31 agosto 2008

Boneca de Pano

Para Amanda e Maria Luiza, que estão chegando.


Abre os olhos, minha menina. Se eu te abraço forte assim, é vontade de te contar dos tormentos todos que meu coração abriga. Teus olhos de estrelas, como besourinhos no céu, enfeitam todo o meu quarto, quando te observo em cima da estante, brincando com teus pensamentos de uma fábula qualquer.

Teve um tempo bom, onde você me arrastava para o teu mundo de paz, cheio de coisinhas, palavras mansas, pincéis, doces, caras lambuzadas e sorrisos banguelas. Sorrisos sapecas. Lindos. Você cuidava de mim e eu de você. Lembra que era bom? Aí eu te largava, às vezes, e você ficava lá, na tua pose serena que ninguém percebia diferente, só eu. Eu que chegava do passeio me desculpando por ter te esquecido e te convidando a dormir agarrada comigo, fazendo um pouquinho de luz no quarto escuro que eu não gostava tanto assim.

Desatenção tua, menina, quando você me sorriu. Você no seu vestidinho de pétalas, e com os cachos soltos, do jeito que eu mais gostava de ver. Milimetricamente encoberta de encantos, você ia lá e brilhava. Eu sorria dessa gente grande que não te percebia. Imagina se eles acreditariam em mim? A verdade é que eu gostava da nossa cumplicidade. O mundo carrancudo do lado de lá, e você em poesia junto a mim.

Você é toda arco-íris. Era teu efeito mais belo em nossa casinha de cobertor. Criávamos tantos contos, ali. Nem tinha bruxa. Era só faz-de-conta. Eu era fada, princesa, bailarina, camponesa. Você que inventava pra mim. Era minha. Mesmo em castelo, casinha de sapê, caixinha de música. Eu sorria com meus dentes que faltavam, e lembrava dos nossos planos de fugir para a terra do nunca. Você dizia que ia ser amiga de Sininho. Eu dizia que ia aprender a voar. Já pensou encontrar Papai do Céu?

Um dia, à noite, eu nunca vou esquecer. Planejamos roubar uma estrela. Mas eram tantos obstáculos, e o céu era tão infinito, que eu te desenhei um par de asas. Você teve medo, mas alçou vôo por minha causa. Trouxe a estrela. Eu nem acreditava. Segredo nosso, menina, guardo ela comigo ainda hoje.

Aí a gente brincava. Agora eu era sua mãe. Te molhei, sem nem lembrar dos teus panos. Você ficou pendurada lá no quintal, tomando sol. Quanta trapalhada minha! E no dia em que rasguei teu joelho? Fiquei triste. Mas vovó te fez bonita, outra vez. E você ganhou um vestido novo.

Aconteceu que eu fui crescendo. Você é que tem sorte de poder servir de macio para outros braços. Ter outros carinhos de lua. Mostrar teus olhinhos de vaga-lume em troca de gargalhadas gostosas. Eu sou grata a você, por ter deixado comigo lápis de cor e música. Nem me perco, assim.

Sabe, tem um moço de olhos claros, que canta o que eu penso da nossa história. Ele diz que no tempo da maldade, a gente nem tinha nascido. Não tinha mesmo, não. E o mundo ainda é doce, menina. No parque de diversões, te dou uma maçã do amor. Depois tiro uma foto do teu rosto melecado, e faço moldura em flor. Você.

Eu só queria um pedido, hoje. Daqui uns dias, dois pontinhos novos serão estrelas no meu céu. Vira bússola delas? Explica da mágica. Do bom de não entender. Deixa que elas se vistam da tua redoma. Poesia. Boneca de pano. Cintilar de você, elas carregarão.

Agora vai dormir, pequena. Te entrego uma canção de ninar.

17 agosto 2008

Eu, você e a praça

Preciso rever
Seu sorriso um tanto sem graça
Preciso voltar
Mais uma vez com você, lá na praça.

Da última vez, você colocou o destino em minhas mãos. Não foi nem tão pesado, mas eu me desequilibrei e fui soltando tudo por aí. Nada ao acaso, mas tudo em lugares que fizessem florescer aquelas promessas. Não ousei fazer escolhas, e bloqueei todos os acessos à tua voz. Você tinha ido embora, e eu quis te apagar em mim. Se consegui? Claro que não. Mas te guardei no canto mais fundo. Não lembrava você.

Só que tinha a praça. A nossa praça. Das nossas histórias malucas, de você tímido querendo dizer mil coisas. Eu, presa em teus olhos e dizendo que você não precisava dizer nada, enquanto era necessário ouvir tudo. As confusões confessas. Confissões confusas. Os “não vai”, “fica mais”, “me dá um abraço”. As ligações que serviam para extravasar a mudez. O “presta atenção, eu só me sinto bem assim com você”. E depois, desencontros. Escassez. E o tempo dando conta de tudo. Cuidando de mim. Fazendo bem a você. Lembranças leves. A praça sempre me mostrava o nós. Amenizava saudades. Tem um pouco de você e eu, ali.

De repente, você cai na minha porta. Eu me desenho sem ação, assustada, feliz, entre pulos contidos e sorrisos escancarados. Você me desarma com um abraço. Aí eu lembro do teu poder. Teu sorriso. E do quanto me reconfortava ser acarinhada por aqueles olhos de mel - um doce não tão açucarado. E entre olhares e sorrisos um tanto sem graça, são trocadas palavras superficiais. Sabe aquele jeito? Aquela idéia do eu nem acredito que estamos aqui outra vez. Do é inacreditável como nada mudou desde o último encontro. E piadas para disfarçar o nervosismo. E meu rosto a desenhar todos os sustos.

Sem querer eu olhei em seus olhos
Sem saber segurei suas mãos
E começou assim
Um longo silêncio entre nós
A sua presença calou minha voz
Tanta coisa eu tinha guardado pra lhe dizer
Mas não disse nada.

E nem precisava. Nossas palavras eram aquelas, entre gramas verdes e estrelas. O passado virou nosso agora. Engraçado como você fez meu dia virar assobios, músicas, cores. Como você tira o nublado desses tempos de chuva e faz o céu mais lindo do mundo voltar a ser admirado por mim. Engraçado você. E eu. E o reencontro prometido. A praça. Nosso quadro.

Te mostrei então onde nossas promessas se tornaram flores. Versão assimilada de mim, você entendeu que o destino pode fazer parte de todos os cantos. E do nosso, é melhor se esquivar de planos. Do nosso, basta o pensamento cruzado, como esses aviões no ar. Como o avião que te trouxe. Como você, na minha rua. E enquanto isso, os corações conversam de perto, pra depois acenarem da janela do mesmo avião que te leva embora, sem saber quando vai voltar.

Nosso tempo era curto
E tão pouco.

É que você veio. E foi tudo tão bom, que quase dói pensar em te perder outra vez. Te perder para a distância. Mas, sabe, coração agüenta. Amizade sustenta. E a praça.

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Título, inspiração e trechos por conta da harmonia de Zeca Baleiro.