26 maio 2009

Verbalizando.

- Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!

[Caio F.]

Eu já nem quero te fazer entender, não. Cansei. Minha boca abre e fecha e tudo o que teima em escapulir, eu acabo engolindo outra vez. Pode ter sido essa noite em claro, em meio ao frio, ao cinza, aos raios amarelos que eu esperei e não apareceram. Pode ter sido. Ou talvez seja apenas mais uma invenção minha. É, você sabe que eu crio situações por nós dois, resolvo, problematizo e no final já nem existia nada. Vai ver eu acabe criando propositadamente, pra poder me envolver com qualquer coisa que não seja a verdade silenciosa que fica sussurrando em qualquer presença ou ausência nossa. E tudo isso me entorpece tão profundamente, sabe? Findo expulsando incoerências destrambelhadas porque eu queria mais era te ver - te ouvir, ler, que seja - berrando qualquer coisa. Uma manifestação. Um copo quebrado, um cheiro de vinho pela sala, ou qualquer reação vermelha que me fizesse levar à boca o dedo cortado. Acontece que eu espero e as ranhuras se dão por dentro, de um jeito todo enigmático, sem pretensão tua, mas por convenção minha. Eu te chamo e não vem palavra. Te chamo e não vem você. Acabo voltando, também. Recuo um passo ou dois e fico observando com um olhar pervagante tudo o que se movimenta. Tento ser pedra, em vão. No fim eu sempre volto, sem a menor resistência, cantarolando uma bobagem qualquer, impregnada de você em todas as lembranças do futuro que não é. Somos errados, menino. De um jeito estúpido, eu penso em como seria se não houvéssemos acontecido. Eu queria expor todo o meu agora numa dessas minhas frases curtas. Queria fazer do sentimento algo claro, permitido, solto. Mas daí eu amarro tudo e vou enovelando gestos secretos que muito provavelmente te fariam tropeçar, caso desenrolasse. E eu sei, ah, como eu sei!, que você se preserva de maneira igual. Existe sempre algo que fica. Mesmo que a gente decida ir embora, algo fica. Lembro meus momentos de surto, com tuas batidas de porta. Sempre me julguei tão calma e serena que me surpreendo ao ficar de veneta nessas horas. Os pedidos para que você não ouse saber de mim, os adeus recheados de drama. E a amiga que me lembra que sou de peixes - e pra você isso não quer dizer nada. Mas me desenho besta. Teimosa. E agora, impulsiva. Impulsiva de um jeito que eu queria pegar o telefone e cantar com minha voz cor-de-rosa qualquer tom desafinado de All My Loving ao teu ouvido, porque ultimamente são os Beatles que passaram a virar desenho de qualquer momento nosso, no meu mundo. Mas eu não consigo, menino. Eu viro adolescente boba, que fica olhando de meia em meia hora pro celular, que checa o e-mail com uma vontade nada habitual e que depois lembra de ter te pedido pra ir. Lembra que talvez fosse isso que você sempre quisesse ouvir. E lembra mais ainda, que se eu me propor, posso acabar me afeiçoando à ideia do não voltar. É que... Você não acha de uma tolice tão grande essas pequenezas que em nossas mãos se tornam graúdas? Aí eu fico te contando que somos crescidos. E você discorda. E eu fico em cólera. E você vai. E daí a queda d’água interna começa a despontar, em mim. Só em mim. Começa urgente e depois fica mansa, miudinha, igual minha vontade de acordar. É que sempre sonho, menino. Sonho você sonhando comigo, eu dentro do teu sonho, você no meu, e depois... Depois eu só peço que nenhum de nós dois queira despertar. Tô falando muito, eu sei. Por nada, é verdade. Por um desenrolar exclusivamente meu diante da tua opção de mudez, que me dilacera imenso, ainda que o guardado seja insignificante. Ei. Não bate a porta, não. Porque tenho medo de trancá-la e virar muro entre nós. Eu sei que sou tonta, dramática, chata e ultimamente várias dentro de uma só. Mas você não é nada fácil, também. Nos abraçamos assim, não foi? Isso é um ponto em comum. A verdade é que eu queria deitar no teu colo, com descuido e alguma pressa, e te contar tudo isso, em meio a um disparar de palavras ininteligíveis que findasse com você me dizendo que não precisa dizer nada. É que eu não te esperava, não. E sei que você não me esperava também. Um desesperar, era? Eu queria não esperar nada. Seria mais fácil toda relação, se o não-esperar existisse e fosse possível. Esperar, desesperar. E eu tive noção de que em meio a todo e qualquer desencontro, acabamos sendo conduzidos, você e eu, para o agora. Você é uma possibilidade minha, menino. Possibilidade não verbalizada. Como um sentimento sem nome, feito de uma palavra estranha. Palavra que nunca vai caber em dicionário nenhum, e que ninguém nunca vai inventar. Repetição? Sim. É que eu tento apagar, eu minto pra satisfazer tuas vontades, te pedindo pra não vir. Mas você fica. E vai sempre ficar. Continua existindo, musicado. O inevitável dança aos meus olhos. Aí chega a hora em que distribuo um segredo: o tudo que faltava, talvez seja você. Digo e vou dormir, sem sonho, mas dentro dele.

- É que você me dói, menino. Mas de um jeito assim, pulsando: tua poesia a correr em mim.

15 maio 2009

Um decalque desatinado, de Dulce.


Trânsito caótico. Quebrei o rádio do carro e comecei a cantar, eu mesmo. Uma música que era só assobios, qualquer coisa dos Beatles. Abri a janela para jogar o toco de cigarro e fiz orações mentais para que a Lei do Fumo ficasse só em Sampa, mesmo. Notei que eu já estava parado naquela rua há mais de meia hora e permanecia inusitadamente tranquilo. Os carros em frente começaram a andar, enfim. Quando dei partida, a porta direita do meu carro verde é aberta e senta uma moça. Qualquer um sabe que poderia se tratar de um assalto e eu poderia estar com uma arma diante da cabeça, mas não. O cheiro de incenso tomou conta do ambiente. Respirei: Dulce.

Continuava a mesma, em sua transparência de fantasma. Talvez fosse, de fato. Essa dúvida tresloucada me fez mergulhar num silêncio irreal. Eu já havia esquecido os compromissos. O carro ia sendo guiado às avessas. Olhei pro lado para me certificar que era ela. Foi quando meu rosto consumiu-se por um beijo. Definitivamente, era ela. Havia voltado, então. Nem um telefonema, um aviso, um sinal que me fizesse buscá-la no aeroporto. Sim, tenho noção do quanto soa patética minha imaginação e que Dulce jamais se importaria em alertar alguém sobre chegadas e partidas, mas eu queria ter sido o primeiro rosto que aqueles lábios conheceram. Ela continuava a ser minha ideia platônica.

Não trocamos nenhuma palavra. Ela olhava pela janela, ensimesmada. Resolvi acender outro cigarro. Parei o carro no acostamento e o isqueiro vermelho fez fogo. A fumaça ia tomando conta do ambiente, se misturando ao cheiro de incenso. Ela me olhou, séria. Eu olhei para a boca. Não moravam ali dentes perfeitos, mas se montavam num sorriso avassalador. Pareciam convidar meu corpo inteiro para fazer festa. Ela não estava mais bonita ou atraente, não. Mas aquela porra daquela vis(i)ta ardente, só o cigarro sabia acalmar. De unhas escuras, largas e curtas, ela aproximou os dedos em minha boca, pegou o cigarro para tragar, enquanto prosseguia na história. As histórias dementes continuavam, mas Dulce parecia outra. Eu arquejava, num desejo incontido de tocá-la, inteira. Olhava, numa estupefação consciente, sabendo que ela adorava notar essa expressão em meu rosto, ou no de qualquer um. Dulce se alimentava de insanidades prosaicas, e eu achando que havia me acostumado. Temi saber seu objetivo ao entrar num carro verde. Parei no café mais próximo para conversarmos.

Escolhi uma mesa enquanto ela foi ao banheiro. Pensei em ligar para Sávio e contar das novidades, mas desisti. Ele certamente me incentivaria a organizar uma série de putarias para prendê-la. Sorri por dentro, pensando nas cócegas que Dulce proporcionava a minha alma inquieta. Pedi um café para esperá-la. Coloco as mãos na cabeça, em posição de descanso, e observo o nada no momento em que ele é preenchido por presença. Ela, cigana. Cabelos indomáveis. Uma camiseta branca, colares, uma saia estampada que dançava sobre seus pés, aqueles olhos preto-azulados, e uma rosa nos cabelos. A rosa era invisível, coisa minha. Pensei em despi-la ali mesmo. Dulce veio até mim, séria, e sentou-se ao meu lado. Odiei que fosse assim, porque queria meus olhos nela, mas tão logo senti nossas peles em comunhão, mudei de opinião.

Porra, me beija! Foi o que ela disse, com uma vontade urgente dentro de uma voz mansa que parecia poesia errada. E me entregou os lábios com uma castidade que eu jamais imaginaria nela. As mímicas se alargavam. Dulce vinha chegando pra dentro de mim, pulsando. Fomos ímã por um momento que não era tempo. No fim, eu me perguntava se isso aconteceria caso o homem do carro verde fosse outro. Mas, quer saber? Que vá à merda tudo que não seja o agora.

Fomos ao apartamento. Sávio não estaria lá, tinha viajado para visitar a moça de Fortaleza. Sempre, em todos os anos naquele prédio, subi escadas. Mas Dulce era mutante, exercendo poderes promíscuos em minhas ações, ou na falta delas. Nem notei que estive no elevador, em meio a carícias impraticáveis. Não, nem dormimos juntos. Ela apagou, de repente, abraçada a uma garrafa de vinho. Linda, com aqueles seios de pera, vestida de uma nudez apaziguante.

Manhã seguinte, minha boca era seca ao sabê-la voltando a Londres. Ela, vestida de sol, estirou-se ao meu lado no sofá. Fumava já, àquela hora. Com um gesto que ainda não tinha sido feito, me contou que eu era seu brinquedo sério. Nos levantamos, fomos para o aeroporto. Tomei uma coca e ela mordia uns cubos de gelo. Última chamada para o voo e nossos olhos se encontraram. Na mesa, um sinal de batom no guardanapo. Enxerguei seus lábios ali, resolvi que era um beijo-recordação. Coloquei-o no bolso.

Caminhei mudo ao seu lado. Já não tinha fila para embarcar. De repente, como que numa tentativa impulsiva de prendê-la a mim, disse-lhe: casa comigo? Ao que ela respondeu:

- Não fode, Leo! - e caminhou para o embarque com um olhar obscuro e borrado, sem notar a rosa que lhe despencava dos cabelos de fogo.

Incompreensão é algo mágico, definitivamente. Dulce não desconfiava, mas sua voz foi esquecida em meus ouvidos.

________________________________

Dulce nasceu aqui, passeou aqui, e voltou hoje..
Essa noite, feriu de Vermelho a retina dele.