra casa. Levaram os telefones deles. Eram seis rapazes, armados. Sofia chegou em casa chorando. Eu, tive enxaqueca instantânea, pensando em tudo o que não foi. Mas eu tentei tranquilizar Sofia. Eu agradeci a Deus por nada ruim ter acontecido. Minutos depois, já se fazia piada sobre o assunto. Sofia é minha pérola, mas ela nem sabe. Eu só quero bater muito nela, às vezes. Na maior parte do tempo, eu quero só bater mesmo. Sofia sempre chega da escola me contando os detalhes da manhã dela. Às vezes eu me distraio e fico olhando sem ouvir. Ela sempre percebe e me xinga. Eu dou risadas. Sofia sempre me faz rir. Sofia tem um nome lindo. E eu só quis ler O Mundo de Sofia porque tinha o nome dela no título. Eu tinha dez anos. Às vezes, antes de dormir, eu e Sofia cantamos, esperando o sono chegar. Sofia sempre lembra das músicas que eu cantava pra ela dormir, quando era menor. Sofia disse que vai morrer de saudades de mim, quando eu for embora. E eu também. Ela é viciada em filmes. Acho bom que seja. Sofia sempre me cobrou que eu não escrevo sobre ela aqui no blog. Resolvi escrever hoje. Só pra ela. Sofia vai chorar quando ler esse texto, eu sei. E eu nunca vou saber. E nessa parte ela vai sorrir, que eu sei. Ela vai estar ouvindo Jonas Brothers. E eles são três boyolinhas, sim. E ela vai ficar com raiva de mim, nessa parte. Vai me xingar, em voz alta. Sofia é doida. É minha irmã. E isso é coisa nossa. Sofia é minha.

- Sofi, te amo. E nem sei medir.

Eu, passarinho!

10:49

De quando a gente vira borboleta.

Igual ao pôr-do-sol na roça. A festa em que se dança ciranda, em saia rodada e flor nos cabelos. Sorriso de criança. Fruta tirada do pé. Banho de cachoeira. Caminhar de mãos dadas. Tocar violão para alguém. Andar de chinelos todo o tempo. Cachos desgrenhados, ao vento. Barulho de chuva como trilha sonora do sono. Bilhetinho escondido entre as folhas do caderno. Sorvete numa tarde de domingo.

É bater palmas. Lambuzar o rosto com a manga rosa em mãos. Caminhar descalço na grama. Dançar como se ninguém estivesse olhando. Um livro de García Márquez. Acreditar em paraíso. Colher uma flor para plantar afeto. Piada sem graça. Receber uma carta. Fotografia antiga. Família. Tempo frio. Filmes repetidos. Dedicatória em livro. Par ideal imperfeito.

É quase como coração acelerado e mãos suando. E um telefonema. Uma música do Teatro Mágico. Poesia. Rosto vermelho em timidez chamativa. Doce de leite da vó. Contar estrelas. Presentear constelações. Um cochilo depois do almoço. Um cafuné. Um encaixe. Uma tarde de folga. Passeio noturno em graça poética desordenada.

Ter fé em Deus. Encontrar afinidades infinitas. Desembarques. Esperar alguém, e vê-lo chegar. Ser mimado quando uma doença quer derrubar. Pirraça de irmãos. Coração que vira bateria. Olhares que se acariciam. Borboletas. Lágrima. É a harmonia de Por onde andei. Correr pro mar. Feriado. Brigadeiro de panela. Bico de zanga. Eu, menina.

Viagens. Estrada. Distâncias próximas. O norte-nordeste do Brasil. Filosofia barata ao som de um brega qualquer. É mistura de sotaques. Os acordes deles. As gargalhadas escandalosas delas. Um show dos Titãs. A flor de azeviche de Zeca. Banho de chuva. Beijo na chuva. Lua. Jogar pro alto. Sonho em noite de insônia. Primeiras vezes. A mesma frase dita ao mesmo tempo.

Ter saudades. Fazê-la doce em sua amargura. Sentar na janela do quarto. Aprender a andar de bicicleta. A entrada do aeroporto de Salvador. Acarajé no fim de tarde. Uma música de Moraes Moreira - mistura dos Novos Baianos. Ilhéus. Meninices. Casa antiga. Baralho. Pular na poça d’água. Carinho inesperado. Recitar versos. Borrar-se de amor.

É mágica, também. Acordes e letras dos quatro barbudos cariocas. Rasgar-se. Brincar. Pular em cima da cama enquanto berra o tom desafinado de O Vencedor. Ser palhaço. Entregar alegrias. Provar do licor de conto de fadas, do poeta. Bossa nova. Crises de insanidade. Vontade desesperada de falar com alguém - e apenas aquele alguém. Dividir-se. Somar. Multiplicarem-se.

Saber amizade. Ouvir o dizer: hoje lembrei de você quando. É provar solidão em conjunto. Comer uma goiaba furtada do quintal vizinho. Fazer macacada na árvore. Lamber a tampa do iogurte. Afago de um nariz no outro. Chico Buarque no som. Uma conversa que não termina nunca. Tapete mágico que aproxima suposições de céu. Não ligar em ser boba. Ser. Rir de si mesmo.

Toda bonita é a vida. Tão bom quanto compor uma música. Tão bom quanto escrever. Quanto chegar. Quanto um abraço. Contar dos sonhos. Da noite passada. Fazer mimetismos com o outro. Perder-se em si mesmo, olhos fechados resgatando lembranças. Uma peça dos Clowns de Shakespeare. A praça. Pacote de jujubas. Parque de diversões.

Porque hoje eu sorrio flores - é primavera (em mim)! Mora aqui a falta de gravidade. E o mundo, do lado de cá, pede exclusividade. O par de asas monta um bater incessante, e esse canto se faz pequeno para caber as cores todas. Tem muito céu desaguando sutilezas. Carrego o frêmito de sabê-lo infinito. As flautas voltaram a tocar, por fim. Sentimento passarinheiro. Vôo.

Vamos de mãos dadas?

Casa Pré-Fabricada

17:02

E fazer do teu sorriso um abrigo.

[Casa Pré-fabricada - Marcelo Camelo]

Sentada nessa grama verde, cercada por esse riacho, brinco com teus cabelos enquanto a brisa envia seus suspirinhos. O céu, tal qual um manto azulado, transforma-se em redoma desse nosso querer-bem.

- Me dá um abraço?

- Claro.


Descubro você em mim, nesse gesto. Vai ver eu sempre te escrevi assim, do meu jeito descuidado. Talvez você já fosse coisa minha. E eu fui te vestindo com essa poesia despretensiosa, que num ato involuntário, vai colando teus versos nos meus. Eles se encontram. Música aparece. A letra só você lê.

As borboletas azuis parecem habitar em mim, agora. A alma desabrocha em flor, quase sem querer, e eu vou te guardando aqui, como se guarda uma carta-amuleto no móvel mais antigo, junto com uma pétala perfumada. Mania minha, te enxergo com esse olhar de pesquisa. Você vai me observando com esse olhar de você. Olhos suaves, os teus. Entendem tanto de mim. Sorrio.

- O fato de te entregar meu sorriso quase diariamente, já é permissão pra chamar ele de teu.

De repente nota-se um abrir de janelas dessa casa pré-fabricada. Do lado de fora tem você fazendo arco-íris. Dos nossos armários de queixumes, manhas e desencontros, sobra agora essa poesia displicente que vai sendo sossego, unção, estrada única. Escancaro as portas. Capturo delícias no ar em cada palavra solta que se enfeita em nosso quintal. De vez em quando acho que o sol se pôs em você.

- Tá aqui, minha mão. Segura nela, pra passar o medo.

- Posso apertar?

- Pode, mas não aperta muito. Ou melhor, aperta, que é pro teu cheiro ficar grudado.

Como se mergulhasse nuvem adentro, você abraça minha mão e eu me embaraço, sem saber o que fazer. O rubor toma conta da minha face, enquanto você diz que minhas palavras te botam do avesso. É que a cada vez que a gente costura uma conversa sem pressa, acabo deixando meu sono se embalar no carinho dos teus braços. Você aproveita e me conta do teu coração desgovernado, e eu nem ligo em me fazer bailarina, nessa hora. Culpa dos teus gestos que me descerram. Meu medo é me confundir nessa dança. Mas com você, assim, os ritmos se fundem de maneira que até passos atropelados parecem certos. É bonito o descompasso.

Daqui vejo nascer essa fábula, reticente e confusa. Lido com sintomas que já me bagunçaram, e acabo me perdendo nos teus confins. Fico lembrando da nossa visita às estrelas, que não aconteceu. E daqui dessa outra janela, a lua, toda prateada, fica desenhando você num sorriso reluzente. Nessa hora o pensamento brinca de encontrar o teu. De interrogar se você, aí da sua janela, nota a mesma lua, enfeitada de luz, e resolve compartilhar com ela teus desvarios meus.

Poesia minha, você é.

Descarada Pretensão

04:49


Sentado naquela roda, puro êxtase. Senti o calor do seu olhar sob minha pele. Fiz-me brasa. E meu sorriso perdia-se nele. Não sei, essa minha idéia de independência emocional é um grande fiasco, por vezes. Melhor acender um cigarro. Mas e se ele ler minha intenção desenhada na fumaça? Se ele preferir mulheres que não fumam? Lá vou eu, outra vez, medindo minhas ações pelas reações alheias. Dane-se! Essa noite é cigarro e bebidas. E em menos de cinco minutos ele vai caminhar até aqui. Previsíveis homens, não podem ver uma mulher sozinha. Hoje o favor é meu.

- Posso sentar? - se aproxima, como que desenhando o sorriso em mim.

- Não tão longe.


E enquanto ele chegava mais perto, vinha aquele cheiro, beijos pelo ar, carícias, vontade de vacilar. E essa pista de dança era um mero teatrinho. Protagonistas éramos nós. Eu e ele. Ousei. Quis fazer cena.

- Aposto como você fica bem no meio do salão. - incitei.

- Danço. Dueto, você e eu. Quero que você me canse.


Fomos. Cada toque dele em meus cantos era faísca em algum lado daquele salão. Ele me chamava sem emitir palavra alguma. Todas as coisas lindas que ardiam em mim, eu entregava ali. Íamos desatinados. As retas se entortavam. Mimetismo nosso, nos experimentávamos. A música era nosso manto.

- Acender o pavio pode causar uma explosão. - eu lhe dizia, virando a curva no evitar de um beijo.

Ele me olhava. E eu rimava tanta bobagem naqueles olhos que me alcançavam por dentro, procurando vaga em meus gestos. Com suas mãos em meus ombros gelados, voltamos para sentar. Mau humorado, o garçom dava sinais de que já era fim de noite. Viramos uma última dose de uísque. Chutei-lhe o pé, por debaixo da mesa, piscando o olho num ar de chantagem doce para uma madrugada melhor. Notei que seu orgulho dilatava-se. Tão fácil ele se achar especial! É o provocar de fim de festa em seus efeitos.

Seguimos caminhando, ele com a garrafa. A noite seguiu nua. Desmetaforizada. Regozijo nosso, à beira-mar. Urgência de amar. Amar? Ardilezas bem postas. Plural singularizado. Fonte escondida era ele, que derramava-se em mim. Emaranhamento nosso, naquela teia em comum. Pensei no meu sorriso ingrato. Levantei, passos tortos pela areia, carregando os sapatos nas mãos. Ele, sombra de mim. Me puxou pela cintura, me virando num rodopio, ao dizer:

- Quero bis de você. - segurando meu queixo.

- Todos querem. - na minha melhor indiferença, lábios enfeitados em malícia.


Meus ares de atriz. Do outro lado da rua, o hotel no qual me hospedava. Me despedi. Subi as escadas sem virar o rosto. Sabia daqueles olhos claros me acompanhando. Novo incêndio ao meu redor. Corri perigo. Fui dele. Não podia ser. Tampouco podia proibi-lo de insistir na pirraça de me ter. Não cobrei por aquela noite. Favor meu, como havia programado. Vaidade exagerada. Acréscimo de estima. Por mim.

Surdo é meu coração, demitido do emprego de amar.

O Assassinato da Flor

19:40

Ou: das disfunções insones.

O amarelo mal tomou conta do dia e eu levantei com a campainha tocando alguma coisa que não me entrava. Meu humor pela manhã é dose. Não fala comigo, não. E fim. Se falar, leva patada. Sai pra lá. E a gente tinha discutido noite passada. Eu lembro, porque apesar da ressaca que toma conta agora, eu tô vendo o porta-retrato partido no chão. E nós dois ainda sorrindo na foto. Tudo bem, tudo bem, a gente ainda vai sorrir assim de novo. É o que eu penso, tentando consolar a razão. Abro a porta, o carteiro. Bom dia, flor do dia! E me entrega uma pilha de contas. Bom dia? Bom dia é o caralho! Eu nem sequer preguei o olho. Hoje o dia promete. Vou ver se consigo continuar o sono de onde parei. Acredito que as pessoas teriam mais respeito se soubessem da minha insônia frequente. Eu queria ser Cazuza - o mundo inteiro acordar e a gente dormir. Eu queria, mesmo. Mas agora não quero mais.

Ô, seu puto! Dá pra parar com esse batuque aí em cima? Eu preciso dormir! Isso lá é hora de perturbar o sono alheio? Volta amanhã! Ai, meu Deus! Eu gritei isso. É o distúrbio dessa mente cansada. Confundo pensamento e ação. Ah, mas eu falei. Falei e pronto e acabou e que se dane. Nunca fiz parte da vizinhança, mesmo. Cada um com seu cada um, é melhor. Afinal, de repente a dona Maria se anima e resolve fazer visita nos fins de tarde. Já pensou? Eu preciso do meu individualismo. Porque eu sou egoísta e chata e só preciso de mim pra viver. Quem vive sou eu, né não? Mas eu nem quero viver, agora. Eu quero dormir.

MEGA PROMOÇÃO DA PADARIA DO SEU JOÃO! MEGA PROMOÇÃO DA PADARIA DO SEU JOÃO! Que que é isso, minha gente? É de propósito? Calma aí. Vou lá agora. Porque eu preciso de pão, todo dia, várias vezes ao dia. É, eu preciso. E morra de inveja: nem engordo, não. Vou assim mesmo, de pijama, ninguém vai perceber. Aí eu chego lá e tem uma fila. Finjo um ataque e sou atendida primeiro. Antes, o seu João, de bigode, me pergunta o que eu quero. Como assim o que eu quero? Que diabos a gente faz na padaria? Cuida dos cabelos? Eu até tento ser simpática. Aí, o cara fica berrando no alto falante, lá na frente, virado pro meu prédio: MEGA PROMO... É, eu puxei o trem da mão dele. E o seu João torceu o bigode. Prevejo um acesso. Devolvo o treco pro moço. Pronto. Então, seu João, o pão tá barato hoje, né? Sabe o que eu acho que vou querer? TODOS! Isso, seu João, embala todos os pães e manda me entregar, ali na frente. Apto. 143. Aguardo, hein? Abração, seu João, falô. Se cuida. É, eu vou dar uma festa hoje. Eu comprei todos os pães, sim. E fui xingada pela fila inteira. Mas eu fiz isso por um motivo bom: PRECISO DORMIR! E só assim, só assim, o moço ia parar de gritar sobre a promoção. Seu João... Festa? Já viu fazer festa só com pão? Avisei ao porteiro pra direcionar os pães a um abrigo desses.

Eu sai de lá bufando. O apartamento? A porta eu tranquei. E a chave? Ficou no ferrolho, do lado de dentro. Não sinta pena de mim, não. Não mereço. Isso eu mereço. E hoje eu tô seca de espírito. Nem lágrima aparece. Celular! Vou ligar pro namorado. Discagem rápida. Ei, amooooor! Isso era eu sendo falsa. Depois de uma briga sacana, ligar assim pede qualquer cara de pau mesmo. Ele atende: eu tava dormindo, sabe? Se o mundo não tiver acabando, será que dá pra desligar? Ele não é lindo? A gente dá certo. Ele sim, me entende. É que a porta do apê bateu e a chave tá lá dentro. A outra cópia tá contigo. Me ajuda? Isso era eu, apertando todos os meus poros pra ser simpática. Ele dizia: você é muito retardada mesmo, não? Tô indo. Peraí. Não é a toa que eu chamo ele de ogro, fique você sabendo. E é justamente assim que eu gosto. Vou me encostar aqui no tapete enquanto isso. Êêêê, que a crise tá malz, hein? Levanta. Vem cá, assim. Isso é ele salvando minha vida. Epa, nem encosta. Que eu não lembro porquê brigamos, mas lembro que estamos brigados. E isso basta pra você ficar distante. Não cruza essa linha! E desenhei um traço imaginário no chão. Fui pro quarto e ele me olhava com a cara do gato de botas no filme de Shrek. Eu bati a porta e fui dormir. Finalmente.

Toc toc toc. Sem som. Toc toc toc. Sem som. Posso entrar? Era ele. E eu estava pronta pra dar um tiro. Eu tava de olhos vermelhos, olheiras roxas, cabelo em pé, com o peso do mundo nas costas e ele entra com uma flor. Uma flor das mais belas, que eu admirava todo dia quando ia à biblioteca. E ela estava ali, com ele. Fui buscar pra você. Pra você deixar de ser insuportável e lembrar do que faz a gente virar um. Um pouco da primavera pro teu dia. Te amo, viu? E eu? Eu já tava chorando, nessa hora. Eu estava indignada. Estava pasma. Boba. Não acreditava no que via e ouvia. E ele ainda falava com chamego. Todo cheio de nhem nhem nhem pro meu lado. Não aguentei, não. Desabei no choro. Eu tinha que falar: você matou a flor? Por nada? Simplesmente resolveu que ia tirar ela de lá e puxou? Você tem noção do que fez? Você... Sai daqui, agora! Você me acordou pra nada. Pra isso. Pra... Eu quero acabar o namoro. Imagina, quantas flores? Eu quero acabar todos os namoros do mundo! Porque você poderia ter me trazido um litro de cachaça, pra ver se eu dormia. E você veio com flores. A FLOR! Como... Como você pode? Eu quero que todos, todos, TODOS os namoros do mundo acabem. Porque eu quero saber das flores. Vivas! Porque delas, ninguém dá conta. Não têm índice de extermínio, nem nada. Elas são injustiçadas. O que a flor tinha te feito, pra você fazer isso? NUNCA MAIS ME TRAGA FLORES!

Foi por amor... Ele ainda ousou dizer. E eu? Eu disse assim: por amor? E fiquei pensando. O motivo da minha insônia. O amor, infeliz. Seguinte. Tá a fim de provar amor? Cala a boca do mundo inteiro e me deixa dormir. Me deixa dormir até a cama pedir socorro. E amor: eu te amo, porra! Mas ó, nunca. Nunca me acorda, não.

E lembrei do motivo da briga anterior. Dormi.

Moço do Violão.

21:43

Cantador de mim.

Distraída, ouvia as lembranças de Chico. Aquele CD ao vivo, em Paris, que você tanto gostou quando eu te mostrei. E a tarde foi ficando cor de rosa, começou a trovejar e chover certinho. Lembrei tua voz.

Voltei àquele sábado qualquer, com você aqui em casa, na varanda, de óculos, chapéu, e vestindo um sorriso de festa. E eu ali na mesa, mãos ao queixo, olhar de menina boba guardando teus zumbidos. Nem contava para ninguém dos arrepios que teus acordes causavam em mim. É que eu sempre fui música. E tê-la entregue assim, enquanto você dedilhava as cordas e pousava uns olhos escuros e leves em minha face, me fazia rubra, em minha timidez.

Tua voz é brisa primaveril, sim. Mas teu pedaço que me (en)canta, é o violão. Vocês, juntos, parecem uma coisa só. Por isso ontem à noite, madrugada adentro, eu resolvi que queria tê-lo e coloquei você no meu radinho de pilha. Antes de deitar, olhando pela janela, uma lua que eu não sei dar nome fazia morada no céu azul marinho. E eu quis Tom. Porque por um segundo quase pude enxergar o Corcovado e o Redentor. Do meu norte, fui ao Rio. No meio desse devanear ilógico, uma estrela cadente riscou aquele azul. Os rastros eram notas de você.

Essas gotas milimétricas de chuva que vão despencando com a suavidade espontânea de uma lágrima contente, soam um tanto desafinadas. Nem discuto muito porque fico pensando em amor. No sopro de João Gilberto contando que no peito dos desafinados também bate um coração. Vou acreditando na nossa última conversa. Bossa nova. Porque eu tenho um bom papo musical, você disse. E tudo isso, como sempre, de violão no colo, passeando os dedos distraídos, melodiando qualquer coisa enquanto vinha com teus zumbidos. Qualquer coisa de pápápápá. E uns olhinhos expressivos. Naquele dia, você não carregava teus olhos de ressaca.

E como o sol que vem de manhã, em amarelo e calor, eu fiquei querendo ser a menina da tua música. Despertador do meu celular, teu canto para ela. E eu tomei a composição inteira pra mim, com aquela propriedade única de quem sente. Teu violão desperta feitiços, meu cantador. Isso explica o porquê de olhares zombando minha concentração ao te ver no palco. E nem o rapaz que piscou freneticamente pra mim, enquanto eu dançava você, conseguiria entender minha ebriedade. Cuspia filosofias com uma insanidade eloquente. E era tudo culpa do teu violão, moço.

Hoje o dia não poderia ser mais bem escrito. Tua presença musicada e minhas letras saudosas. De lembranças. De ver meu violão ali, no canto, abandonado. Você foi a última pessoa a tocá-lo, enquanto insistia para que eu o acompanhasse nos meus acordes errados e tortos. O meu desconcerto tamanho. E o fio de voz que eu te dediquei, por pura insistência. Teus deslizes recheavam minha harmonia. E nosso dueto do samba de uma nota só, querendo Tom, de novo. E eu declarando meus guardados nesses dois versinhos que cifravam você, em mim:

E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com uma nota como eu gosto de você.

E eu contei. Cantei. Por isso tua dança, aqui dentro. Eu sendo a menina que você escreveu. Aquela dos olhos de saudades. A mesma que, enquanto faz melodias com as gotas dessa chuva certinha, encontra tempo pra falar de estrelas, de contos de fadas, de um mar sem fim. De um céu, assim. Com uma lua que eu não sei dar nome. E que hoje, dedico a você.

Teu sorriso ecoa minhas horas. E dessa noite, farei um cobertor de sonhos. Trilha sonora de você, moço do violão.

Cinema Mudo.

13:08

Do amor sem palavras.


Dispenso o silêncio e concentração. Tenho feito da noite meu dia e você não perde esse jeito todo único de se fazer sonho em minhas insônias. Aí eu fico querendo buscar uns versos muito lindos pra te entregar e acabo borrando tudo. Busco companhia nos livros, nas palavras soltas, nas letras que viram notas musicais e eu já nem sei ler mais. Fico estufada de sentimentos presos, de vontades guardadas, de um doce enjoativo, de uma acidez bem dosada, e pensando em tudo o que você não sabe. Tudo o que eu não disse. Não digo. Vou procurando me desfazer das metáforas todas. É insuportável tentar entendê-las agora. Existe um termômetro desregulado das emoções incertas que me habitam e a proporção é nenhuma. Para de olhar pra essa taça de vinho tinto e enxerga essa tempestade castanha que nasce em meus olhos. É que eu sempre achei que você entendesse meus gestos. Por exemplo, agora. Agora que eu te entranho a alma com esse meu olhar desmistificado, você não sente meu peso em si? Carrega ele com você, também. Pra mim, quero asas. Deixa o moço gritar essa MPB irritante dele pra lá. Por que será que esses cantores de barzinho escolhem o repertório mais escroto possível quando a gente sai de casa para provar de delícias? Enfim, deixa a música de lado, Mais importante é a noção do meu dizer hoje, em palavras. Você sabe da minha trava em expor sentimentos. Pior seria se eu dissesse obrigada a cada vez que ouvisse um eu te amo. Não dá risada, não. Ou melhor, dá. Preciso dizer que você fica lindo quando sorri. Devia fazer isso de mostrar os dentes mais vezes. Então, como eu vinha dizendo, os gestos. Quando eu chego, por exemplo, e te abraço sem qual nem o quê, é pura necessidade de estar em casa. Você pode pensar que é porque eu gosto do cheiro do amaciante que você usa em suas roupas e isso é um dos motivos também, claro. Você precisa me dizer qual a marca, depois. Mas o motivo maior é a necessidade de me sentir viva, entende? É que nessas ocasiões meu coração aqui dentro dá sinal e eu respiro aliviada. Ah, eu quero sim outra taça de vinho. As palavras fluem melhor com essa dose de torpor. Manda esse garçom trazer a garrafa inteira. Gosto de excessos. Cansei de metades. Não, não de você, metade. Que papo brega, esse agora? Parece aquele dia em que prometemos ficar sem falar de amor. Eu perdi, claro. Uma hora depois da promessa e eu já vinha derramando no apartamento inteiro o perfume encarnado dessas paixões meio descaradas. E vem cá, por que raios você fuma tanto, hein? Apaga esse cigarro, que o quê eu quero cantar, hoje, fumaça nenhuma desenha. É puro nervosismo essa minha mão falante. Ah, não me entrega esse olhar de pesquisa, não. Tá ouvindo o barulho dos meus cadeados se abrindo? E o medo que dá de saber você me invadindo, eu não sei nem narrar. Eu nem me importo em me rasgar toda pra você. Os avessos dos meus avessos não escondem mistérios tantos assim. Minha alma espalha os segredos todos que esconde quando encontra a tua, tão desvairada quanto. Desnudas, ambas. Você sente assim? Sei que sente. Mas sei que você precisa de palavras e eu não sei entregá-las. Por isso sigo nesse ensaio, assim. Eu quero te dizer uma porção de coisas, menino. Em uma desproporção incomum, numa pose desarrazoada. Na calçada desse botequim, mesmo. Ou na cama que a gente divide naquelas horas onde já não se sabe mais quem é quem. Deixa eu dar um trago nesse cigarro? Viu? Nada na fumaça. Eu me sinto agora como quando em casa. Eu lá, sentada nas almofadas espalhadas pela sala inteira, brincando de pisar no macio por temer a certeza do chão. É bom fantasiar. E eu fico lá, torcendo cachos, roendo a mão, até que você chega e enrosca tua barba mal feita no meu rosto. Esse feito é maior que os pileques todos, em mim - a delícia de me embriagar de você. E aí eu rasgo os versos que ia vomitar e te dou o prazo de três mil horas pra parar de me beijar. Ah, droga! Olha só, derramei vinho no celular! Será que o toque vai ficar mais bacana? Como você é besta. Pronto, enxuguei. Bonita a cor do vinho no guardanapo. E eu ainda fico assim, pensando. É que eu preciso muito que você saiba... Quatro horas da manhã? Tá, vamos pra casa. Quem dirige? Deixa o carro aí, vamos caminhando, estamos perto, mesmo. E já tá quase amanhecendo. Agora que você segura minha mão... Você é tão atraentemente besta! Fica fazendo malabarismo enquanto se equilibra no paralelepípedo. Eu falei paralelepípedo, você ouviu? Você, lerdo que está, não consegue repetir. Fica aí, sorrindo, nesse atropelo de palavras. Você me faz tão bem... E o que eu mais queria era poder te contar do céu que enxergo em teu olhar e das estrelas todas que já andei pendurando nele. Sabe o que eu vejo de mim? Personagem do cinema mudo de antigamente. Expressões e gestos que dispensavam palavras. Tá que a gente como casal remete aos espectadores qualquer coisa de Almodóvar, bizarros que somos em nossa essência. Ei, me prende agora! Me pega pra você, assim, sem rodeios, encostado nessa árvore. Você tem gosto de fruta mordida e eu preciso provar todo o tempo, pra saber se você existe ou se é junção das minhas invenções. Que seja! Subimos as escadas sem nem chamar o elevador. E eu quero te dizer tanto. Fecha a porta? Me desengasgar cairia bem, agora. Largar mão dessas travas e expulsar sem poréns o resumo um tanto lúdico das nossas horas. É que você deitado aqui nessa cama, brincando com minhas mãos e me olhando sem piscar, devolve minha mudez e me faz engolir seco. Aí eu entendo o porquê de perder o som. Penso que as palavras soando no universo do teu eu, vigiado por esses olhos claros, me fazem correr o risco de cair pra dentro de você. E eu sei que vou gostar tanto, que não vou querer mais voltar. Resolvo arriscar agora, que teus olhinhos de conchas se fecharam com os brilhos das pérolas que carregam:

- Eu já amo você, menino. - digo, num sopro que te beija inteiro.

Ciranda Nossa

23:17

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Poética - Manuel Bandeira)

Lembro do primeiro sorriso. Caiam borboletas do céu, enquanto você se vestia em poesia. Eu cheguei de nariz pintado e te convidei a fazer parte do meu circo. Recorda? Foi aí que combinamos nossos pulos. Você abriu meu baú de prantos e melancolias, e me devolveu ternura. Lua do meu fim de tarde, me trouxe vontade de ser arranha-céu. Trouxe tua festa. Aconteceu o misturar desses cachos castanhos e a promessa de um encontro aos redores do Capibaribe. Desenhamos nossos sonhos uma na outra, num borrar sem fim de afinidades. As brisas do nordeste passaram a entoar um ritmo descompassado. Ciranda nossa. E aproveitando nossas saias rodadas e flores nos cabelos, caminhamos lado a lado enquanto nosso silêncio cantava. Agora, não se desfaz desse teu jeito de boneca, não. Toma aqui dessa aquarela: colore teu nariz, também. Do outro lado da cortina, você vai se enfeitar em mágica. Mora aqui o lirismo das estrelas desastradas que se espalhavam durante nosso encontro de céus. Terras onde ganhamos asas, lua. Voa ao meu lado?

Quanto mais nos distanciamos dessa gravidade, mais eu me sinto liberta. Quanto mais te olho, bailarina, vou entendendo os porquês de nossas asas tão parecidas e a grandeza lúdica do nosso brincar. Voar contigo me faz muito maior, sabia? É que eu descubro dentro do teu olhar aquelas estrelas que são tão minhas, sempre tão bêbadas de poesia, sempre guardiãs de nossas fábulas coloridas. O colorido das nossas saias, a leveza de nossos cachos. Uma morenice bonita, estampada em sorrisos de criança, meninas ainda que sempre seremos... Olha lá, bailarina! Lá embaixo. É o meu Recife. Sente? Os ventos já não são os mesmos. Vamos, desce comigo. As ruas de pedra da minha cidade precisam conhecer as tuas sapatilhas de prata. As ondas azuis do meu litoral merecem contemplar os teus olhares de infinito. Vem, que nessas rodas de ciranda o coração pode dançar solto e a paz flutua em todas as vozes. Lá tem a casa do Manuel que te falou sobre lirismo libertador. Lá tem as ruas e praças e pontes onde se pintam narizes, sorrisos e beijos. E no ar, bailarina... No ar mora aquele cheiro de carnaval antigo, a fantasia boêmia da noite, a alegria ruidosa das canções de rua. Pousemos, bailarina. Espalha no meu palco a primavera doce dos teus passos.

Estação de lírios, lua. Ao pousarmos, nessa suavidade que parece quase não tocar o chão, eu vejo as árvores todas dançarem. Tua música. É assim que vou descobrindo nossa afinação. É o encaixar de tons que me faz rodopiar abraçada com as notas que você exala. Teu Recife meu, agora. Recife-Pasárgada, eu fico achando, enquanto piso nessas pedras de faz-de-conta. Mora qualquer coisa de encanto aqui, lua. E nessa noite, onde nosso teto é azul-mar com estrelas ancoradas, eu divido contigo essa boemia travessa e me permito preencher meus cantos com esse vento lírico que balança o coração tal qual o ritmo de uma bossa. Do cais, vejo teu litoral. Marinheiros-querubins, nesse porto. Percebo agora de onde vem essa áurea celeste que vai ofuscando minha retina quando você me sorri. Você, lua morena. Deixa eu ser um tanto errada nos meus gestos, lua? Gritar meu romantismo vagabundo. Hoje, não quero lucidez. Meninas que somos, poetemos! Senta aqui ao meu lado, te entrego minhas prendas. Vamos provar juntas dessa folia que carregamos nos bolsos.

Essa noite todos os nossos saltos profundos estarão justificados, bailarina. Vem escolher uma fantasia na minha caixa de brinquedos... Neste universo não existe solidão. Nem medo. Grita, gira, valsa. Assim, borboleteando pelas calçadas. A madrugada é nossa grande companheira. Percebe como cada esquina que dobramos parece sussurrar lendas do passado? É o que chamam de Recife Antigo. Uma cidade que é toda patrimônio histórico, cheia de nostalgia em suas alamedas, com um rosto onde escorrem versos cálidos quando cai a chuva, com uma alma que canta ébria em meio ao burburinho da multidão. Então, vem menina alada! Vamos cantar por cada uma das estrelas deste céu, elas vão retribuir com um coral para o nosso dueto. Vamos beber vinho à soleira destas casas, testemunhas dos beijos felizes de tantas colombinas e arlequins. Aqui o Amor resplandece tão fácil! Faceiro e notívago, faz mil serenatas ao nosso caminhar. Assim, sereno, sem pressa: A noite hoje me prometeu demorar-se mais tempo sobre a Terra. Então dancemos soltas ao sabor dessa brisa vadia. Quem precisa pedir permissão ao relógio para sonhar? Eu só preciso da tua leveza, boneca de cachos. Das tuas interjeições malucas pra enlaçar meu coração extremista. Mas quando se for, pode levar aquelas estrelas e quantas flores quiser, viu? Eu guardo este teu último sorriso pra lembrar nos dias cinzas. E não fique triste, bailarina. Depois o tempo faz de novo primavera. Então serão os meus olhos, tão brilhantes de alegria e tão castanhos de saudade, que vão estar lá sorrindo ao se abrirem as tuas cortinas...


Bonito teu gesto de adeus, pequena. Lua que é, dá a impressão de que vai caminhando nuvem adentro. Eu, inebriada pela sutileza que escorre dos teus exageros lépidos, me desfaço de qualquer ponteiro. É esse momento de magia que entrega infinitude numa aquiescência tácita. Já não existe proporção. Levo comigo essa imagem que você emoldurou enquanto passarinhava ao meu lado: o céu, todo o céu de Recife. Colo em mim teus estribilhos, para derramar meus mais guardados sentimentos, como quando se folheia um poema antigo. E no abrir das minhas janelas, você estará lá, lua. Imprevista, rodeada por notas de flautas, cantando as saudades doces. As mesmas saudades que te envio, num sopro, cuidada pela menina esperança - de olhos verdes. Esperança de um novo encontro. Natureza errante, do nosso vôo.

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Escrito com Carol Lira.

Marinheiro Triste

12:15

Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?

(Marinheiro Triste - Manuel Bandeira)

E nela moram interrogações. Os assombros mesmos, de anos atrás. Pela janela escancarada, quem passa vê: a moça de face apoiada em mãos e aquele olhar que não enxerga. Foi ele quem partiu, outra vez. E o litro de aguardente que ficou na mesa ao lado bem serviam para lembrá-la de como o amor do que se foi a esquentava.

Marinheiro, marinheiro! Envolto em tuas águas, sente-se no comando do mundo, bem sei. Carrega uma lista de corações partidos a cada canto por onde passa. A cada porto, escreve um desamor. Os olhos que te retratam, verdes, jabuticabas, azuis, castanhos, de mel, do-Pará - cada um, uma festa que já foi. E depois as águas. E nada. Solidão para os teus olhos tristes, marinheiro. Coração nenhum ao lado teu. Uma pena. Mesmo? Já não sei mais.

Observo-te em tom de pesquisa há muito. Lembro os dias onde o mundo ainda era pouco, de quando você se fez homem do mar. Teu lenço, chapéu, farda, botavam doidas as mocinhas todas. Soubesse aproveitar os bons frutos, hoje teria uma árvore bem cuidada. Mas quem quer saber de árvore quando nunca se ancora? Você aproveita das estações o que de melhor elas te oferecem.

Teu navio, que nome ele tem, marinheiro? Nome de amor, sofreguidão, azedume? Pelo casco sujo, acredito em desimportância. Se houve batismo, um dia, já não se sabe das memórias. É a água que leva e a onda que traz de volta. Por isso você retorna. Bebida e charuto. Posa em desafeto e depois parte em tropeços. Deixa aqui um verso, por hoje. Poema para a donzela. Perfume para as prostitutas dos teus portos de escala.

Espia São Jorge, enquanto a lua se levanta. Já notou do teu navio, quando os ventos te levam os contos daqui, como é bonito o mar grávido em luar? Sentiu-se filho? Bem sei que você se torna céu azul, marujo. A moça carrega pintura tua no altar. Pobre da moça.

Esse batom barato borrando teus lábios, de que passagem grudou? Tão encarnado quanto as demais paixões profanas. Sei que hoje não é mais dado a confetes. A tristeza bem desenhada nos teus olhos escuros chega a ser divina em sua verdade. É a tristeza envelopada em si. Carta escrita por você, marinheiro. Te alcançaria em qualquer mar.

Marujo ia no olho verde da moça, em doce navegar. Moça no coração do mar. Ele é filho. Saltariam juntos apenas quando a garrafa de amor escrito fosse aberta. Descoberta. Tinha dos dois, nalgum lugar. Vidro frágil. Era a promessa. O desembarcar em cada porto era o viver sendo entregue. Missão. A moça era do marinheiro. Ele, dela. E sempre foi assim. Necessário transverberar?

Marinheiro viu coração em garrafa. Infinitude nadava. Afogou-se. Muito (a)mar.

Foi embora todo aquele há de ser. Hoje, água e sal moram nos olhos da moça, junto com as interrogações. A cada lua, face apoiada em mãos e o não enxergar. Quem passa vê, pela janela escancarada.

Amar. Há mar. Amor perdido. Gaivota. Ela virou ilha. Ele, céu - seu.

Boneca de Pano

18:10

Para Amanda e Maria Luiza, que estão chegando.


Abre os olhos, minha menina. Se eu te abraço forte assim, é vontade de te contar dos tormentos todos que meu coração abriga. Teus olhos de estrelas, como besourinhos no céu, enfeitam todo o meu quarto, quando te observo em cima da estante, brincando com teus pensamentos de uma fábula qualquer.

Teve um tempo bom, onde você me arrastava para o teu mundo de paz, cheio de coisinhas, palavras mansas, pincéis, doces, caras lambuzadas e sorrisos banguelas. Sorrisos sapecas. Lindos. Você cuidava de mim e eu de você. Lembra que era bom? Aí eu te largava, às vezes, e você ficava lá, na tua pose serena que ninguém percebia diferente, só eu. Eu que chegava do passeio me desculpando por ter te esquecido e te convidando a dormir agarrada comigo, fazendo um pouquinho de luz no quarto escuro que eu não gostava tanto assim.

Desatenção tua, menina, quando você me sorriu. Você no seu vestidinho de pétalas, e com os cachos soltos, do jeito que eu mais gostava de ver. Milimetricamente encoberta de encantos, você ia lá e brilhava. Eu sorria dessa gente grande que não te percebia. Imagina se eles acreditariam em mim? A verdade é que eu gostava da nossa cumplicidade. O mundo carrancudo do lado de lá, e você em poesia junto a mim.

Você é toda arco-íris. Era teu efeito mais belo em nossa casinha de cobertor. Criávamos tantos contos, ali. Nem tinha bruxa. Era só faz-de-conta. Eu era fada, princesa, bailarina, camponesa. Você que inventava pra mim. Era minha. Mesmo em castelo, casinha de sapê, caixinha de música. Eu sorria com meus dentes que faltavam, e lembrava dos nossos planos de fugir para a terra do nunca. Você dizia que ia ser amiga de Sininho. Eu dizia que ia aprender a voar. Já pensou encontrar Papai do Céu?

Um dia, à noite, eu nunca vou esquecer. Planejamos roubar uma estrela. Mas eram tantos obstáculos, e o céu era tão infinito, que eu te desenhei um par de asas. Você teve medo, mas alçou vôo por minha causa. Trouxe a estrela. Eu nem acreditava. Segredo nosso, menina, guardo ela comigo ainda hoje.

Aí a gente brincava. Agora eu era sua mãe. Te molhei, sem nem lembrar dos teus panos. Você ficou pendurada lá no quintal, tomando sol. Quanta trapalhada minha! E no dia em que rasguei teu joelho? Fiquei triste. Mas vovó te fez bonita, outra vez. E você ganhou um vestido novo.

Aconteceu que eu fui crescendo. Você é que tem sorte de poder servir de macio para outros braços. Ter outros carinhos de lua. Mostrar teus olhinhos de vaga-lume em troca de gargalhadas gostosas. Eu sou grata a você, por ter deixado comigo lápis de cor e música. Nem me perco, assim.

Sabe, tem um moço de olhos claros, que canta o que eu penso da nossa história. Ele diz que no tempo da maldade, a gente nem tinha nascido. Não tinha mesmo, não. E o mundo ainda é doce, menina. No parque de diversões, te dou uma maçã do amor. Depois tiro uma foto do teu rosto melecado, e faço moldura em flor. Você.

Eu só queria um pedido, hoje. Daqui uns dias, dois pontinhos novos serão estrelas no meu céu. Vira bússola delas? Explica da mágica. Do bom de não entender. Deixa que elas se vistam da tua redoma. Poesia. Boneca de pano. Cintilar de você, elas carregarão.

Agora vai dormir, pequena. Te entrego uma canção de ninar.

Eu, você e a praça

15:49

Preciso rever
Seu sorriso um tanto sem graça
Preciso voltar
Mais uma vez com você, lá na praça.

Da última vez, você colocou o destino em minhas mãos. Não foi nem tão pesado, mas eu me desequilibrei e fui soltando tudo por aí. Nada ao acaso, mas tudo em lugares que fizessem florescer aquelas promessas. Não ousei fazer escolhas, e bloqueei todos os acessos à tua voz. Você tinha ido embora, e eu quis te apagar em mim. Se consegui? Claro que não. Mas te guardei no canto mais fundo. Não lembrava você.

Só que tinha a praça. A nossa praça. Das nossas histórias malucas, de você tímido querendo dizer mil coisas. Eu, presa em teus olhos e dizendo que você não precisava dizer nada, enquanto era necessário ouvir tudo. As confusões confessas. Confissões confusas. Os “não vai”, “fica mais”, “me dá um abraço”. As ligações que serviam para extravasar a mudez. O “presta atenção, eu só me sinto bem assim com você”. E depois, desencontros. Escassez. E o tempo dando conta de tudo. Cuidando de mim. Fazendo bem a você. Lembranças leves. A praça sempre me mostrava o nós. Amenizava saudades. Tem um pouco de você e eu, ali.

De repente, você cai na minha porta. Eu me desenho sem ação, assustada, feliz, entre pulos contidos e sorrisos escancarados. Você me desarma com um abraço. Aí eu lembro do teu poder. Teu sorriso. E do quanto me reconfortava ser acarinhada por aqueles olhos de mel - um doce não tão açucarado. E entre olhares e sorrisos um tanto sem graça, são trocadas palavras superficiais. Sabe aquele jeito? Aquela idéia do eu nem acredito que estamos aqui outra vez. Do é inacreditável como nada mudou desde o último encontro. E piadas para disfarçar o nervosismo. E meu rosto a desenhar todos os sustos.

Sem querer eu olhei em seus olhos
Sem saber segurei suas mãos
E começou assim
Um longo silêncio entre nós
A sua presença calou minha voz
Tanta coisa eu tinha guardado pra lhe dizer
Mas não disse nada.

E nem precisava. Nossas palavras eram aquelas, entre gramas verdes e estrelas. O passado virou nosso agora. Engraçado como você fez meu dia virar assobios, músicas, cores. Como você tira o nublado desses tempos de chuva e faz o céu mais lindo do mundo voltar a ser admirado por mim. Engraçado você. E eu. E o reencontro prometido. A praça. Nosso quadro.

Te mostrei então onde nossas promessas se tornaram flores. Versão assimilada de mim, você entendeu que o destino pode fazer parte de todos os cantos. E do nosso, é melhor se esquivar de planos. Do nosso, basta o pensamento cruzado, como esses aviões no ar. Como o avião que te trouxe. Como você, na minha rua. E enquanto isso, os corações conversam de perto, pra depois acenarem da janela do mesmo avião que te leva embora, sem saber quando vai voltar.

Nosso tempo era curto
E tão pouco.

É que você veio. E foi tudo tão bom, que quase dói pensar em te perder outra vez. Te perder para a distância. Mas, sabe, coração agüenta. Amizade sustenta. E a praça.

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Título, inspiração e trechos por conta da harmonia de Zeca Baleiro.

Durma, medo meu.

22:53


Já havia temperado meus sonhos com teus melhores sorrisos. Era um gosto bom. Mas a vontade derreteu-se na chuva. A vontade poderia ter sido amor. A chuva? Qualquer coisa que dançava em ritmo de saudades. Me fazia pensar nesse vento de toda hora, que chega sussurrando histórias e espalhando afeições. Aí depois, quando bem entende, leva tudo embora. Só não leva embora o medo. Esse medo que faz da coragem um eclipse.

Tudo ficou escuro do lado de cá. Me perco nesse deserto de nós dois. Escutam-se rumores de um final que ainda não quer se convencer. As imagens ficam desbotadas e eu deixo as palavras repetidas se perderem, soando tão ocas. Repito você. Não tem mais ninguém para preencher esse vão que minhas mãos faziam, como se através desse gesto desatasse todos os meus nós.

Me contaram que um mundo teu existe. E existe dentro, em mim. O medo chega a quase adormecer com essa noção. Meus sentidos se desmontam. Minha alma amanhece essa noite morena, teus olhares pousam em meus movimentos, e nem se sabe mais onde mora o vazio dos abraços. Me embalo ao teu som, entre esse cafuné delicado em meio aos meus cachos tão inconstantes quanto minhas palavras. Seus dedos parecem beijar meus cabelos, enquanto eu só sei pensar em enfeitar você. E o medo ali, observando através dos olhos meus.

Minha confusão descabida chega a achar que o medo não vence. Não estamos sós. Parece que assim, juntinhos, você cabendo em meu espaço e eu me encaixando no teu, dublaríamos paixões do nosso próprio filme. Fico pensando em te convidar a voar perdido comigo.

Enquanto isso, mantenho esse campo de idéias inefáveis, onde estrelas e vaga-lumes se confundem, ali, num cantinho escondido, que visito desacordada. Sabe? É como naquelas fábulas que ainda não escreveram. Não escreveram porque ainda não vivemos, e o livro é nosso.

Queria dizer chega para tanta suposição de céu. Deixar o medo eternizar seu sono. Já não tem graça enxergar o amor como uma miragem.

Ciranda da Bailarina

14:42


Entendi os olhos teus, bailarina. Entendi que não era tanto a poesia que te fazia voar naquele palco. Eu sei que a sapatilha machuca os pés enquanto o sorriso se pinta em teu rosto. Sei da tua atuação em outros campos. Ainda assim, eu acredito nos teus vôos. Notei qualquer coisa de porcelana em meio ao teu jeito de boneca. Por vezes me dava a impressão de enxergar uma estátua de vidro. Talvez pela falta de impressões, ou pela fragilidade escancarada. Entendi teus olhos a mendigar outros infinitos. Eu bem via que caminhar nas pontas dos pés já não tinha aquela áurea de pluma de outrora. Não, não te julgo em representações, bailarina. Conheço teus bastidores. Prefiro teu coração. Você tem, não tem?

Ontem passei em frente ao teatro, não teve espetáculo. Fiquei a observar o cartaz com tua fotografia. Você, uma rosa branca, tal qual teu desenho. Você sem jardim. Não sobraram nem os espinhos que lhe serviam de defesa. E as pétalas que eu enxerguei em você, bailarina? Tão alvas! Dava pena imaginá-las a cair. O galho você ainda tem.

O dia do teu último espetáculo antes de partir, foi hoje. Sentei-me na primeira fila, pra continuar a entender os olhos teus. Longe dos holofotes, percebi você a brincar de acreditar na vida através dos olhos do público. Talvez você encontre melhor enfeite assim. Nunca falhas. Acreditando na perfeição utópica da tua ciranda. Rodopia no teu céu, bailarina. Satisfaça teus sonhos. Sonhos você tem, não tem?

Enquanto você escutava o som para marcar teus passos, tornei a decifrar teus olhos d’água. Eles choravam as notas. Essas notas não chegavam aqui, o vento as carregava para o mar. O mar que céu e chão dividem. O mar ao qual você deve pertencer, com esse canto de sereia. Você canta bonito, passarinha. Mesmo quando as palavras saem num sussurro. Música você tem.

Ah, bailarina... Só por hoje, baila por inteiro! Baila de olhos fechados. Flutua em gotas de maciez. E depois, quando desmontar toda essa maquiagem que torna o teu mundo mais suportável, me entrega tua mão. Caminha ao meu lado. Recebe essa lua cheia que preparei pra te desvendar. E se quiser chover pra mim, lembra: eu entendo os teus olhos. Meus braços pra você.

Um pouquinho de amor te falta? Sinto não poder medir. Amor todo mundo tem, não tem? Tem. Só a bailarina que não tem.


Levemente inspirado na Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque.

Desmetaforizar-se-á.

11:43

Que importa a paisagem,
a Glória, a baía,
a linha do horizonte?

-O que eu vejo é o beco.

(Poema do Beco – Manuel Bandeira)


É um exibir-se para a solidão, essa história. Talvez ela entenda do que se trata. Esse gosto de água e sal, por que aparece? Agonia engasgada, e o acre sabor que insiste em visitar o canto que já foi doce.

Enxerga? É dispensável esse entregar de sorrisos vazios e abraços frouxos sem encaixe. Azul e verde, todos esparsos. Cores? Lirismo? Nesse beco não moram. Não se permite festa. Não tem espaço. Mora aqui o desassossego de alma. A vida escorre aos poucos, ninguém percebe. Se perdem os reflexos, inexistem sombras. É uma clausúra a sufocar angústias. Tá ouvindo a queda d’água? É aqui dentro.

Não tem lugar para espanto. Tudo é finito. Volátil. Agora, inefável. Gestos desesperados transformam-se em cenas, em meio a uma mutação de cortinas se fechando por todos os lados. Escuta esse toque de agora: silêncio. Sim, silêncio é ouvido no beco. Enquanto o teto espalha enfeites nos longes da noite, aqui eles despencam sem leveza. A última andorinha a voar avisou do frio que caminhava. Voou. Permaneci. E a desfolhação ao redor?

Miudez de sonhos. Fugir. Fugir-se. Renascer. Ser de novo. O novo. Possível encher-se de nada? É o que convém chamar de vazio. E pesa.

Acorda, mundo! Durmo. Minto. O beco, em preto e branco. Arranha-céu. Olhos cansados de tudo.

Implodir-se. Preservar o alicerce? Deixa aqui outro viés de ilusão.

Chega de saudade.

20:26



Não foi ontem que se escutou o decolar do avião no aeroporto ao lado. Não foi uma daquelas lições de despedida. Não foi. O avião partiu com um pedaço de coração, mas não desgrudou nada ali dentro. Não teve olhar o céu, não soube fazer o adeus. Ou talvez só quisesse enganar o coração deixando-o continuar a fantasiar presença.

Já era escuro. Nem estrelas apareceram naquela noite, em meio àquele verde que já dividiram. A ausência rompeu no instante, trouxe consigo aquela áurea de incompletude. Ele não estava ali. Não está. Partiu. E minha parte?

Amar a madrugada não ajudou a fazer dela uma festa. Chuviscou. Nem a natureza funciona direito em meio à clareza da distância. Nem o coração.

Nem é só pelo ombro que entendia os suspiros. Pela sensação de almas abraçadas, pela paz que vinha e ia embora de repente, pelo sorriso que se levava e se devolvia, pelas seriedades e palhaçadas. É mais pela noção do bem tratar. Do macio que era entregue ao chão, do conforto da voz. Perfis desenhados quando a tela do cinema iluminava os traços. Era a noção de presença. Suporte. Amizade.

- Cadê você que não está? – foi a pergunta lançada. E não veio resposta.

Tomar de lembranças pelas mãos. Se acontecer um aventurar na roda-gigante como daquela vez, e um balbuciar de nomes lá de cima, não vai haver sorriso bonito do chão, e espera. Então resta o recordar de quando o tempo escapava por entre os dedos enquanto as afinações fundiam-se em músicas únicas.

Lembrar. Um. A dois. Os dois. Só. Um conto deles. Uma ilustração do laço firme que não sabe mais desamarrar. Um sonho possível.

Uma vontade dividida com Tom e Vinicius: acabar com esse negócio de você viver sem mim. Vamos deixar desse negócio de você viver assim. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim.Permanece a certeza de dividir um pouquinho de mundo entre eles.

O ombro. Abrir-se. Seus abraços.

Desembarque.

Pra ver se cola.

12:54

Cola o teu desenho no meu
Pra ver se cola
Cola o meu retrato no teu
E me namora
Comigo nessa dança
Um sonho de criança
E o meu coração colado ao teu
Pra ver se cola.


[Pra ver se cola - cantada por Los Hermanos]


É que eles se encaixavam tão bem. Se você os conhecesse, diria que as almas foram moldadas juntas, e nesse dia fez um tempo bom.

- Onde você tanto guardava esse olhar de eucontemplotodososteusgestos? Como você conseguia disfarçar enquanto eu sentia teus olhos em mim? Você não piscava e eu te surpreendia me observar com esse canto de olho inocentemente distraído. Por onde a gente andava antes de ouvir aquela flauta tocar? Por que teu espanto ao me notar chorosa durante o espetáculo? Você me amou nessa hora, naquelas horas. Por que as meias luzes faziam teu cheiro me procurar? E como você conseguia fazer com que teu abraço voltasse pra casa comigo? Como você me desenha em teu sorriso? Não entendo agora porque teus sinais não chegavam até mim, e olha, você foi o primeiro a dançar naquela chuva. Quem te pediu pra tomar minha solidão assim?

- Moça, não te prometi amor. E se teu gostar pousou em mim, foi por mera distração, bem sei. Teu olhar em mim era feito de todos os olhares que você amou um dia. Não te ofereci céu, eu só tinha um teto escuro. Não, não disfarço que minhas noites eram minhas apenas por tê-la comigo. E como era bom... Sim, era bom. Receber a noite através da tua singeleza era como se você me devolvesse minha parte, como se você me devolvesse a mim.

- Reconhece então porquê não desviei naquela curva? E você ensaiava o violão tão irritantemente concentrado. Me ouvia te ouvir. Você errava tão lindo, sem querer. E como era engraçado te notar irritado. Tão meu você era... Me tinha sem nem saber. E quer saber? Não te explicaria o quanto era bom te ter em segredo.

- Não me assusta assim, por favor. Lembra os nossos primeiros encontros, um tanto tímidos. Só falávamos de música. Acho que nossa vitrola tocava bonito, assim. Hoje sinto falta das tuas críticas ao meu lado, saíam imprensadas com as minhas. De vez em quando o som tava muito alto, aquelas flautas. Lembra? Aí os lábios se moviam, talvez pedindo um beijo que não tinha voz. Não teve vez. Talvez se você tivesse olhado pra mim ao invés de disfarçar teu olhar no meio daquele chuvisco que começou a cair antes de irmos para casa. Não lembro de tanto ter desejado permanecer dentro do carro.

- Você teve ciúmes.

- Você teve ciúmes.

Risadas.

Silêncio.

- E disso tudo o que ficou? Outro conto? Mais um desencontro?

- É a história das coisas que ficam daquelas que não ficaram.

- Agora não sobra nada. Confesso, sim, ainda tê-lo em mim quando a flauta toca no meu som, quando aquelas vozes cantam. Lembro da atenção especial fazendo do mundo uma insignificância, lembro também dos meus desenganos. Quase não dói, e continua a ser doce.

- Teu desenho também já não sei se ainda cola no meu. Sabe quando puxa de vez? Arde na hora, e depois não gruda mais.

- E a foto?

- Vou guardá-la, pra dançar com os nossos sonhos em par.

O céu no meu chão.

00:29


Assim, da janela, olhando a vida passar. Observando os gestos, as pessoas, as pedras na rua, tentando encontrar pedaços de sonhos. O sorriso que ninguém consegue ler. A tempestade presa em olhos castanhos. Mas tinha estrela também. Aquela estrela ali, quase ofuscando. Isso me devolve serenidade, esse saber que em todo céu mora uma estrela. De vez em quando ela resolve descer, é quando brota paixão.

Caiu uma estrela na minha janela numa noite que chovia. Meu coração havia deixado de iluminar também, alternava leves piscadelas. Então a estrela me contou que veio reacendê-lo. Não entendi muita coisa. Só que ela me tomou pela mão e me levou até sua nuvem. Tão bom voar. Tão bom luz. A nuvem era macia e eu podia morar ali para sempre. De lá de cima, aqui embaixo parece nada. Mas uma coisa me chamou a atenção: estrelas. Não me chame de louca, mas havia estrelas aqui, aqui: nesse chão, no meu, no teu.

Não foi preciso muito para que minha guia pelo céu explicasse tudo: vocês de lá, enxergam nosso brilho. Nós dormimos durante todo o dia esperando nosso tempo de fazer o céu mais enfeitado. Daqui de cima, nos surpreendemos a cada movimento que vocês dão. Me refiro aos movimentos em fantasia. Aqueles onde vocês parecem pisar em nuvens, como chama? Paixão? Isso, paixão. Todos esses pontos luminosos que você enxerga daqui, ao olhar pra baixo, são corações em par. Alguns brilham distantes, percebe? As cores identificam os pares. Nós, estrelas, temos também a mania de, ao notarmos as afinações entre essas melodias esparsas, lançar um pó de encanto impregnado de pureza e angelitude. E assim sendo, vocês se tornam nossas estrelas. Os papéis se invertem - chão e céu se misturam.

Desci outra vez. Pousar em casa tinha um perfume doce. Ser o céu das estrelas é fazer da noite um sonho. Desejei que pulsasse em mim um luzir sereno e infinito. Ela me explicou o coração, mas eu já nem lembro de quase nada. Percebo quando ele pede asas. Quando sonha uma voz. Piso em nuvens, mas o vôo é incerto. É o mundo aborrecido, sem deixar molhar.

Lembra quando teu amor choveu em mim?

Senta aqui.

01:20

Que hoje eu quero te falar
Não tem mistério, não
É só teu coração

[Tá bom – Marcelo Camelo]

Teu sofá parece guardar histórias. Não fica em pé olhando, vim pra te ouvir. Senta aqui ao lado. Na verdade eu prefiro sentar no chão, combina mais com meu jeito de encontrar palavras. Ah, não, obrigada pelo café. Não bebo. Aceito uma água, muito gelo. É de paz, essa noite. As mesmas estrelas fazem parte do nosso universo, ainda que paralelos. Podemos sê-las. E se você deixar, te ajudo a reparar direito. Abre esses olhos apertados e perceba que cada uma ilumina diferente. Notou? Deixa esse brilho grudar além. A foto do jardim é uma pintura de todos nós. Ironicamente o susto aparece com meros indícios de tempestade. É a vida acontecendo. No meio do caminho, um redemoinho espalha nossas flores. Como fazer para plantá-lo outra vez? A alma sempre está apta a desabrochar. Dizem que lágrimas ajudam a regá-la. A minha ultimamente tem precisado ser molhada. Sim, eu entendo tua forma de falar de sonhos. Te empresto meu guarda-chuva para protegê-los. E gosto de viver errado, de ser errado. Não, não vou adentrar em sofismas. Mais gelo e dois dedos d’água, eu aceito. Obrigada. Acontece que por vezes me perco nesse mundo de exclusividades, onde penetram regras e avessos. Findo me desencontrando. E não me lança esse olhar, eu me perco o tempo todo. Encontrar você no caminho me leva a convidá-lo a ver comigo, veja daqui de baixo. Sabe os que estão lá em cima, donos das suas salas? Estão desorientados. Mal sabem que quando for nossa vez de subir, eles nos enxergarão como o barbudo falou. É que quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. Deixe que sejam gigantes, de nada adianta se não tiverem asas e não souberem se encaixar em nossos céus. Te incomoda minha intromissão? Sou parceira nessa tua dança de solidão instantânea. Soa aprazível teu lugar. Tenho o meu também. É o meu mundo só meu, e ninguém ainda soube encontrá-lo. Palavras às vezes parecem insanas, não acha? Creio que pelo excesso de realidade. Agora que você me ouviu, nesse exagero literal que não consegui evitar, vou indo. Se compreendi não sei, mas prefiro que seja assim. Teu sofá gravou minha história também. Estrelas e borboletas fazem parte do agora que sou. Vai pro teu travesseiro e guarda um sonho bom pra mim. Posso deixar a porta aberta? Depois você encosta, ou fecha, só espera um pouco. Não pense que andei ao redor da lua, mas o vento me confidenciou nas entrelinhas que as borboletas estão trazendo de volta pétalas para enfeitar teu quintal. Colore teu jardim. Coloca o sorriso na estante.


Às vezes eu amo.

01:11

E construo castelos
Às vezes eu amo tanto
Que tiro férias.

[Medieval II – Cazuza/ Meanda]


É assim que a vida vai. Leve, flutuando, longe de qualquer peso, quase que desafiando a gravidade. Porque chega uma hora em que amar também cansa. Um amor indefinido cansa. Certezas demais também cansam. E quando a gente ama ao ponto de quase se perder: férias.

Já foi o disparo e as borboletas no estômago. O suspiro integral e o riso frouxo. Abobalhação. O não desligar do telefone. A espera. O ouvir uma música e achar que haveria identificação. O tentar fugir a dois. O tentar não apressar, e ao mesmo tempo planejar. O imaginar como seria. As cores. É apelido carinhoso. Já foi declaração. É tudo aquilo que Camões falou.

Mas o sentido escapa. As vontades se refugiam. As palavras perdem o significado mais intenso, que nem o dicionário ousava descrever tão bem. A música pára de tocar. O comodismo aparece. A alegria é outra. O sonho se transforma.

É estafa. É o gesto que se torna um lugar comum. Doação existe, mas brincadeira não supre toda e qualquer seriedade. É explosão de afinidade. E ainda existe o contente. Existem as mãos esfriando com casualidades. Existe a procura. O olhar perdido. O carinho. Mas o silêncio não é mais o mesmo de antes. A vida também não. Esse retirar e dizer de palavras já não agrada.

Voar faz bem. E se o mesmo céu ilumina a todos, um dia as asas poderão descansar na mesma nuvem. Mas não agora. Agora é hora de voar.

Eu acredito em paixão e moinhos lindos.

Para uma menina com uma Flor

20:54


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai
, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações, mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

(Vinicius de Moraes)


Esse texto, porque hoje as palavras me faltaram. Porque vivi uma overdose de Vinicius, entre choros e sorrisos, durante todo o dia, assistindo, lendo e cantando. E não me canso, jamais, de ler Para uma menina com uma Flor, e ver explodir a sintonia da descrição dele com a sensibilidade que me veste o tempo inteiro.

Deliciem-se.

Recolhe todo o sentimento.

15:09

E bota no corpo uma outra vez.

[Todo o sentimento - Cristóvão Bastos/ Chico Buarque]

Basta um olhar diferente. Uma procura. Um carinho. Uma maneira de tratar. Um reparar no passar de mãos no cabelo. Uma saudade. Uma pirraça. Uma vontade exagerada de falar e querer ouvir do outro lado apenas aquela voz. Uma música. O nosso trecho. Uma fotografia. Uma vontade. Uma risada sem som. Uma necessidade. Um cheiro. Uma época. Um cuidado. Uma briga. Uma trégua. Uma certeza. E a dúvida de sempre.

Se houve final. Se começou outra vez. Ou se apenas se renova.

A verdade é que quando o pensamento não pára ao lado, e quando o prazo parece vencer, tudo só faz aumentar. O coração infla. Depois passa. Tudo some. Só que a mão de repente esfria sem motivos, e as coisas desandam outra vez, como se não existisse pausa.

Talvez entre nós ela não exista. O pra sempre acaba, e recomeça o tempo todo. Essa sensação de infinitude que complica e assusta, acalenta e tranqüiliza.

E o amor?