30 abril 2009

Enleio Metafórico

- E até quando acredita o senhor
que podemos continuar
nesse ir e vir do caralho? - perguntou.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada
havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias
com as respectivas noites.
- Toda a vida - disse.


[Gabriel García Márquez, em: O amor nos tempos do cólera].

Numa prosa um tanto sinuosa, vi tua alma dançar um bolero de Gardel enquanto me fazia um apelo para segui-la. Não fui. Voltei ao apartamento num caminhar despercebido, me abraçando forte, como se nesse gesto afagasse também a parte de você que me habita. Pela rua, eu cantava baixinho, pra mim. Eu virava camaleão tentando furtar um pouco as cores de alguns sorrisos para brincar de pincelar quimeras. A lua nova ia despontando no céu e eu sorri por saber, na minha certeza, que você também a fotografava de onde estava.

Uma vez em casa, com uma xícara de chocolate quente em mãos, um blusão de propaganda me vestindo o corpo, uma alma desnuda e um rosto que me desenhava as emoções milimetricamente, passei a observar as luzes desconexas que piscavam na rua lá embaixo. Um moço tocava violão na calçada do outro lado. A namorada ouvia. A cena daria uma história bonita para uma prosa poética, mas choveu. Choveu em mim. Ninguém compreenderia, então. Sintoma de amor. A vontade era morrer, em você.

Não explico o momento impreciso com o qual o interfone me despertou de devaneios imbecis, ao te anunciar. E sentamos os dois, descalços, distantes, ao tapete da sala de estar. Sem som algum, a única música permitida era a dos nossos acordes afins. Alguns cálices de vinho e o estrago: nossas almas sendo lançadas pela boca. E tantas verdades me doendo que eu desejei ser espectadora, apenas. Quis que fossemos uma cena de filme, feita para me emocionar pela tela. É que eu nunca soube lidar com excesso de realidade.

Aturdida, te destrinchava com meu olhar mais investigativo. Teu rosto em chamas. Nas tuas janelas, vi outro de você. Qual não foi minha surpresa ao desvendar o mistério que já não tinha: o outro de você, em si, era eu. E a lucidez se desmontou com jeito de gente grande quando pensei que ainda ontem descobri que, quando me vejo sendo duas, a outra metade de mim é você, inteiro.

Fiz um soneto, então. Éramos silêncio. Um blues silencioso. Na geografia daquele momento havíamos descoberto nossos territórios. Nos tomamos pelas mãos e senti teu hálito quente me beijar o rosto. Deitamos ali, abraçados, vendo os insetos ao redor da lâmpada amarela. O bolero tocou,novamente. E eu fui. Notei que você me trouxe de volta um jeito de sorrir que havia se perdido.

Incompreensão. Medo.

Viver sempre dava nisso. Pedi que não houvesse destino pra ancorar nosso barco. Pra imitar o livro em sua beleza e por saber você, meu porto. Pensei naquela vontade de morrer, outra vez. Porque "o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso quanto mais perto da morte".

01 abril 2009

Agora pensei em Dulce.


Meia luz. Jazz. Uma moça mexe o gelo da bebida com as pontas dos dedos e os chupa escandalosamente enquanto me observa com uns olhos famintos. Noite de caça para ela, presumo. Se Sávio estivesse aqui, certamente teria investido. Cantadas baratas, onde terminaria com ela sorrindo um sorriso de abrir as pernas. Ele então piscaria para mim, como quem está prestes a devorar uma picanha no espeto. Nível baixo, sem metáforas para embelezar balbúrdias.

Quem é Sávio? Meu colega de apartamento. Estudamos juntos na faculdade. Lembro das nossas idas às festas da USP, em Ribeirão Preto, e ele catando geral as meninas da odonto. Seleção? Elas já haviam passado no vestibular. E você, que é veterano em um curso, há de convir: as calouras fresquinhas entram dispostas a aproveitar. Por que ele faria diferente, não? Já nessa época, eu era cauteloso. Não, eu não passava em branco, mas... Eu queria ver qualquer coisa além. Sentados à chopperia, era sempre ele: Leo, saca só que bundinha gostosa! E ia atrás. Às vezes, voltava a mim com um porra, cara! Ela tem uma amiga assim e assado, ao que eu recusava, e as duas o acompanhavam.

Espia a moça, ali. Ainda me olha. Usa botas, saia curta, e não para de cruzar e descruzar as pernas. Melhor disfarçar. Psiu, conhaque. E qualquer coisa salgada para petiscar, sim? A garçonete daqui tem jeito de comissária de bordo. Cabelo amarrado, traseiro empinado. Dulce queria ser aeromoça. Numa das nossas primeiras conversas, lembro dos dizeres: eu treparia adoidado dentro daqueles banheiros minúsculos, sabe? Sempre tem passageiros com essa fantasia, que é minha também. Eu já não achava absurdo. Dulce, aliás, era um absurdo de mulher. Eu questionava que assim, nessa vida de aeromoça de filme pornográfico, ela jamais seria feliz em par. Ela dava com as mãos, e dizia, despojadamente: no céu ninguém tem compromisso, Leo. E logo em seguida, lá estava ela molhando os lábios com a língua, de um jeito que me botava doido. Naquela noite, brilhava o piercing que enfeitava seu nariz e era verde o alargador em sua orelha direita. Dulce era estudante de Ciências Sociais, à época. Sua roupagem chegava a me lembrar uma Rita Lee dos tempos dos Mutantes. Jamais contei-lhe sobre minhas impressões.

Quando conheci Dulce, eu usava cuecas. Ela usava aquele meu blusão preto, onde lia-se, em branco, a frase: o brasileiro é um feriado. Casualidades. Eu bebia uma garrafa de leite, quando ela apareceu se espreguiçando, sem me dizer bom dia. Imaginei que fosse avessa a conversas matinais, assim como eu. Deduzi, obviamente, que era mais uma das moças de Sávio. Dormira com ele, então. O engraçado é que os gemidos não me acordaram, como de praxe. Dançamos nosso silêncio enquanto o sol nascia. Ela comia uma maçã e eu a observava. Mina folgada e espaçosa. Foi a reação primeira, muda. E essa de Sávio com ela? Será? Dulce tinha peitos pequenos, que caberiam macios nas palmas das minhas mãos. Era magrela e tinha mais ou menos minha altura. Cabelos de anéis, expansivos - e desgrenhados pelo acabar de acordar. Na nuca, uma tatuagem brega, com um código de barras e o dizer made in Brazil. Usava dúzias de pulseiras hippies e uma tirinha amarrada no tornozelo esquerdo.

Os olhos de Dulce merecem um parágrafo a parte. Eram uns olhos de boneca, com cílios fartos e longos. De tão pretos, eu os enxergava azuis. José Dias certamente - e sabiamente - os classificaria como sendo olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Tudo me movia a fazer imagens surreais relacionadas àquela criatura que, a essa altura, tirava meus CD’s da ordem alfabética e assobiava trechos das músicas que eu chamava de minhas. Uma mulher vestida de si mesma, era Dulce.

Nosso terceiro encontro foi na biblioteca. Eu, em banca individual, ela, obviamente, tomando uma mesa inteira para si. Senta, torce o pescoço, se desfaz das sapatilhas, cruza as pernas na cadeira - como se meditar fosse -, mordisca os beiços, joga os cabelos para trás e os cachos lhe voltam ao rosto numa teimosia risonha. Finalmente abre o livro. Seus dedos da mão direita dançam em cima da mesa. Umas unhas borradas pelo tom carmim que fora esmalte do dia anterior. Ela me nota. Eu me aproximo. Indiscreta, comenta das minhas olheiras profundas de duas madrugadas em claro. Quatro noites. Dois dias escuros.

Não a vejo faz mais ou menos quatorze meses. Soube que estava em Londres, fazendo alguns cursos. Agora perceba essa moça do bar, de boca gulosa: está a um passo de vir até mim. Se Dulce ela fosse, estaria descalça, sim. Com um livro de filosofia aberto. Sartre, provavelmente. Já havia me confessado seus desejos de Beauvoir - será que daí surgira sua ideia de relacionar-se descompromissadamente no céu? Nunca tive vocação para Sartre. Enfim, se a moça do bar fosse Dulce, fumaria um cigarro e desenharia intenções na fumaça. Amor sempre foi chama, ao seu ver.

Posso?, a moça, com seu copo. Sorrio, apenas. Ela junta-se a mim no balcão. Teceu um discurso cansativo. A visão de Dulce subitamente me soou deveras interessante naquele momento. Pedi licença e fui fumar sozinho, em frente ao bar.

Imaginei Dulce e seus cabelos ruivos. Cabelos de fogo. Tão logo, uma estrela cadente no céu. Eu, fumaça. Sávio vinha dobrando a esquina e provavelmente levaria a aeromoça para casa. Fui ao cinema. Eternal Sunshine of the Spotless Mind. A moça.

Merda! Agora, pensei em Dulce.