Sofia.

21:16

Pra ela. Só dela.

Sofia é a primeira das meninas, depois que a mãe casou de novo. Sofia nasceu no dia do meio ambiente, no mês do São João. Sofia deu trabalho pra nascer, a barriga da mãe estava gigante e Sofia teimou que só nasceria em outra cidade. A mãe viajou em trabalho de parto e Sofia só nasceu quando chegou em Vitória da Conquista. Minha cidade. A partir daí eu achei que Sofia queria me imitar. Sofia nasceu careca. Era engraçada. Com o passar do tempo, ela teve uma fase parecida comigo. Todo mundo dizia. Eu gostava de cuidar de Sofia e gostava quando ela dormia agarrada comigo. Sofia nasceu quando eu tinha sete anos. Um dia, a mãe foi ao supermercado e eu resolvi que tinha de trocar a fralda de Sofia. Coloquei ela na cama e fui pegar a fralda. Quando voltei, Sofia tinha fugido da cama. Aí eu olhei do outro lado: tinha despencado e ela sorria. Eu chorei. Chorei muito. Nunca mais deixei Sofia cair. Hoje em dia eu fico pensando que ela é chata assim por causa disso, deve ter batido a cabeça e ninguém percebeu. Sofia é a morena do sorriso mais lindo. Tem alguns trejeitos meus, mas a gente já não se parece mais assim. Sofia é a Jonas Sister. Ela ama os Jonas Chatos e eu não posso fazer nada. Já aprendi algumas músicas, inclusive. Eu já consegui fazer ela gostar de Los Hermanos e Teatro Mágico. Sofia sabe ser doce, mas não gosta de ser. Sofia tem amigos legais. Eles gostam de mim. Sofia fala muitas gírias. Quando ela conversa com Mariá, eu não entendo nada. Ultimamente elas dizem que tudo é ma-ra. Eu dou risada. Sofia só me abraça na hora que eu não quero. Sofia divide o quarto comigo e odeia minhas insônias de luz acesa. Ela tem ciúmes de mim. Muito. Sofia quase sempre é a primeira a ler meus textos, antes de postados. Quando ela não gosta, eu não publico. Sofia é besta, também. E é CDF. Sofia é meu orgulho. É preguiçosa, sim. Sofia dizia que ia fazer faculdade de medicina, mas eu não sei se ela ainda quer. Sofia come muito. E quando ela faz o arroz, ele vira mingau. Sofia vive no computador. É viciada em Harry Potter. Ela gosta de ler. Ela gosta do meu gosto. Isso, é ruim. Sofia às vezes usa minhas roupas, e eu piro com ela: ela tem mais corpo que eu, e estraga tudo. Sofia às vezes pega minhas sandálias e eu brigo com ela, muito: Sofia anda chutando e a sandália vira um bagaço. Eu sou organizada e perfeccionista. O guarda-roupas de Sofia só pode ser aberto com cuidado. Hoje, eu abri e caiu um livro em cima de mim. Sofia manda eu me foder pelo menos uma vez por dia. Eu considero um gesto de carinho. Sofia fala muito palavrão. É engraçada. Sofia com raiva ninguém segura. Tenho medo dela. Mas mesmo assim eu pirraço, MUITO. E esmago ela na parede da cama, porque ela começa a rir e perde todas as defesas. Sofia é super moleca, e um dia disse que não quer crescer nunca. Sofia é grande. Treinava basquete. Mandava bem. Sofia foi assaltada ontem à noite, com os amigos, enquanto voltava pra casa. Levaram os telefones deles. Eram seis rapazes, armados. Sofia chegou em casa chorando. Eu, tive enxaqueca instantânea, pensando em tudo o que não foi. Mas eu tentei tranquilizar Sofia. Eu agradeci a Deus por nada ruim ter acontecido. Minutos depois, já se fazia piada sobre o assunto. Sofia é minha pérola, mas ela nem sabe. Eu só quero bater muito nela, às vezes. Na maior parte do tempo, eu quero só bater mesmo. Sofia sempre chega da escola me contando os detalhes da manhã dela. Às vezes eu me distraio e fico olhando sem ouvir. Ela sempre percebe e me xinga. Eu dou risadas. Sofia sempre me faz rir. Sofia tem um nome lindo. E eu só quis ler O Mundo de Sofia porque tinha o nome dela no título. Eu tinha dez anos. Às vezes, antes de dormir, eu e Sofia cantamos, esperando o sono chegar. Sofia sempre lembra das músicas que eu cantava pra ela dormir, quando era menor. Sofia disse que vai morrer de saudades de mim, quando eu for embora. E eu também. Ela é viciada em filmes. Acho bom que seja. Sofia sempre me cobrou que eu não escrevo sobre ela aqui no blog. Resolvi escrever hoje. Só pra ela. Sofia vai chorar quando ler esse texto, eu sei. E eu nunca vou saber. E nessa parte ela vai sorrir, que eu sei. Ela vai estar ouvindo Jonas Brothers. E eles são três boyolinhas, sim. E ela vai ficar com raiva de mim, nessa parte. Vai me xingar, em voz alta. Sofia é doida. É minha irmã. E isso é coisa nossa. Sofia é minha.

- Sofi, te amo. E nem sei medir.

Eu, passarinho!

10:49

De quando a gente vira borboleta.

Igual ao pôr-do-sol na roça. A festa em que se dança ciranda, em saia rodada e flor nos cabelos. Sorriso de criança. Fruta tirada do pé. Banho de cachoeira. Caminhar de mãos dadas. Tocar violão para alguém. Andar de chinelos todo o tempo. Cachos desgrenhados, ao vento. Barulho de chuva como trilha sonora do sono. Bilhetinho escondido entre as folhas do caderno. Sorvete numa tarde de domingo.

É bater palmas. Lambuzar o rosto com a manga rosa em mãos. Caminhar descalço na grama. Dançar como se ninguém estivesse olhando. Um livro de García Márquez. Acreditar em paraíso. Colher uma flor para plantar afeto. Piada sem graça. Receber uma carta. Fotografia antiga. Família. Tempo frio. Filmes repetidos. Dedicatória em livro. Par ideal imperfeito.

É quase como coração acelerado e mãos suando. E um telefonema. Uma música do Teatro Mágico. Poesia. Rosto vermelho em timidez chamativa. Doce de leite da vó. Contar estrelas. Presentear constelações. Um cochilo depois do almoço. Um cafuné. Um encaixe. Uma tarde de folga. Passeio noturno em graça poética desordenada.

Ter fé em Deus. Encontrar afinidades infinitas. Desembarques. Esperar alguém, e vê-lo chegar. Ser mimado quando uma doença quer derrubar. Pirraça de irmãos. Coração que vira bateria. Olhares que se acariciam. Borboletas. Lágrima. É a harmonia de Por onde andei. Correr pro mar. Feriado. Brigadeiro de panela. Bico de zanga. Eu, menina.

Viagens. Estrada. Distâncias próximas. O norte-nordeste do Brasil. Filosofia barata ao som de um brega qualquer. É mistura de sotaques. Os acordes deles. As gargalhadas escandalosas delas. Um show dos Titãs. A flor de azeviche de Zeca. Banho de chuva. Beijo na chuva. Lua. Jogar pro alto. Sonho em noite de insônia. Primeiras vezes. A mesma frase dita ao mesmo tempo.

Ter saudades. Fazê-la doce em sua amargura. Sentar na janela do quarto. Aprender a andar de bicicleta. A entrada do aeroporto de Salvador. Acarajé no fim de tarde. Uma música de Moraes Moreira - mistura dos Novos Baianos. Ilhéus. Meninices. Casa antiga. Baralho. Pular na poça d’água. Carinho inesperado. Recitar versos. Borrar-se de amor.

É mágica, também. Acordes e letras dos quatro barbudos cariocas. Rasgar-se. Brincar. Pular em cima da cama enquanto berra o tom desafinado de O Vencedor. Ser palhaço. Entregar alegrias. Provar do licor de conto de fadas, do poeta. Bossa nova. Crises de insanidade. Vontade desesperada de falar com alguém - e apenas aquele alguém. Dividir-se. Somar. Multiplicarem-se.

Saber amizade. Ouvir o dizer: hoje lembrei de você quando. É provar solidão em conjunto. Comer uma goiaba furtada do quintal vizinho. Fazer macacada na árvore. Lamber a tampa do iogurte. Afago de um nariz no outro. Chico Buarque no som. Uma conversa que não termina nunca. Tapete mágico que aproxima suposições de céu. Não ligar em ser boba. Ser. Rir de si mesmo.

Toda bonita é a vida. Tão bom quanto compor uma música. Tão bom quanto escrever. Quanto chegar. Quanto um abraço. Contar dos sonhos. Da noite passada. Fazer mimetismos com o outro. Perder-se em si mesmo, olhos fechados resgatando lembranças. Uma peça dos Clowns de Shakespeare. A praça. Pacote de jujubas. Parque de diversões.

Porque hoje eu sorrio flores - é primavera (em mim)! Mora aqui a falta de gravidade. E o mundo, do lado de cá, pede exclusividade. O par de asas monta um bater incessante, e esse canto se faz pequeno para caber as cores todas. Tem muito céu desaguando sutilezas. Carrego o frêmito de sabê-lo infinito. As flautas voltaram a tocar, por fim. Sentimento passarinheiro. Vôo.

Vamos de mãos dadas?

Casa Pré-Fabricada

17:02

E fazer do teu sorriso um abrigo.

[Casa Pré-fabricada - Marcelo Camelo]

Sentada nessa grama verde, cercada por esse riacho, brinco com teus cabelos enquanto a brisa envia seus suspirinhos. O céu, tal qual um manto azulado, transforma-se em redoma desse nosso querer-bem.

- Me dá um abraço?

- Claro.


Descubro você em mim, nesse gesto. Vai ver eu sempre te escrevi assim, do meu jeito descuidado. Talvez você já fosse coisa minha. E eu fui te vestindo com essa poesia despretensiosa, que num ato involuntário, vai colando teus versos nos meus. Eles se encontram. Música aparece. A letra só você lê.

As borboletas azuis parecem habitar em mim, agora. A alma desabrocha em flor, quase sem querer, e eu vou te guardando aqui, como se guarda uma carta-amuleto no móvel mais antigo, junto com uma pétala perfumada. Mania minha, te enxergo com esse olhar de pesquisa. Você vai me observando com esse olhar de você. Olhos suaves, os teus. Entendem tanto de mim. Sorrio.

- O fato de te entregar meu sorriso quase diariamente, já é permissão pra chamar ele de teu.

De repente nota-se um abrir de janelas dessa casa pré-fabricada. Do lado de fora tem você fazendo arco-íris. Dos nossos armários de queixumes, manhas e desencontros, sobra agora essa poesia displicente que vai sendo sossego, unção, estrada única. Escancaro as portas. Capturo delícias no ar em cada palavra solta que se enfeita em nosso quintal. De vez em quando acho que o sol se pôs em você.

- Tá aqui, minha mão. Segura nela, pra passar o medo.

- Posso apertar?

- Pode, mas não aperta muito. Ou melhor, aperta, que é pro teu cheiro ficar grudado.

Como se mergulhasse nuvem adentro, você abraça minha mão e eu me embaraço, sem saber o que fazer. O rubor toma conta da minha face, enquanto você diz que minhas palavras te botam do avesso. É que a cada vez que a gente costura uma conversa sem pressa, acabo deixando meu sono se embalar no carinho dos teus braços. Você aproveita e me conta do teu coração desgovernado, e eu nem ligo em me fazer bailarina, nessa hora. Culpa dos teus gestos que me descerram. Meu medo é me confundir nessa dança. Mas com você, assim, os ritmos se fundem de maneira que até passos atropelados parecem certos. É bonito o descompasso.

Daqui vejo nascer essa fábula, reticente e confusa. Lido com sintomas que já me bagunçaram, e acabo me perdendo nos teus confins. Fico lembrando da nossa visita às estrelas, que não aconteceu. E daqui dessa outra janela, a lua, toda prateada, fica desenhando você num sorriso reluzente. Nessa hora o pensamento brinca de encontrar o teu. De interrogar se você, aí da sua janela, nota a mesma lua, enfeitada de luz, e resolve compartilhar com ela teus desvarios meus.

Poesia minha, você é.

Descarada Pretensão

04:49


Sentado naquela roda, puro êxtase. Senti o calor do seu olhar sob minha pele. Fiz-me brasa. E meu sorriso perdia-se nele. Não sei, essa minha idéia de independência emocional é um grande fiasco, por vezes. Melhor acender um cigarro. Mas e se ele ler minha intenção desenhada na fumaça? Se ele preferir mulheres que não fumam? Lá vou eu, outra vez, medindo minhas ações pelas reações alheias. Dane-se! Essa noite é cigarro e bebidas. E em menos de cinco minutos ele vai caminhar até aqui. Previsíveis homens, não podem ver uma mulher sozinha. Hoje o favor é meu.

- Posso sentar? - se aproxima, como que desenhando o sorriso em mim.

- Não tão longe.


E enquanto ele chegava mais perto, vinha aquele cheiro, beijos pelo ar, carícias, vontade de vacilar. E essa pista de dança era um mero teatrinho. Protagonistas éramos nós. Eu e ele. Ousei. Quis fazer cena.

- Aposto como você fica bem no meio do salão. - incitei.

- Danço. Dueto, você e eu. Quero que você me canse.


Fomos. Cada toque dele em meus cantos era faísca em algum lado daquele salão. Ele me chamava sem emitir palavra alguma. Todas as coisas lindas que ardiam em mim, eu entregava ali. Íamos desatinados. As retas se entortavam. Mimetismo nosso, nos experimentávamos. A música era nosso manto.

- Acender o pavio pode causar uma explosão. - eu lhe dizia, virando a curva no evitar de um beijo.

Ele me olhava. E eu rimava tanta bobagem naqueles olhos que me alcançavam por dentro, procurando vaga em meus gestos. Com suas mãos em meus ombros gelados, voltamos para sentar. Mau humorado, o garçom dava sinais de que já era fim de noite. Viramos uma última dose de uísque. Chutei-lhe o pé, por debaixo da mesa, piscando o olho num ar de chantagem doce para uma madrugada melhor. Notei que seu orgulho dilatava-se. Tão fácil ele se achar especial! É o provocar de fim de festa em seus efeitos.

Seguimos caminhando, ele com a garrafa. A noite seguiu nua. Desmetaforizada. Regozijo nosso, à beira-mar. Urgência de amar. Amar? Ardilezas bem postas. Plural singularizado. Fonte escondida era ele, que derramava-se em mim. Emaranhamento nosso, naquela teia em comum. Pensei no meu sorriso ingrato. Levantei, passos tortos pela areia, carregando os sapatos nas mãos. Ele, sombra de mim. Me puxou pela cintura, me virando num rodopio, ao dizer:

- Quero bis de você. - segurando meu queixo.

- Todos querem. - na minha melhor indiferença, lábios enfeitados em malícia.


Meus ares de atriz. Do outro lado da rua, o hotel no qual me hospedava. Me despedi. Subi as escadas sem virar o rosto. Sabia daqueles olhos claros me acompanhando. Novo incêndio ao meu redor. Corri perigo. Fui dele. Não podia ser. Tampouco podia proibi-lo de insistir na pirraça de me ter. Não cobrei por aquela noite. Favor meu, como havia programado. Vaidade exagerada. Acréscimo de estima. Por mim.

Surdo é meu coração, demitido do emprego de amar.

O Assassinato da Flor

19:40

Ou: das disfunções insones.

O amarelo mal tomou conta do dia e eu levantei com a campainha tocando alguma coisa que não me entrava. Meu humor pela manhã é dose. Não fala comigo, não. E fim. Se falar, leva patada. Sai pra lá. E a gente tinha discutido noite passada. Eu lembro, porque apesar da ressaca que toma conta agora, eu tô vendo o porta-retrato partido no chão. E nós dois ainda sorrindo na foto. Tudo bem, tudo bem, a gente ainda vai sorrir assim de novo. É o que eu penso, tentando consolar a razão. Abro a porta, o carteiro. Bom dia, flor do dia! E me entrega uma pilha de contas. Bom dia? Bom dia é o caralho! Eu nem sequer preguei o olho. Hoje o dia promete. Vou ver se consigo continuar o sono de onde parei. Acredito que as pessoas teriam mais respeito se soubessem da minha insônia frequente. Eu queria ser Cazuza - o mundo inteiro acordar e a gente dormir. Eu queria, mesmo. Mas agora não quero mais.

Ô, seu puto! Dá pra parar com esse batuque aí em cima? Eu preciso dormir! Isso lá é hora de perturbar o sono alheio? Volta amanhã! Ai, meu Deus! Eu gritei isso. É o distúrbio dessa mente cansada. Confundo pensamento e ação. Ah, mas eu falei. Falei e pronto e acabou e que se dane. Nunca fiz parte da vizinhança, mesmo. Cada um com seu cada um, é melhor. Afinal, de repente a dona Maria se anima e resolve fazer visita nos fins de tarde. Já pensou? Eu preciso do meu individualismo. Porque eu sou egoísta e chata e só preciso de mim pra viver. Quem vive sou eu, né não? Mas eu nem quero viver, agora. Eu quero dormir.

MEGA PROMOÇÃO DA PADARIA DO SEU JOÃO! MEGA PROMOÇÃO DA PADARIA DO SEU JOÃO! Que que é isso, minha gente? É de propósito? Calma aí. Vou lá agora. Porque eu preciso de pão, todo dia, várias vezes ao dia. É, eu preciso. E morra de inveja: nem engordo, não. Vou assim mesmo, de pijama, ninguém vai perceber. Aí eu chego lá e tem uma fila. Finjo um ataque e sou atendida primeiro. Antes, o seu João, de bigode, me pergunta o que eu quero. Como assim o que eu quero? Que diabos a gente faz na padaria? Cuida dos cabelos? Eu até tento ser simpática. Aí, o cara fica berrando no alto falante, lá na frente, virado pro meu prédio: MEGA PROMO... É, eu puxei o trem da mão dele. E o seu João torceu o bigode. Prevejo um acesso. Devolvo o treco pro moço. Pronto. Então, seu João, o pão tá barato hoje, né? Sabe o que eu acho que vou querer? TODOS! Isso, seu João, embala todos os pães e manda me entregar, ali na frente. Apto. 143. Aguardo, hein? Abração, seu João, falô. Se cuida. É, eu vou dar uma festa hoje. Eu comprei todos os pães, sim. E fui xingada pela fila inteira. Mas eu fiz isso por um motivo bom: PRECISO DORMIR! E só assim, só assim, o moço ia parar de gritar sobre a promoção. Seu João... Festa? Já viu fazer festa só com pão? Avisei ao porteiro pra direcionar os pães a um abrigo desses.

Eu sai de lá bufando. O apartamento? A porta eu tranquei. E a chave? Ficou no ferrolho, do lado de dentro. Não sinta pena de mim, não. Não mereço. Isso eu mereço. E hoje eu tô seca de espírito. Nem lágrima aparece. Celular! Vou ligar pro namorado. Discagem rápida. Ei, amooooor! Isso era eu sendo falsa. Depois de uma briga sacana, ligar assim pede qualquer cara de pau mesmo. Ele atende: eu tava dormindo, sabe? Se o mundo não tiver acabando, será que dá pra desligar? Ele não é lindo? A gente dá certo. Ele sim, me entende. É que a porta do apê bateu e a chave tá lá dentro. A outra cópia tá contigo. Me ajuda? Isso era eu, apertando todos os meus poros pra ser simpática. Ele dizia: você é muito retardada mesmo, não? Tô indo. Peraí. Não é a toa que eu chamo ele de ogro, fique você sabendo. E é justamente assim que eu gosto. Vou me encostar aqui no tapete enquanto isso. Êêêê, que a crise tá malz, hein? Levanta. Vem cá, assim. Isso é ele salvando minha vida. Epa, nem encosta. Que eu não lembro porquê brigamos, mas lembro que estamos brigados. E isso basta pra você ficar distante. Não cruza essa linha! E desenhei um traço imaginário no chão. Fui pro quarto e ele me olhava com a cara do gato de botas no filme de Shrek. Eu bati a porta e fui dormir. Finalmente.

Toc toc toc. Sem som. Toc toc toc. Sem som. Posso entrar? Era ele. E eu estava pronta pra dar um tiro. Eu tava de olhos vermelhos, olheiras roxas, cabelo em pé, com o peso do mundo nas costas e ele entra com uma flor. Uma flor das mais belas, que eu admirava todo dia quando ia à biblioteca. E ela estava ali, com ele. Fui buscar pra você. Pra você deixar de ser insuportável e lembrar do que faz a gente virar um. Um pouco da primavera pro teu dia. Te amo, viu? E eu? Eu já tava chorando, nessa hora. Eu estava indignada. Estava pasma. Boba. Não acreditava no que via e ouvia. E ele ainda falava com chamego. Todo cheio de nhem nhem nhem pro meu lado. Não aguentei, não. Desabei no choro. Eu tinha que falar: você matou a flor? Por nada? Simplesmente resolveu que ia tirar ela de lá e puxou? Você tem noção do que fez? Você... Sai daqui, agora! Você me acordou pra nada. Pra isso. Pra... Eu quero acabar o namoro. Imagina, quantas flores? Eu quero acabar todos os namoros do mundo! Porque você poderia ter me trazido um litro de cachaça, pra ver se eu dormia. E você veio com flores. A FLOR! Como... Como você pode? Eu quero que todos, todos, TODOS os namoros do mundo acabem. Porque eu quero saber das flores. Vivas! Porque delas, ninguém dá conta. Não têm índice de extermínio, nem nada. Elas são injustiçadas. O que a flor tinha te feito, pra você fazer isso? NUNCA MAIS ME TRAGA FLORES!

Foi por amor... Ele ainda ousou dizer. E eu? Eu disse assim: por amor? E fiquei pensando. O motivo da minha insônia. O amor, infeliz. Seguinte. Tá a fim de provar amor? Cala a boca do mundo inteiro e me deixa dormir. Me deixa dormir até a cama pedir socorro. E amor: eu te amo, porra! Mas ó, nunca. Nunca me acorda, não.

E lembrei do motivo da briga anterior. Dormi.

Moço do Violão.

21:43

Cantador de mim.

Distraída, ouvia as lembranças de Chico. Aquele CD ao vivo, em Paris, que você tanto gostou quando eu te mostrei. E a tarde foi ficando cor de rosa, começou a trovejar e chover certinho. Lembrei tua voz.

Voltei àquele sábado qualquer, com você aqui em casa, na varanda, de óculos, chapéu, e vestindo um sorriso de festa. E eu ali na mesa, mãos ao queixo, olhar de menina boba guardando teus zumbidos. Nem contava para ninguém dos arrepios que teus acordes causavam em mim. É que eu sempre fui música. E tê-la entregue assim, enquanto você dedilhava as cordas e pousava uns olhos escuros e leves em minha face, me fazia rubra, em minha timidez.

Tua voz é brisa primaveril, sim. Mas teu pedaço que me (en)canta, é o violão. Vocês, juntos, parecem uma coisa só. Por isso ontem à noite, madrugada adentro, eu resolvi que queria tê-lo e coloquei você no meu radinho de pilha. Antes de deitar, olhando pela janela, uma lua que eu não sei dar nome fazia morada no céu azul marinho. E eu quis Tom. Porque por um segundo quase pude enxergar o Corcovado e o Redentor. Do meu norte, fui ao Rio. No meio desse devanear ilógico, uma estrela cadente riscou aquele azul. Os rastros eram notas de você.

Essas gotas milimétricas de chuva que vão despencando com a suavidade espontânea de uma lágrima contente, soam um tanto desafinadas. Nem discuto muito porque fico pensando em amor. No sopro de João Gilberto contando que no peito dos desafinados também bate um coração. Vou acreditando na nossa última conversa. Bossa nova. Porque eu tenho um bom papo musical, você disse. E tudo isso, como sempre, de violão no colo, passeando os dedos distraídos, melodiando qualquer coisa enquanto vinha com teus zumbidos. Qualquer coisa de pápápápá. E uns olhinhos expressivos. Naquele dia, você não carregava teus olhos de ressaca.

E como o sol que vem de manhã, em amarelo e calor, eu fiquei querendo ser a menina da tua música. Despertador do meu celular, teu canto para ela. E eu tomei a composição inteira pra mim, com aquela propriedade única de quem sente. Teu violão desperta feitiços, meu cantador. Isso explica o porquê de olhares zombando minha concentração ao te ver no palco. E nem o rapaz que piscou freneticamente pra mim, enquanto eu dançava você, conseguiria entender minha ebriedade. Cuspia filosofias com uma insanidade eloquente. E era tudo culpa do teu violão, moço.

Hoje o dia não poderia ser mais bem escrito. Tua presença musicada e minhas letras saudosas. De lembranças. De ver meu violão ali, no canto, abandonado. Você foi a última pessoa a tocá-lo, enquanto insistia para que eu o acompanhasse nos meus acordes errados e tortos. O meu desconcerto tamanho. E o fio de voz que eu te dediquei, por pura insistência. Teus deslizes recheavam minha harmonia. E nosso dueto do samba de uma nota só, querendo Tom, de novo. E eu declarando meus guardados nesses dois versinhos que cifravam você, em mim:

E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com uma nota como eu gosto de você.

E eu contei. Cantei. Por isso tua dança, aqui dentro. Eu sendo a menina que você escreveu. Aquela dos olhos de saudades. A mesma que, enquanto faz melodias com as gotas dessa chuva certinha, encontra tempo pra falar de estrelas, de contos de fadas, de um mar sem fim. De um céu, assim. Com uma lua que eu não sei dar nome. E que hoje, dedico a você.

Teu sorriso ecoa minhas horas. E dessa noite, farei um cobertor de sonhos. Trilha sonora de você, moço do violão.