28 agosto 2009

21 agosto 2009

O dia em que você me disse "eu te amo".


Eu diria que não é assim desse jeito, que sua insanidade nunca ultrapassou seu jeito de soprar letras ao meu ouvido feito canção de ninar. Talvez sempre houvesse em você essa necessidade de apanhar meus olhos em lágrimas, rindo da minha cara de espanto ou de bebê chorão, como você gosta de me chamar. Posso ser o que você quiser, já lhe disse. Só não me leve embora aquele nosso dia que foi embrulhado inteiro e colocado na nossa caixa de correio com o destinatário escrito em giz de cera: a vocês. Foi como se o mundo inteiro estivesse num único compasso, girando num propósito egoísta: o de nos fazer dançar. Assim li no seu abraço, aquele que você me deu pela manhã, num comportamento nada físico que atravessou o telefone junto com a rádiofrequência que trazia sua voz pra mais perto de mim. Foi como se mil pisca alertas tivessem se ligado ao mesmo tempo: me veio um clarão e a sensação de que havia coisa melhor do que ler poesia. Viver poesia. Fui embora de casa numa vontade louca de encontrar você andando distraída, indo comprar nossa passagem de lua-de-mel. Morava em mim também uma saudade doentia que pedia você em qualquer rosto estranho que passava. Nunca amei assim, pensei de um jeito que deveria ter escrito, porque foi bonito. Mas lembrei que o sentir nunca vai pro papel, e essa sempre foi nossa dificuldade.

A manhã, por milagre, quis passar depressa e caminhei apressado pro nosso ponto de almoço, com o coração tão ansioso como no nosso primeiro encontro. Encontrei-a em um estado lacônico e mergulhei meus cabelos em seu ombro, buscando seu afago e remédio que me caíam tão bem. Nossa respiração mantinha o mesmo estranho som que se encontrava despropositadamente. Aquilo nos fez rir. Suas mãos puxaram meu rosto e vi um beijo nascer dentro dos seus olhos. Vi que em você, tudo nascia primeiro nas íris e depois ia tomando forma em qualquer parte do corpo, àquela que cabia. Almoçamos enquanto tocava uma música imaginária que escutávamos muito bem. Casal estranho, pensaram os que estavam em volta, mas não entendiam nada de sonhos. Você me disse do futuro e das coisas boas que nos esperavam. Acreditei.

Pensei que talvez acabassem morando em nós infinitos pluriamores sem conjugação. Seus olhos tão mais perto me botavam um medo sem nome, do tipo que me transformava em piano, fazendo notas ecoarem a cada vez que suas pálpebras se entreabriam. Você entregava um sorriso displicente, como quem dizia eu não tenho nada a ver com isso, deixando de lado a impressão ensimesmada de quem carrega uma lua em cada retina. Lembrei dos nossos defeitos fuçados, expostos, e como seu jeito cabia em meus esconderijos. Nossas mãos brincavam numa distração inocente, provando de gestos antes nunca feitos, quando o moço quis saber o que servir. E nossa música sem nunca acabar. Uma história de cinema mudo. Um tic-tac do relógio na parede central, retumbando com o bater desafinado do meu coração-cofre recém aberto. Os ponteiros todos corriam, e no guardanapo em cima da mesa, sua boca sem batom borrava de poesia vermelha aquele branco sem história. Senti aquilo de todas as letras mais lindas escrevendo sobre nós.

Você dobrou a esquina levando consigo meu sorriso e deixou em meus olhos todos aqueles sem fim de beijos cancelados pela ausência silente que era companhia quando não nos tínhamos. Coisas perdidas em caixas sem fundo, e você meu melhor achado. Quis que a noite logo chegasse para que eu te encontrasse em casa mordiscando o lápis e rodeada de papéis amassados, irritada pelas palavras que não chegavam e escrevendo amor enquanto me enlaçava outra vez naquele abraço que confirmava a maneira em como teu corpo combinava com meu desenho. Todas as cores. E logo após você sentava no braço da minha poltrona, escorregando macio para chegar até mim, enquanto a mais delicada carícia parecia ter sido construída dentro de uma eternidade que eu desejo caber em nossos minutos todos. Conversas intermináveis surgiam, e adormecíamos respirando poemas dos nossos montes de livros, fazendo exalar toda a euforia sufocada que acompanhava os momentos onde não éramos, ainda. E nessa apoteose onde nada nunca rimava, eu me (re)descobri amando você. Sem-razão.

E muito provavelmente você não saiba, mas quando seus olhos se borraram com esse fio de lágrima ao me ouvir amante, eu escorria para o seu lado de dentro. Pura teimosia sua em querer desencantar aquelas três palavras de encanto, que ressoaram como sendo um conto em meio àquela textura de sonhos que seus lábios carregavam. E foi sempre dia.



____________________________---º
______________________

Escrito com Filipe.

08 agosto 2009

Às vezes te odeio por quase um segundo...

... depois te amo mais.
[Quase um segundo - Herbert Vianna]


Eu odeio muito você ter aparecido em minha vida. Odeio você ter chegado com esse sorriso-que-cabe-o-mundo e despejado essa coisa sem nome dentro de mim. Odeio tudo isso ter me parecido algo muito certo. E único. Algo feito só pra mim, por você. Como se tudo, toda aquela demência, tivesse sido efeito de uma poesia frenética que montou em mim e quis ser tua na mesma intensidade com a qual você me recheava. Odeio.

Odeio você ter a letra bonita. E odeio que a primeira carta tenha chegado num envelope transparente. E mil e uma borboletas de uma vez fazendo festa no meu estômago vazio. E meu coração-motor-de-amor-maior, inquieto, medroso, entregue, piscando. Piscando em sinal de um alerta que ele mesmo, estúpido, não conseguiu dar conta. Odeio ser brega por tua causa. E toda essa coisa de sermos feitos muito pra nós dois.

Odeio sonhar com você, achar tudo real, e acordar impregnada por tua presença que não tenho. Odeio essa coisa bonita que sai daí e me pega no colo de um jeito meio felizesparasempre. Odeio pensar em você. Odeio ser louca e te mandar torpedos esquisitos. Odeio meu coração descontrolado ao te ouvir ao telefone e a vontade infeliz de querer te contar do que até hoje eu não sei, e continuo querendo.

Odeio você discordar comigo. Odeio que você tenha quebrado meu coração durante uma crise tresloucada e que eu tenha te xingado de egoísta e covarde. Odeio nunca ter conseguido chorar por você, e mais ainda a certeza imbecil de que isso se deve ao fato de que eu sei que esse você e eu é tão nós, que nem adianta chover pra nascer mais flores. A raiz tá fincada em todas as entranhas.

Odeio você indo embora. Você sabe que eu odeio a maneira como você sai. Odeio não me cansar de você. E odeio estar aqui, escrevendo, enquanto o incenso de qualquer-coisa-que-me-leve-ao-teu-encontro queima. Odeio já ter prometido que quando tudo virasse pó, faria da gente o mesmo. E o incenso nunca chega ao fim. Guardo a essência, colada em cada canto do meu quarto, e me embriago de um jeito que uso todas as palavras grandes, sem nem ligar.

Odeio teu medo. Tua insegurança. Meu medo. Nossa história respingada de pontos finais que acabam virando reticências. Odeio sermos tão parecidos. Quando você diz precisar de mim. Ouvir Por onde andei. Ir ao show de Zeca Baleiro sem poder te olhar quando ele diz sobre partes de estradas em caminhos. Odeio ver tua cara nas coisas que leio. Odeio precisar te mostrar algo e saber que só você vai entender. Teatro Mágico. Gostar das tuas irmãs. Teu sotaque. A semelhança das nossas coisinhas vividas quando ainda nem éramos.

Odeio você ser meu escritor preferido, materializado. E quando você me manda parar, quando começo a te elogiar. Odeio sonhar com um livro teu na minha estante, escrever textos pra você e que eles sejam os que todo mundo mais gosta. E odeio mais ainda quando você os responde, ou escreve pra mim, também. Odeio tanto quando você escuta meus detalhes exagerados de histórias desinteressantes e a maneira como lida com isso.

Odeio me engasgar de você. Odeio voltar. Odeio não conseguir ser firme em minhas decisões relacionadas a tudo isso. Odeio apagar as luzes, e você ser vagalume, vela, lanterna e depois sol, me acendendo inteira, notando minha tentativa frustrada de fazer brilhar qualquer coisa amarela entre gravetos espalhados contra o vento. Odeio tua serenidade que me faz te querer como cais na hora em que tudo desmonta. Odeio te querer bem, muito bem.

Odeio principalmente, saber que tudo isso é mentira. Perder meu sorriso em você. E ainda guardar um pedaço de céu, todo roxo, pra te dar de presente quando nosso diálogo mudo vier ditar o vir a ser.

No fim de tudo, o que mais odeio, é abraçar todos os teus defeitos. Sabê-los tão distantes, ao compará-los a tudo o que temos de maior. Só não odeio tudo isso quanto odeio não ter você por perto, quando quero, ocupando todos os meus lugares mais lindos.

Coisa desses caminhos sem lua, e o tempo todo tão cheio de estrelas