24 maio 2008

Ciranda da Bailarina


Entendi os olhos teus, bailarina. Entendi que não era tanto a poesia que te fazia voar naquele palco. Eu sei que a sapatilha machuca os pés enquanto o sorriso se pinta em teu rosto. Sei da tua atuação em outros campos. Ainda assim, eu acredito nos teus vôos. Notei qualquer coisa de porcelana em meio ao teu jeito de boneca. Por vezes me dava a impressão de enxergar uma estátua de vidro. Talvez pela falta de impressões, ou pela fragilidade escancarada. Entendi teus olhos a mendigar outros infinitos. Eu bem via que caminhar nas pontas dos pés já não tinha aquela áurea de pluma de outrora. Não, não te julgo em representações, bailarina. Conheço teus bastidores. Prefiro teu coração. Você tem, não tem?

Ontem passei em frente ao teatro, não teve espetáculo. Fiquei a observar o cartaz com tua fotografia. Você, uma rosa branca, tal qual teu desenho. Você sem jardim. Não sobraram nem os espinhos que lhe serviam de defesa. E as pétalas que eu enxerguei em você, bailarina? Tão alvas! Dava pena imaginá-las a cair. O galho você ainda tem.

O dia do teu último espetáculo antes de partir, foi hoje. Sentei-me na primeira fila, pra continuar a entender os olhos teus. Longe dos holofotes, percebi você a brincar de acreditar na vida através dos olhos do público. Talvez você encontre melhor enfeite assim. Nunca falhas. Acreditando na perfeição utópica da tua ciranda. Rodopia no teu céu, bailarina. Satisfaça teus sonhos. Sonhos você tem, não tem?

Enquanto você escutava o som para marcar teus passos, tornei a decifrar teus olhos d’água. Eles choravam as notas. Essas notas não chegavam aqui, o vento as carregava para o mar. O mar que céu e chão dividem. O mar ao qual você deve pertencer, com esse canto de sereia. Você canta bonito, passarinha. Mesmo quando as palavras saem num sussurro. Música você tem.

Ah, bailarina... Só por hoje, baila por inteiro! Baila de olhos fechados. Flutua em gotas de maciez. E depois, quando desmontar toda essa maquiagem que torna o teu mundo mais suportável, me entrega tua mão. Caminha ao meu lado. Recebe essa lua cheia que preparei pra te desvendar. E se quiser chover pra mim, lembra: eu entendo os teus olhos. Meus braços pra você.

Um pouquinho de amor te falta? Sinto não poder medir. Amor todo mundo tem, não tem? Tem. Só a bailarina que não tem.


Levemente inspirado na Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque.

17 maio 2008

Desmetaforizar-se-á.

Que importa a paisagem,
a Glória, a baía,
a linha do horizonte?

-O que eu vejo é o beco.

(Poema do Beco – Manuel Bandeira)


É um exibir-se para a solidão, essa história. Talvez ela entenda do que se trata. Esse gosto de água e sal, por que aparece? Agonia engasgada, e o acre sabor que insiste em visitar o canto que já foi doce.

Enxerga? É dispensável esse entregar de sorrisos vazios e abraços frouxos sem encaixe. Azul e verde, todos esparsos. Cores? Lirismo? Nesse beco não moram. Não se permite festa. Não tem espaço. Mora aqui o desassossego de alma. A vida escorre aos poucos, ninguém percebe. Se perdem os reflexos, inexistem sombras. É uma clausúra a sufocar angústias. Tá ouvindo a queda d’água? É aqui dentro.

Não tem lugar para espanto. Tudo é finito. Volátil. Agora, inefável. Gestos desesperados transformam-se em cenas, em meio a uma mutação de cortinas se fechando por todos os lados. Escuta esse toque de agora: silêncio. Sim, silêncio é ouvido no beco. Enquanto o teto espalha enfeites nos longes da noite, aqui eles despencam sem leveza. A última andorinha a voar avisou do frio que caminhava. Voou. Permaneci. E a desfolhação ao redor?

Miudez de sonhos. Fugir. Fugir-se. Renascer. Ser de novo. O novo. Possível encher-se de nada? É o que convém chamar de vazio. E pesa.

Acorda, mundo! Durmo. Minto. O beco, em preto e branco. Arranha-céu. Olhos cansados de tudo.

Implodir-se. Preservar o alicerce? Deixa aqui outro viés de ilusão.

12 maio 2008

Chega de saudade.



Não foi ontem que se escutou o decolar do avião no aeroporto ao lado. Não foi uma daquelas lições de despedida. Não foi. O avião partiu com um pedaço de coração, mas não desgrudou nada ali dentro. Não teve olhar o céu, não soube fazer o adeus. Ou talvez só quisesse enganar o coração deixando-o continuar a fantasiar presença.

Já era escuro. Nem estrelas apareceram naquela noite, em meio àquele verde que já dividiram. A ausência rompeu no instante, trouxe consigo aquela áurea de incompletude. Ele não estava ali. Não está. Partiu. E minha parte?

Amar a madrugada não ajudou a fazer dela uma festa. Chuviscou. Nem a natureza funciona direito em meio à clareza da distância. Nem o coração.

Nem é só pelo ombro que entendia os suspiros. Pela sensação de almas abraçadas, pela paz que vinha e ia embora de repente, pelo sorriso que se levava e se devolvia, pelas seriedades e palhaçadas. É mais pela noção do bem tratar. Do macio que era entregue ao chão, do conforto da voz. Perfis desenhados quando a tela do cinema iluminava os traços. Era a noção de presença. Suporte. Amizade.

- Cadê você que não está? – foi a pergunta lançada. E não veio resposta.

Tomar de lembranças pelas mãos. Se acontecer um aventurar na roda-gigante como daquela vez, e um balbuciar de nomes lá de cima, não vai haver sorriso bonito do chão, e espera. Então resta o recordar de quando o tempo escapava por entre os dedos enquanto as afinações fundiam-se em músicas únicas.

Lembrar. Um. A dois. Os dois. Só. Um conto deles. Uma ilustração do laço firme que não sabe mais desamarrar. Um sonho possível.

Uma vontade dividida com Tom e Vinicius: acabar com esse negócio de você viver sem mim. Vamos deixar desse negócio de você viver assim. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim.Permanece a certeza de dividir um pouquinho de mundo entre eles.

O ombro. Abrir-se. Seus abraços.

Desembarque.

04 maio 2008

Pra ver se cola.

Cola o teu desenho no meu
Pra ver se cola
Cola o meu retrato no teu
E me namora
Comigo nessa dança
Um sonho de criança
E o meu coração colado ao teu
Pra ver se cola.


[Pra ver se cola - cantada por Los Hermanos]


É que eles se encaixavam tão bem. Se você os conhecesse, diria que as almas foram moldadas juntas, e nesse dia fez um tempo bom.

- Onde você tanto guardava esse olhar de eucontemplotodososteusgestos? Como você conseguia disfarçar enquanto eu sentia teus olhos em mim? Você não piscava e eu te surpreendia me observar com esse canto de olho inocentemente distraído. Por onde a gente andava antes de ouvir aquela flauta tocar? Por que teu espanto ao me notar chorosa durante o espetáculo? Você me amou nessa hora, naquelas horas. Por que as meias luzes faziam teu cheiro me procurar? E como você conseguia fazer com que teu abraço voltasse pra casa comigo? Como você me desenha em teu sorriso? Não entendo agora porque teus sinais não chegavam até mim, e olha, você foi o primeiro a dançar naquela chuva. Quem te pediu pra tomar minha solidão assim?

- Moça, não te prometi amor. E se teu gostar pousou em mim, foi por mera distração, bem sei. Teu olhar em mim era feito de todos os olhares que você amou um dia. Não te ofereci céu, eu só tinha um teto escuro. Não, não disfarço que minhas noites eram minhas apenas por tê-la comigo. E como era bom... Sim, era bom. Receber a noite através da tua singeleza era como se você me devolvesse minha parte, como se você me devolvesse a mim.

- Reconhece então porquê não desviei naquela curva? E você ensaiava o violão tão irritantemente concentrado. Me ouvia te ouvir. Você errava tão lindo, sem querer. E como era engraçado te notar irritado. Tão meu você era... Me tinha sem nem saber. E quer saber? Não te explicaria o quanto era bom te ter em segredo.

- Não me assusta assim, por favor. Lembra os nossos primeiros encontros, um tanto tímidos. Só falávamos de música. Acho que nossa vitrola tocava bonito, assim. Hoje sinto falta das tuas críticas ao meu lado, saíam imprensadas com as minhas. De vez em quando o som tava muito alto, aquelas flautas. Lembra? Aí os lábios se moviam, talvez pedindo um beijo que não tinha voz. Não teve vez. Talvez se você tivesse olhado pra mim ao invés de disfarçar teu olhar no meio daquele chuvisco que começou a cair antes de irmos para casa. Não lembro de tanto ter desejado permanecer dentro do carro.

- Você teve ciúmes.

- Você teve ciúmes.

Risadas.

Silêncio.

- E disso tudo o que ficou? Outro conto? Mais um desencontro?

- É a história das coisas que ficam daquelas que não ficaram.

- Agora não sobra nada. Confesso, sim, ainda tê-lo em mim quando a flauta toca no meu som, quando aquelas vozes cantam. Lembro da atenção especial fazendo do mundo uma insignificância, lembro também dos meus desenganos. Quase não dói, e continua a ser doce.

- Teu desenho também já não sei se ainda cola no meu. Sabe quando puxa de vez? Arde na hora, e depois não gruda mais.

- E a foto?

- Vou guardá-la, pra dançar com os nossos sonhos em par.