09 março 2008

Senta aqui.

Que hoje eu quero te falar
Não tem mistério, não
É só teu coração

[Tá bom – Marcelo Camelo]

Teu sofá parece guardar histórias. Não fica em pé olhando, vim pra te ouvir. Senta aqui ao lado. Na verdade eu prefiro sentar no chão, combina mais com meu jeito de encontrar palavras. Ah, não, obrigada pelo café. Não bebo. Aceito uma água, muito gelo. É de paz, essa noite. As mesmas estrelas fazem parte do nosso universo, ainda que paralelos. Podemos sê-las. E se você deixar, te ajudo a reparar direito. Abre esses olhos apertados e perceba que cada uma ilumina diferente. Notou? Deixa esse brilho grudar além. A foto do jardim é uma pintura de todos nós. Ironicamente o susto aparece com meros indícios de tempestade. É a vida acontecendo. No meio do caminho, um redemoinho espalha nossas flores. Como fazer para plantá-lo outra vez? A alma sempre está apta a desabrochar. Dizem que lágrimas ajudam a regá-la. A minha ultimamente tem precisado ser molhada. Sim, eu entendo tua forma de falar de sonhos. Te empresto meu guarda-chuva para protegê-los. E gosto de viver errado, de ser errado. Não, não vou adentrar em sofismas. Mais gelo e dois dedos d’água, eu aceito. Obrigada. Acontece que por vezes me perco nesse mundo de exclusividades, onde penetram regras e avessos. Findo me desencontrando. E não me lança esse olhar, eu me perco o tempo todo. Encontrar você no caminho me leva a convidá-lo a ver comigo, veja daqui de baixo. Sabe os que estão lá em cima, donos das suas salas? Estão desorientados. Mal sabem que quando for nossa vez de subir, eles nos enxergarão como o barbudo falou. É que quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. Deixe que sejam gigantes, de nada adianta se não tiverem asas e não souberem se encaixar em nossos céus. Te incomoda minha intromissão? Sou parceira nessa tua dança de solidão instantânea. Soa aprazível teu lugar. Tenho o meu também. É o meu mundo só meu, e ninguém ainda soube encontrá-lo. Palavras às vezes parecem insanas, não acha? Creio que pelo excesso de realidade. Agora que você me ouviu, nesse exagero literal que não consegui evitar, vou indo. Se compreendi não sei, mas prefiro que seja assim. Teu sofá gravou minha história também. Estrelas e borboletas fazem parte do agora que sou. Vai pro teu travesseiro e guarda um sonho bom pra mim. Posso deixar a porta aberta? Depois você encosta, ou fecha, só espera um pouco. Não pense que andei ao redor da lua, mas o vento me confidenciou nas entrelinhas que as borboletas estão trazendo de volta pétalas para enfeitar teu quintal. Colore teu jardim. Coloca o sorriso na estante.