26 outubro 2008

Cinema Mudo.

Do amor sem palavras.


Dispenso o silêncio e concentração. Tenho feito da noite meu dia e você não perde esse jeito todo único de se fazer sonho em minhas insônias. Aí eu fico querendo buscar uns versos muito lindos pra te entregar e acabo borrando tudo. Busco companhia nos livros, nas palavras soltas, nas letras que viram notas musicais e eu já nem sei ler mais. Eu ganho. Fico estufada de sentimentos presos, de vontades guardadas, de um doce enjoativo, de uma acidez bem dosada, e pensando em tudo o que você não sabe. Tudo o que eu não disse. Não digo. Vou procurando me desfazer das metáforas todas. É insuportável tentar entendê-las agora. Existe um termômetro desregulado das emoções incertas que me habitam. A proporção é nenhuma. Pára de olhar pra essa taça de vinho tinto e enxerga essa tempestade castanha que nasce em meus olhos. É que eu sempre achei que você entendesse meus gestos. Por exemplo, agora. Agora que eu te entranho a alma com esse meu olhar desmistificado, você não sente meu peso em si? Carrega ele com você, também. Pra mim, quero asas. Deixa o moço gritar essa MPB irritante dele, ali no palco. Por que será que esses cantores de barzinho escolhem o repertório mais escroto possível quando a gente sai de casa para provar de delícias? Mas deixa a música de lado, mais importante é a noção do meu dizer hoje, em palavras. Você sabe da minha trava em expor sentimentos. Pior seria se eu dissesse obrigada a cada vez que ouvisse um eu te amo. Não sorria da minha falta de noção! Aliás, preciso dizer que você fica lindo quando sorri. Devia fazer isso de mostrar os dentes mais vezes. Então, como eu vinha dizendo, os gestos. Quando eu chego, por exemplo, e te abraço sem qual nem o quê, é pura necessidade de estar em casa. Você pode pensar que é porque eu gosto do cheiro do amaciante que você usa em tuas roupas e isso é um dos motivos também, claro. Você precisa me dizer qual a marca, depois. Mas o motivo maior é a necessidade de me sentir viva, entende? É que nessas ocasiões meu coração aqui dentro dá sinal e eu respiro aliviada. Ah, eu quero sim outra taça de vinho. As palavras fluem melhor com essa dose de torpor. Manda esse garçom trazer a garrafa inteira. Gosto de excessos. Cansei de metades. Não, não de você, metade. Que papo brega, esse agora? Parece aquele dia em que prometemos ficar sem falar de amor. Eu perdi, claro. Uma hora depois da promessa e eu já vinha derramando no apartamento inteiro o perfume encarnado dessas paixões meio descaradas. E vem cá, por que raios você fuma tanto, hein? Apaga esse cigarro, que o quê eu quero cantar, hoje, fumaça nenhuma desenha. É puro nervosismo essa minha mão falante. Ah, não me entrega esse olhar de pesquisa, não. Tá ouvindo o barulho dos meus cadeados se abrindo? E o medo que dá de saber você me invadindo, eu não sei nem narrar. Eu nem me importo em me rasgar toda, pra você. Os avessos dos meus avessos não escondem mistérios tantos assim. Minha alma espalha os segredos todos que esconde quando encontra a tua, tão desvairada quanto. Desnudas, ambas. Você sente assim? Sei que sente. Mas sei que você precisa de palavras e eu não sei entregá-las. Por isso sigo nesse ensaio, assim. Eu quero te dizer uma porção de coisas, menino. Em uma desproporção incomum, numa pose desarrazoada. Na calçada desse botequim, mesmo. Ou na cama que a gente divide naquelas horas onde já não se sabe mais quem é quem. Deixa eu dar um trago nesse cigarro? Viu? Nada na fumaça. Eu me sinto agora como quando em casa. Eu lá, sentada nas almofadas espalhadas pela sala inteira, brincando de pisar no macio por temer a certeza do chão. É bom fantasiar. E eu fico lá, torcendo cachos, roendo a mão, até que você chega da faculdade e enrosca tua barba mal feita no meu rosto. Esse feito é maior que os pileques todos, em mim - a delícia de me embriagar de você. E aí eu rasgo os versos que ia vomitar e te dou o prazo de três mil horas pra parar de me beijar. Ah, droga! Olha só, derramei vinho no celular! Será que o toque vai ficar mais bacana? Como você é besta. Pronto, enxuguei. Bonita a cor do vinho no guardanapo. E eu ainda fico assim, pensando. É que eu preciso muito que você saiba... Quatro horas da manhã? Tá, vamos pra casa. Quem dirige? Deixa o carro aí, vamos caminhando, estamos perto, mesmo. E já tá quase amanhecendo. Agora que você segura minha mão... Você é tão atraentemente bobo! Fica fazendo malabarismo enquanto se equilibra no paralelepípedo. Eu falei paralelepípedo, você ouviu? Você, lerdo que está, não consegue repetir. Fica aí, sorrindo, nesse atropelo de palavras. Ô, menino, como você me faz bem! E o que eu mais queria era poder te contar do céu que enxergo em teu olhar e das estrelas todas que já andei pendurando nele. Ai, essas metáforas descabidas me arrasam! Sabe o que eu vejo de mim? Personagem do cinema mudo de antigamente. Expressões e gestos que dispensavam palavras. Tá que a gente como casal remete aos espectadores qualquer coisa de Almodóvar, bizarros que somos em nossa essência. Ei, me prende agora! Me pega pra você, assim, sem rodeios, encostado nessa árvore. Você tem gosto de fruta mordida. E eu preciso provar todo o tempo, pra saber se você existe ou se é junção das minhas invenções. Que seja! Subimos as escadas sem nem chamar o elevador. E eu quero te dizer tanto. Fecha a porta? Me desengasgar cairia bem, agora. Largar mão dessas travas e expulsar sem poréns o resumo um tanto lúdico das nossas horas. É que você deitado aqui nessa cama, brincando com minhas mãos e me olhando sem piscar, devolve minha mudez e me faz engolir seco. Aí eu entendo o porquê de perder o som. Penso que as palavras soando no universo do teu eu, vigiado por esses olhos claros, me fazem correr o risco de cair pra dentro de você. E eu sei que vou gostar tanto, que não vou querer mais voltar. Resolvo arriscar agora, que teus olhinhos de conchas se fecharam com os brilhos das pérolas que carregam:

- Eu já amo você, menino. - digo, num sopro que te beija inteiro.

17 outubro 2008

Ciranda Nossa

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Poética - Manuel Bandeira)

Lembro do primeiro sorriso. Caiam borboletas do céu, enquanto você se vestia em poesia. Eu cheguei de nariz pintado e te convidei a fazer parte do meu circo. Recorda? Foi aí que combinamos nossos pulos. Você abriu meu baú de prantos e melancolias, e me devolveu ternura. Lua do meu fim de tarde, me trouxe vontade de ser arranha-céu. Trouxe tua festa. Aconteceu o misturar desses cachos castanhos e a promessa de um encontro aos redores do Capibaribe. Desenhamos nossos sonhos uma na outra, num borrar sem fim de afinidades. As brisas do nordeste passaram a entoar um ritmo descompassado. Ciranda nossa. E aproveitando nossas saias rodadas e flores nos cabelos, caminhamos lado a lado enquanto nosso silêncio cantava. Agora, não se desfaz desse teu jeito de boneca, não. Toma aqui dessa aquarela: colore teu nariz, também. Do outro lado da cortina, você vai se enfeitar em mágica. Mora aqui o lirismo das estrelas desastradas que se espalhavam durante nosso encontro de céus. Terras onde ganhamos asas, lua. Voa ao meu lado?

Quanto mais nos distanciamos dessa gravidade, mais eu me sinto liberta. Quanto mais te olho, bailarina, vou entendendo os porquês de nossas asas tão parecidas e a grandeza lúdica do nosso brincar. Voar contigo me faz muito maior, sabia? É que eu descubro dentro do teu olhar aquelas estrelas que são tão minhas, sempre tão bêbadas de poesia, sempre guardiãs de nossas fábulas coloridas. O colorido das nossas saias, a leveza de nossos cachos. Uma morenice bonita, estampada em sorrisos de criança, meninas ainda que sempre seremos... Olha lá, bailarina! Lá embaixo. É o meu Recife. Sente? Os ventos já não são os mesmos. Vamos, desce comigo. As ruas de pedra da minha cidade precisam conhecer as tuas sapatilhas de prata. As ondas azuis do meu litoral merecem contemplar os teus olhares de infinito. Vem, que nessas rodas de ciranda o coração pode dançar solto e a paz flutua em todas as vozes. Lá tem a casa do Manuel que te falou sobre lirismo libertador. Lá tem as ruas e praças e pontes onde se pintam narizes, sorrisos e beijos. E no ar, bailarina... No ar mora aquele cheiro de carnaval antigo, a fantasia boêmia da noite, a alegria ruidosa das canções de rua. Pousemos, bailarina. Espalha no meu palco a primavera doce dos teus passos.

Estação de lírios, lua. Ao pousarmos, nessa suavidade que parece quase não tocar o chão, eu vejo as árvores todas dançarem. Tua música. É assim que vou descobrindo nossa afinação. É o encaixar de tons que me faz rodopiar abraçada com as notas que você exala. Teu Recife meu, agora. Recife-Pasárgada, eu fico achando, enquanto piso nessas pedras de faz-de-conta. Mora qualquer coisa de encanto aqui, lua. E nessa noite, onde nosso teto é azul-mar com estrelas ancoradas, eu divido contigo essa boemia travessa e me permito preencher meus cantos com esse vento lírico que balança o coração tal qual o ritmo de uma bossa. Do cais, vejo teu litoral. Marinheiros-querubins, nesse porto. Percebo agora de onde vem essa áurea celeste que vai ofuscando minha retina quando você me sorri. Você, lua morena. Deixa eu ser um tanto errada nos meus gestos, lua? Gritar meu romantismo vagabundo. Hoje, não quero lucidez. Meninas que somos, poetemos! Senta aqui ao meu lado, te entrego minhas prendas. Vamos provar juntas dessa folia que carregamos nos bolsos.

Essa noite todos os nossos saltos profundos estarão justificados, bailarina. Vem escolher uma fantasia na minha caixa de brinquedos... Neste universo não existe solidão. Nem medo. Grita, gira, valsa. Assim, borboleteando pelas calçadas. A madrugada é nossa grande companheira. Percebe como cada esquina que dobramos parece sussurrar lendas do passado? É o que chamam de Recife Antigo. Uma cidade que é toda patrimônio histórico, cheia de nostalgia em suas alamedas, com um rosto onde escorrem versos cálidos quando cai a chuva, com uma alma que canta ébria em meio ao burburinho da multidão. Então, vem menina alada! Vamos cantar por cada uma das estrelas deste céu, elas vão retribuir com um coral para o nosso dueto. Vamos beber vinho à soleira destas casas, testemunhas dos beijos felizes de tantas colombinas e arlequins. Aqui o Amor resplandece tão fácil! Faceiro e notívago, faz mil serenatas ao nosso caminhar. Assim, sereno, sem pressa: A noite hoje me prometeu demorar-se mais tempo sobre a Terra. Então dancemos soltas ao sabor dessa brisa vadia. Quem precisa pedir permissão ao relógio para sonhar? Eu só preciso da tua leveza, boneca de cachos. Das tuas interjeições malucas pra enlaçar meu coração extremista. Mas quando se for, pode levar aquelas estrelas e quantas flores quiser, viu? Eu guardo este teu último sorriso pra lembrar nos dias cinzas. E não fique triste, bailarina. Depois o tempo faz de novo primavera. Então serão os meus olhos, tão brilhantes de alegria e tão castanhos de saudade, que vão estar lá sorrindo ao se abrirem as tuas cortinas...


Bonito teu gesto de adeus, pequena. Lua que é, dá a impressão de que vai caminhando nuvem adentro. Eu, inebriada pela sutileza que escorre dos teus exageros lépidos, me desfaço de qualquer ponteiro. É esse momento de magia que entrega infinitude numa aquiescência tácita. Já não existe proporção. Levo comigo essa imagem que você emoldurou enquanto passarinhava ao meu lado: o céu, todo o céu de Recife. Colo em mim teus estribilhos, para derramar meus mais guardados sentimentos, como quando se folheia um poema antigo. E no abrir das minhas janelas, você estará lá, lua. Imprevista, rodeada por notas de flautas, cantando as saudades doces. As mesmas saudades que te envio, num sopro, cuidada pela menina esperança - de olhos verdes. Esperança de um novo encontro. Natureza errante, do nosso vôo.

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Escrito com Carol Lira.