25 outubro 2009

Mais tarde.

Alguma coisa a gente tem que amar.

[Rodrigo Amarante, em: Condicional]



Imagem por: Erika Kuhn.




Me perdi

entre

as

estrelas.




O avesso, que explica:

Pode ser até do corpo se entregar mais tarde
parece simples, mas a gente às vezes é
e o amor é lindo deixo
tudo que quiser eu não me queixo em ser
acho normal ver o mundo feito faz o mar num grão de areia

É de se entregar a sorte, todo mundo vai saber em ver
que o vai e vem pode ser eterno
pra ver quem manda
acho que não vai dar, tô cansado demais
vou ver a vida a pé
acho normal tá no mundo feito faz o mar num grão de areia.

[Marcelo Camelo, em: Mais tarde].

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Fui ver a vida. Quando souber descer das palavras, volto para contar. Mais tarde.
Parece simples, mas a gente às vezes é
.

23 outubro 2009

Dona Maria.

Despedir dá febre.
[João Guimarães Rosa]


Eu fico pequenininha, dona Maria. É, assim, desse tamanhinho. Coloca a mão aqui no meu coração que a senhora há de sentir. Tá acelerado, não tá? Tem tanta coisa misturada aí dentro. Uns bichinhos esquisitos trimilicando, sabe? Perguntei à tia e ela me disse que era só uma coceirinha de nuvem. Eu ri da cara dela, porque eu já sei que nuvem é fumaça. A tia pensa que me engana, aiai. Tia danada, né, dona Maria? Será que a senhora se importa se eu fico aqui falando e falando? Não? Tá bom. É que eu adoro vir aqui na fazenda visitar a senhora. Quando a gente vem chegando, de dentro do carro eu já enxergo a senhora sentada ali no banquinho que fica em frente à casa. Vejo a senhora de lá da estrada e já começo a sorrir. Por isso que quando o carro para eu desço correndo e pulo nos braços da senhora. Ninguém mais tem esse abraço, feitinho assim pra mim. A senhora é tão fofinha, dona Maria! Parece algodão. Aí depois do abraço eu saio correndo disparada atrás do cheiro de café que mora na cozinha. O café mais cheiroso do mundo, eu digo para quem quiser ouvir. E fico lá, sentada em cima das minhas mãos e balançando os pés, na beira do fogão à lenha, enquanto a senhora labuta com as panelas e canta uma música. Agora a senhora tá aí, deitada na cama, parecendo um bebê. Eu vou cuidar da senhora, dona Maria. Igual àquele dia que eu tomei uma queda perto do açude e a senhora me pegou no colo e cuidou do meu machucado. Nem saiu tanto sangue, né? Mas eu chorei tanto. Porque eu sou meio boba e choro muito. Lembro que eu perguntei como a senhora fez para passar minha dor e a senhora disse que a receita era amor. Que amor cura tudo. Pois então a senhora há de ficar curada, também. Trouxe um monte de amor na minha mala, viu? Pedi para os primos, tias, tios, mãe, pai. É tudo pra senhora, dona Maria. Tudo. Toma.

Ah, olha aquele passarinho, ali. Ué, dona Maria, a senhora tá chorando, tá? Segura minha mão, então. Pode apertar bem forte. Sempre que eu choro eu seguro na mão da mãe. Nem sei direito o porquê. Acho que é porque a mãe é a pessoa mais forte do mundo. A mãe é linda, dona Maria. Fala um monte de coisa sabida para mim, que nem a senhora faz. Eu não sei viver sem a mãe. Toda vez que eu choro, ela fala que vai passar e me dá um beijo na testa. Sempre passa. Posso beijar a testa da senhora? Olha, eu desconfio que a mãe sabe um monte de coisa mágica para me deixar feliz, dona Maria. Queria que ela pudesse usar no mundo todinho, essa mágica. Queria mesmo. Dona Maria, a senhora quer amora? Colhi algumas antes de vir para cá. Vermelhinhas, as bichinhas. Eu tenho cá para mim que amora é a fruta mais parecida comigo, aqui nessa fazenda. Meu lugar preferido é ali, do lado do pézinho dela. Eu gosto quando a senhora me chama de minha amorinha e me aperta a ponta do nariz. Eu trouxe flores para a senhora, comprei junto com a mãe. Ela colocou naquele vaso bonito em cima da mesa de jantar. Depois a senhora vê. Nunca dei flores a ninguém. Eu fico vermelha quando ganho presente, ou quando dou presente a alguém. A vó reclama comigo nos meus aniversários, só porque eu fico levantando o vestido. Ela diz que eu já sou mocinha e que não posso ficar levantando a roupa. Mas é pura vergonha, dona Maria. Parece que ninguém entende que é vontade de sumir e talvez o vestido tampe pelo menos o rosto da gente. Cada uma, essa vó. A senhora lembra muito ela. Às vezes parece que as duas têm o mesmo cheiro. Cheiro de vó.

Eu ajudei a mãe a enrolar um brigadeiro para a gente comer depois do almoço. A mãe sabe fazer doces, mas o doce de leite dela não é igual ao da senhora. Eu nem falo para ela, para ela não ficar triste, né? Mas o doce de leite da senhora, com aquelas bolinhas e os cravinhos dentro. Aiai. Fico com água na boca, só de lembrar. Outro dia eu tava chupando manga e o pai ficou falando que eu sujei tudo. Eu expliquei para ele que manga só se chupa assim. Era tão bom ficar aqui na fazenda, me lambuzando debaixo do pé de goiaba, com a cara toda amarela e ouvindo as histórias da senhora. A senhora dava aquela risada gostosa e eu ficava feliz o dia inteiro. Depois a senhora me colocava naquela baciazona e me dava um banho. A senhora lembra? Eu vou contar um segredo, dona Maria: vou sempre chupar manga desse jeito, mesmo quando eu já for grandona.

Já tá de noite. Papai do Céu parece que fica mais perto, quando é noite. Eu sempre converso com ele sobre a senhora. A vó me ensinou a orar desde que eu era pequenininha, aí eu oro todo dia antes de dormir. A vó me disse que todo mundo é irmão, sabe? Achei isso a coisa mais linda. Porque assim eu posso ser irmã de Julinha e de Matheus. Mas tem gente que não quer, dona Maria. Isso deixa Papai do Céu muito triste. Deixa eu botar esse colar de pérola na senhora, deixa? A senhora fica parecendo uma pintura quando usa ele. Eu que queria ter pintado a senhora. Acho que todo mundo ia querer uma igual, mas nem dá para existir no mundo mais de uma cópia dessas coisas encantadas, assim, que nem a senhora é.

A senhora é tão coisada em mim, dona Maria! Eu ri agora. Lembrei da mãe rindo de mim, quando eu falo coisado, negoçado. A senhora fala igual. Será que a mãe não sabe que não existe palavra para tudo? Essa mãe, viu? Eita, parece que vai chover. Eu gosto de chuva. A senhora também, que eu sei. A fazenda fica toda verdinha quando chove, e o açude nunca fica seco, desse jeito. Toda vez que chove eu lembro daqui. A senhora tá com sono? Tá com os olhinhos nublados. Vai chover também, vai? Parece que eu tô ficando esquisita, dona Maria. Tem um trem me queimando por dentro, agora. Igual aquele dia que o pai viajou e eu fiquei com saudades dele. A senhora disse que era isso minha febre e nem adiantou nada o remédio que a mãe trouxe, não foi? Deve ser isso, não deve? Deve ser que a senhora tá querendo ir embora. Mas e se eu não der tchau, dona Maria? Aí a senhora fica?

...

Eu fiquei, dona Maria. Nenhum termômetro dá conta dessa história de falta sobrando. E me dá uma vontade danada de chorar. Mas a senhora tá brincando com as estrelas, agora, igual menina. E olhando com seus olhos doces os anjinhos e suas liras. Então eu vou parar de ficar triste, porque eu prometi. Já sei que nem existe cura para tudo. E todo aquele amor que eu trouxe para a senhora, tá aqui, ainda. Tem um tantão infinito lá, de onde vieram aqueles. O amor tá solto, dona Maria. O amor tá solto e isso é coisa da senhora.

15 outubro 2009

(In)ternamente.

Que eu faça fantasia mesmo acordada.

[Fabrício Carpinejar]

Desliguei o telefone e soltei em cima do colchão. Deitei abraçada a ele. Acabei de chorar um jasmim, absorta para o meu lado de dentro. Guardada em mim mesma. Ali, contando nos dedos minhas miudezas, dando nomes, medindo gestos, buscando maneiras novas de me esconder. Ultimamente é ali dentro que a vida vai, e quase ninguém vê.

Ultimamente eu ando cheia de fé. Ando dando atenção aos papos mais furados. Tenho escrito cartas longas. E aqueles medos excessivos não são insones, como antes. Saio por aí olhando em volta e agradecendo. Vou à igreja e choro, sem ninguém notar. Tenho me emocionado com facilidade, também. Tudo tão naturalmente, o tempo todo. Vida, vida.

Fuço distâncias, sem deixar doer. Falo de sentimentos de um jeito muito lento, que é para não precisar repetir. Mas acabo me embolando, como sempre. Volto a ouvir muita bossa e puxo do meu lado doce, meu menor lado, um pouquinho de conforto para deitar na cama onde um pedaço meu derrama angústias.

Recuso cinismos. Continuo a não gostar da poesia que rima, e fecho minha boca para a língua não tentá-la com aquela eterna história de queroeuquerovocê. Fecho e abro, porque deixar de engolir estrelas não é permitido.

Dos meus bolsos despencam ternurinhas, enquanto caminho. O momento em que nasci. As lágrimas de minha mãe ao me ver partir sem olhar para trás. Meus olhos, ao ver o mar. Meu primeiro beijo. O gosto de guaraná do parque da minha infância. O dia em que esse moço apareceu dentro de mim. Os olhinhos da minha menina de lá. As viagens com meu pai. O cheiro de café da casa da vó. Meu gosto insano por sorvetes. As orações antes de ir dormir. Frases do primeiro livro que li. Minhas madrugadas insones. E um e outro amor, em conta-gotas.

Sempre gostei de amar assim, baixinho. Sem contar, sem espalhar, sem deixar caber tendências. As coisas são bonitas, correndo entre as veias. E para mim, a coisa mais linda do mundo pode ser o momento em que um cílio dele cair na bochecha, enquanto dividimos um sorvete. Nunca precisei de grandes motivos para sorrir. Tudo cabe nas pequenezas. No delicado. Numa fuga para dentro de alguém, talvez.

Eu escuto os eucaliptos do bosque aqui ao lado murmurando arrepios que são muito meus. Depois rio de mim, lembrando do amigo que me perguntou a que espécie de gente eu pertenço. Lembro de dizer-lhe que não pertenço. Sou agora, e depois deixo de. E se às vezes eu exagero, é por não saber caber em coisas menores.

Já é mais de meia-noite. Saio do meu quarto e fico rondando a casa escura. Penso em como seria a cena, se eu fumasse. Sento na porta do corredor ao lado, em posição de meditação e me surpreendo ao notar que sonhando eu fico natural. Não vejo a lua. Deixo queimar todo esse incenso de canela. A essência se solta em forma de espiral e me atinge, dispersa.

Um silêncio. Uma vontade de pegar o telefone, de novo. Outro destino. Uma voz de sono do outro lado, talvez. Minha voz de carinhos só dele. E todas essas palavras desconexas que me desviam. Nenhuma surpresa, nenhuma. Um acúmulo em mim, feito de mil e uma misturas.

Tô aqui porque a vida me trouxe, aqui. Não gosto sempre. Mas enquanto tiver coração, eu sigo. E caminho. Despenco. Aos trancos, mesmo. Porque tem delícias maiores no meio da estrada. E eu gosto de ir junto com as coisas. Com as cores. Com o vento que decora meu nome. E melhor que tudo isso, sempre tem uma razão linda: amanhã vai fazer sol.

De volta ao quarto, um jasmim no meu travesseiro. Escrevo, agora, na minha parede branca, antes de ir deitar:

- Preciso acontecer.

É um amor desmedido, por tudo.

05 outubro 2009

Azul Clara.


Me veio como um pedaço solto de poesia que despenca ali, entre as pedras do Recife Antigo. Essa moça. As letras voaram disparadas até mim, e ficaram. Fincaram raízes com uma profundidade que eu pensava nem existir em palavras alheias. Era luz. É muita luz.

Clara sorri vida e se deixa escorrer com toda uma urgência peculiar para dentro de quem a recebe. Ela enxerga alma e se propõe a desatar qualquer nó esquecido. Eu era botão no dia em que a encontrei, e tão logo nos olhamos, tudo desabrochou. Para ela. Para mim. Flores, flores. Uma primavera infinita. Aprendemos a importância de regarmos nossos jardins. Renascer. Com letras, poesias, madrugadas, sinceridades. Clara me ensinou a receber. A doar. A espremer a beleza do agora e admirar des-me-di-da-men-te.

Clareana. Duas em uma. E mais eu, misturando. Batidas. Talvez por isso às vezes eu a queira morando em meus olhos, naqueles momentos onde coisas encantadas me tomam a visão. Para dividir o belo. Para entregar-lhe pedaços dos meus melhores jeitos de sentir. Para me espalhar, da mesma maneira como a poesia-vermelho-fogo dela chega morando em mim, a cada leitura. Palavras que escorrem como um gole de gim, possivelmente com (e)feitos deliciosos. Outras vezes, arisca, arrisca queimar.

Clara-como-a-luz-do-sol. Porque ela faz derreter qualquer um que se submeta a ser estrutura gelada, em seus dias de chama. A moça arde. Derruba retratos em branco. Tem mãos de aquarela. Sabe pintar amor em todas as paredes e colocar o excesso em envelope para ser recheio meu. Nosso.

Clara-passarinha. Sem horários, onde o tempo é sempre o quando. Uma loucura desenhada em nuvens. Uma intensidade sem morada. Um sotaque lindo. Gosto de estrela.

Uma das coisas mais lindas da minha vida, Clara é azul. Azul Clara.

Então, quando tocar uma música na tua porta, Clarinha, abre com teu melhor abraço. Já ensaiei o convite: vim para ouvir o mar ao teu lado.

Agora vai entregar ao mundo esse teumeu exagero. Todo esse nosso amor-demais. E um samba.