26 junho 2009

Declaração.

Para o moço do carrinho de pipocas.

Fazia frio e ele deve ter percebido minha tentativa de embrulhar as mãos com as mangas do casaco. Ou meu olhar perdido, enxergando tudo e nada. Parei ao seu lado por alguns segundos na dúvida sobre qual caminho seguir. A dúvida era só pose, eu penso agora, porque qualquer caminho daria em nada. Parei debaixo da árvore triste, quando ele me disse:

- Uma pipoca por um sonho, menina.

Eu olhei. Meus olhos castanhos estavam nublados, mas souberam brilhar ao notá-lo sorrindo. Recebi o pacote e falei um desconcertante obrigada, moço. Não aceitou minha moeda. Refleti acerca de suas palavras e percebi que ele talvez houvesse escutado uma lágrima chorosa no meio da minha desorganização. Pedira um sonho. Dei um aceno tímido com as mãos, enquanto ele atendia dois meninos de risada banguela. Me sorriu outra vez.

- A vida é bonita, criança! - foi a frase gritada enquanto eu me afastava. Dei meia volta e o encarei. Precisava que ele fizesse leitura do meu sorriso, que dizia assim:

Eu declaro ser boba, moço. E ingênua. Forte, apesar da pose de quem se desmonta fácil. Apaixonada, talvez. Ridícula. Medrosa. Procrastinadora de atos urgentes e também dos desimportantes. Sou uma saudade e um banco de praça coberto por folhas secas de um outono que não é meu. Não tenho paciência para conversas tristes. Posar de vítima soa deprimente. E não entendo como meu rosto se desmancha numa seriedade obtusa assim, de repente, gerando interrogações de quem me cerca. Eles não entendem. Sabe, moço, não é todo dia que eu quero sorrir, não. E pensar que já houve uma época onde isso era o meu melhor, era o que fazia as pessoas pedirem por mim. Hoje não tem ninguém. A distância é algo estúpido, moço. Não falo nem de geografia, aqui. Falo de interposições criadas por conveniências minhas. Eu sou ostra, viu? E não sei permitir que no meu lado de dentro venha morar qualquer coisa que não seja pérola. Nem é pretensão, não. Pode ser comodismo. É que eu me acostumei a ter as melhores pessoas do mundo como parte de mim e isso era o suficiente. Eu não dava importância para o novo, o desconhecido. Não sei se você entende, moço, mas dá um trabalho danado se reconhecer nos outros, querer pra si, driblar os defeitos, contar dos seus, todas essas coisas que surgem em primeiras relações. Eu queria que já viesse tudo pronto, moço. Queria. Aí eu era completa, então.

Declaro, também, que esse era é algo que nunca foi. É que eu sou sozinha, em qualquer canto. Sei lá, eu acho graça, você não? Sou dona de um sarcasmo estonteante, digo. As pessoas às vezes acham que estão acompanhadas no mundo e se apegam a isso de uma maneira que me assusta. É que, moço, todo mundo vai embora um dia. Vai porque quer, vai porque Deus chama - não importa. E eu sempre tive muito medo disso, mas quase não penso. Outro dia mesmo eu quis casar, ter filhos e ver como a vida ia. Hoje eu não quero mais. Amanhã, vou querer tudo de novo. E pra sempre. Odeio querer as coisas pra sempre, moço, você não? Tudo é tão efêmero por aqui. Tem horas que eu fico lembrando do que eu nunca soube. Você deve estar se perguntando se eu sou feliz, não é? Eu digo que não sei. Digo que sou. Num descuido ou em outro, acabo sendo. Ah, eu sou incoerente, também. Semana passada contei por aí que eu sou uma fraude. Sou tanta coisa, moço. E nada. Essa história de não poder olhar pro lado e encontrar uma gargalhada cúmplice, já não tem graça. E os fins de semana, moço, passam lentos como se fossem um filme ruim demorando pra terminar. Não pensa que eu tô só reclamando, não. É que hoje não entreguei sorriso, sabe? E agora que ele se mostra, vai despejando tudo o que esse céu nublado diz. Sou uma nuvem de chuva, agora.

Declaro ainda, moço, que eu tenho sonhos. Eles escorrem em mim inteira. Mas acontece que sou uma insônia e os dias viram duas noites. Tá faltando cor. Cinza é cor, moço? Acho bom eu ir embora, antes que tudo chova. Prometo novos sonhos. Um resgate dos que se perderam. Toma moço, esse sorriso. Coloca ele de enfeite no teu carrinho azul. Lembra que você foi responsável por mim, hoje, nesse entardecer. Lembra, moço, que meu sorrir é quem fala, porque eu não sei lidar com palavras, não.

Declaro por fim, moço, que eu vou ser feliz. Criança...


E fui.
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[Numa tarde de um início de maio].

17 junho 2009

Último Romance.

Ao que há de vir.

Escuta daí essas palavras que o vento sopra em teus ouvidos, moço. Não se assuste com essa brisa, não. É coisa minha. Coisa linda. E dessa coisa assim, igual a você, não há de haver outra. Já contei que quando da tua chegada, essa minha parte que falta, pedaço do meu inteiro, acabará onde começa você? Justinho você, que já é meu, sem nem saber sequer. Eu tampouco sei. Sei, entretanto, que farei de você um lugar e ali será minha morada. Mas não tenho pressa, não. Não tenha pressa você também.

Enquanto você não vem, fico daqui, mãos ao queixo, pensando em como tua presença primeira vai calar minha voz. Imaginando a ventura de poder enfim saborear a plenitude dos versos daqueles poetas que leio, enquanto desenharei você. Peço de antemão que, quando você chegar, entenda minha timidez, esse meu ar recuado, e não deixe que isso sirva de empecilho para tocar tuas notas. Vou gostar de ouvi-las. Você vai cantar em mim e minha alma desabrochará em flor, espalhando aquela sensação de que sempre fomos um. Me despirei então, pétala por pétala, e te contarei dos planos que andei pintando para nós dois durante essa espera.

Cabe aqui avisar que você me descobrirá boba. É esse meu jeito assim, feito com um pedaço de cada amor errado. Meu jeito cheio de engano e de imperfeição. Leio poesia mas ainda não aprendi a vivê-la. Carrego sempre um verso no peito - esse verso pode virar você. Então, menino, se você chegar a conhecer esses meus lados às avessas, é sinal de que consigo ser eu mesma quando na tua presença. Isso se você prometer não correr ao me notar de pijamas e cachos amassados, daquele jeito desgrenhado e louco, a cada amanhecer.

Eu não vou ligar se você me acordar no meio da noite, dizendo que ninguém mais poderia ouvir o que você tem para contar. Vou amar tua cara de sono, ceder a cada pedido de beijo teu, fazer dos teus braços cobertor e brincar com teus cabelos entre afagos, cantarolando baixinho uma melodia qualquer, até você adormecer outra vez. Prometo não contar para ninguém das estrelas que você trará consigo. Vou apenas fotografar o luar em teus olhos a cada anoitecer. Aí, entenderei do mistério com o qual você foi afastando minha solidão, enquanto chegava assim, tão sorrateiro em seu silêncio, quase sem me deixar perceber o prenúncio dos teus passos.

Quando esses olhos castanhos te observarem como quem mira ilhas distantes e eu me fizer calada, saiba que nessa hora eles estarão sendo acarinhados por tua imagem em minha frente. Eis minha explicação para o não piscar. E em meio a carícias doces e tão suaves, sentidas como se feitas por lábios, me perderei em teus abraços. Farei deles meu abrigo. Gosto dessa história de corações conversando. Durante essa conversa, brincarei de descobrir teu cheiro. É que assim, quando você estiver um tanto longe, eu vou gostar de quase poder enxergar você quando alguém exalar essa tua essência numa esquina qualquer.

A cada entardecer após teu pousar, vou grudar nossas mãos e sussurrar um sem fim de amores ao pé do ouvido. Aí você vai me mostrar esse sorriso lindo que carregará no rosto - o sorriso mais terno de todos. E meus dias se iluminarão. Isso às vezes, pois não sou dada a declarações, surpresas e apelidos fofos. E quando eu já for assim, coisa tua, vez ou outra te observarei ao violão, também. Ah, você tocará lindo, mesmo quando desafinado. Me aproximarei de leve, para não te atrapalhar. Meu coração ali, batendo descompassadamente mais uma canção por você.

Viveremos também momentos de zanga, claro. Discussões acontecerão. Mas sei que faremos disso motivos para procuras maiores. Não nos perderemos. Nos entenderemos no silêncio e distribuiremos gentilezas. Seremos amizade. Pedaço inteiro. Que é para nos sabermos suporte. Para nos fazermos chão firme um do outro durante aquelas crises que nos invadem nessas tardes de uma terça-feira ociosa qualquer. Meu riso será teu nome. Quando você finalmente chegar desses confins do não sei onde e eu abrir a porta, moço, me livrarei dessa saudade assimilada que me preenche e não acho que vou querer fechar os olhos outra vez. A cada chegada tua, ouvirei as flautas. E as almas em dueto ensaiarão uma busca infinda de singularizarem-se.

Será que esse meu desenho das tuas linhas incertas vai fazer nosso encontro em alguma curva? Eu nem me importo com um barraco, um coqueiro, uma lua, o mar e você me contando tuas coisinhas. Prometo nem implicar quando você contar pela milésima vez o mesmo caso. Vou ouvir as histórias de você atenta ao teu gesticular de mãos, decorando teu piscar de olhos, teus ais, tua tez, aprendendo a enxergar a transparência da tua alma. É que quando acontecer nós dois, tão logo meus sentidos borboletearão. Haverão palavras trêmulas. E no meio dessas palavras soltas, a gente vai entender segurança. Cada instante será sempre. A redoma feita desse amor protegerá nossa poesia.

Veja bem, não escreveremos nenhum conto de fadas, não. Contos são curtos por demais. Mas posso segredar uma boniteza? Escreveram por aí que juntos viveremos nosso último romance. Arrisco acreditar. Sonho tua voz e escrevo você existindo para me roubar coisas que já são tuas.

Mas enquanto você não vem, menino, brinquemos de tempo-será, tal qual o poeta. Uma hora dessas acaba sendo. Vamos de mãos dadas.

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Título emprestado do Último Romance, de Amarante, o hermano.

[Escrito em junho de 2008].

13 junho 2009

Emanuella.

Para ela, a mais amiga, num dia seu.

A culpa foi do Cefet. Foi daquele ano de 2001, quando ela apareceu em minha vida. Apareceu como a moça que sentava nas primeiras cadeiras da sala e que fazia as horas de intervalo passarem rápido demais. Uma afinidade desencontrada, com ela confessando me achar séria demais para suas piadas. E isso passou, tão logo. Nem lembro quando minhas ligações pra ouvi-la me fazer sorrir, passaram a ser chamadas de uma Jaya em prantos, buscando serenidade. Uma base infinitamente alicerçada, eu sabia ter encontrado. Manu é minha mais amiga, de um mundo inteiro que passou. E isso foi se firmando de leve. Com primeiras fotografias em um terminal de ônibus. Ônibus que a gente fazia questão de perder, pra não deixar a conversa ir embora logo. Ela conheceu meu lado mais tagarela e não achou tão ruim assim. Presumo. Presumo talvez porque ela nunca tenha ido embora. Talvez porque conheceu meus instantes mais insuportáveis e resolveu confrontar com aquele jeito de baixinha briguenta, mergulhada numa maturidade espetacular. Manu é das pessoas que mais me trazem orgulho na vida. Dona dos meus sorrisos mais sinceros, mais escandalosos e mais irônicos. Porque a gente já ultrapassou o ponto daquela história onde um olhar falava pra caramba. Com a gente, o corpo inteiro já falava, só de saber-se debaixo do mesmo céu, da mesma cidade. Manu é a responsável por fazer um show de Zé Ramalho ser inesquecível, mesmo com minha enxaqueca em nível elevado e uma prova no dia seguinte. E um tal de Jaya presta atenção como ele é magrela e tem um nariz louco, abismada em como aquela voz vinha dali, de dentro daquele corpo. E vinha, e foi nossa. Manu é assim, a única que podia abrir meu armário de CD’s e levá-los [quase] todos embora, de uma vez, sem data prevista para entrega. A única capaz de me tirar de casa, me jogar num ônibus, e me fazer viajar pelo interior desabitado de um estado insanamente belo. De me fazer perder os cabelos por me encontrar num local deserto, após algumas horas, e ficar hospedada numa pousada estranha. Noite em claro, de pernas pra cima, sem sair do quarto, reconhecendo nossas vidas de maneira tão clara como nunca se fez. Um marco, eu diria. E digo. Porque lembro da noite seguinte, ela com uma lata de cerveja e ouvindo-cantando-dançando o tom mais inusitado de My Humps. Sem nem ligar pra minha cara de alguémmesalvedaquiemelevepracasa,agora! Manu é louca. Talvez por entrar na minha vida pra sempre. Por me fazer pedir pizza na praça movimentada, junto com Cora e Éden. E o entregador achar normal nossa bizarrice e cara de sem vergonha. Mesma praça cena de um piquenique. Mesma praça de conversas na grama, com coca-cola mil litros. Com eu e Chafic caminhando como pessoas normais que somos [hein?] enquanto ela jogava o boné de Rodrigo em cima das árvores e ele corria atrás, xingando. A pista de kart como lugar de encontros marcados. As chuvas, o violão, o clã, os Clowns de Shakespeare. Manu, sempre minha. Porque ninguém mais sorriu da minha cara quando eu disse que gostava do cara mais insensível de todos e depois se desesperou na tentativa de trazê-lo pra mim, quando eu já não queria lutar. Porque pedalar uma tarde inteira pela cidade virou história, com uma parada estratégica para hambúrgueres, batatas fritas e milk shakes antes de voltar pra casa. Umas conversas desesperadas sobre nosso fanatismo inexplicável por Harry Potter, e as sessões de todos os cinco filmes anteriores de uma vez só, lá em casa, pra ir assistir ao sexto no cinema e chegar à conclusão de que os meninos estão virando homenzinhos, Manu! E depois explodir com um cachorro-quente na boca, ao ouvir uma declaração de eu pegava o Snape, ó! Ah, os cachorro-quentes desperdiçados por ela, após os cinemas! Moço, o meu é sem salsicha, sem carne, sem verdura e... Sem o que mais, Jaya?! E findar sorrindo do meu rabo de olho. Porque eu amava xingar o desperdício dela. E a cara de bobo do atendente que nunca entendia nada. Manu é a melhor companheira de filmes. Talvez porque não estranhe conversas tresloucadas sobre Almodóvar, ou inclusive goste, exaustivamente. Talvez por chegar lá em casa, numas noites de sexta-feira, com uma pilha de filmes, dizendo esse é gay, esse é bestinha, esse parece ser engraçado - pela capa, e esse eu trouxe pra você, porque é com teu marido. Ninguém mais, pra dizer que Johnny Depp é meu marido, assim, sem pestanejar. Ou pra chegar buzinando no meio da rua e me mandar botar uma roupa, que eu tô ótima e a gente tem que sair pra uma conversa séria. E eu voltar pra casa com dor no maxilar, de tanto sorrir e comer. E eu sempre ia, porque às vezes era sério mesmo, e os problemas dela eram meus. Sempre. E os meus, dela. Isso é uma constante, em nós. Manu sabe de mim como ninguém mais. E eu sei dela, também. E por isso eu me deixei tomar uma caipirinha, misturada com pizza de atum, e ela chamando os garçons da pizzaria de Grinch, em voz alta. E ambas tontas, ao final, fugindo de um casal inconveniente e enchendo a cara de sorvete. E a certeza de que nossos melhores porres foram com coca-cola e que a Jaya ficou muito chata depois que decidiu ser saudável e não bebe mais da nossa droga. Só ela tem moral pra chegar lá em casa fazendo barulho, mandando abrir a garagem dos fundos, guardando seu teletransporte, sendo xodó de Rebeca, quebrando o pau com Éden, conversando música com Sofia e tendo moral pra chamar Clara de Clóvis. E depois, ouvir minha mãe reclamar de todo mundo junto. Só ela. Só. A moça que liga dizendo Jaya, os caras da tua vida estão aqui na UFRR, hoje. Um grupo de hippies, era. E sim, eu adoro. Manu foi quem me fez provar uma cachaça mineira pura e soltar fogo pela boca. Depois passar a noite conversando nada com nada, com uma capacidade única de deixar tudo se impregnar de sentido, nessa hora. E eu nunca disse que amo. Nunca, porque sou uma besta de coração de pedra (de açúcar) que não sabe demonstrar sentimentos. Ou talvez porque as atitudes saibam valer mais. Talvez porque seja mais que amor. Talvez, porque ela seja a única que já me ouviu cantar e tocar Por onde andei, ao violão, com dedicatória. A única que merece torpedos monstros madrugada adentro. Talvez, porque ela tenha cuidado de mim quando fiquei com dengue, até altas horas da noite. E depois foi me visitar no hospital. Não sei. Manu me cobre de uma segurança tamanha, que dar em cima de Zeca Baleiro, ano passado, soava como algo banal. E pular, gritar, mandar beijo, dançar, e etecéteras, era sonho naquele show, com ela do lado. Ela que vinha comigo pra onde eu fosse, e ia bem, porque ia comigo. Ainda que não fosse falado o caminho, que ela me chamasse de Gandalf e contasse que a comitiva fracassou - quando não dava em nada. Manu e Eu. Ainda não fizeram igual. Não farão. E quando eu vim embora, uma semana antes, todos os dias foram nossos. Uma despedida silenciosa, que ia doendo de leve, mas a gente ainda nem percebia. Que findou numa última sessão Jack Nickolson. Algo como um dia de São João, com Éden correndo enquanto suas calças caiam pelas pernas, no meio de todo mundo. E caipirinha. E eu descalça no meio do asfalto, dançando com uma possibilidade de amar. Daí fico aqui, lembrando bobeiras, com uma enxaqueca infeliz e não cabendo em mim de saudades. Porque eu decidi que ia embora. Vim. Ela ficou, fazendo com que eu não viesse inteira. Não vim. Tô lá, ainda. E a certeza aumenta a cada torpedo dela contando de um show de Serginho, de uma música de Neuber, de algo que nos faça encontrar em distâncias. É um grito desesperado meu e um afago dizendo se nada der certo, te espero, e a gente vira hippie, vai ser mara! Mas vai dar certo pra nós, baiana. O resultado é qualquer coisa como meus olhos enchendo de lágrimas, ao ouvir Nando cantando Por onde andei. E a promessa de um show, juntas. Ou então essa coisa errada, assim, de não ter ninguém me chamando de baiana, aqui na Bahia. Pelas poçõezinhas, pela pronúncia exata que eu [e só eu] tenho do nome dela, pelo jeito dela de misturar espanhol e português, pelas histórias dos seus alunos pequenos, pelas falas de Ó, paí, ó!, por Neuzeleno, pela calçada da rua de trás. Por Roraima [e amizade] ser sinônimo dela, de certa forma. Tudo isso resulta num texto incoerente. Porque quando é pra valer e quer sair despencando do coração, não dá pra ser só bonito. É saudade, misturada com vontade de gravar em letras tudo o que já foi, da gente. Então, pra finalizar, poeticamente falando:

- Manu, você não vale nada, mas eu gosto de você!

03 junho 2009

Imagina que sou Tua.

Da obsessão desconexa.


Eu armo cena. Eu armo cena, baby. Primeiro, eu procuro saber dos teus caminhos. E sei. Descubro todos os teus passos e te persigo numa pose fantasmagórica. Faço cara de recém-saída do manicômio e você debocha de mim. Pobre de você, que nem sabe que a loucura maior é te amar assim, desvairadamente. Me deixa te amar? Te amar, sim. Te amar sem receitas. Te amar sem.

E você não olha pra mim. Por que você não olha pra mim? E se eu pintar minha boca num vermelho sangue? Se eu te sussurrar sacanagens ao pé do ouvido, mordiscar teus lábios, rir um riso de terceiras intenções? Se eu subir no salto, naquele vestido vinho que desenha minhas curvas com um decote que deixa minhas costas inteiras de fora? Se eu prender meus cabelos no alto e deixar teus dedos passearem em minha nuca para depois se perderem no meu corpo inteiro? Se eu elogiar teu perfume barato que me faz espirrar? E se eu montar um espetáculo? Se eu cantar embaixo da ponte? Será que assim você me olha? Me olha.

Eu quebro a garrafa na mesa do bar. Eu bebo e saio despencando com o copo na mão, catando os versos que você destrói enquanto some por aí. Ando no meio do trânsito caótico da avenida mais movimentada. Eu colo declarações em todas as paredes, salto de pára-quedas, tiro onda de romântica, morro de chorar, borro minha maquiagem, beijo outros caras na tua frente, fumo dez cigarros ao mesmo tempo, grito até ficar rouca, canto as músicas mais bregas. Deito nua, na cama, esperando você - cobertor que não vem.

Eu vomito. Quebro o espelho, tomo uma ducha gelada enquanto neva lá fora. Vou pra boate, danço com você, me encho de esperança, vou ao banheiro, retorno. Você tá com outra. Vadia! E você nem me olha mais. Me maltrata a visão. Eu saio de mesa em mesa fazendo pose de fácil. Jogo duro com você e me entrego a qualquer um. Saio de lá acompanhada, gingando, sorrindo. Por dentro, em pedaços. Boto fogo no apartamento. E se ao menos você me olhasse.

No fim de semana eu apareço na tua porta. Eu jogo pedras na tua janela, perturbo a vizinhança, falo coisas sem plano nenhum, berro crueldades. Você me toma por desatinada. Eu sorrio sem aflição. Tua cara, na porta. Eu fico em chamas. Fico querendo descolar alguém pra dormir, que o céu tá cinza há muitos dias. E do teu olhar eu nem sei. Pura hipocrisia.

Porra-louca que sou, queria mais era você me sufocando. Te contaminar com minha lucidez demente. E faço chantagens, uso os piores truques, furo o pneu do teu carro, te ofereço carona (em mim). Te ensino a me amar, você reprova. Me devora sem saber degustar. Repete o prato, me mastiga, e eu só queria que você me engolisse de uma vez. Pousasse teus olhos em mim.

Me azeda, baby. Me adoça. Viro fogueira, se você se dispuser a me acender. Te deixo domesticar meu jeito selvagem se teus olhos mansos passarem a ser meus. E só meus. Eu acordo querendo encrenca. Invento golpes perversos, digo que você é meu cúmplice. Te beijo a boca até você abrir todas as portas. Te destravo. Você se vicia em mim e passa a perambular por aí, pirado. Vive um viver destrambelhado, feliz pelo meu amar incontrolável.

Viro guitarra de você e me entrego a cada dedilhar. Danço em teu corpo inteiro feito bailarina. Você gosta dos meus olhos, eu despetalo as rosas. Você xinga a exatidão da vida, me escreve bobagens num papel. Eu danço pra você na mesa do nosso jantar, te faço discursos longos sobre as coisas que despencam do céu sem porquê algum. Você me olha de baixo e me puxa, me aperta. Chove lá fora. Te empurro na piscina, a gente se cola. Os pingos cantam velhas frases decoradas.

Eu volto pra sala e deito no chão, molhando a casa inteira. Vejo os insetos em volta da lâmpada, Bob Dylan no som. Você reclama dos meus gostos. Me olha, guloso. Me olha sem piscar. Me olha. Teus olhos, meus olhos, o tapete. Você afasta meus cabelos que deslizam sobre o rosto e te tenho ao alcance da minha boca. Minha língua querendo provar do teu gosto. Você me pede suor, eu desenho em você dois seios, um ventre, as pernas. Poesia arranhada nas tuas costas pelas minhas unhas em carmim. E nos teus braços, me esqueço. O silêncio canta. O tempo é nenhum.

Dia seguinte, manhã. Eu tomo a coca-cola, você me pede em casamento. Desfaz a ordem da música de Caetano. Você não entende nada. O bom não é mais. Eu cato minhas roupas espalhadas pelo quarto e resolvo que Paris é a solução. Porque talvez essa minha busca pelos teus olhos fosse pura vontade de sexo. E agora, nem me fita assim. Ou transa, ou bate a porta na saída. Deixa a chave na mesinha.

[Em novembro de 2008].