Retalhos.

02:52


Outra noite insone. Levanto com meus olhos desajeitados e espio pela janela. O céu tem uma cor errônea, parece nem caber no que vejo. Algumas estrelinhas desmaiam no chão e decido guardar a lua entre meus cílios. Preciso levá-la comigo. Preciso que seja morada junto aos sonhos que escorrem por minhas pálpebras enquanto se fecham. Às vezes, teimosas, tentam prender dentro em si uma estrela cadente que, inquieta, dança com seu rabicho e me faz virar luz mesmo sem querer.

Eu, hoje, faço muito tempo. Sou lembrança. Um tom sépia, um cheiro de história contada por alguém numa cadeira de balanço, enquanto um e outro olhar atento tenta decifrar as memórias do que é antiguidade. Talvez meu lado de dentro seja um relicário. Talvez alguém, um dia, diga que meus lábios sempre sopraram beijos. Meu coração só registra carinhos e nunca dorme.

Há algum tempo caminho por aí sem relógios. Meu amor é conjugado no infinito. Minhas orações já não se subordinam. E nessas noites sem sentido, como a de hoje, eu só sei observar. Viro plateia de mim mesma. Vejo várias de mim e me perco naquela que não sou. Se tocasse um samba, eu sorriria e cairia na roda, levantando o copo e sendo um sorriso. São coisas internas. Minhas maneiras de fazer folia. Eu ardo e solto poesia com meus passos tortos. Fico invisível com um fechar de olhos. Em silêncio. Num sussurro.

Meu esconderijo é aqui. São as letras. É o excesso de movimento que me joga para o meu quarto, com essa parede verde que me ensina a enovelar a vida. É o ponto, a formação de palavras, a ausência de sentido no que escrevo. Apenas a necessidade de rabiscar o papel em branco. Preciso escorrer. Gosto do mal explicado. Nunca gostei dos parênteses. Me retiro e me coloco em aspas quando bem entendo.

Quando menor, era o céu desabar e eu rabiscar vários sóis de giz, na calçada. Eu resolvia o problema. O cinza ia embora e trazia arco-íris. Eu também sempre contei estrelas, apontando com o indicador, nunca levei a sério as superstições. E acho muito justo acreditar que meu nome e o dele dentro de um coração desenhado a lápis guarda o amor e cria uma redoma para todas as peculiaridades escondidas que a cumplicidade faz brotar.

Eu decidi apostar no mundo, então. Imperfeito. Mesmo que alguns dias sejam assim, tão carregados com esse gosto de domingo. Agora mesmo queria comer amoras que despencam doces de um canto cheio de sombra. É noite, mas tá fazendo sol. Meu rosto vira um jardim. Flores, flores, flores. A primavera sempre soube caber nas demais estações. Eu gosto de me apaixonar à tarde.

Não sei o que esperar. Espero tudo. Quero tudo. E vou. De mãos dadas com o que sinto, nunca soube me economizar. Vai ver, assim, eu acabe sendo possível.

Minha caneta é sempre azul.

O problema...

22:40

...é que eu te amo.
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto.

[Nando Reis - Meu mundo ficaria completo (Com você)]

De uns dias pra cá, os ponteiros mal anunciam o meio-dia e eu já me apaixonei trinta e três vezes. Algo muito natural, tendo em vista o óbvio: te querer bem é fácil. Um deslize. É macio. E não duvido que o céu, ao me ver tão vermelha, fique todo encabulado e resolva amar também. Eu percebo. Enquanto olho pela janela, eu percebo. Percebo ainda quando as borboletas enfileiradas vêm morar em meu estômago e eu, distraidamente, começo a gostar.

Às vezes eu não preciso de motivos muito lindos para te trazer para mim. Às vezes basta dar risada sozinha pela lembrança de uma bobagem que você disse na noite passada. Bastam uns primeiros motivos. Ou a cena de te ter ao meu lado sem me ver. Às vezes, também, é tudo exagerado demais. Eu, jogada aos teus pés com mil rosas roubadas. O que justifica? Essas coisas por aqui, todas cheias. Tá tudo transbordando. Ali, embaixo da cama; nas estrelas abertas do mural branco de amores; na rachadura do vidrinho da janela; no teto; entre os lençóis e o edredon que me aquecem, e principalmente, dentro do meu travesseiro. Ninguém vê. Eu sinto.

É o excesso. É um espanto. Um susto. Porque, para mim, o problema é a junção de todas essas pequenezas desarrazoadas. O problema é que, eu mal acordo, e já lavo o rosto com um sonho. O problema é meu corpo teimar em soluçar no teu abraço. O problema é que eu esteja tão assim, perdida em você. É querer te levar para um canto azul, todinho azul. É tocar minha boca com um guardanapo e notá-lo ainda mais leve depois de ter amparado o eco distraído do meu riso que fala de você o tempo inteiro. O problema é querer sentar ao teu lado, muda, beijar teu ombro e logo em seguida me aninhar nele, ao mesmo tempo em que encaixo minha mão à tua e me invada uma vontade boba de ser feliz. De ser muito feliz. O problema é que eu resolva te levar para as estrelas. Ou que você pense muito em mim. O problema é que a gente passe a saber qual parte de nós dois nos tem em maior quantidade. O grande problema é acabarmos descobrindo que são todas.

O problema também pode ser que você acabe gostando do meu riso fácil. Ou do meu rosto sério. O problema é que todos os teus melhores sorrisos podem vir a ser meus. O problema é o teu gesto mudo que esconde os dentes, fazendo formar aquelas ruguinhas no canto da tua boca. O problema é teu cheiro que já aprendeu a vir embora comigo. Tuas mãos. Teu caminhar. O problema são teus olhos claros que me moveram sem me abrir. E a minha mania de quebrar bolachas dentro do iogurte de morango para comer lendo poesia. O problema é você achar isso bizarro. É você com uma coca-cola e eu com um suco de maracujá. O problema são as manias, e meu gosto pela rotina. O problema é que eu não vou mudar. Nem você. O sorvete ainda é de cajá, a pizza de atum e o sanduíche tem que vir com frango, porque eu não gosto mesmo de hambúrguer. O problema são todas essas bobagens. E as coisas sérias também.

O problema mesmo é gostarmos pra caramba um do outro. É fazer um carinho em tua nuca e, uma vez estando ali, não saber/querer mais voltar. É pensar em te ver cochilando no sofá e te beijar a testa logo após cobrir teu corpo com uma manta macia. O problema é o aquecimento global dar o que falar, e eu só pensar em te escrever textos como esse, a vida inteira. O problema é você, que tem muito a cara de ser para sempre o meu benzinho.

O problema, ainda, é essa vontade que bate de vez em quando, de querer nossos sapatos envelhecendo juntos. O problema é que cheguemos ao ponto de compreendermos todos os nossos atos antes mesmo que ousemos fazê-los. O problema é que tudo pareça estupidamente justo. Deliciosamente genuíno. O problema é não perdermos nossos endereços. É descobrirmos a variedade que podemos ser, e não nos desvincularmos da nossa unidade. O problema é a morte instantânea de todas as pessoas ao redor a cada vez que você aparecer pra mim. O problema talvez seja encontrar um cílio teu dentro do meu livro preferido, ou o desejo de sujar a ponta do teu nariz com um pouco de cobertura. É gostar de te irritar. O problema é você esquecer teus olhos em cima dos meus e que resolva cuidar de tudo que é teu, em mim.

O problema é a cidade se calar. É a gente começar a rir de coisas que ninguém mais entende. O problema é a gente desistir de dificultar tudo. Querer se livrar das atitudes psicopatas que temos para com o nosso amor. O problema é a vontade insana de querer dilacerar esse sentimento o tempo inteiro. O problema maior é que a gente já sabe que ele é imune. O problema é a gente entender que pode, inclusive, se apaixonar a qualquer tempo, mas sabermos que o que temos é maior. Um bem maior. O problema é que não vamos fugir. O problema é que você seja mesmo tudo aquilo que me faltava, e acabemos, definitivamente, construindo um novo planeta onde saibamos caber. O problema é que resolvamos, num fim de semana qualquer, passar as horas inteiras trancados no apartamento, vivendo de amor-filmes-poesia-pipoca-pirraças-e-beijos, e esqueçamos o mundo lá fora. O problema é você me ver passar as mãos nos cabelos e notar que, mais que uma mania, esse gesto já decifra o quanto já sou de você. O quanto você é de mim. O problema é todo esse sentimento louco e improvável. É essa cadência bonita das letras que nos escrevem.

O problema pode ser eu gostando do engarrafamento e até pedir maior demora, porque com você ao lado o fuso é sempre outro. O problema é tudo acabar dando certo. O problema é a gente acreditar demais um no outro. O problema é o telefone tocar e o coração ir para a beira do penhasco. O problema é ouvir teu nome em outras bocas e pensar que a única imagem que cabe nele é a tua. O problema é o você e eu, a fusão. É minha vontade de mordiscar teus lábios. É você vermelho diante de minhas declarações atrevidas. O problema é que eu cuide do que é meu, em você. O problema é que todas as horas sejam certas demais. O problema é sempre nos inaugurarmos. É te olhar e pensar: eu escolhi você. E que você acabe me escolhendo também. O problema é te ver novamente, te pesquisar, e descobrir que, se um dia o amor resolvesse observar, olharia desse nosso jeito. O maior problema de todos, é que, só te ver, eu penso em trocar a minha TV num jeito de te levar a qualquer lugar que você queira. E daí?

É por isso que, às vezes... Às vezes eu nem preciso de uma poesia para lembrar de você. Às vezes é só o baixar das minhas pálpebras, todo esse som mudo das pestanas, e os tais dos probleminhas. [E que eles não tenham solução].


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Escrito depois de ler um texto lindo de um blog que não existe mais nas internetes.

Vovô Arthur.

23:00

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...

[Manuel Bandeira, em: Cartas de meu avô].

Pode nem parecer para quem olha de fora, mas dentro de mim eu sei: amar você foi a coisa mais linda que eu aprendi assim que me trouxeram para o mundo. São vinte e dois anos, vô. São lembranças verdes. Verdes, do jeitinho que imagino a grama daquela fotografia preto e branco, onde você está deitado numa pose de moço sério. Um moço sério que também pulava o carnaval, naquela cidadezinha, entre fantasias e histórias bobas. Histórias que você traz de longe e faz chegar aos meus ouvidos com um gosto saudoso. Que me faz querer saber mais. Saber de você.

E eu te sei tão bem! Sei do coração que quase nem é teu, de tanto que é da gente. Da festa que faz quando chega, por sempre ter um doce no bolso. Do jeito como sempre me recebe com um sorriso e uma frase engraçada. Da maneira de contar as coisinhas de minha vó e do amor bonito que eu não canso de notar a cada vez que a cozinha se enche com a presença de vocês, ou o modo encantado como se entregam a Deus durante todos os dias, mas principalmente aos domingos. Sei também das reclamações, do jeito ranzinza de alguns instantes, dos sustos. Dos sustos de agora, mais ainda, que deixam meus olhos arregalados. Tão arregalados que, ao te ver imerso no sofá branco, olhando a rua e espiando o livro, sinto o amor te doendo em paz.

Eu gosto mais é de lembrar você com as plantas e daquelas tardes amarelas no meio dos cafezais. Gosto de lembrar dos passarinhos e do periquito quase da família, parte da infância minha e de Gabriel. E do dia em que você chegou com um pintinho verde e um cor de rosa, para cada um de nós. Motivo de alegria por semanas. Gosto de sorrir vendo você dar boa noite aos apresentadores de telejornais. Da maneira como sou recebida quando descobrem que sou neta de seu Arthur. O Tuzim dos seus, menino ainda que sempre será. Gosto quando dizem que você continua forte e que não mudou nada.

E você não mudou mesmo não. É o mesmo moço que chegava da feira aos sábados enquanto eu acabava de acordar e me fazia babar com os biscoitos mais gostosos do mundo. São as melancias que me lambuzavam no quintal, aos domingos. O coquinho quebrado entre conversas. O moço que me fazia cócegas quando eu buscava um afago em seu colo. O mesmo que me servia de boneca, enquanto assistia televisão e me deixava amarrar seus cabelos, enfeitar com laços, e sorria de mim, menina. Que me contava que meu nome ainda estava escrito na minha árvore preferida do antigo sítio. Aquele que dançou comigo a valsa da minha primeira colação de grau. Em círculos, lembra? Eu te amei tanto nesse dia! Você, para mim, vai sempre ser o mesmo moço de cabelos de algodão, que chora quando sente vontade e tenta disfarçar uns olhos vermelhos que não deixam nunca de emocionar. Aí eu inevitavelmente penso: se todos fossem no mundo iguais a você...

Porque é lindo, vô. É lindo caminhar ao teu lado e ver todo mundo te cumprimentar alegre. Ver as crianças te chamando de vô, como aquele dia quando descíamos a rua ao lado. Aquele sorriso banguela que te perguntou cadê meu doce? E a maneira como sorriu ao receber de você uma moeda para comprá-los. Foi linda a maneira como você disse à moça que essa é minha neta. E o jeito como ela me parabenizou falando que ele é muito querido por todo mundo. Lembro dos teus olhos nos meus, nessa hora. Eu gritava um eu te amo urgente. Ainda hoje acho que você entendeu. É um orgulho, vô, é um orgulho ter muito do teu sangue correndo misturado ao meu.

Para agora, eu só quero que você não deixe de caminhar teus dias. Vira essa cidade de cabeça para baixo, com teu corpo gasto de vida. Ainda há tanto a se gastar! Chega com tua sacola nas mãos. Toma teu café de cheiro delicioso, me oferece um biscoitinho, senta ao meu lado no sofá, pergunta sobre minha mãe, minha outra família. Senta comigo na cama também e espalha todas as fotografias que remontam nossos momentos furtados do mundo. Ensina Pedro a soltar o pião, põe no corpo tua túnica e serve a Deus daquele jeito que me fez chorar na Igreja quando te vi pela primeira vez ali. Vai deixando tua imagem bem grudada em cada canto daquela casa que já veste você. Vai tomando meu amor, me dando o teu, assim, desse jeito mudo e explícito. E se faltar alguma coisa, a gente inventa. Vai. Deslumbra esses dias azuis de Conquista, que amanhã eu passo aí para te beijar.

Bença, vô.

Daqui, hoje, todo o meu amor avesso.

Do berço,

Jaya.

Vitória da Conquista, dois de dezembro de dois mil e nove. E uma lua bonita no céu.

Mais tarde.

10:36

Alguma coisa a gente tem que amar.

[Rodrigo Amarante, em: Condicional]



Imagem por: Erika Kuhn.




Me perdi

entre

as

estrelas.




O avesso, que explica:

Pode ser até do corpo se entregar mais tarde
parece simples, mas a gente às vezes é
e o amor é lindo deixo
tudo que quiser eu não me queixo em ser
acho normal ver o mundo feito faz o mar num grão de areia

É de se entregar a sorte, todo mundo vai saber em ver
que o vai e vem pode ser eterno
pra ver quem manda
acho que não vai dar, tô cansado demais
vou ver a vida a pé
acho normal tá no mundo feito faz o mar num grão de areia.

[Marcelo Camelo, em: Mais tarde].

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Fui ver a vida. Quando souber descer das palavras, volto para contar. Mais tarde.
Parece simples, mas a gente às vezes é
.

Dona Maria.

20:27

Despedir dá febre.
[João Guimarães Rosa]


Eu fico pequenininha, dona Maria. É, assim, desse tamanhinho. Coloca a mão aqui no meu coração que a senhora há de sentir. Tá acelerado, não tá? Tem tanta coisa misturada aí dentro. Uns bichinhos esquisitos trimilicando, sabe? Perguntei à tia e ela me disse que era só uma coceirinha de nuvem. Eu ri da cara dela, porque eu já sei que nuvem é fumaça. A tia pensa que me engana, aiai. Tia danada, né, dona Maria? Será que a senhora se importa se eu fico aqui falando e falando? Não? Tá bom. É que eu adoro vir aqui na fazenda visitar a senhora. Quando a gente vem chegando, de dentro do carro eu já enxergo a senhora sentada ali no banquinho que fica em frente à casa. Vejo a senhora de lá da estrada e já começo a sorrir. Por isso que quando o carro para eu desço correndo e pulo nos braços da senhora. Ninguém mais tem esse abraço, feitinho assim pra mim. A senhora é tão fofinha, dona Maria! Parece algodão. Aí depois do abraço eu saio correndo disparada atrás do cheiro de café que mora na cozinha. O café mais cheiroso do mundo, eu digo para quem quiser ouvir. E fico lá, sentada em cima das minhas mãos e balançando os pés, na beira do fogão à lenha, enquanto a senhora labuta com as panelas e canta uma música. Agora a senhora tá aí, deitada na cama, parecendo um bebê. Eu vou cuidar da senhora, dona Maria. Igual àquele dia que eu tomei uma queda perto do açude e a senhora me pegou no colo e cuidou do meu machucado. Nem saiu tanto sangue, né? Mas eu chorei tanto. Porque eu sou meio boba e choro muito. Lembro que eu perguntei como a senhora fez para passar minha dor e a senhora disse que a receita era amor. Que amor cura tudo. Pois então a senhora há de ficar curada, também. Trouxe um monte de amor na minha mala, viu? Pedi para os primos, tias, tios, mãe, pai. É tudo pra senhora, dona Maria. Tudo. Toma.

Ah, olha aquele passarinho, ali. Ué, dona Maria, a senhora tá chorando, tá? Segura minha mão, então. Pode apertar bem forte. Sempre que eu choro eu seguro na mão da mãe. Nem sei direito o porquê. Acho que é porque a mãe é a pessoa mais forte do mundo. A mãe é linda, dona Maria. Fala um monte de coisa sabida para mim, que nem a senhora faz. Eu não sei viver sem a mãe. Toda vez que eu choro, ela fala que vai passar e me dá um beijo na testa. Sempre passa. Posso beijar a testa da senhora? Olha, eu desconfio que a mãe sabe um monte de coisa mágica para me deixar feliz, dona Maria. Queria que ela pudesse usar no mundo todinho, essa mágica. Queria mesmo. Dona Maria, a senhora quer amora? Colhi algumas antes de vir para cá. Vermelhinhas, as bichinhas. Eu tenho cá para mim que amora é a fruta mais parecida comigo, aqui nessa fazenda. Meu lugar preferido é ali, do lado do pézinho dela. Eu gosto quando a senhora me chama de minha amorinha e me aperta a ponta do nariz. Eu trouxe flores para a senhora, comprei junto com a mãe. Ela colocou naquele vaso bonito em cima da mesa de jantar. Depois a senhora vê. Nunca dei flores a ninguém. Eu fico vermelha quando ganho presente, ou quando dou presente a alguém. A vó reclama comigo nos meus aniversários, só porque eu fico levantando o vestido. Ela diz que eu já sou mocinha e que não posso ficar levantando a roupa. Mas é pura vergonha, dona Maria. Parece que ninguém entende que é vontade de sumir e talvez o vestido tampe pelo menos o rosto da gente. Cada uma, essa vó. A senhora lembra muito ela. Às vezes parece que as duas têm o mesmo cheiro. Cheiro de vó.

Eu ajudei a mãe a enrolar um brigadeiro para a gente comer depois do almoço. A mãe sabe fazer doces, mas o doce de leite dela não é igual ao da senhora. Eu nem falo para ela, para ela não ficar triste, né? Mas o doce de leite da senhora, com aquelas bolinhas e os cravinhos dentro. Aiai. Fico com água na boca, só de lembrar. Outro dia eu tava chupando manga e o pai ficou falando que eu sujei tudo. Eu expliquei para ele que manga só se chupa assim. Era tão bom ficar aqui na fazenda, me lambuzando debaixo do pé de goiaba, com a cara toda amarela e ouvindo as histórias da senhora. A senhora dava aquela risada gostosa e eu ficava feliz o dia inteiro. Depois a senhora me colocava naquela baciazona e me dava um banho. A senhora lembra? Eu vou contar um segredo, dona Maria: vou sempre chupar manga desse jeito, mesmo quando eu já for grandona.

Já tá de noite. Papai do Céu parece que fica mais perto, quando é noite. Eu sempre converso com ele sobre a senhora. A vó me ensinou a orar desde que eu era pequenininha, aí eu oro todo dia antes de dormir. A vó me disse que todo mundo é irmão, sabe? Achei isso a coisa mais linda. Porque assim eu posso ser irmã de Julinha e de Matheus. Mas tem gente que não quer, dona Maria. Isso deixa Papai do Céu muito triste. Deixa eu botar esse colar de pérola na senhora, deixa? A senhora fica parecendo uma pintura quando usa ele. Eu que queria ter pintado a senhora. Acho que todo mundo ia querer uma igual, mas nem dá para existir no mundo mais de uma cópia dessas coisas encantadas, assim, que nem a senhora é.

A senhora é tão coisada em mim, dona Maria! Eu ri agora. Lembrei da mãe rindo de mim, quando eu falo coisado, negoçado. A senhora fala igual. Será que a mãe não sabe que não existe palavra para tudo? Essa mãe, viu? Eita, parece que vai chover. Eu gosto de chuva. A senhora também, que eu sei. A fazenda fica toda verdinha quando chove, e o açude nunca fica seco, desse jeito. Toda vez que chove eu lembro daqui. A senhora tá com sono? Tá com os olhinhos nublados. Vai chover também, vai? Parece que eu tô ficando esquisita, dona Maria. Tem um trem me queimando por dentro, agora. Igual aquele dia que o pai viajou e eu fiquei com saudades dele. A senhora disse que era isso minha febre e nem adiantou nada o remédio que a mãe trouxe, não foi? Deve ser isso, não deve? Deve ser que a senhora tá querendo ir embora. Mas e se eu não der tchau, dona Maria? Aí a senhora fica?

...

Eu fiquei, dona Maria. Nenhum termômetro dá conta dessa história de falta sobrando. E me dá uma vontade danada de chorar. Mas a senhora tá brincando com as estrelas, agora, igual menina. E olhando com seus olhos doces os anjinhos e suas liras. Então eu vou parar de ficar triste, porque eu prometi. Já sei que nem existe cura para tudo. E todo aquele amor que eu trouxe para a senhora, tá aqui, ainda. Tem um tantão infinito lá, de onde vieram aqueles. O amor tá solto, dona Maria. O amor tá solto e isso é coisa da senhora.

(In)ternamente.

00:46

Que eu faça fantasia mesmo acordada.

[Fabrício Carpinejar]

Desliguei o telefone e soltei em cima do colchão. Deitei abraçada a ele. Acabei de chorar um jasmim, absorta para o meu lado de dentro. Guardada em mim mesma. Ali, contando nos dedos minhas miudezas, dando nomes, medindo gestos, buscando maneiras novas de me esconder. Ultimamente é ali dentro que a vida vai, e quase ninguém vê.

Ultimamente eu ando cheia de fé. Ando dando atenção aos papos mais furados. Tenho escrito cartas longas. E aqueles medos excessivos não são insones, como antes. Saio por aí olhando em volta e agradecendo. Vou à igreja e choro, sem ninguém notar. Tenho me emocionado com facilidade, também. Tudo tão naturalmente, o tempo todo. Vida, vida.

Fuço distâncias, sem deixar doer. Falo de sentimentos de um jeito muito lento, que é para não precisar repetir. Mas acabo me embolando, como sempre. Volto a ouvir muita bossa e puxo do meu lado doce, meu menor lado, um pouquinho de conforto para deitar na cama onde um pedaço meu derrama angústias.

Recuso cinismos. Continuo a não gostar da poesia que rima, e fecho minha boca para a língua não tentá-la com aquela eterna história de queroeuquerovocê. Fecho e abro, porque deixar de engolir estrelas não é permitido.

Dos meus bolsos despencam ternurinhas, enquanto caminho. O momento em que nasci. As lágrimas de minha mãe ao me ver partir sem olhar para trás. Meus olhos, ao ver o mar. Meu primeiro beijo. O gosto de guaraná do parque da minha infância. O dia em que esse moço apareceu dentro de mim. Os olhinhos da minha menina de lá. As viagens com meu pai. O cheiro de café da casa da vó. Meu gosto insano por sorvetes. As orações antes de ir dormir. Frases do primeiro livro que li. Minhas madrugadas insones. E um e outro amor, em conta-gotas.

Sempre gostei de amar assim, baixinho. Sem contar, sem espalhar, sem deixar caber tendências. As coisas são bonitas, correndo entre as veias. E para mim, a coisa mais linda do mundo pode ser o momento em que um cílio dele cair na bochecha, enquanto dividimos um sorvete. Nunca precisei de grandes motivos para sorrir. Tudo cabe nas pequenezas. No delicado. Numa fuga para dentro de alguém, talvez.

Eu escuto os eucaliptos do bosque aqui ao lado murmurando arrepios que são muito meus. Depois rio de mim, lembrando do amigo que me perguntou a que espécie de gente eu pertenço. Lembro de dizer-lhe que não pertenço. Sou agora, e depois deixo de. E se às vezes eu exagero, é por não saber caber em coisas menores.

Já é mais de meia-noite. Saio do meu quarto e fico rondando a casa escura. Penso em como seria a cena, se eu fumasse. Sento na porta do corredor ao lado, em posição de meditação e me surpreendo ao notar que sonhando eu fico natural. Não vejo a lua. Deixo queimar todo esse incenso de canela. A essência se solta em forma de espiral e me atinge, dispersa.

Um silêncio. Uma vontade de pegar o telefone, de novo. Outro destino. Uma voz de sono do outro lado, talvez. Minha voz de carinhos só dele. E todas essas palavras desconexas que me desviam. Nenhuma surpresa, nenhuma. Um acúmulo em mim, feito de mil e uma misturas.

Tô aqui porque a vida me trouxe, aqui. Não gosto sempre. Mas enquanto tiver coração, eu sigo. E caminho. Despenco. Aos trancos, mesmo. Porque tem delícias maiores no meio da estrada. E eu gosto de ir junto com as coisas. Com as cores. Com o vento que decora meu nome. E melhor que tudo isso, sempre tem uma razão linda: amanhã vai fazer sol.

De volta ao quarto, um jasmim no meu travesseiro. Escrevo, agora, na minha parede branca, antes de ir deitar:

- Preciso acontecer.

É um amor desmedido, por tudo.

00:20
























































Azul Clara.

18:15


Me veio como um pedaço solto de poesia que despenca ali, entre as pedras do Recife Antigo. Essa moça. As letras voaram disparadas até mim, e ficaram. Fincaram raízes com uma profundidade que eu pensava nem existir em palavras alheias. Era luz. É muita luz.

Clara sorri vida e se deixa escorrer com toda uma urgência peculiar para dentro de quem a recebe. Ela enxerga alma e se propõe a desatar qualquer nó esquecido. Eu era botão no dia em que a encontrei, e tão logo nos olhamos, tudo desabrochou. Para ela. Para mim. Flores, flores. Uma primavera infinita. Aprendemos a importância de regarmos nossos jardins. Renascer. Com letras, poesias, madrugadas, sinceridades. Clara me ensinou a receber. A doar. A espremer a beleza do agora e admirar des-me-di-da-men-te.

Clareana. Duas em uma. E mais eu, misturando. Batidas. Talvez por isso às vezes eu a queira morando em meus olhos, naqueles momentos onde coisas encantadas me tomam a visão. Para dividir o belo. Para entregar-lhe pedaços dos meus melhores jeitos de sentir. Para me espalhar, da mesma maneira como a poesia-vermelho-fogo dela chega morando em mim, a cada leitura. Palavras que escorrem como um gole de gim, possivelmente com (e)feitos deliciosos. Outras vezes, arisca, arrisca queimar.

Clara-como-a-luz-do-sol. Porque ela faz derreter qualquer um que se submeta a ser estrutura gelada, em seus dias de chama. A moça arde. Derruba retratos em branco. Tem mãos de aquarela. Sabe pintar amor em todas as paredes e colocar o excesso em envelope para ser recheio meu. Nosso.

Clara-passarinha. Sem horários, onde o tempo é sempre o quando. Uma loucura desenhada em nuvens. Uma intensidade sem morada. Um sotaque lindo. Gosto de estrela.

Uma das coisas mais lindas da minha vida, Clara é azul. Azul Clara.

Então, quando tocar uma música na tua porta, Clarinha, abre com teu melhor abraço. Já ensaiei o convite: vim para ouvir o mar ao teu lado.

Agora vai entregar ao mundo esse teumeu exagero. Todo esse nosso amor-demais. E um samba.

Solta.

11:34

Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odara
Minha cara, minha cuca ficar odara
Deixa eu cantar, que é pro mundo ficar odara
Pra ficar tudo joia rara
Qualquer coisa que se sonhara
Canto e danço que dara.
[Odara - Caetano Veloso]

Eu gosto de barulho bonito, poeta. Aquela maneira engraçada, que puxa a gente para um samba e o corpo dança no meio daquela roda. Saia rodada, pés descalços, flor nos cabelos. Tudo que rodopia enquanto a alma se arrepia. E todas aquelas mulheres cheias de histórias contando poesia nas escadarias do Pelourinho. Brincos nas orelhas, colares mágicos, cheiro de jasmim. E cada um dos nós que guardam pedidos naquelas fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim acabam se perdendo quando a alegria escapa sapeca ao ver o coração ecoar sua música pelos pulsos.

Tem raízes, sombras, e meus cabelos se trançam desritmados pelas mãos de uma moça de sorriso insuportavelmente bem feito. Caminho esquecida por toda aquela rua de pedra, me afogando em um amor tão grande que, por não saber mais virar curvas, entrou no mar e se fez infinito. Por isso o sigo. Persigo. Amor que me lambe, fazendo doces todos os meus músculos. Tambores batucam nos meus olhos. Meu corpo inteiro grita tragédias, sem nem saber que é apenas mais um romance que se enovela a partir dos meus quadris.

Linda, cambaleante, solta, gosto de amor feito na rede. Transpiro, multicores, enlaçando sonhos naquela fita amarela que mede todo o não-sentido em minha cintura. A noite se abre em meus seios deixando escorrer mil e duzentos absurdos que rastejam sem norte. A lua e a estrela que moram em meu anel de pedras verdes desenham a Bahia nas palmas das minhas mãos. Salva(a)dor. Tudo rima em minha pele vigiada pelo sol. Tudo rima com o nada.

E quando a gente senta, o indizível começa a escorrer pelas calhas, como se chovesse excesso de querer-bem. Todo mundo traz em si aquela coisa que só parece caber em cartões postais e denuncia em cada milímetro toda essa mistura rubra que exalta a maneira mais diversificada de felicidade. Todas as falas cantam. Todos os abraços cabem nos meus.

Muito amor demais, é o que tem para hoje. O que acontece, aqui? Vida. Eu, acontecendo, a-bun-dan-te-men-te, sentada na calçada debaixo do pé de espatódea que peca pelo excesso de cor. Nessa hora, o barroco inadiável chega e vivo épocas que remontam essa minha certeza de que nasci para morrer de amores. E dói, dói, dói tanto, que eu sorrio. Sorrio flores, anunciando a primavera despetalada em minhas entranhas.

Areia de praia, coqueiros, cravo, canela, mãos ao queixo, tudo enquanto espero você, poeta, para desencantar toda essa euforia, antes que eu vire estátua nas bordas do mar, eternamente a contrabandear seu azul.

Amanhã São Jorge prepara a lua cheia e eu seguro o céu, rainha de mim mesma, enlouquecendo de saudades e enterrando o acúmulo de lucidez extraviada. Leva esse axé para o mundo, poeta. Um gerânio no meu sangramento e todo esse barato ausente de coordenação, é o que me preserva.

Insisto no que é lindo.

Infinito.

13:05

Enquanto o tempo for.

Quando encontrei esse moço, ele reclamava de não ter um coração. Sorri. Sempre sorrio em primeiros diálogos, uma maneira de contrastar minha mudez e fazer com que qualquer fresta distraída do céu da minha boca seja reflexo de um afago tímido. Era um fevereiro e eu ainda estava impregnada pelo infinito do mar em meus olhos castanhos. Lembrei de tentar fotografar aquilo tudo, mas mesmo a câmera ficou encabulada com o que sua lente não sabia revelar. Tudo tão, tão azul.

Caminhamos lado a lado e tomamos o mesmo trem. Alguém que observasse diria estarmos compondo nosso futuro relicário, guardando em cada piscar de olhos um pedaço da eternidade que viria. Os cílios emolduravam em nós firmes todas as certezas duvidosas. Nos guardávamos em, sem nem ao mesmo sabermos. Primeiras impressões, enquanto perdíamos um vocabulário inteiro para dar lugar ao silêncio que sintonizava frequências cardíacas ensandecidas. Era dança.

Eu passando as mãos nos cabelos, ele arrumando os óculos. Falamos do que era antigo. Do tempo em que as cartas eram fechadas com a língua, onde pegar na mão era permitido - e só, e o namoro no portão era uma vitória. Não era época onde coubéssemos, como agora, havendo embarcado para uma viagem com bilhetes instantâneos que não foram preenchidos com destinos.

Algum tempo e já éramos falantes, gesticulando, cheios de luz. Nossas risadas se fundiam, sustenidas. Ele me tomou a mão, dizendo ver miragens, enquanto fazia leitura de tudo que riscava aquele encontro distraído. Sem querer, enquanto trazia minhas mãos de volta, toquei o bolso esquerdo do seu casaco e seu coração pulou entre meus dedos. Se encaixou como se tivesse nascido para estar ali, apesar das asas.

Quando me perguntou o que eu enxergava, não contei do espelho. Disse-lhe uns versos de Bandeira. O coração desse moço tinha o fogo de constelações extintas há milênios. E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes. E era inevitável não notar minha imagem ali dentro, espelhando.

Era verão. Veio o outonoinvernoprimavera. Fomos todas as estações. Brigamos por motivos sérios, motivos bobos, pensamos haver nos perdido para sempre, voltamos, brigamos só para fazer as pazes, paramos de brigar. Passeamos de mãos dadas, abraçados, ensimesmados. Eu andava na frente, ele atrás. Eu corria, ele corria. Sentamos na grama, deitamos na grama para olhar estrelas. Fugimos da chuva, ouvimos suas notas sentados à varanda. Fizemos mimetismos de amor, eu quis lhe fazer surpresas - mas acabava contando tudo antes da hora. Saímos à noite, à tarde, de manhã. Afundei o pé numa poça de lama, ele sorriu. Ele tropeçou na escada, eu sorri. Reclamei da comida, ele reclamou do tempo. Fizemos planos, acordamos em nossos sonhos. Acordamos com sede, atravessamos a casa de madrugada e bebemos belezas sortidas. Escalas. Eusemprefuisódevocêsemprefoisódemim. E viajar.

E quanto delírio me sobra por ter o sorriso desse moço dentro em minha boca. Corações em mãos, naquele fevereiro, e a proposta: ambos ecoando, hoje, no peito que melhor lhes coube. Sem licenças e todos os acordos gravados. Coisa de laços que fixam residências, espalhando aquele cheiro de tudo que ainda vai brotar.

Outro dia, era agosto e naquele bolso esquerdo do casaco que um dia me embrulhou, dobrei um bilhete. Em branco. Quando seus olhos passearam ali, esse moço soube ler meu infinito lhe sendo entregue.

Não descemos do trem. A vida quem leva. 

Fotografia.

00:38

E quando você me envolver
nos seus braços serenos
eu vou me render.

[Ligia - Tom Jobim]

Porque nos encontraríamos, pedi que a cidade se acendesse. Você sempre com esse copo na mão e toda essa fumaça misturada ao tom de quem carrega o mundo consigo. E chora no escuro enquanto eu te observo, sem entender, sem te entender. Coisa de gente como a gente, que nasceu para sentir demais. Ser demais. Ser excesso. Que se derrama e deixa tudo escorrer para a vida. Deixemos.

É domingo e nossa mesa reservada de sempre já parece guardar as histórias de cada sorriso que escapou por entre nossos lábios. O clima é outro, mas os ecos de suspiros atrasados me lembram o dia em que quis te tomar emprestado para mim, aqui. Sem nem marcar devolução. Te tomar do mundo e te dever a ele. Culpa do teu violão e das palavras que me provocavam. Até então eu não sabia do bom de ser folha em branco para poesias dessas que costuram cicatrizes, e que, enquanto fechavam feridas, guardaram sopros da tua essência. Você se perdeu em mim e eu me encontrei, aí.

Hoje eu chego enquanto você ensaia ao piano. Toca de olhos fechados, sem cantarolar com tua vozinha de sono. Ao me ver chegar, faz silêncio e vem ao meu encontro. Não entendo o vermelho do lugar e não gosto do silêncio que você sempre teima em escutar detalhadamente. É como se mesmo envolta em meu vestido verde, toda a nudez do amor fosse latente aos teus ouvidos. E você me observa tão de perto, como se tuas pálpebras piscassem em minha retina. Engulo flores e beijo a harmonia em tua boca.

Algumas coisas simplesmente teimam em viver, eu penso. E o bar ainda vazio parece fazer de tudo um filme. Porque sempre gostamos de bossa. Compramos ações na bolsa de amores, pagamos para ver e o mercado sabe continuar em alta. E o silêncio de agora? Eu, estranhamente gelada. Lembro de uma noite, das nossas primeiras, onde você disse que um copo de uma bebida quente faria evaporar minhas dores. Estranhamente, hoje é você quem me lateja.

As pessoas começam a chegar, cumprimentam você, a mim, as mesas são preenchidas, as garrafas desfilam, as emoções destilam, você vai para o palco. De lá, me pega no colo com os olhos, mania da qual não sabe se desfazer. Desvio minha atenção para a taça, como se o vinho me dissesse verdades improváveis. Degusto. Tem teu gosto. Teu piano. ViniciusToquinhoTomChico. Todas as mulheres. Os outros te aplaudem em meio à minha inércia. Queima uma estrela em minha mão.

Esses quadros nas paredes com fotografias de músicos, essas luzes coloridas, esse cheiro louco de cigarro: tudo parece ser tocado por ternurinhas frágeis. Mentirinhas apaixonadas que enfeitam as primeiras declarações incertas. E o dia virando, o garçom já emborcado sobre o balcão, você e o piano sendo o sambinha feito de uma nota só e as cinzas das horas querendo transformar em pó minha vontade de estar.

Sentir às vezes não cabe. Nós, às vezes achamos bonito caber no amar ou numa palavra qualquer que dê ideia de certeza ao nosso vínculo de morada em. Tudo é sempre mais. E enquanto não sou do presente, você vem caminhando até mim. Som de flauta, cavaquinho e azul. As portas se fecham e nós dois, lá fora, encerramos um abraço-soneto que recebe o setembro primaveril em nossos laços. Um nó.

Do outro lado da rua, o mar todo grávido de uma lua cheia. Você, me tendo tão mais perto, despeja com vozinha de sono, doce:

- Esqueci no piano as bobagens de amor que eu iria dizer...

E você não sabe, meu bem, que todo o meu medo mora em teus olhos.

11:40







Pra nós,
TODO
o
AMOR
do
mundo.



















Sem caber de imaginar.














[Marcelo Camelo - Morena]

O dia em que você me disse "eu te amo".

23:22


Eu diria que não é assim desse jeito, que sua insanidade nunca ultrapassou seu jeito de soprar letras ao meu ouvido feito canção de ninar. Talvez sempre houvesse em você essa necessidade de apanhar meus olhos em lágrimas, rindo da minha cara de espanto ou de bebê chorão, como você gosta de me chamar. Posso ser o que você quiser, já lhe disse. Só não me leve embora aquele nosso dia que foi embrulhado inteiro e colocado na nossa caixa de correio com o destinatário escrito em giz de cera: a vocês. Foi como se o mundo inteiro estivesse num único compasso, girando num propósito egoísta: o de nos fazer dançar. Assim li no seu abraço, aquele que você me deu pela manhã, num comportamento nada físico que atravessou o telefone junto com a rádiofrequência que trazia sua voz pra mais perto de mim. Foi como se mil pisca alertas tivessem se ligado ao mesmo tempo: me veio um clarão e a sensação de que havia coisa melhor do que ler poesia. Viver poesia. Fui embora de casa numa vontade louca de encontrar você andando distraída, indo comprar nossa passagem de lua-de-mel. Morava em mim também uma saudade doentia que pedia você em qualquer rosto estranho que passava. Nunca amei assim, pensei de um jeito que deveria ter escrito, porque foi bonito. Mas lembrei que o sentir nunca vai pro papel, e essa sempre foi nossa dificuldade.

A manhã, por milagre, quis passar depressa e caminhei apressado pro nosso ponto de almoço, com o coração tão ansioso como no nosso primeiro encontro. Encontrei-a em um estado lacônico e mergulhei meus cabelos em seu ombro, buscando seu afago e remédio que me caíam tão bem. Nossa respiração mantinha o mesmo estranho som que se encontrava despropositadamente. Aquilo nos fez rir. Suas mãos puxaram meu rosto e vi um beijo nascer dentro dos seus olhos. Vi que em você, tudo nascia primeiro nas íris e depois ia tomando forma em qualquer parte do corpo, àquela que cabia. Almoçamos enquanto tocava uma música imaginária que escutávamos muito bem. Casal estranho, pensaram os que estavam em volta, mas não entendiam nada de sonhos. Você me disse do futuro e das coisas boas que nos esperavam. Acreditei.

Pensei que talvez acabassem morando em nós infinitos pluriamores sem conjugação. Seus olhos tão mais perto me botavam um medo sem nome, do tipo que me transformava em piano, fazendo notas ecoarem a cada vez que suas pálpebras se entreabriam. Você entregava um sorriso displicente, como quem dizia eu não tenho nada a ver com isso, deixando de lado a impressão ensimesmada de quem carrega uma lua em cada retina. Lembrei dos nossos defeitos fuçados, expostos, e como seu jeito cabia em meus esconderijos. Nossas mãos brincavam numa distração inocente, provando de gestos antes nunca feitos, quando o moço quis saber o que servir. E nossa música sem nunca acabar. Uma história de cinema mudo. Um tic-tac do relógio na parede central, retumbando com o bater desafinado do meu coração-cofre recém aberto. Os ponteiros todos corriam, e no guardanapo em cima da mesa, sua boca sem batom borrava de poesia vermelha aquele branco sem história. Senti aquilo de todas as letras mais lindas escrevendo sobre nós.

Você dobrou a esquina levando consigo meu sorriso e deixou em meus olhos todos aqueles sem fim de beijos cancelados pela ausência silente que era companhia quando não nos tínhamos. Coisas perdidas em caixas sem fundo, e você meu melhor achado. Quis que a noite logo chegasse para que eu te encontrasse em casa mordiscando o lápis e rodeada de papéis amassados, irritada pelas palavras que não chegavam e escrevendo amor enquanto me enlaçava outra vez naquele abraço que confirmava a maneira em como teu corpo combinava com meu desenho. Todas as cores. E logo após você sentava no braço da minha poltrona, escorregando macio para chegar até mim, enquanto a mais delicada carícia parecia ter sido construída dentro de uma eternidade que eu desejo caber em nossos minutos todos. Conversas intermináveis surgiam, e adormecíamos respirando poemas dos nossos montes de livros, fazendo exalar toda a euforia sufocada que acompanhava os momentos onde não éramos, ainda. E nessa apoteose onde nada nunca rimava, eu me (re)descobri amando você. Sem-razão.

E muito provavelmente você não saiba, mas quando seus olhos se borraram com esse fio de lágrima ao me ouvir amante, eu escorria para o seu lado de dentro. Pura teimosia sua em querer desencantar aquelas três palavras de encanto, que ressoaram como sendo um conto em meio àquela textura de sonhos que seus lábios carregavam. E foi sempre dia.



____________________________---º
______________________

Escrito com Filipe.

Às vezes te odeio por quase um segundo...

15:51

... depois te amo mais.
[Quase um segundo - Herbert Vianna]


Eu odeio muito você ter aparecido em minha vida. Odeio você ter chegado com esse sorriso-que-cabe-o-mundo e despejado essa coisa sem nome dentro de mim. Odeio tudo isso ter me parecido algo muito certo. E único. Algo feito só pra mim, por você. Como se tudo, toda aquela demência, tivesse sido efeito de uma poesia frenética que montou em mim e quis ser tua na mesma intensidade com a qual você me recheava. Odeio.

Odeio você ter a letra bonita. E odeio que a primeira carta tenha chegado num envelope transparente. E mil e uma borboletas de uma vez fazendo festa no meu estômago vazio. E meu coração-motor-de-amor-maior, inquieto, medroso, entregue, piscando. Piscando em sinal de um alerta que ele mesmo, estúpido, não conseguiu dar conta. Odeio ser brega por tua causa. E toda essa coisa de sermos feitos muito pra nós dois.

Odeio sonhar com você, achar tudo real, e acordar impregnada por tua presença que não tenho. Odeio essa coisa bonita que sai daí e me pega no colo de um jeito meio felizesparasempre. Odeio pensar em você. Odeio ser louca e te mandar torpedos esquisitos. Odeio meu coração descontrolado ao te ouvir ao telefone e a vontade infeliz de querer te contar do que até hoje eu não sei, e continuo querendo.

Odeio você discordar comigo. Odeio que você tenha quebrado meu coração durante uma crise tresloucada e que eu tenha te xingado de egoísta e covarde. Odeio nunca ter conseguido chorar por você, e mais ainda a certeza imbecil de que isso se deve ao fato de que eu sei que esse você e eu é tão nós, que nem adianta chover pra nascer mais flores. A raiz tá fincada em todas as entranhas.

Odeio você indo embora. Você sabe que eu odeio a maneira como você sai. Odeio não me cansar de você. E odeio estar aqui, escrevendo, enquanto o incenso de qualquer-coisa-que-me-leve-ao-teu-encontro queima. Odeio já ter prometido que quando tudo virasse pó, faria da gente o mesmo. E o incenso nunca chega ao fim. Guardo a essência, colada em cada canto do meu quarto, e me embriago de um jeito que uso todas as palavras grandes, sem nem ligar.

Odeio teu medo. Tua insegurança. Meu medo. Nossa história respingada de pontos finais que acabam virando reticências. Odeio sermos tão parecidos. Quando você diz precisar de mim. Ouvir Por onde andei. Ir ao show de Zeca Baleiro sem poder te olhar quando ele diz sobre partes de estradas em caminhos. Odeio ver tua cara nas coisas que leio. Odeio precisar te mostrar algo e saber que só você vai entender. Teatro Mágico. Gostar das tuas irmãs. Teu sotaque. A semelhança das nossas coisinhas vividas quando ainda nem éramos.

Odeio você ser meu escritor preferido, materializado. E quando você me manda parar, quando começo a te elogiar. Odeio sonhar com um livro teu na minha estante, escrever textos pra você e que eles sejam os que todo mundo mais gosta. E odeio mais ainda quando você os responde, ou escreve pra mim, também. Odeio tanto quando você escuta meus detalhes exagerados de histórias desinteressantes e a maneira como lida com isso.

Odeio me engasgar de você. Odeio voltar. Odeio não conseguir ser firme em minhas decisões relacionadas a tudo isso. Odeio apagar as luzes, e você ser vagalume, vela, lanterna e depois sol, me acendendo inteira, notando minha tentativa frustrada de fazer brilhar qualquer coisa amarela entre gravetos espalhados contra o vento. Odeio tua serenidade que me faz te querer como cais na hora em que tudo desmonta. Odeio te querer bem, muito bem.

Odeio principalmente, saber que tudo isso é mentira. Perder meu sorriso em você. E ainda guardar um pedaço de céu, todo roxo, pra te dar de presente quando nosso diálogo mudo vier ditar o vir a ser.

No fim de tudo, o que mais odeio, é abraçar todos os teus defeitos. Sabê-los tão distantes, ao compará-los a tudo o que temos de maior. Só não odeio tudo isso quanto odeio não ter você por perto, quando quero, ocupando todos os meus lugares mais lindos.

Coisa desses caminhos sem lua, e o tempo todo tão cheio de estrelas


Se.

14:07

Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom...


[Faz parte do meu show - Cazuza/Renato Ladeira]

Brinco de construir amor nas horas vagas. Invento mantras e penso em tudo que seria se eu pudesse me apaixonar por você.

Se eu pudesse me apaixonar por você, você diria que queria muito ter escrito para uma menina com uma flor, pra mim, mesmo eu não tendo flor nenhuma. E quando eu subisse a escada rolante do shopping, você ligaria para o meu celular dizendo que me observava chegar tão purinha entre as marias-sem-vergonha e eu daria risada porque também estaria te vendo e pelo teu provável tom de ironia misturado ao meu sarcasmo.

Se eu pudesse me apaixonar por você, você seguraria minha mão enquanto meus cabelos brincavam no teu ombro, na hora daquele noticiário depois do almoço e perguntaria porque não pintei as unhas de vermelho essa semana e diria dos meus dedos compridos e eu te contaria que minhas mãos são iguaizinhas às de meu pai e que eu acho isso o máximo.

Se eu pudesse me apaixonar por você, eu sorriria. E você diria que eu sorrio sempre e eu te contaria que eu sou feliz e você me perguntaria porque e eu falaria que é porque eu choro. Você ia me olhar com uns olhos inquisitivos e eu te faria entender que quando a tristeza entra em mim, ela só sabe sair eficaz em lágrimas. Daí então, quando você me visse chovendo, bicuda, iria me entregar um afago sem jeito porque você provavelmente não sabe o que fazer quando vê uma mulher chorar e ia me ver sorrir, horas depois. Porque a água só escorre pra fazer flor em semente de sorriso.

Se eu pudesse me apaixonar por você, talvez você brigasse comigo pela mania exagerada que tenho de ouvir Los Hermanos, mas ia ficar todo prosa quando eu cantasse que até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei. E talvez você implicasse também com minha vontade de sempre querer viajar pra praia em janeiro, porque moro da serra, mas eu cederia se você chegasse com um Drummond pra me dar de presente. Se bem que eu te diria que nós dois caberíamos fácil numa rede à beira-mar misturando nossas vozes na leitura de um poema e a gente teria certeza de que todos as poesias do mundo foram escritas sobre nós e você ia querer sempre ir pra praia, também, quando ouvisse Cazuza cantar sobre querer a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida.

Se eu pudesse me apaixonar por você, eu ficaria escrevendo textos como esse igual agora, durante uma palestra sobre união estável/ concubinato/ direitos da amante. E as pessoas ao lado me achariam muito concentrada e estudiosa anotando tudo que o moço fala lá na frente, sem nem entender meus suspiros silenciosos.

Se eu pudesse me apaixonar por você, eu diria ainda que adoro quando você surge assim, escorrendo pelos meus dedos e eu os levo à boca distraidamente, descobrindo que teu gosto é doce e deixaria tudo o que estava fazendo pra te encontrar. Eu te ligaria dizendo meu bem, parece que vai chover e começaria a chover, de fato e você viria pra rua e me encontraria no meio do asfalto molhado, com meu vestido branco, toda despenteada e ficaria encantado lembrando de Jorge Ben, enquanto me dizia que maravilha, que coisa linda que é o meu amor. Eu sentiria frio e você me abraçaria e a gente no meio da rua do mundo no meio da chuva, a girar. Que maravilha.

Se eu pudesse me apaixonar por você, eu ia beijar teu machucado e dizer que ia sarar logo e você ia ter medo de passar mertiolate, mesmo eu explicando que não arde mais e você só se renderia quando eu me oferecesse pra soprar, te fazendo rir do meu bico. E você ia me abraçar e eu ia virar brilho, e eu esperaria também que você me trouxesse um frutare de limão sempre que eu estivesse gripada, porque só assim eu melhoro. E me levasse à sorveteria todos os domingos à tarde pra tomar um sorvete de cajá.

Se eu pudesse me apaixonar por você e você ficasse romântico demais, eu ia te chamar de mulherzinha e ia me apaixonar por você uma vez a cada dia. Ou então, toda hora que eu te olhasse. E em alguns dias eu falaria pra caramba, em outros ficaria muda e isso não teria nada a ver com você. Talvez eu fugisse de casa, também, pra ficar sozinha, mas eu nunca ia demorar muito.

Se eu pudesse me apaixonar por você, você finalmente entenderia minhas expressões faciais que são quase tatuagens daquilo que meu lado de dentro sente e riria muito das minhas caras e bocas que saem tresloucadamente bem humoradas e a gente ia caminhar de mãos dadas carregando a mesma coisa sem nome nos olhos e ninguém ia entender nada e a gente também não.

Se eu pudesse me apaixonar por você, você sentiria ciúmes toda vez que eu te contasse que dormi com Chico. Eu diria que você não deve sentir ciúmes de Chico e você se irritaria e eu te contaria que eu durmo com Chico pensando em você, seu bobo e daí então você ia querer me beliscar, me chamando de louca. Seríamos loucos juntos.

Se eu pudesse me apaixonar por você, você entenderia porque choro em filmes, porque faço escolhas que quase ninguém entende e porque no meio de algo sério eu sempre digo que preciso sair para comprar chocolates e é uma precisão muito séria. E entenderia porque eu te chamaria de besta quando você me contasse piadas e eu selaria teus lábios com um beijo logo depois e a gente adormeceria no sofá da sala e acordaria feliz pela soneca e irritados por não poder prolongar pois tínhamos um compromisso urgente.

Se eu pudesse me apaixonar por você, de noite eu apagaria todas as luzes do quarto e a gente ia começar a conversar no escuro e não ia entender nada quando tudo começasse a acender dentro da gente e eu ia desconfiar se a gente não era estrela. E você acordaria abraçado a mim no dia seguinte e levantaríamos juntos e você me observaria escovar os dentes com a mão esquerda na cintura, me veria dizer bom dia pro meu reflexo e amarrar os cabelos. E depois que eu lavasse o rosto, a gente ia dançar no corredor, de pijamas e a gente lembraria que era domingo e voltaria pra cama e ficaria o dia inteiro nela, ignorando quando batessem à porta e tirando o telefone da tomada. E a gente se deitaria de novo, se olharia sem piscar e faria silêncio e então entenderíamos tudo.

Tudo isso se eu pudesse me apaixonar por você. Se eu pudesse. E só não posso, por um motivo isolado: eu já te amo.

Do lado de dentro.

21:52

Me explica, que às vezes tenho medo.
Deixo de ter, como agora,
quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes.
Mesmo sem compreender, quero continuar aqui
onde está constantemente amanhecendo.
[Caio F.]

Eu queria não pensar tanto. Não sonhar, tanto. Queria poder quebrar as fantasias e pisar firme no chão, com os dois pés. Mas minhas asas não deixam. Elas me levam para um ponto tão, tão alto, que fica difícil não te notar. O céu é o mesmo. O céu é o mesmo. Um mantra, pra não deixar doer. Não quero doer. Não vou.

Teve um dia onde meu coração foi cenário um tanto shakesperiano. Atos assassinos existiram, dramatizados, e muita coisa morreu em mim. Nesse mesmo dia, apareceu você. Uma intensidade demente, alguma coisa sendo sem ser, teus acordes, músicas deles, lágrimas minhas e silêncio. Madrugada que me amanheceu. Um amanhã, seu.

Minha alma sempre teve qualquer coisa de viola, sem canção feita, ensaiada. E todo encontro de notas faz ecoar meu coração desafinado. Meu coração. Por que chamar de meu algo que é preenchido pelos outros? Meu coração tem tantatantatanta coisa alheia que já nem cabe mais em mim. Um acúmulo só bom. Agora, cata aqui, ó: toma esse pedaço, é teu. Arranca, cola em si, joga fora, mas não me deixa sentir sozinha. Sozinha é muita coisa.

Eu já sorrio sem medo de você ler teu nome em meus lábios. Esqueço os olhos no azul e assovio impulsos. Não procuro definir nada. Eu entendo tudo como aquela sensação de primeira vez, de coisa única, de inefabilidade. Mas sempre surge uma relutância exorbitante que nunca acalma. Uma certeza triste e palavras grandes sendo usadas. Meu lirismo virando incenso, queimando pelo quarto, chegando até você, voltando pra mim e aquele cheiro indefinido daquilo que não se nomeia. Se sente. Eu sinto.

Nada concreto, então? Eu escolhi ser. Mentira, droga. Quis fugir, ignorando saber que já estava lá dentro. Dentro disso. Talvez tenha algum sentido, talvez não. É um entregar de mãos, um receio, um desapego, uma sede. Vontades, cara. Luzes apagadas, a lua sorrindo linda, você sendo estrela em qualquer ponto. Uns olhos que clareiam e ficam invisíveis por abrigarem uma constelação ofuscante, e um suspiro, ao travesseiro, por te saber ouvindo meu sussurro no teu silêncio: boa noite, meu bem!

Eu me comovo com tudo o que não acontece, desejo coisas muito belas e adoro quando você entende o que não digo. Minha estrutura te suporta com um ou outro encanto repartido e brotam flores amarelas de uma poesia que eu não sei fazer. Venta um pó de afeto, vê? Farelos de mim, propondo felicidade. As coisas tão mais lindas.

Delírios lúcidos. Absurdos. Chão, chão. E tô voando, outra vez. Acumulando silêncios. Musicando-os. Muita energia querendo saltar, atingir, latejar. Razão, sem-razão. Sem estrada. Esse é o caminho que tem mais coração, todavia. Então, vem cá, aperta teus dedos em minhas mãos e eu não solto. Uma certeza, e só. Um jeito abafado de gostar. Você, diferente de tudo o que eu já conheci. Espalhei do jeito mais bagunçado, tres-lou-ca-da-men-te. Sem matéria. Nada existe e tudo é mágica. Não, não cabemos em teamos e é só minha parte dentro em você, ou tua parte dentro em mim, a responsável por não nos responsabilizarmos.

Ah, meu doce, realmente acho tudo isso muito bonito. Ou talvez eu só queira escrever, pra deixar arder as letras de um sentimento inventado, novamente. Não sei, não sei. Enfim. [Sem fim]. Já tá amanhecendo de novo.

Declaração.

22:04

Para o moço do carrinho de pipocas.

Fazia frio e ele deve ter percebido minha tentativa de embrulhar as mãos com as mangas do casaco. Ou meu olhar perdido, enxergando tudo e nada. Parei ao seu lado por alguns segundos na dúvida sobre qual caminho seguir. A dúvida era só pose, eu penso agora, porque qualquer caminho daria em nada. Parei debaixo da árvore triste, quando ele me disse:

- Uma pipoca por um sonho, menina.

Eu olhei. Meus olhos castanhos estavam nublados, mas souberam brilhar ao notá-lo sorrindo. Recebi o pacote e falei um desconcertante obrigada, moço. Não aceitou minha moeda. Refleti acerca de suas palavras e percebi que ele talvez houvesse escutado uma lágrima chorosa no meio da minha desorganização. Pedira um sonho. Dei um aceno tímido com as mãos, enquanto ele atendia dois meninos de risada banguela. Me sorriu outra vez.

- A vida é bonita, criança! - foi a frase gritada enquanto eu me afastava. Dei meia volta e o encarei. Precisava que ele fizesse leitura do meu sorriso, que dizia assim:

Eu declaro ser boba, moço. E ingênua. Forte, apesar da pose de quem se desmonta fácil. Apaixonada, talvez. Ridícula. Medrosa. Procrastinadora de atos urgentes e também dos desimportantes. Sou uma saudade e um banco de praça coberto por folhas secas de um outono que não é meu. Não tenho paciência para conversas tristes. Posar de vítima soa deprimente. E não entendo como meu rosto se desmancha numa seriedade obtusa assim, de repente, gerando interrogações de quem me cerca. Eles não entendem. Sabe, moço, não é todo dia que eu quero sorrir, não. E pensar que já houve uma época onde isso era o meu melhor, era o que fazia as pessoas pedirem por mim. Hoje não tem ninguém. A distância é algo estúpido, moço. Não falo nem de geografia, aqui. Falo de interposições criadas por conveniências minhas. Eu sou ostra, viu? E não sei permitir que no meu lado de dentro venha morar qualquer coisa que não seja pérola. Nem é pretensão, não. Pode ser comodismo. É que eu me acostumei a ter as melhores pessoas do mundo como parte de mim e isso era o suficiente. Eu não dava importância para o novo, o desconhecido. Não sei se você entende, moço, mas dá um trabalho danado se reconhecer nos outros, querer pra si, driblar os defeitos, contar dos seus, todas essas coisas que surgem em primeiras relações. Eu queria que já viesse tudo pronto, moço. Queria. Aí eu era completa, então.

Declaro, também, que esse era é algo que nunca foi. É que eu sou sozinha, em qualquer canto. Sei lá, eu acho graça, você não? Sou dona de um sarcasmo estonteante, digo. As pessoas às vezes acham que estão acompanhadas no mundo e se apegam a isso de uma maneira que me assusta. É que, moço, todo mundo vai embora um dia. Vai porque quer, vai porque Deus chama - não importa. E eu sempre tive muito medo disso, mas quase não penso. Outro dia mesmo eu quis casar, ter filhos e ver como a vida ia. Hoje eu não quero mais. Amanhã, vou querer tudo de novo. E pra sempre. Odeio querer as coisas pra sempre, moço, você não? Tudo é tão efêmero por aqui. Tem horas que eu fico lembrando do que eu nunca soube. Você deve estar se perguntando se eu sou feliz, não é? Eu digo que não sei. Digo que sou. Num descuido ou em outro, acabo sendo. Ah, eu sou incoerente, também. Semana passada contei por aí que eu sou uma fraude. Sou tanta coisa, moço. E nada. Essa história de não poder olhar pro lado e encontrar uma gargalhada cúmplice, já não tem graça. E os fins de semana, moço, passam lentos como se fossem um filme ruim demorando pra terminar. Não pensa que eu tô só reclamando, não. É que hoje não entreguei sorriso, sabe? E agora que ele se mostra, vai despejando tudo o que esse céu nublado diz. Sou uma nuvem de chuva, agora.

Declaro ainda, moço, que eu tenho sonhos. Eles escorrem em mim inteira. Mas acontece que sou uma insônia e os dias viram duas noites. Tá faltando cor. Cinza é cor, moço? Acho bom eu ir embora, antes que tudo chova. Prometo novos sonhos. Um resgate dos que se perderam. Toma moço, esse sorriso. Coloca ele de enfeite no teu carrinho azul. Lembra que você foi responsável por mim, hoje, nesse entardecer. Lembra, moço, que meu sorrir é quem fala, porque eu não sei lidar com palavras, não.

Declaro por fim, moço, que eu vou ser feliz. Criança...


E fui.
____________________

[Numa tarde de um início de maio].

Último Romance.

13:00

Ao que há de vir.

Escuta daí essas palavras que o vento sopra em teus ouvidos, moço. Não se assuste com essa brisa, não. É coisa minha. Coisa linda. E dessa coisa assim, igual a você, não há de haver outra. Já contei que quando da tua chegada, essa minha parte que falta, pedaço do meu inteiro, acabará onde começa você? Justinho você, que já é meu, sem nem saber sequer. Eu tampouco sei. Sei, entretanto, que farei de você um lugar e ali será minha morada. Mas não tenho pressa, não. Não tenha pressa você também.

Enquanto você não vem, fico daqui, mãos ao queixo, pensando em como tua presença primeira vai calar minha voz. Imaginando a ventura de poder enfim saborear a plenitude dos versos daqueles poetas que leio, enquanto desenharei você. Peço de antemão que, quando você chegar, entenda minha timidez, esse meu ar recuado, e não deixe que isso sirva de empecilho para tocar tuas notas. Vou gostar de ouvi-las. Você vai cantar em mim e minha alma desabrochará em flor, espalhando aquela sensação de que sempre fomos um. Me despirei então, pétala por pétala, e te contarei dos planos que andei pintando para nós dois durante essa espera.

Cabe aqui avisar que você me descobrirá boba. É esse meu jeito assim, feito com um pedaço de cada amor errado. Meu jeito cheio de engano e de imperfeição. Leio poesia mas ainda não aprendi a vivê-la. Carrego sempre um verso no peito - esse verso pode virar você. Então, menino, se você chegar a conhecer esses meus lados às avessas, é sinal de que consigo ser eu mesma quando na tua presença. Isso se você prometer não correr ao me notar de pijamas e cachos amassados, daquele jeito desgrenhado e louco, a cada amanhecer.

Eu não vou ligar se você me acordar no meio da noite, dizendo que ninguém mais poderia ouvir o que você tem para contar. Vou amar tua cara de sono, ceder a cada pedido de beijo teu, fazer dos teus braços cobertor e brincar com teus cabelos entre afagos, cantarolando baixinho uma melodia qualquer, até você adormecer outra vez. Prometo não contar para ninguém das estrelas que você trará consigo. Vou apenas fotografar o luar em teus olhos a cada anoitecer. Aí, entenderei do mistério com o qual você foi afastando minha solidão, enquanto chegava assim, tão sorrateiro em seu silêncio, quase sem me deixar perceber o prenúncio dos teus passos.

Quando esses olhos castanhos te observarem como quem mira ilhas distantes e eu me fizer calada, saiba que nessa hora eles estarão sendo acarinhados por tua imagem em minha frente. Eis minha explicação para o não piscar. E em meio a carícias doces e tão suaves, sentidas como se feitas por lábios, me perderei em teus abraços. Farei deles meu abrigo. Gosto dessa história de corações conversando. Durante essa conversa, brincarei de descobrir teu cheiro. É que assim, quando você estiver um tanto longe, eu vou gostar de quase poder enxergar você quando alguém exalar essa tua essência numa esquina qualquer.

A cada entardecer após teu pousar, vou grudar nossas mãos e sussurrar um sem fim de amores ao pé do ouvido. Aí você vai me mostrar esse sorriso lindo que carregará no rosto - o sorriso mais terno de todos. E meus dias se iluminarão. Isso às vezes, pois não sou dada a declarações, surpresas e apelidos fofos. E quando eu já for assim, coisa tua, vez ou outra te observarei ao violão, também. Ah, você tocará lindo, mesmo quando desafinado. Me aproximarei de leve, para não te atrapalhar. Meu coração ali, batendo descompassadamente mais uma canção por você.

Viveremos também momentos de zanga, claro. Discussões acontecerão. Mas sei que faremos disso motivos para procuras maiores. Não nos perderemos. Nos entenderemos no silêncio e distribuiremos gentilezas. Seremos amizade. Pedaço inteiro. Que é para nos sabermos suporte. Para nos fazermos chão firme um do outro durante aquelas crises que nos invadem nessas tardes de uma terça-feira ociosa qualquer. Meu riso será teu nome. Quando você finalmente chegar desses confins do não sei onde e eu abrir a porta, moço, me livrarei dessa saudade assimilada que me preenche e não acho que vou querer fechar os olhos outra vez. A cada chegada tua, ouvirei as flautas. E as almas em dueto ensaiarão uma busca infinda de singularizarem-se.

Será que esse meu desenho das tuas linhas incertas vai fazer nosso encontro em alguma curva? Eu nem me importo com um barraco, um coqueiro, uma lua, o mar e você me contando tuas coisinhas. Prometo nem implicar quando você contar pela milésima vez o mesmo caso. Vou ouvir as histórias de você atenta ao teu gesticular de mãos, decorando teu piscar de olhos, teus ais, tua tez, aprendendo a enxergar a transparência da tua alma. É que quando acontecer nós dois, tão logo meus sentidos borboletearão. Haverão palavras trêmulas. E no meio dessas palavras soltas, a gente vai entender segurança. Cada instante será sempre. A redoma feita desse amor protegerá nossa poesia.

Veja bem, não escreveremos nenhum conto de fadas, não. Contos são curtos por demais. Mas posso segredar uma boniteza? Escreveram por aí que juntos viveremos nosso último romance. Arrisco acreditar. Sonho tua voz e escrevo você existindo para me roubar coisas que já são tuas.

Mas enquanto você não vem, menino, brinquemos de tempo-será, tal qual o poeta. Uma hora dessas acaba sendo. Vamos de mãos dadas.

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Título emprestado do Último Romance, de Amarante, o hermano.

[Escrito em junho de 2008].

Emanuella.

12:46

Para ela, a mais amiga, num dia seu.

A culpa foi do Cefet. Foi daquele ano de 2001, quando ela apareceu em minha vida. Apareceu como a moça que sentava nas primeiras cadeiras da sala e que fazia as horas de intervalo passarem rápido demais. Uma afinidade desencontrada, com ela confessando me achar séria demais para suas piadas. E isso passou, tão logo. Nem lembro quando minhas ligações pra ouvi-la me fazer sorrir, passaram a ser chamadas de uma Jaya em prantos, buscando serenidade. Uma base infinitamente alicerçada, eu sabia ter encontrado. Manu é minha mais amiga, de um mundo inteiro que passou. E isso foi se firmando de leve. Com primeiras fotografias em um terminal de ônibus. Ônibus que a gente fazia questão de perder, pra não deixar a conversa ir embora logo. Ela conheceu meu lado mais tagarela e não achou tão ruim assim. Presumo. Presumo talvez porque ela nunca tenha ido embora. Talvez porque conheceu meus instantes mais insuportáveis e resolveu confrontar com aquele jeito de baixinha briguenta, mergulhada numa maturidade espetacular. Manu é das pessoas que mais me trazem orgulho na vida. Dona dos meus sorrisos mais sinceros, mais escandalosos e mais irônicos. Porque a gente já ultrapassou o ponto daquela história onde um olhar falava pra caramba. Com a gente, o corpo inteiro já falava, só de saber-se debaixo do mesmo céu, da mesma cidade. Manu é a responsável por fazer um show de Zé Ramalho ser inesquecível, mesmo com minha enxaqueca em nível elevado e uma prova no dia seguinte. E um tal de Jaya presta atenção como ele é magrela e tem um nariz louco, abismada em como aquela voz vinha dali, de dentro daquele corpo. E vinha, e foi nossa. Manu é assim, a única que podia abrir meu armário de CD’s e levá-los [quase] todos embora, de uma vez, sem data prevista para entrega. A única capaz de me tirar de casa, me jogar num ônibus, e me fazer viajar pelo interior desabitado de um estado insanamente belo. De me fazer perder os cabelos por me encontrar num local deserto, após algumas horas, e ficar hospedada numa pousada estranha. Noite em claro, de pernas pra cima, sem sair do quarto, reconhecendo nossas vidas de maneira tão clara como nunca se fez. Um marco, eu diria. E digo. Porque lembro da noite seguinte, ela com uma lata de cerveja e ouvindo-cantando-dançando o tom mais inusitado de My Humps. Sem nem ligar pra minha cara de alguémmesalvedaquiemelevepracasa,agora! Manu é louca. Talvez por entrar na minha vida pra sempre. Por me fazer pedir pizza na praça movimentada, junto com Cora e Éden. E o entregador achar normal nossa bizarrice e cara de sem vergonha. Mesma praça cena de um piquenique. Mesma praça de conversas na grama, com coca-cola mil litros. Com eu e Chafic caminhando como pessoas normais que somos [hein?] enquanto ela jogava o boné de Rodrigo em cima das árvores e ele corria atrás, xingando. A pista de kart como lugar de encontros marcados. As chuvas, o violão, o clã, os Clowns de Shakespeare. Manu, sempre minha. Porque ninguém mais sorriu da minha cara quando eu disse que gostava do cara mais insensível de todos e depois se desesperou na tentativa de trazê-lo pra mim, quando eu já não queria lutar. Porque pedalar uma tarde inteira pela cidade virou história, com uma parada estratégica para hambúrgueres, batatas fritas e milk shakes antes de voltar pra casa. Umas conversas desesperadas sobre nosso fanatismo inexplicável por Harry Potter, e as sessões de todos os cinco filmes anteriores de uma vez só, lá em casa, pra ir assistir ao sexto no cinema e chegar à conclusão de que os meninos estão virando homenzinhos, Manu! E depois explodir com um cachorro-quente na boca, ao ouvir uma declaração de eu pegava o Snape, ó! Ah, os cachorro-quentes desperdiçados por ela, após os cinemas! Moço, o meu é sem salsicha, sem carne, sem verdura e... Sem o que mais, Jaya?! E findar sorrindo do meu rabo de olho. Porque eu amava xingar o desperdício dela. E a cara de bobo do atendente que nunca entendia nada. Manu é a melhor companheira de filmes. Talvez porque não estranhe conversas tresloucadas sobre Almodóvar, ou inclusive goste, exaustivamente. Talvez por chegar lá em casa, numas noites de sexta-feira, com uma pilha de filmes, dizendo esse é gay, esse é bestinha, esse parece ser engraçado - pela capa, e esse eu trouxe pra você, porque é com teu marido. Ninguém mais, pra dizer que Johnny Depp é meu marido, assim, sem pestanejar. Ou pra chegar buzinando no meio da rua e me mandar botar uma roupa, que eu tô ótima e a gente tem que sair pra uma conversa séria. E eu voltar pra casa com dor no maxilar, de tanto sorrir e comer. E eu sempre ia, porque às vezes era sério mesmo, e os problemas dela eram meus. Sempre. E os meus, dela. Isso é uma constante, em nós. Manu sabe de mim como ninguém mais. E eu sei dela, também. E por isso eu me deixei tomar uma caipirinha, misturada com pizza de atum, e ela chamando os garçons da pizzaria de Grinch, em voz alta. E ambas tontas, ao final, fugindo de um casal inconveniente e enchendo a cara de sorvete. E a certeza de que nossos melhores porres foram com coca-cola e que a Jaya ficou muito chata depois que decidiu ser saudável e não bebe mais da nossa droga. Só ela tem moral pra chegar lá em casa fazendo barulho, mandando abrir a garagem dos fundos, guardando seu teletransporte, sendo xodó de Rebeca, quebrando o pau com Éden, conversando música com Sofia e tendo moral pra chamar Clara de Clóvis. E depois, ouvir minha mãe reclamar de todo mundo junto. Só ela. Só. A moça que liga dizendo Jaya, os caras da tua vida estão aqui na UFRR, hoje. Um grupo de hippies, era. E sim, eu adoro. Manu foi quem me fez provar uma cachaça mineira pura e soltar fogo pela boca. Depois passar a noite conversando nada com nada, com uma capacidade única de deixar tudo se impregnar de sentido, nessa hora. E eu nunca disse que amo. Nunca, porque sou uma besta de coração de pedra (de açúcar) que não sabe demonstrar sentimentos. Ou talvez porque as atitudes saibam valer mais. Talvez porque seja mais que amor. Talvez, porque ela seja a única que já me ouviu cantar e tocar Por onde andei, ao violão, com dedicatória. A única que merece torpedos monstros madrugada adentro. Talvez, porque ela tenha cuidado de mim quando fiquei com dengue, até altas horas da noite. E depois foi me visitar no hospital. Não sei. Manu me cobre de uma segurança tamanha, que dar em cima de Zeca Baleiro, ano passado, soava como algo banal. E pular, gritar, mandar beijo, dançar, e etecéteras, era sonho naquele show, com ela do lado. Ela que vinha comigo pra onde eu fosse, e ia bem, porque ia comigo. Ainda que não fosse falado o caminho, que ela me chamasse de Gandalf e contasse que a comitiva fracassou - quando não dava em nada. Manu e Eu. Ainda não fizeram igual. Não farão. E quando eu vim embora, uma semana antes, todos os dias foram nossos. Uma despedida silenciosa, que ia doendo de leve, mas a gente ainda nem percebia. Que findou numa última sessão Jack Nickolson. Algo como um dia de São João, com Éden correndo enquanto suas calças caiam pelas pernas, no meio de todo mundo. E caipirinha. E eu descalça no meio do asfalto, dançando com uma possibilidade de amar. Daí fico aqui, lembrando bobeiras, com uma enxaqueca infeliz e não cabendo em mim de saudades. Porque eu decidi que ia embora. Vim. Ela ficou, fazendo com que eu não viesse inteira. Não vim. Tô lá, ainda. E a certeza aumenta a cada torpedo dela contando de um show de Serginho, de uma música de Neuber, de algo que nos faça encontrar em distâncias. É um grito desesperado meu e um afago dizendo se nada der certo, te espero, e a gente vira hippie, vai ser mara! Mas vai dar certo pra nós, baiana. O resultado é qualquer coisa como meus olhos enchendo de lágrimas, ao ouvir Nando cantando Por onde andei. E a promessa de um show, juntas. Ou então essa coisa errada, assim, de não ter ninguém me chamando de baiana, aqui na Bahia. Pelas poçõezinhas, pela pronúncia exata que eu [e só eu] tenho do nome dela, pelo jeito dela de misturar espanhol e português, pelas histórias dos seus alunos pequenos, pelas falas de Ó, paí, ó!, por Neuzeleno, pela calçada da rua de trás. Por Roraima [e amizade] ser sinônimo dela, de certa forma. Tudo isso resulta num texto incoerente. Porque quando é pra valer e quer sair despencando do coração, não dá pra ser só bonito. É saudade, misturada com vontade de gravar em letras tudo o que já foi, da gente. Então, pra finalizar, poeticamente falando:

- Manu, você não vale nada, mas eu gosto de você!

Imagina que sou Tua.

23:14

Da obsessão desconexa.


Eu armo cena. Eu armo cena, baby. Primeiro, eu procuro saber dos teus caminhos. E sei. Descubro todos os teus passos e te persigo numa pose fantasmagórica. Faço cara de recém-saída do manicômio e você debocha de mim. Pobre de você, que nem sabe que a loucura maior é te amar assim, desvairadamente. Me deixa te amar? Te amar, sim. Te amar sem receitas. Te amar sem.

E você não olha pra mim. Por que você não olha pra mim? E se eu pintar minha boca num vermelho sangue? Se eu te sussurrar sacanagens ao pé do ouvido, mordiscar teus lábios, rir um riso de terceiras intenções? Se eu subir no salto, naquele vestido vinho que desenha minhas curvas com um decote que deixa minhas costas inteiras de fora? Se eu prender meus cabelos no alto e deixar teus dedos passearem em minha nuca para depois se perderem no meu corpo inteiro? Se eu elogiar teu perfume barato que me faz espirrar? E se eu montar um espetáculo? Se eu cantar embaixo da ponte? Será que assim você me olha? Me olha.

Eu quebro a garrafa na mesa do bar. Eu bebo e saio despencando com o copo na mão, catando os versos que você destrói enquanto some por aí. Ando no meio do trânsito caótico da avenida mais movimentada. Eu colo declarações em todas as paredes, salto de pára-quedas, tiro onda de romântica, morro de chorar, borro minha maquiagem, beijo outros caras na tua frente, fumo dez cigarros ao mesmo tempo, grito até ficar rouca, canto as músicas mais bregas. Deito nua, na cama, esperando você - cobertor que não vem.

Eu vomito. Quebro o espelho, tomo uma ducha gelada enquanto neva lá fora. Vou pra boate, danço com você, me encho de esperança, vou ao banheiro, retorno. Você tá com outra. Vadia! E você nem me olha mais. Me maltrata a visão. Eu saio de mesa em mesa fazendo pose de fácil. Jogo duro com você e me entrego a qualquer um. Saio de lá acompanhada, gingando, sorrindo. Por dentro, em pedaços. Boto fogo no apartamento. E se ao menos você me olhasse.

No fim de semana eu apareço na tua porta. Eu jogo pedras na tua janela, perturbo a vizinhança, falo coisas sem plano nenhum, berro crueldades. Você me toma por desatinada. Eu sorrio sem aflição. Tua cara, na porta. Eu fico em chamas. Fico querendo descolar alguém pra dormir, que o céu tá cinza há muitos dias. E do teu olhar eu nem sei. Pura hipocrisia.

Porra-louca que sou, queria mais era você me sufocando. Te contaminar com minha lucidez demente. E faço chantagens, uso os piores truques, furo o pneu do teu carro, te ofereço carona (em mim). Te ensino a me amar, você reprova. Me devora sem saber degustar. Repete o prato, me mastiga, e eu só queria que você me engolisse de uma vez. Pousasse teus olhos em mim.

Me azeda, baby. Me adoça. Viro fogueira, se você se dispuser a me acender. Te deixo domesticar meu jeito selvagem se teus olhos mansos passarem a ser meus. E só meus. Eu acordo querendo encrenca. Invento golpes perversos, digo que você é meu cúmplice. Te beijo a boca até você abrir todas as portas. Te destravo. Você se vicia em mim e passa a perambular por aí, pirado. Vive um viver destrambelhado, feliz pelo meu amar incontrolável.

Viro guitarra de você e me entrego a cada dedilhar. Danço em teu corpo inteiro feito bailarina. Você gosta dos meus olhos, eu despetalo as rosas. Você xinga a exatidão da vida, me escreve bobagens num papel. Eu danço pra você na mesa do nosso jantar, te faço discursos longos sobre as coisas que despencam do céu sem porquê algum. Você me olha de baixo e me puxa, me aperta. Chove lá fora. Te empurro na piscina, a gente se cola. Os pingos cantam velhas frases decoradas.

Eu volto pra sala e deito no chão, molhando a casa inteira. Vejo os insetos em volta da lâmpada, Bob Dylan no som. Você reclama dos meus gostos. Me olha, guloso. Me olha sem piscar. Me olha. Teus olhos, meus olhos, o tapete. Você afasta meus cabelos que deslizam sobre o rosto e te tenho ao alcance da minha boca. Minha língua querendo provar do teu gosto. Você me pede suor, eu desenho em você dois seios, um ventre, as pernas. Poesia arranhada nas tuas costas pelas minhas unhas em carmim. E nos teus braços, me esqueço. O silêncio canta. O tempo é nenhum.

Dia seguinte, manhã. Eu tomo a coca-cola, você me pede em casamento. Desfaz a ordem da música de Caetano. Você não entende nada. O bom não é mais. Eu cato minhas roupas espalhadas pelo quarto e resolvo que Paris é a solução. Porque talvez essa minha busca pelos teus olhos fosse pura vontade de sexo. E agora, nem me fita assim. Ou transa, ou bate a porta na saída. Deixa a chave na mesinha.

[Em novembro de 2008].

Verbalizando.

22:59

- Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!

[Caio F.]

Eu já nem quero te fazer entender, não. Cansei. Minha boca abre e fecha e tudo o que teima em escapulir, eu acabo engolindo outra vez. Pode ter sido essa noite em claro, em meio ao frio, ao cinza, aos raios amarelos que eu esperei e não apareceram. Pode ter sido. Ou talvez seja apenas mais uma invenção minha. É, você sabe que eu crio situações por nós dois, resolvo, problematizo e no final já nem existia nada. Vai ver eu acabe criando propositadamente, pra poder me envolver com qualquer coisa que não seja a verdade silenciosa que fica sussurrando em qualquer presença ou ausência nossa. E tudo isso me entorpece tão profundamente, sabe? Findo expulsando incoerências destrambelhadas porque eu queria mais era te ver - te ouvir, ler, que seja - berrando qualquer coisa. Uma manifestação. Um copo quebrado, um cheiro de vinho pela sala, ou qualquer reação vermelha que me fizesse levar à boca o dedo cortado. Acontece que eu espero e as ranhuras se dão por dentro, de um jeito todo enigmático, sem pretensão tua, mas por convenção minha. Eu te chamo e não vem palavra. Te chamo e não vem você. Acabo voltando, também. Recuo um passo ou dois e fico observando com um olhar pervagante tudo o que se movimenta. Tento ser pedra, em vão. No fim eu sempre volto, sem a menor resistência, cantarolando uma bobagem qualquer, impregnada de você em todas as lembranças do futuro que não é. Somos errados, menino. De um jeito estúpido, eu penso em como seria se não houvéssemos acontecido. Eu queria expor todo o meu agora numa dessas minhas frases curtas. Queria fazer do sentimento algo claro, permitido, solto. Mas daí eu amarro tudo e vou enovelando gestos secretos que muito provavelmente te fariam tropeçar, caso desenrolasse. E eu sei, ah, como eu sei!, que você se preserva de maneira igual. Existe sempre algo que fica. Mesmo que a gente decida ir embora, algo fica. Lembro meus momentos de surto, com tuas batidas de porta. Sempre me julguei tão calma e serena que me surpreendo ao ficar de veneta nessas horas. Os pedidos para que você não ouse saber de mim, os adeus recheados de drama. E a amiga que me lembra que sou de peixes - e pra você isso não quer dizer nada. Mas me desenho besta. Teimosa. E agora, impulsiva. Impulsiva de um jeito que eu queria pegar o telefone e cantar com minha voz cor-de-rosa qualquer tom desafinado de All My Loving ao teu ouvido, porque ultimamente são os Beatles que passaram a virar desenho de qualquer momento nosso, no meu mundo. Mas eu não consigo, menino. Eu viro adolescente boba, que fica olhando de meia em meia hora pro celular, que checa o e-mail com uma vontade nada habitual e que depois lembra de ter te pedido pra ir. Lembra que talvez fosse isso que você sempre quisesse ouvir. E lembra mais ainda, que se eu me propor, posso acabar me afeiçoando à ideia do não voltar. É que... Você não acha de uma tolice tão grande essas pequenezas que em nossas mãos se tornam graúdas? Aí eu fico te contando que somos crescidos. E você discorda. E eu fico em cólera. E você vai. E daí a queda d’água interna começa a despontar, em mim. Só em mim. Começa urgente e depois fica mansa, miudinha, igual minha vontade de acordar. É que sempre sonho, menino. Sonho você sonhando comigo, eu dentro do teu sonho, você no meu, e depois... Depois eu só peço que nenhum de nós dois queira despertar. Tô falando muito, eu sei. Por nada, é verdade. Por um desenrolar exclusivamente meu diante da tua opção de mudez, que me dilacera imenso, ainda que o guardado seja insignificante. Ei. Não bate a porta, não. Porque tenho medo de trancá-la e virar muro entre nós. Eu sei que sou tonta, dramática, chata e ultimamente várias dentro de uma só. Mas você não é nada fácil, também. Nos abraçamos assim, não foi? Isso é um ponto em comum. A verdade é que eu queria deitar no teu colo, com descuido e alguma pressa, e te contar tudo isso, em meio a um disparar de palavras ininteligíveis que findasse com você me dizendo que não precisa dizer nada. É que eu não te esperava, não. E sei que você não me esperava também. Um desesperar, era? Eu queria não esperar nada. Seria mais fácil toda relação, se o não-esperar existisse e fosse possível. Esperar, desesperar. E eu tive noção de que em meio a todo e qualquer desencontro, acabamos sendo conduzidos, você e eu, para o agora. Você é uma possibilidade minha, menino. Possibilidade não verbalizada. Como um sentimento sem nome, feito de uma palavra estranha. Palavra que nunca vai caber em dicionário nenhum, e que ninguém nunca vai inventar. Repetição? Sim. É que eu tento apagar, eu minto pra satisfazer tuas vontades, te pedindo pra não vir. Mas você fica. E vai sempre ficar. Continua existindo, musicado. O inevitável dança aos meus olhos. Aí chega a hora em que distribuo um segredo: o tudo que faltava, talvez seja você. Digo e vou dormir, sem sonho, mas dentro dele.

- É que você me dói, menino. Mas de um jeito assim, pulsando: tua poesia a correr em mim.