O amor é fodido.

13:42

Um amor só um bocado fodido
pode ser a coisa mais bonita deste mundo.

[Miguel Esteves Cardoso, em: O amor é fodido]

São em noites como essa que algumas ausências me corroem. A vida pode ser muito sacana se resolvermos tratá-la como algo real - porque eu sempre achei a vida uma ilusão tamanha, você sabe. E eu ando sem paciência para determinadas coerências, ma belle. Acabo de sair do banho. O cheiro de sabonete toma conta do quarto junto ao vapor da água quente. Enquanto secava meus cabelos, a água escorrendo pelos ombros, um sambinha macio ia se libertando do vinil. Pensei em amor. Pensei em cenas antigas de cinema, naqueles movimentos mudos, e dancei, nua, como se o momento inteiro fosse uma partitura. Mas não houve quem me tocasse, quem me cantasse. Vesti o roupão, abri as janelas, contemplei.

O amor é obrigação? Essas conversas bobas, apenas um pretexto para terminar na cama. Pensamentos curtos, comodismos, discursinhos ordinários. Olho e não enxergo. É tudo pequeno. Cadê o desmedido, entende? Cadê o que se expande em cada encontro? Um papo que estique e dê valor ao clichê naminhacasaounasua?, cadê? Às vezes eu troco tudo pela companhia de uma planta qualquer. Continuo com essa minha mania de contemplar o nada com uma admiração gigante. E tem o filme que contei a você, as neuras que desataram, essa coisa de saber que estamos todos suspensos, pendendo entre o destino e a sorte.

Eu não sei, mas o norte me parece meio embaçado. Preciso que qualquer acaso desencante essas amarguras, que me faça levantar da cama, tirar aquele outro disco empoeirado da estante e me ofereça uma dose de uísque, sem gelo, enquanto caminho pelo apartamento usando meias e calcinha só para dar um tom qualquer. É nesse ritmo que algumas indecências batem à minha porta e deparam com essas lágrimas pretas. Sentadas nas escadas, fumando um cigarro e olhando fixo para um ponto insignificante, essas indecências. Esclarecendo: parei de adocicar os contos de fadas, o felizes para sempre. A verdade é que tudo termina com o era uma vez. Porque já não é mais, vê? Na maioria dos casos não teve vez nenhuma.

Resolvi olhar o amor com olhares obscenos. Tem mais a ver com prazer, com repousar o coração num lugar tranquilo, ainda que por apenas uma noite. Ninguém precisa ser o futuro de ninguém, isso assusta demais, convenhamos. As coisas acontecem no agora? Nele permanecerei. No agora é onde consigo sentir. Consigo preparar receitas para que sejam descumpridas, recheadas de pitadas desconhecidas. O amor pode chegar deslizando as alças do meu vestido, ensaboando meu corpo, acariciando minhas formas, tatuando minha virilha, gemendo sob minha pele suada, sufocando minha voz com beijos a me queimar a língua enquanto fuma meu hálito. Ou pode não chegar, também.

Você sabe, deve haver um feeling qualquer, porque a solidão, ma belle, essa não se esvai com meras trepadas. E eu nunca fico. No máximo a TV permanece ligada enquanto desenhos animados brincam com a vida de lá. Eu me mando, a ressaca fica. Eu me mando para respirar, abrir a geladeira, medir meu desespero em qualquer garrafa.

O amor, todavia, insiste num balé de cheiros impregnantes. Disfarça, rodeia, mas gruda em cada dobrinha. E daí a gente finda tomando um banho juntos, escorre juntos. Ele escorrega e fim: sobram uns risos convulsivos. Talvez, ainda, eu faça uns malabarismos com as pernas, arrisque uma pose de mocinha psicótica, daquele jeito, com um explosivo em cada olho, suba na mesa, arremesse uma taça. Só para chamar a atenção. Só pro meu prazer. Porque, não é de agora, palavras bonitas não me emocionam. Eu preciso de reações, me rasgar na cama enquanto Luiz Melodia grita que baby, te amo, nem sei se te amo...

Me ocorre agora, veja bem, tudo se dissolve. Você pode achar que não tem sentido. Mas, honestamente, o que tem sentido? A busca louca pelo amor geralmente resulta em pernas abertas e desencontros. Em outros casos tem-se um cigarro e olhares para o teto. Não mais, não menos, mas também.

O amor é um interlúdio. O amor, ma belle, é fodido. E nem por isso deixa de ser amor.

Poetice.

14:45

Dá-me o direito
de dizer coisas sem sentido
de não ter que ser perfeito
pretérito, sujeito, artigo definido
de me apaixonar todo dia.


[Alma nua - Vander Lee]

No início eu não entendia muito bem. As ruas estreitas, o cinza, as pessoas, a minha chegada, a incoerência de tudo. Uma proximidade da solidão e da loucura. A cidade nova, tão antiga, fazia desaparecer aos pouquinhos toda aquela outra cidade, ainda tão minha. Mais até do que a que voltou a me pertencer. Achei normal quando João Gilberto soprou bem de levinho nos meus ouvidos, ao atravessar a rua no sol das doze horas. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi.

Não é que hoje eu entenda alguma coisa, não. É questão de ter as percepções desviadas, de sentir alguns braços me atravessando as avenidas, de não precisar de um motivo. Hoje eu deito no chão da sala e acompanho os barulhinhos que vêm de lá de fora. Tem um passarinho que entra pela janela todos os dias, miudinho. Basta que eu pouse meus olhos nele para que saia voando pelo mesmo caminho por onde entrou, dessa vez levando o eco das minhas risadas de moça boba para soltá-los de lá de cima, com a pura intenção de contaminar qualquer lábio costurado.

Vou caminhando por onde acredito, hoje. Tenho feito as coisas do jeito que acho que ficam mais leves, mais clarinhas, mais fáceis de carregar. Ando sempre bem. A verdade é que nessa procura de me fazer, encontrei retalhos de coisas que doem. Doem mas não precisam trazer aquele gosto de água e sal, na boca. Guardo no bolso, jogo para cima, vou tomar um sorvete. Quando você não se prende, vai aprendendo de um jeito muito manso a voar novamente. Um e outro arranhão nos joelhos, pequenas quedas, mas nada disso importa depois que se prova um pouquinho de céu.

Eu tenho tanta fé em tudo, agora. Tenho gostado tanto de todo mundo, de mim, dessas repetições. Me assustei, então, ao perceber que é tudo uma questão de escolha. E o bom do susto é que a gargalhada sempre demora mais.

Hoje o teto lá fora é azulzinho. Logo ali, existe alguém que me faz cócegas. Alguém que me faz olhar ao redor, procurando-o, sempre que chego. E ele me faz levantar os olhos quando pronuncia meu nome, me transformando num girassol desajeitado, acompanhando-o a cada movimento. São vários pontinhos que eu vou ligando com essa caneta sem tinta, em meio à incerteza de rabiscá-lo em minha tela. É tão bom que eu sinta, por sentir, porque é preciso sentir.

Então eu procuro uns potinhos de tinta para borrar minhas mãos, porque nem sempre as palavras decifram o que o coração batuca. E me aproximo assim, de perto, dou um beijinho em seu rosto e deixo escrito uma história. Meus lábios, pincéis travessos.

É a vida resolvendo fazer carinho. E eu não quero entender nada.

Éden.

15:27

Para ele, o meu brou.

Eu sempre falo dele sorrindo. E deixo repercutir: édenédenéden. Meu irmão. O paraíso avesso. A paciência curta. As sobrancelhas grossas, sempre expressivas. O jeito de monstro quando acorda passeando pela casa coçando a cabeça. A insistência em cantar alto e totalmente sem tom qualquer música que saiba acompanhar. A simpatia. As piadas internas, risadas só nossas. O choro que chega sem pudor nenhum, seja lá qual for a situação. A preferência por massas. As músicas dos hermanos gritadas aos sábados pela manhã, quando estávamos sozinhos em casa. As brigas. A cumplicidade. A forma como se preocupa comigo. Os ciúmes. As lágrimas na rodoviária a cada despedida. Os eu te amo que ele diz e eu guardo nos olhos para que ele enxergue os reflexos diante da minha mudez. A certeza: desde que ele veio eu não fui mais sozinha. Não sou. E vou relembrando cada coisinha bem devagar e com muita ternura.

Até então, nunca havia meditado acerca do evidente: sou mais eu quando sou ele. Consigo ser todas as que me compõem, quando em sua presença. E ele só não me suporta quando sinto dor, o que eu até perdoo, por se tratar de uma das minhas piores versões.

Éden é o primeiro dos irmãos. Foi quem me moldou. Quem me ensinou a dosar as ações, reações, explosões. Mordidas, puxões de cabelos, televisores derrubados e mágoas. Eu nunca mais vou falar com você! Para ouvir um quem disse que eu ligo? E um sorriso no dia seguinte, derrubando as máscaras mais sérias para dar vez ao que sempre é maior. O nós, quando já não tem mais você e eu.

Lealdade, perfeição torta, defeitos. É amor. Amor daqueles costurados no ponto mais bem feito. Mãe quem costurou, a linha nunca se desfaz. É a chance da eterna meninice quando em casa, de histórias, de me ver pequena com ele ainda menor. É daquele amor que se diz o tempo inteiro, em meias-palavras. São vergonhas expostas num final de tarde, entre beliscões e gargalhadas. Palavrões. Um olhar que puxa recordações quando as pálpebras resolvem virar gavetas para o passado de felicidadezinhas.

Com ele eu soube deixar crescer o amor-amor. Soube amar por amar, sem importar se cabia ou não. Foi como aprendi a torcer. A apoiar as ambições e loucuras dele, só para notá-lo em paz. É o orgulho que sinto por sua valentia, por sua sinceridade. Pela maturidade que, ainda que desande às vezes, aparece como conquista. Pelos medos tão meninos que vão adormecendo para que acordem aquelas outras coragens tão necessárias que tanto quero vê-lo sendo possuidor.

Todas essas palavras talvez nunca tenham sido ditas. Sempre julguei desnecessário expor o que meu coração sente tão óbvio. Parece desleal gritar para o mundo esse monte de amor, porque não existe amor assim. E eu me sinto tranquila por não precisar de aviso nenhum para fazê-lo ciente dessa história toda.

Se eu pudesse escolher, diria que é assim mesmo que prefiro. Prefiro telefonar para ele e fazê-lo dizer tchau só para poder dizer: quem ligou fui eu, você não pode desligar. E enrolar toda vida. Prefiro aquela fotografia no jardim, onde ele tem o pé machucado e um rosto que me conta algumas coisas que doem. Prefiro lembrar do Chico Bento em um de seus primeiros bolos de aniversário. Prefiro estar em paz na fazenda enquanto ele fica inquieto e solta fogos na hora de ir embora. Prefiro lembrar dele a cada vez que escuto Um Par. Prefiro ainda as histórias cheias de detalhes que nunca têm um final lógico. Sua risada espalhafatosa. Sua mania de bater boca por nada e qualquer coisa. Seus carinhos únicos, chegando a lembrar um gato implorando uma delicadeza. O dom de me fazer passar vergonha. Nossas caminhadas compridas, cantando. Prefiro mais assim. Menos de qualquer outro jeito. Mais ele, comigo.

A conclusão é a de que tudo é coisa desse amor-tanto. Amor-tonto. Tudo o que guardei e não paro nunca de compor. Para amá-lo agora, mais tarde e o tempo inteiro. Sem tempo. Como a dezenove anos.

Sou por você, brou. Não vou parar de ser antipática com minhas opiniões intrometidas: digo tudo pelo querer-bem, que é imenso. E seja lá o que for, seja lá no que for dar, se essa vida tiver alguma razão, eu faço a porra toda desarrazoar, se ficar melhor para você. Entorto os pontos todos de qualquer direção e cruzo os caminhos mais impossíveis, para te acompanhar.

É tudo pra caralho. Tudo isso. Tudo em nós, esses nós.


Sem você sou pá furada.

[Paquetá - Rodrigo Amarante]


Até mais tarde.

21:02

O verão que a primavera traz.

Pelo muro, enxergo, restam algumas bandeirolas desbotadas. Observo enquanto o vento sopra de leve em meio ao calor da noite. Cores sem euforia, memória da boniteza que viveu nas noites de junho. Escuto sorrisos e sinto cheiros. A primavera chegou e eu, que nunca soube cuidar de flores, aprecio.

Você se anuncia junto aos tambores. Se espalha feito notícia bem contada. Procuro então transformá-lo em novidade, assim, sem horário, enquanto a dona se inclina da janela para sondar como subo tuas escadas sem degrau algum.

Veja, a cidade já começa a ter sentido entre um canto e outro. Existem rabiscos e histórias minhas naquele chão, naquela música, naquela risada. O coração, esse não dá sinal. Brinco com as imagens que meus cílios enlaçam e vou convidando o mundo para um samba. Só entende quem escuta a música.

Eu poderia ser tua hoje, seu moço. Nem precisa colher nada não. As mãos que seguram teus queixos poderiam desenhar minha boca em movimentos precisos enquanto eu saciava minha vontade de escrever em cada cantinho teu. Coisas absurdamente levianas. Coisa nenhuma. Tocar. De-di-lhar. É o que me ocorre enquanto você fecha meus olhos.

Você poderia começar existindo em minha língua, aqui, molhando teus dissabores. Ou então que se mastigue uma história sobre toda aquela coisa que a primavera faz com as cerejeiras, clichês, a cor do meu vestido, a transa de Caetano, teucorponomeucorponoteu. Que se mastigue enquanto o vinho vai desgrudando a alma e lançando carinhos jamais praticados. Ficaria bonito, eu digo.

Na primeira curva, te guiaria para que o vermelho coubesse nos gestos seguintes. É tudo uma desculpa, perceba. Eu, ladeira para você escorregar. Um encontro manso de palavras extraviadas que bordam no escuro um retrato que não se enraíza em tempo nenhum. Eu abro as portas para você, novidade.

Porque quando chove, seu moço, enquanto você mede minha cintura e esse tecido desenha todas as formas, me tinjo de verdadeira avenida. Que meus braços sejam ruas. Que você me atravesse descalço. E quando minha pele esquentar, embrulha todo o restante. É como me sirvo.

Nesse ambiente manso, dou um cheirinho em teu pescoço e sopro um fio do teu perfume para grudar no travesseiro. Te faço um cafuné para adular nem que seja um tiquinho do que há de querer ficar nos instantes posteriores. Você tem jeito de quem esquece sonhos na cama, saiba. Você esquece e eles dançam em meus ombros para depois despencar, exaustos.

Meu jeito zen, um cheiro de incenso nos cabelos, desassossego. Deixa o coração trincado se enfeitar. Sigamos desarmados. Minha voz batendo nessas quatro paredes enquanto você se estica para engolir o que sobra de poesia.

Em um beco, um botequim com bandeirolas e cores desbotadas, há sempre de haver um reencontro. A cidade desenhou. A dona debruçada na janela há de contar: poema no mural, você e eu.

(Re)vestir-se.

21:01

Os delírios verbais me terapeutam.

[Manoel de Barros]


Eu conto que é bonita a maneira como o vidro da janela deixa a manhã entrar em meu quarto. Seguro o sol com meus olhos e faço silêncio para ouvir os afetos delicados despertando. O agosto vai passando com sua violência hostil e tudo o que me importa é a poesia.

O que tem me atraído é a vontade bizarra de passar o dia inteiro tomando sorvetes e escrevendo todas as paixões. Por nada e qualquer coisa. Eu me observo e gosto de brincar com as cores no espelho. Encho o corredor da casa com meus bom dias, esqueço alguns sonhos na mesa e abro as portas sorrindo, sempre com um fiapo de amor entre os dentes.

Pelas ruas, entre passos apressados, um vento frio faz estremecer algumas certezas. Esqueço-as. Espalham-se todas pelo bosque onde passo sem nem notar. Já não amo ninguém. A escrita permanece atravessada. Minha língua guarda promessas e alguns planos. Guarda palavras ensaiadas para serem entregues a alguém que nem desconfia. Guarda um potinho de ilusões que espalham um gosto de estrela no céu da boca. É o que me faz sorrir.

Ontem falei de saudades e um cisco nos olhos foi a desculpa para a neblina. Todo o brilho coube no vermelho das pedrinhas desses brincos, flores pequenas que fazem meu rosto querer submergir em meio a um par de olhos escuros sobre os quais escreveria por mera distração. Ou atenção demasiada. Um quintal, um jardim. Par de olhos esses que às vezes se escondem e brincam com o castanho que guardo, pedindo-lhe para que os encontre.

Não me explico, optei por sentir. É como quando as duas mãozinhas delicadas da minha outra menina, pequena, desenham minha face: tudo fica doce. E também diria ainda das cartas que me esperam na cama, uma vez por mês, pintadas de carinhos que saltam tão logo os envelopes são abertos. Minha letra diminuta demora, emudece, e depois responde, apertada, que é para amarrar as coisas mais lindas e remetê-las todas de um jeito muito leve.

Quando me perguntam o porquê das tardes de repente ficarem tão amarelas, eu finjo nem saber, mas desconfio. Sinto logo as amoras estalando em meus dentes, vejo o céu descabelando as nuvens e a felicidade me desarrumando inteira. Efeitos que componho enquanto tento equalizar o silêncio, carícia mais suave.

Em meio a uma imensidão de desejos embaralhados, separo uma história. A da poesia que derramou-se em meu vestido quando o amor adormeceu em meus ombros.

Eu venho por um motivo. Esse, que me alarga os lábios enquanto dá voltinhas alegres em minha boca.
___________________

Para Lulu, por várias razões, mas, principalmente, por borrar com doçura meus olhos.
Por estar, mesmo sem nenhum sentido. Ou todo ele.

Ideia.

23:30

Fiquei apenas pensando que seu rosto
parece com as minhas ideias.

[Corpo de lama - Chico Science]

Eu quero me aninhar no teu peito, baby. Quero que você me conte bobagenzinhas enquanto escuto tua respiração. Quero sentir teu coração bater, ouvir tua risada, segurar tua mão por mais tempo, te entregar mais que dois sorrisos. Mais que um ruído. Eu quero espalhar beijinhos no teu rosto e passear, confusa, em você.

Quero te ligar no meio da noite e ficar em silêncio até conseguir dormir outra vez. Quero que você me abrace. Que você sempre me abrace. Que caminhe ao meu lado segurando no bolso de trás das minhas calças. Quero saber a frequência com que pisca os olhos e decorar o que te faz franzir o nariz.

Quero papos desconexos, propostas decentes e outras tantas avessas. Quero entrar no primeiro ônibus disponível e passar um dia inteiro num lugar onde sejamos estranhos. Quero te puxar pelos braços e que você recue para me pirraçar enquanto vai pintando poesia nos dentes. Quero que teu cruzar de pernas me inspire um texto e que você faça um carinho bom em minha nuca, me abraçando por trás enquanto me observa sentada ao computador.

Quero que você me veja chorando ao cortar cebolas e sempre cante a música de Caetano, só para me ouvir te chamar de previsível e debocharmos juntos das mesmices que são só nossas. Quero que não me diga que sou ciumenta e não se importe com minhas melancolias mensais.

Quero que a vodka tempere nossas brigas bobas, e que deitemos exaustos no colchão ali, no chão da sala, enquanto a vida corre do lado de fora da casa. Quero ver você dar risada da minha cara ao desistir de calcular o troco e que não se importe em ir ao cinema nos horários mais improváveis.

Quero que você se arrisque na cozinha só para me ouvir reclamar depois. Quero nossos beijos cítricos e tua língua tingida com o vermelho do que vai sempre arder em nós. Quero aquelas noites com a luz fraca, tua arte exata e minha busca imperfeita.

Quero que você aumente o som quando começar a tocar uma música que eu goste. Quero te telefonar ao me deparar com algo que se pareça contigo. Quero te ver fechar o jeans, te puxar de volta para a cama, te fazer vacilar, burlar resistências.

Quero pizza gelada enquanto te mostro meus filmes preferidos. Quero te fotografar até você arrancar a câmera das minhas mãos e fazer o mesmo comigo. Quero me rasgar aos pouquinhos para você, só para você. Quero que folheie um caderno meu e reclame porque não escrevo na linha. Porque não escrevo.

Quero entender quando dói e fazer parar de doer. Quero te adivinhar com meus lábios. Quero te projetar: você-filme. Quero espernear. Quero que você bagunce o quarto e te olharolharolhar com minhas pálpebras egoístas que te guardam só para mim. Quero todo esse medo de abri-las para não te deixar escapulir. Quero te achar ridículo enquanto escuto você cantar ao chuveiro. Quero colo.

Quero que você entenda minha euforia após o teatro. Que não se espante com minha sensibilidade. Que não sofra com minha insensibilidade. Que não soframos tanto, apesar das crises, raivinhas, impaciência e muita falta de sentido.

Quero você na minha parede verde. Quero pintar nossa parede. Te borrar a roupa. Tomar banho na chuva, rolar na areia da praia. Quero decifrar tua chegada pela maneira como toca o interfone. Te cantar músicas bregas, caminhar pela praça.

Não quero nada. Só preciso inventar uma palavra. Algo que te explique. E olhar para você mais um pouco, assim, sem querer.

É uma ideia.

O amor, Maria?

11:43

- Então Charlie Brown, o que é amor pra você?

- Em 1987 meu pai tinha um carro azul.

- Mas o que isso tem a ver com amor?

- Bom, acontece que todos os dias
ele dava carona pra uma moça.
Ele saía do carro, abria a porta pra ela,
quando ela entrava ele fechava a porta,
dava a volta pelo carro
e quando ele ia abrir a porta pra entrar,
ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas
e os dois morriam de rir. Acho que isso é amor.

[Peanuts - Charlie Schulz]

Para mim, Maria, o amor é azul e branco. São seus dois tons, e isso não tem nada a ver com arco-íris. A gente pinta é do lado de dentro. É uma coisa danada de tão travessa, essa coisa de amor. E eu não sei, Maria, porque a maçã do amor leva esse nome. O amor não é sempre doce, não. Mas pode ser vermelho, se você quiser.

Amor é um monte de coisa, dona moça. Você vai sentir, se já não sentiu. Os joelhos frouxos, as mãos suando, e todas as partezinhas batucando do lado de dentro. E você vai morrer de medo que alguém escute, Maria. Mesmo quando tudo em você denunciar, você ainda vai deixar cair os olhos, fingir distração, fugir. O amor a gente guarda é nos olhos. Depois ele desaba para todo canto.

Sabe, ninguém nunca conseguiu decifrar essa história. Tem tanta poesia, tantos livros, tantos filmes, tanta música, tanta falação, Maria. Não é de hoje que as pessoas complicam a facilidade. O amor não precisa de nada para ser, senhorinha. Ele é. Independe de. É indiscreto. Pousa e voa quando bem quer. O amor é passarinho, isso. Mas a gente não pode nunca prender, viu? Passarinho bonito é enfeitando o céu. Amor enfeita.

Ah, pequena! Quando você senta na sala e espera o amigo chegar, assim, com esse ventinho no sorriso, isso também é amor. E ele chega tão bonitinho, enchendo teus olhos, te fazendo assobiar. O amor é criança, Mariazinha. O amor é uma tarde de sol e um algodão doce, no parque. É roda gigante. Foliazinha. É tanto. É tanto!

Eu já amei bonito, sim. Já morri de amores, Maria, e você não sabe quanto mais vida isso me trouxe. E tem esse moço, agora. Não, não é amor. Como a gente diferencia? Você só faz pergunta difícil. Senta aqui no meu colo, anda. O amor está dentro de mim. E de você. E dele. Eu acho mesmo é que ele vai saindo aos pouquinhos. Quando a gente vê, já caminhou para dentro da outra pessoa. É um susto, Maria. O amor é um susto! É uma surpresinha, e o embrulho é o coração.

Falar mais sobre o moço? Ah, esse moço, ele faz festa em mim. Quando eu chego, ele está sempre paradinho, na porta. Me enxerga feliz, com uns olhinhos apertados, parecendo me pedir para navegar-lhe. E eu fico pensando, minha doce. Fico pensando que me bastava ele ser um cais, para ancorar meu barquinho. Em época de chuva, Maria, amor é cais, também.

Você gosta de me ouvir falar? Você é sapeca, com essa carinha de flor. Me mostra tuas mãozinhas, Maria. Deixa eu escrever, aqui: AMOR. Agora espia e tenta apagar. Tá vendo? Amor é quando, mesmo tentando, a gente não consegue apagar as letras. Não tem borracha que sirva, sabia? Ô, pequena, não precisa ter medo. Você pode emendar poesia em cima, melodiar. Uma coisa linda que aprendi foi isso: ser formada por amores. A gente fica maior.

Não se assuste, então, Maria, quando um amor for embora. A verdade é que ele sempre fica. Quanto mais a gente entrega, mais a gente tem. Essas coisas, meu bem, a gente divide para multiplicar. Prometo a você. E sobre aquilo de diferenciar, não dê importância. Sinta. Chame do que quiser. Um moço sabido já disse, um dia: muita coisa importante falta nome. Me dá um abraço, dá?

Maria, uma vez pensei que eu fosse derreter num abraço. Você vai saber como é. Não, não foi o desse moço. Ele, ainda hoje, não coube em minhas mãos. Tenho vontade de desabotoá-lo, Maria. Cheirar os sonhos que ele tem, nos olhos. Às vezes fico pensando que eu podia dizer a ele coisas muito boas, assim, baixinho. Mas só sei me fingir de distraída. Eu sou boba, minha Maria. O amor é bobo.

Tá na hora de você dormir. Se eu pudesse eu aumentava essa noite só para que tuas asinhas alçassem voo. Sonha, menininha. Descansa. Você é bichinho que voa, toda purinha, sem nem desconfiar. E é linda assim, não terminada.

Agora, olha, Maria. Acho mesmo é que amor, amor é acostumar.

É de mágica.

11:14

Manda avisar que esse daqui
tem muito mais amor pra dar.


[É de lágrima - Marcelo Camelo]

Faz frio. Pés descalços, sentada no chão, incenso de jasmim. Aqui? Jazz. Não encontro escapismos e findo amarrando a fé ao lado da minha cama, levo comigo para todo canto. Juntei meia dúzia de esperanças e quis a presença de qualquer querubim pequenino cheinho de luz.

Meus olhos engavetando a umidade onde algumas dorzinhas navegam em par, meus poemas nunca escritos. É assim que resolvo acordar as palavras. Rituais de encanto, ventinho pela fresta da janela, meus cabelos voando. Deixa doer, bater os queixos, ter motivo. Minhas satisfações não aprenderam a bastar só para mim.

Hoje me telefonaram. A voz suave do outro lado se identificou e disse tá tudo bem? E eu chorei. As portas destravadas, a necessidade de separar as estantes internas. Pu-ri-fi-car. Tudo o que fala sobre leveza e azul deve ter caído lá atrás. Não encontro.

Abri meu recanto de carinhos e reli tantas cartas, tantas procuras, tantos tempos, tantas saudades. Leio tudo. Leio e saio catando com as pontinhas dos dedos qualquer coisa que me reponha. Me perdi, mas não me abandono. É preciso estar dentro de mim. Preciso me empurrar de volta. Tenho tanto medo de ver os dias passando enquanto fico.

Não tenho sido doce. É só que, ultimamente, nada completa. É meu retrato aflito, extenso, cheio de nós. Então eu escrevo. E escrevo tentando ficar mais leve, tentando me reiventar, tentando. Eu tento. Encolho. E tô aqui, sempre sorrindo. Sem compreender. Me envelopo e me distribuo. Foi assim que aprendi a chegar.

Um copo numa mão, uns absurdos na outra. Não chove. É cinza e não chove. Lembro das ruazinhas estreitas que passo e já não vejo toda essa sensibilidade cabendo no mundo. Meu lado de dentro precisa ser remendado. Sonho com coisas tão boas. Desejo tanto bem. Desejo um bem, para mim.

Decidida, sugiro chuva. Um banho de chuva, um grito na chuva, porque depois que cai o céu, o mergulho é na vida. E arco-íris. Ah, e como tenho procurado um arco-íris! Uma recompensa. Uma aquarela. Lápis e papel. Desenho ou palavra. Não levo nada. E vou. Tentando, apesar de um tanto despetalada, dobrar a vida em flor, como diz a música.

A parte bonita do dia foi quando caiu um cílio na minha bochecha. Vejo palavrinhas mansas em cada um. E às vezes é assim, uma pestana foge e desafina tudo. Hoje, caiu um cílio meu. Desafinei. Vi pelo espelho, tirei com delicadeza e soprei. O moço olhou de longe, sorriu. Miúda e de bochechas coradas, retribuí.

Eu sempre sorrio, repito. Não precisa ter nexo. Ir, parar. Falta de ação. Talvez cor. Coração eu tenho. Tenho tanto que quase aceito sê-lo. Vai ver é isso. Que amanhã, depois e sempre, eu seja.

É tanto amor para amar - disse tão bem dito o poeta.

Uniforme.

00:49

Tudo começa
do mesmo jeito
diferente

[Alice Ruiz]

Às vezes é sem querer. Você chega quando alguém já está. Você sobe as escadas e joga o coração dali, pelo prazer em vê-lo cair. No fundo, a esperança é sentir alguma coisa. Qualquer coisa.

Você não me conhece. Não sabe que escrevi uma carta de seis páginas, ainda ontem, contando os mais miúdos detalhes daquilo que suponho estar acontecendo. Do lado de dentro, do lado de fora. Não tenho conseguido fundir. Não sou uma só. Nunca fui.

Preciso comprar mais livros, conhecer músicas novas, trocar as fotos do mural, ir à praia, amar Ilhéus de perto, colocar uma flor na minha estante. E, quando deito, preciso de você na minha cama, me beijando a testa, segurando minhas mãos. Sei lá. Poesia. E aquela coisa de me esquentar a nuca para que eu ande feliz, em meio aos casais de porcelana que enfeitam a rua. Amor não se toca, é para ser ouvido.

Tenho fases de desespero. Quando é quarta-feira, no meu céu só tem estrelas e eu tropeço buscando o sol. No cinema eu como chocolates, não pipoca. E se você aparecesse eu te tomaria pelas mãos e sairia por aí, asfaltando a cidade inteira com nossas historinhas. Eu penso que eu só preciso saber que você está. Mas não te convido.

Não sei quanto dura. Não sei até quando vou ignorar teus sorrisos que se quebram diante da minha seriedade. Não sei até quando teus olhos tristes vão permanecer em cima dos meus. Sei menos ainda para onde você vai levar minhas vontades, a cada vez for embora. Mas queria saber se meus braços podem se encaixar aos teus e se nossas pernas preferem o mesmo caminho. É o começar.

Daqui, eu imagino que você tenha uma queda pelo francês. Imagino que abra um conhaque, nessas noites frias, para catar palavras. Da minha boca derramam-se sacanagens que já foram de outros caras. E que provavelmente serão tuas. Antes de tocar o papel, pensei em começar dizendo que aprenderia a tocar piano só para te esperar. Prefiro violão.

Sou daquelas garotas que sofrem. Que esperneiam em busca de um abraço, assim, do tamanho do teu, com um sussurro contido dizendo que está tudo bem. E acreditam no amor. Uma garota que, hoje, quis adivinhar as medidas do que desconhece. Com coragem para ir embora. Com impulsos, cabelos curtos, unhas pretas e possibilidades. Você só precisa me fazer rir. Ou estampar qualquer coisa de mim num cantinho escondido teu.

Te documento enquanto você me atualiza. Você-novidade. Tiro o salto quase nunca usado, me molho na chuva, a bebida queima, te procuro na esquina. Levei todos esses parágrafos para contar do que não pode ser lido. Do que ninguém iria entender. Amanhã vejo uma coisa linda na rua, em meio à neblina, e me lembro de você. Anônimo. Basta meus olhos cheios da tua presença, por esses dias.

Paris, cigarros displicentes. Palavras inventadas. Acontece que vai ver eu já esteja entregue. Something vai se arrastando como trilha sonora. E você poderia vir. Me beijar devagarzinho, bagunçar meus cabelos enquanto faz um afago manso, me vestir de você, grudar teu cheiro em minhas mãos, usar algum elogio abusado e escrever ali, naquilo que chamam de alma, toda essa sua eficácia em me amanhecer.

É diferente. Eu sou igual a todo mundo. E sinto. Sintosintosinto.

Você.

Apenas o Fim.

18:22

- Isso é só o fim. O que importa já foi feito.
- E agora?
- Agora é o resto das nossas vidas.


[Trecho do filme: Apenas o Fim]

Acabou de dar meia noite e eu escuto, baixinho, alguém tocar uma das mulheres de Chico no prédio ao lado. Abro a janela. Joana Francesa. Passei por todos os cômodos desse lugar estranho e guardei o sono atrás da cortina vermelha. É em peixes, meu sol. Netuno, inspiração, idealismo, divino maravilhoso, não-explicação, sem fim. Eu tenho andado feliz. E sim, continuo falando de amor, escrevendo os mesmos textos de sempre, poetizando qualquer coisa que apareça e fingindo não ser romântica.

Agora acabei de equilibrar a doçura, nas pontas dos pés. Consegue ver? Se eu deixar cair, espalha. Sorri no escuro ao lembrar minha infantilidade em procurar o vento, naquela época, para que as palavras chegassem suaves aos teus ouvidos. Fico feliz em notar que ainda carrego delicadeza nos dedos ao escrever a você. Não nos despedimos.

Essa semana peguei um táxi e passei do ponto porque simplesmente estava pensando que, ah!, são coisas muito bonitas nos esperando. E quando pisei no chão, primeiro com o pé esquerdo, deixei cair o pirulito de coração. Despedaçou-se enquanto tive uma certeza: eu vou te amar em todos os meus amores. Já não contesto.

Outro dia revi Apenas o Fim. Cada diálogo foi como se compusesse nossa despedida. Foram coisas lindas. Coisas bobas. Coisas nossas. Ele você ela eu. Quis te mandar um torpedo, quando foi dito: você é meu chicletinho mastigado. Não somente por ser a cara do que fomos, mas também porque interpretei de um jeito engraçado, sabe? É que vai ver o doce se perdeu, mas continua a grudar. Está grudado. Vai sempre ficar um pedaço, uma marquinha. Ficou.

Aprendi que não existe pedagogia para sentimentos. Eu tive febre. E passou. Passou aquela vontade de querer te ligar durante o sinal vermelho só para contar do que andou acontecendo. A vontade de te contar das minhas revoltas, das minhas mudanças. Ando tão madura, tão mais boba, mais eu, menos você. Passou a vontade de falar do medo que tive nos primeiros dias, de ser a cada hora menos você. Passou. Passou inclusive o meu sorriso contente ao me imaginar escrevendo e lembrando nós dois, num futuro, balbuciando entre um suspiro e outro, com uma voz muito concentrada no azul, a frase do poeta: minha impressão é que tenho amado sempre.

Por ter/ser passado, hoje, quero pedir: não me devolva nada. Não me entregue tuas ternurinhas. Não me devolva tudo o que já te entreguei, agora, quando já não interessa. Você deixou a porta entreaberta, eu fechei. Fecho. Se abra inteiro, encontre alguma menina interessante, me deixe passar. O meu amor foi grande. É imenso. É sempre teu. Mas não mais vivemos juntos nele. Ainda penso conseguir um dia estar ao teu lado, saber te ouvir, arranhar teus ouvidos com meus sorrisos, ficar horas pendurada ao telefone. Me engano, assim, para doer menos. Já doeu demais.

Continuo a te querer bem. Respeito nosso relicário. Respeito você. Sempre que noto as coisinhas construídas que me foram deixadas, me sinto leve. Faz cócegas ter você me alicerçando. Amores de ontem, todavia, devem ficar na poesia intocável. Por isso afirmo que aqui, nesse parágrafo, estou me despindo de você. Deixo tudo. Vai haver um ponto final adiante, porque aprendi a usá-lo. Deixo aqui. Não aceito devoluções. Se não for teu, sempre será de alguém.

Te abraço com calma, para que os corpos solucem todos os beijos que não foram dados. Te entrego alguma coisa bem bonita. Que todo o amor que deixei seja teu, ainda que levado por outro alguém.

Que o coração jamais se apague.

P.S.: O que importa, realmente já foi feito. E é nosso. Sempre seremos nossos, porque ninguém nunca nos terá igual. Nunca havia sido tão assim, eterno.


Fé cega, faca amolada.

20:07






Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada. Agora não espero mais aquela madrugada. Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada. O brilho cego de paixão e fé, faca amolada. Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo. Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo. Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada. Irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada. Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia. Beber o vinho e renascer na luz de todo dia. A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada. O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada. Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia. Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia. Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranquilo. O brilho cego de paixão e , faca amolada.





[Milton Nascimento]




_________________

É por aí. Meu Deus, tem que ser por aí!
Em transe, na voz dos Doces Bárbaros,
saio daqui, hoje, amando.
A tudo. A todos.

Glau.

13:42

Duas vezes amor, para a mineira.

Porque o dia é dela, já nas primeiras horas vou conseguindo unir em letras todas as coisinhas que quero entregar. Minha luminária faz amarela apenas essa parede. Esse papel. É preciso que um sol seja escrito e caiba inteiro nessa manhã que chega dentro em algumas horas. Preciso enfeitar o dia para que ela acorde com várias cores entrando pelas frestinhas de sua janela. Um horizonte belo. Eu, aqui do lado de cima do mapa, fico brincando de medir com os dedos a distância física que nos alcança. Ignoro. Traço planos para abraçá-la. Escrevo.

Fecho os olhos procurando as palavras mais lindas para amá-la, hoje, de um modo diferente. Por uma distração, tenho a certeza de sermos feitas da mesma matéria. Fomos colocadas no mundo uma com um pedaço da outra, para que houvesse a certeza de um encontro. Nos encontramos. Me encontrei nela. Ela, encontrou-se em mim. Veio um ano antes, para me explicar. Ela me explica. Eu a entendo. Sou a página da esquerda. Ela, a da direita.

Olho para trás e vejo o primeiro abraço, há dois anos. Abraço de sonhos. De amores vividos, amores guardados, histórias, falar de si, doer em par, falar da vida. Do bom da vida. Descobrimos que não nos importamos em morrer de amores todas as semanas. Vivemos para isso. O coração dela carrega um manifesto estufado de poesias exageradas. Porque o lindo existe dentro da moça em quantidades desproporcionais. Na desproporção foi onde eu coube. Onde couberam minhas malas. Meus segredos. Meu amar primário.

Houve um dia um momento de silêncio, respeitado por ambos os lados. Eu quem rasguei. Pensei que houvesse retalhado cada vírgula já sonhada. Costurei outra vez. Costurei desajeitadamente, quando ela voltou e saiu pingando reticências naquilo que nunca foi ponto. Nesse dia me assustei: Glau era a minha interpretação para qualquer coisa que se denomine doce. É o motivo da minha ida ao belo horizonte, para encontrá-la. Um abraço materializado, motivo de ternurinhas derramadas em todas as histórias que partiram dali. Meu amar segundo. É o motivo pelo qual escureço essa folha branca, hoje.

Motivo de um querer bem. Motivo de um sorriso terno. Motivo de um sustento, quando aquele amor teve que ir embora. O meu, o dela. Da ausência de pudor em demonstrar toda a dor sentida. Motivo de alguns dos e-mails mais lindos que já recebi e escrevi na vida inteira. Quando escrevo para ela, pareço escrever para mim mesma. Ela abre minhas metáforas. Eu a desenho. Eu choro todas as minhas verdades e ela me acolhe com tantos braços quanto forem possíveis. Eu a encontro brotinho e saio flor. E eu torço tanto por ela! Para que as coisas sejam as mais delicadas possíveis e que saibam caber direitinho nos cantos onde ela precisa. Torço para que a vida faça festinhas sem necessidade alguma, só para que ela sorria. É importante que ela sorria.

É importante que eu continue a rir da cara dela enquanto ela se desespera e vive noites insones por conta de um amor imenso. E lindo. É importante que ela xingue e tome decisões que vai esquecer de cumprir no dia seguinte. É importante deixá-la tensa vendo verdades nas loucuras que ela enumera. Importante que ela saiba que fico comendo meus esmaltes enquanto aguardo os resultados de toda e qualquer estripulia às quais ela se submete. É importante apoiá-la sempre. Importante que ela entenda essa minha coisa de ser maria-pão-de-queijo [porque, cara, o que são os mineiros, an?]. Importante que ela chegue em casa com calos nos pés, de tanto dançar, enquanto me conta todas as novidades. Importante que ela tenha me levado à rodoviária e tenha segurado minhas mãos geladas ao subir as escadas para amar de perto. Importante que ela compre todos os filmes da cidade e me convide para assistir e ficar de perna para cima. Importante que ela me chame de nega. Importante que ela ame Friends e não ligue para o meu jeito meio Mônica de ser. Importante tê-la estressada com o trabalho, com a fase final da faculdade, com as viagens planejadas. Importante é acreditar nela. É que tudo dê certo, porque eu sei que vai dar certo. É que ela saiba ser dona do melhor abraço do mundo. É que ela saiba que toda a simpatia que transborda daquele sotaque é que me fez montar uma casa dentro dela. Importante é fazer parte de tudo o que ela compõe. É poder dizer que ela é a minha mais amiga loira. O meu grande amor mineiro.

Escrevo agora já desconfiando que hoje será mais um dia onde colocarei os pés para fora de casa e olharei o muro ao lado com a velha interrogação de sempre: por que Glau não é minha vizinha? Mas depois vou lembrar que hoje, mais que todos os dias, ela está em tudo. Em minhas saudades, principalmente. E vou agradecer. É tão bom tê-la em minha vida!

Preciso dela para que a vida se misture e tenha trilha sonora de forró, xote, samba, sonho, festival de cachaça, comida de boteco, sol infernal de Belo Horizonte, praça da Liberdade. Preciso pela liberdade em sermos quem somos, sem precisar dosar. De sermos crianças, sermos chatas, sermos gayzinhas e amaramaramar contando tudo uma a outra, sermos rabugentas, dizermos da infância, sonharmos um futuro. Preciso dela para ser feliz. Com ela. Por ela. Ela chega até aqui. Chegava até o norte. Eu estou no sudeste. Ela é minha praia nas Minas Gerais. Todo o meu amor pelas Minas Gerais. E uma razão pela qual a Bahia se enfeita azul, nesse dia dez de maio. Dez vezes encanto, enquanto amanhecemos por dentro, vendo todo esse teto lá fora sendo tela para vinte e quatro estrelas. Estrelas amadurecendo para despencar nela, confirmando tudo o que cintila enquanto traça seus caminhos.

Eu amo você, pretinha. Amo duas vezes. Do jeito mais bonito que consigo. E sem jeito também.

Toma aqui, então. Leva meu abraço em todas essas letras. E meu sorriso de cinco meses atrás, enquanto preparamos o próximo.

Agora vai ser feliz,
tres-lou-ca-da-men-te f e l i z,

Jaya.

P.S.: Feliz Aniversário, envelheço na cidade!

Dulce.

Poema sujo: Leo.

00:36


Um coração lascado
e duas doses de amor no chão.

Ele usava óculos. Sempre fui fissurada em caras que usam óculos. Mas não era só isso. Foi também o modo como ele se encostou no poste e a blusa xadrez por cima da calça surrada. Talvez tenha sido a maneira como segurava o cigarro entre os dedos compridos e a feição que sua boca adquiria a cada trago. A fumaça suspirada. A medida do Bonfim no pulso esquerdo.

Meus olhos se largaram nele e decidi que tinha de buscá-los. Nos encontramos então ali, no cruzamento daquelas duas avenidas que não se conhecem. Perguntei se ele tinha fogo. Tenho. Me acende. Acendeu. E o isqueiro vermelho virou brinquedo em suas mãos enquanto nos sentamos no meio-fio daquele boteco. As sobrancelhas dele me sorriam. Retribui. Conversamos vigiados por uma e outra janela das casas e edifícios ao redor. O céu era nublado. A bebida era gelada. O cigarro estava aceso.

Três batidas de limão depois, talvez ele começasse a me achar muito louca. Sexo, culturas fúteis, solidão, astrologia, eu não sei. Eu falava sem parar. Três batidas de limão depois e eu precisava de amor. Três batidas de limão, ele, eu e depois. Sorri pela primeira vez. Ele incomodava meus lábios.

Sem saber, eu já o imaginava tomando café encostado na cortina do meu quarto numa noite que ventaria muito. Eu me senti maior. Ou talvez o mundo tenha diminuído. Talvez, naquele instante, tenhamos descoberto nossos mundos. Numa vontade infantil, beijei-lhe as pálpebras. Os olhos castanhos desse rapaz começaram a me invadir. Gargalhei por dentro. Gargalhei da minha tentativa frustrada de esvaziar o mar com um balde furado. Era mais ou menos assim. Mais assim.

Numa conversa de perto, insustentados pela leveza, lembro quando ele disse gostar das minhas cores e da maneira como minha roupa andava. Eu usava saia e meia-calça pretas. Blusinha branca, tela para o que a noite pintasse. Os cabelos soltos, ao vento. Sem maquiagens, sem máscaras. Ele me via em cores. Eu era preto e branco. Choviam elipses enquanto borboletas bêbadas iam me perturbando a garganta. Tive uma curiosidade de outros tempos em olhá-lo por dentro. Senti ciúmes. Quis saber sonhá-lo.

Uma mesa esvaziou e tratamos de ocupá-la. Lembro de como ele se levantou, bebendo o mundo a doces goles e tentando falar bonito sobre toda a ausência de sentido em sentir. Me confessou semanas depois que nesse momento, ao me ter mais perto, ele soube que treparíamos dali a alguns dias. Eu também soube. Enquanto ele comia amendoim e Gal cantava Baby, eu soube. Soube ainda quando senti inveja dos seus cílios brincando uns com os outros.

Meu reflexo viveu em suas lentes. E era absurda a quantidade de coisas lindas que iam sendo despejadas em cima daquela mesa plastificada. Meu pedido era que ele houvesse me fundado dentro em si. Era nascer nele, para mim. Meu coração tava batendo. Porra, sabe? Sinais. Sinos. Era um samba, um samba. Era a noite indo embora e um bilhete, quando voltei do banheiro:

Passeia entre os poemas rasgados em cima da mesa,
em nome de cada amor que se ergue nessas paredes manchadas.
Passeia para depois descansar em mim.
Descansa em mim, coração.

Leo

Atrás, um número de telefone. Fiquei por mais alguns minutos. Pensei bobeiras. Pensei em como ele caberia na minha sala, decorando meu apartamento. Tive uma vontade boba de que lavássemos roupas juntos. De tê-lo amassando minha cama. Tive medo de atrasar o amor, de que ele esquecesse de começar. Naquela cadeira de ferro, amarela e gelada, torci cachos inexistentes. Minhas retinas se afogaram, momentaneamente. Engarrafei poesia para ser entregue um dia. Se viesse.

Uma semana depois, telefonei. Leo, Isabela. Apesar de não saber meu nome até então, ele soube que era eu. Nossos dedos se buscaram entre as linhas. Entrelinhas. A vida falada, uns silêncios, nossa respiração se abraçando. Um novo encontro, aqui. Era noite, ele chegou. Eu, ausente de mim que era, cheguei ao mesmo tempo. Pela maneira como o cabelo caiu em minha testa, ele soube: eu estava pronta. Descansar, enfim. Viver de repente pareceu fácil.

Conversamos. Naquela noite, Leo cheirava às reuniões de porta aberta na casa de Vinicius. Um puta cheiro de inefabilidades. Ele segurou minhas mãos. Contei que precisava que ele segurasse minhas mãos. Que entendesse minha ausência de romantismo falado, praticado. Eu só precisava que ele segurasse minha mãos, assim, enquanto ficávamos sentados no corredor do sétimo andar, em frente ao elevador. Era o momento onde meu coração descia para a palma da mão e o amor escorregava para as pontas dos dedos. Ali, eu entregava tudo. Aqui, fico cavando um espaço para poetices. Fico contando, cantando, porque, cara, eu precisava falar disso tudo. Minha língua já não pousava nas palavras que sabia. Era uma anestesia louca de carinhos: todos os amores sendo arrumados para que coubesse ele. Meu amores são todos guardados, na composição deles é onde me encontro.

Naquele dia ele me trouxe uma frase feita com meu nome. Usei de todos os neologismos para traduzi-lo. Ineficaz. Corria o risco de voltar para casa ausente de braços. Ele tentava me ensinar a dizer o amor. Drummond soltou meus cadeados, por ele. Porque, Isa, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Nós não sabíamos. Mas, hoje beija? Me beija! E ponto. Alcancei seus lábios e cobri todos os nomes que ali moravam. Ele me abraçava rascunhando todos os contornos do meu corpo.

Na manhã seguinte, abri os olhos e havia sido deixado nos lençóis esse eco de sorriso. Paixão saltando da janela. Uma coisa que dizia que a gente deve ser feliz. Uma vontade de viver mais, de se cuidar mais. Uma necessidade de plantar uma flor. Deixou-se, em mim.

Tão mais tarde, descobri-o sendo minha insanidade etílica. Minha ressaca mais lírica. Esvaziar de garrafas, encher de cinzeiros. Equilibrei minha falta de métrica e ele escolheu aconchegar-se em meus cantos. Espalhou-se. Eu precisava muito me encantar absurdamente com qualquer coisa antes que acabasse a sexta-feira. Me encantei. Ele se propôs a deitar entre as vírgulas e pontos desse texto. Tudo era linha nova cosendo meu coração de retalhos.

Talvez ele esteja agora mais distante que as nuvens. As nuvens, as nuvens eu vejo. Aprendi, ali mesmo, a amá-lo poeira. Leo tinha um rosto de primeiro beijo. É lindo sê-lo.

_________________

Isabela já escreveu a Leo,
aqui.
Hoje, escreveu sobre.

Vinte e três.

00:00

É isso a vida? Então, de novo ela!

[
Fritz, o barbudo].

Continuo a mesma. Continuo no mesmo endereço de um ano atrás. Continuo com a mesma árvore de folhas sempre verdes na calçada. O mesmo muro de pedras que resolvem brilhar à noite refletindo a luz da lua. Continuo na mesma casa de tons pastéis. Continuo com a mesma janela que dorme aberta e os mesmos incensos acesos em noites onde são necessários. Continuo com o mesmo nome, o mesmo sobrenome, RG, CPF, só transferi o título. Continuo com o mesmo celular. Continuo com o mesmo jeito direto que assusta algumas pessoas. Continuo a mesma boba que sorri de nada. Que faz bico quando chora. Continuo com o mesmo jeito tímido. Continuo com a mesma cautela. Continuo com um exagero abusado e um drama para achar graça. Continuo falando bobagens. Continuo acreditando nos amores. Continuo quebrando a cara. Continuo brincando de ser feliz. Continuo eternizando letras. Continuo a ver São Jorge na lua cheia. Continuo com minhas insônias. Continuo com minhas defesas, medos, desesperos. Continuo vivendo muito para dentro. Continuo sem paciência para o social. Continuo com umas ondas de velhinha. Vez ou outra dou uma de João Gilberto. Continuo crítica, principalmente comigo mesma. Continuo azeda, mas muito doce quando doce. Continuo do contra e adoro discordar para pirraçar. Continuo tomando dramin para viajar e viro a pessoa mais imbecil do mundo sob o efeito dessa droga. Continuo a fazer aquela vozinha cuticuti quando converso (?) com bebês. Continuo séria. Continuo sorriso. Continuo a tomar o microfone só para mim quando tem um videokê por perto. Continuo com o joelho esquerdo me perturbando. Continuo a fazer telefonemas de carinho ali no quintal, olhando para o céu. Continuo viciada em pão de queijo e a achar Friends o melhor seriado. Continuo a reclamar do calor. E se faz frio, reclamo do frio. Continuo a preferir o inverno. Continuo fã de sorvetes. Continuo a soprar cílios. Continuo a me apaixonar todos os dias. Continuo a sofrer para pisar no chão e deixar a fantasia de lado. Continuo descaradamente pisciana. Continuo com umas coragens insanas. Continuo a irmã mais velha de Éden, Daniel, Sofia, Clara, Pedro, Rebeca e Amanda. Continuo a perder a conta quando me perguntam quantos irmãos tenho. Continuo sendo várias, depende de quem me chama. Continuo a soletrar meu nome em todo canto. Continuo a saber que é meu nome que será chamado quando aparece uma trava na boca das pessoas que leem o papel. Continuo louca por abraços. Continuam a cantar a música de Chico César para mim, quando me conhecem. Continuo a sorrir dizendo que não tem nada a ver. Continuo a fingir que não tenho medo de avião. Continuo a fazer poesia dentro do ônibus. Continuo a me preocupar com as revoltas naturais do mundo. Continuo filiada ao Greenpeace e também à WWF, por não encontrar maneiras mais ativas de ser solidária nesse ponto. E continuo não gostando de animais. Continuo travada nos euteamos. Continuo com o mesmo perfume. Continuo na academia. Continuo a trocar baladas por cinema. Continuo a ter nojinho de piscina. Continuo a enxergar em Minas Gerais um lugar que é abraço. Continuo louca pela minha Bahia. Continuo a cobrir meu corpo inteiro quando durmo à noite após um filme de terror. Continuo a achar mesmo que o cobertor me protege, nessas situações. Continuo obviamente besta. E chata. Continuo observadora demais. Continuo calada quando muita gente fala ao mesmo tempo. Continuo a criar histórias para pessoas desconhecidas enquanto sento num banco qualquer pelas praças. Continuo essencialmente MPB e bossa. Continuo sempre com um trident de canela na bolsa. Continuo a demorar para responder e-mails. Continuo a escrever cartas. Continuo a achar estranho unhas dos pés pintadas de vermelho. Continuo a tomar banho de chinelo. Continuo a escovar os dentes com a mão esquerda na cintura. Continuo com a letra pequenininha. Continuo a procurar erros de português em todos os cantos. Continuo a me sentir nua sem brincos. Continuo sarcástica. Continuo ótima ouvinte. Continuo sensível demais. Continuo insensível demais. Continuo a dizer que De onde vem a Calma é a fotografia do meu lado de dentro. Continuo achando quarta-feira o melhor dia da semana. Continuo acumulando leituras indicadas. Continuo a achar que chuva forte é aplauso. Continuo com inveja das pessoas que gostam de café e amendoim. Continuo a me encantar com ternurinhas. Continuo a ter gastura de pessoas cantando inglês errado. Continuo a ganhar o dia quando me dizem que andei engordando. Continuo a ter medo de panela de pressão. Continuo sem beber refrigerantes, sem orkut, formspring, twitter, facebook. Continuo sem cachos. Continuo a não usar batom. Continuo a achar Para uma menina com uma Flor um dos textos mais lindos do mundo. Continuo preferindo a calça jeans. Continuo a ver duplo sentido em quase tudo. Continuo a achar melancia uma fruta alegre, porque cada talhada é um sorriso. Continuo achando que preciso usar óculos. Continuo com preconceito musical. Continuo com preguiça de gente. Continuo com saudades imensas de Roraima, daquele monte de verde e dos amores que lá permanecem. Continuo a babar horrores com a bala 7 belo. Continuo a sorrir quando vejo uma câmera fotográfica. Continuo a não saber dar parabéns além do básico: parabéns! Continuo a gostar de acarajé quando o dia tá indo embora. Continuo preferindo coxinha a brigadeiro. Continuo a sentar na grama. Continuo a me tranquilizar quando a chuva cai lá fora. Continuo na minha sozinhez. Continuo a brigar com minha escolha profissional. Continuo a pedi-la em casamento todos os dias. Continuo a achar que catchup, purê de batatas e diamante negro são invenções dignas. Continuo a ficar com a cara amarela quando chupo manga. Continuo a tchutchar o pão no prato de sopa. Continuo a achar que pra caralho é uma expressão que intensifica as coisas pra caralho. Continuo pagã. Continuo a ter que me cobrir da cintura até os joelhos, mesmo que o calor seja imenso, ou então não durmo. Continuo a não ser mulherzinha. Continuo a não ter amigas mulherzinhas. Continuo com as pernas inquietas que dançam debaixo da mesa. Continuo a ter crises de enxaqueca durante implosões. Continuo a tirar o esmalte com os dentes deixando o chão cheio de pontinhos vermelhos, quando ansiosa. Continuo solta. Continuo amante de praias. Continuo a usar close-up verde. Continuo a ficar tonta na rede. Continuo monstra quando acordo e mais ainda quando sinto dor. Continuo achando a acústica do banheiro algo sensacional. Continuo a contar meus mais amigos nos dedos da mão direita. Continuo com doses de melancolia. Continuo a voar para dentro das pessoas quando vejo pedacinhos meus por lá. Continuo a ver um lado escondido quando o espelho me enfrenta. Continuo a chorar de repente, do avesso, florindo. E depois, planto sorrisos. Continuo a me gastar de maneiras lindas. E a contabilizar meus pedaços assim, todo dia dezenove de março. Que eu escolhi para meu. Que me recebeu, com suas águas. Toda essa promessa de vida. E vários corações.

Continuo amor.

______________

Inspirado na sequência de Fabrício Carpinejar, em: No Mesmo Lugar.

Para deixar as coisas tão mais lindas,
teve amor despencando

Trocando em miúdos.

00:29

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.


[Chico/ Francis Hime - Trocando em miúdos]

Eu fico abraçada aos discos antigos. O violão me espia, mudo. Espalho papéis no chão e passeio entre todas essas letras caladas. Me debruço sobre versos já tantas vezes lidos e me alugo para sonhar, como o poeta da solidão. O incenso queimou. Já não lembro teu cheiro.

Guardei a dor em casa e vim ao teu encontro. É aqui, nessa folha branca, que eu te amo. Cultivo um perfil desbotado de sorrisos, desabitado de carícias, mas te permito em meus olhos. Eu subo as escadas, mochila nas costas e o apartamento se manifesta com inúmeras coisinhas desmaiadas.

Um passo a mais, o espelho. Minha ternura por minha imagem apenas por te saber havido ali dentro, refletido há algumas horas. Cabelo preso num coque, moletom, jeans, tênis e um perfume caro. Me espio. Piso no cigarro e observo o nada pela sacada. A fumaça vai como um suspiro para o mundo. Vem a mim como um congestionamento interno. Me falta a euforia depois do teatro. Um amor acabando na sorveteria. Minha conta de telefone já não te anuncia há meses.

O som ligado no quarto me chama. Toalha molhada na estante. O ambiente é puro café para as melodias caetaneadas. Mora na filosofia. A impressão é a de que o mundo já acabou faz tempo. Fico com a possibilidade imbecil de te ouvir numa concha, nos verões etéreos, disputando a harmonia do mar. Importa são as escalas da tua voz brincando de dar nó em todos os coraçõezinhos que me percorrem.

Chove lá fora. Chove azul, luz, água. Eu carrego um gosto de dois anos atrás, sorrio meia dúzia de amores tortos e me recomponho. Tenho mania de guardar carinhos. Amarro as pontinhas doces de tudo, insistentemente. Não troco minha poesia solta por nada que não rime com línguas, dentes e saliva. Poesia desaforada, escandalosamente cheia de buracos. Precisando de costuras. Talvez o papel vire renda.

Deito na cama de lençóis sem estampa e, no teto, passo o amor a limpo. Queria te saber por dentro, hoje. Inventar uma palavra que não tivesse nome de sentimento. Te preparar um beijo antes que você terminasse o vinho. Me espreguiçar fotografada por teu rosto e te ver me guardando em tuas pálpebras, me deixando escorregar em tuas curvas instantes depois. Escrevo sem borrachas, mas viro a página.

Que sejamos agora sonhados pelos outros. Quarenta e nove cartas de amor na minha caixinha do correio e um lugar vago no banco de passageiros do meu fusca. A vida é cigana. Essa noite vou a pé. A cidade já dormiu e eu não quero nunca terminar de começar.

Caminho devagar para me molhar mais. Para depois, escorrer mais. E agora, com o coração estupidamente dilatado, absinto-me. E voo.

Preciso de alguém que me segure com a boca.

Rebeca.

16:14

Se soubesses o bem que eu te quero
O mundo seria, Dindi
Tudo, Dindi
Lindo, Dindi.

[Tom Jobim/ Aloysio de Oliveira - Dindi]

Para quando você aprender a ler.

Precisei te trazer para perto. Cheirar teus olhinhos de meia-lua. Te imaginei sentada em meu colo, com aqueles cachos soltos e sapecas, tais quais teus sorrisos. Quis teu abraço-apertado-que-salvava-meus-dias. Quis você me contando tuas histórias onde encaixava tudo aquilo que ia aparecendo, enquanto, simultaneamente, gritava comigo segurando meu rosto para olhar para você enquanto fala.

Você nem sabe que, enquanto ficava criando mundos com teus brinquedos, eu me pegava te olhando e rascunhando você em mim. Nem sabe o quanto tento te colar nesses meus planos de uma vida inteira. E porque hoje fiquei observando tuas fotografias antigas, lembrei daquele vinte e três de fevereiro, à tarde, todo mundo na expectativa para enxergar teu rosto. Lembrei de estar em casa, ansiosa por notícias. Do telefone tocar, e alguém dizer: nasceu. Tá tudo bem. E é linda. Rebeca é linda.

Naquela noite fui ao hospital. Fui dormir com você. Você sempre de olhos fechados. Bochechuda, botão-de-rosa, e linda. Eu te amei ali, totalmente desprevenida. Porque senti você atingindo meus cantinhos e fazendo um afago que eu nem sabia existir. Te olhei a noite inteira. Você nem dava trabalho.

Porque então comecei a desconfiar se você não era um anjo. E você nem tinha asas, ainda! No dia seguinte, você ao meu lado, duas bolas escuras olhando em minha direção. Peguei você no colo, segurei tua mãozinha e você agarrou meu indicador. Pensei que isso nem existisse. Claro que você não vai lembrar disso, mas eu me derreti como ninguém nessa hora. E meus olhos se umedeceram assim, disfarçadamente. Igual agora, quando os fecho e imagino tua presença. Teu dengo. Teu jeito carinhoso. Teu amor para com a gente. A maneira como você arranca nossas risadas a cada descoberta. A cada palavra. A cada beijo melado.

Lembro de você sentada, com todo aquele jeito de flor, de encanto, fazendo estripulias. Nunca vou esquecer aquela tarde amarela, numa Boa Vista sempre amarela, onde você perguntou: tu gota mim? E diante da minha afirmação efusiva, respondeu que eu gota tu, também. E você tinha acabado de aprender a falar, seu belisco! Aprendeu a falar, a me fazer chorar. Aprendeu a ser minha, ser sempre minha.

Hoje você é uma boneca. Às vezes borboleta. Toda colorida. Cinco anos. E eu sinto falta de quando você só dormia se fosse agarrada a mim, embalada por uma canção de ninar qualquer. E da maneira como você acordava mau-humorada se o sono não fosse bom o suficiente.

Eu às vezes fico olhando a porta do quarto, nessas manhãs de domingo, imaginando que de repente você surja abrindo-a e pulando em cima de mim, toda serelepe. E te imagino rindo da minha antipatia. Hoje, também, eu lembrei você me dando tchau, indo para a escola na maior pose de gente grande. Lembrei do primeiro dia, você chorando, eu chorando, e todo mundo querendo te deixar lá contra minha vontade. É bastante doídinho, Beca. Essa ausência da tua pureza, tua inocência, teu jeito doce que me fazia te apertar inteira, até você ficar vermelha e sem forças, entendendo o quanto tua irmã é louca e precisa de você.

Daí nessas horas eu fico assustada com o mundo, que não é como a gente sonhou, e me forço a procurar os pedaços menos pesados dele, para que sejam teus. E vou te entregando assim, aos poucos. Enquanto isso, fico daqui de longe, querendo te ver voando por aí, fazendo música, rabiscando quadros, pirraçando, correndo, tropeçando, andando de bicicleta, tomando banhos de chuva, brincando de ser feliz, e sendo, de fato. Fico com tua vozinha ao telefone. Fico contente que você já consiga falar comigo, sem os soluços chorosos de antes, enquanto minha mãe dizia que você abraçava o telefone ao ouvir minha voz dentro dele. Fico te querendo bem todos os dias, e olhando tua foto linda pendurada no meu mural. É o meu melhor motivo, até então.

Eu amo você, Rebeca.

Gravo essas palavras para serem tuas. Para você ler quando souber fazê-lo. E me telefonar. Ou me abraçar. Ou apenas me firmar em você, me entregando um pouco do teu lirismo, e me permitindo te carregar em meus bolsos. Você comigo, seja lá para onde eu for.

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Espero que você goste de Tom. Escuta Dindi.
Eu assino com ele, hoje, pelas histórias minhas. E de você também.

Que é a coisa mais linda que existe
.

Chave.

14:44

Algumas coisas lindas ardem.

É aquilo que você faz com as pernas, baby. É o seu levantar da cama e o acender do olhar à beira da janela enquanto observa a cidade se esvaziar. É a calcinha branca que te veste delicadamente enquanto perambula pelo chão vermelho do quarto ao mesmo tempo em que se perde ali no canto, ao lado do abajur apagado. Eu queimo enquanto desenho tua sombra, reflexo da minha própria luz. Ao pé do ouvido, versinhos do nosso descaso.

É aquela maneira como você sobe na cama para agarrar o travesseiro, ou a mim. Ou o modo como tuas pálpebras colam minha imagem dentro em ti. É toda essa ausência de amor. Todo esse excesso de loucura. Você. Você. Você. Nossos rascunhos nas paredes daquele bar. Um sorriso, três doses.

Essa noite a cama é imensa. É necessária minha voz esbarrando em tua pele e escorrendo por todos os teus sentidos. Ou a falta deles. Você, hoje, explodiria doce em minhas mãos. Me deixaria sorrir meus terços de vantagem. Me entregaria teus lábios transbordantes de beijos e eu entenderia os caminhos. É permitido atropelar. Dissolver. Todas as tuas quedas continuam a ser em mim.

Talvez seja preciso um banho teu. Talvez teu corpo inteiro seja boca. Línguas e céus ansiosos. Meus dedos, amigos das tuas blusas. Teu hálito, meu hábito. Nenhum roteiro e belezas decoradas. É como pinto o azul-marinho do teto que se partiu. Um escândalo.

Tua pose de menina se esvai enquanto teus poros se rasgam. Um cheiro de vinho, uns passos trôpegos e uma dança no meio do tapete da sala. O próximo número deve ser em par. Fevereiro arremessado, assim, eufórico. Você com minha camisa, eu com teu gosto. Teus seios amassados no colchão enquanto os cabelos te cobriam o rosto e meus gestos soltos iam distraindo-se em carinhos impraticáveis.

É mais uma sexta-feira. Meu nariz e tua nuca. A água que ferve quando prova tuas curvas. Nenhum sossego, linhas ocupadas, teus gemidos. Minha voz já rouca emaranhada de suspiros. Essa tua coisa de me encarar entre os lençóis. Nossa delicadeza em acordar a cidade. Minha festa cabendo em você.

Te olhando daqui, crio motivos proibidos e alterno entre vertigens furtadas pela falta de ângulo. Você é linda a essa hora, e o dia ainda nem existe. Debruçada em minhas costas, me deixa descobrir tuas senhas enquanto me entrega todas as falhas, rosnando, aninhada em meus abraços. Você me bagunça em todos os cantos. Tua língua me destranca.

Urgência maior é te inaugurar.

Mãe.

00:25

Para o grande amor da minha vida.

É preciso uma pausa nas saudades.

Depois de um ano, você veio. E eu nem liguei de me enrolar no teu pescoço e deixar escorrer minhas lágrimas de tanto amor-maior ali, no meio de todo mundo. Tá fazendo duas semanas que você foi embora e cada dia eu te amo mais.

Esses dias deitei antes das oito, disposta a sonhar e lembrar do sonho. Você sabe que meus sonhos são os mais incoerentes do mundo, mas a noção de realidade que eles trazem para o dia seguinte, é algo muito certo. É como se eu de fato houvesse estado com. Estado em. Foi assim que eu passei pedaços da minha noite com você. Quando o despertador tocou de manhã, fez frio. Eu não sei, mas a ideia que meu coração abrigava era a de abrir a porta do quarto e ter você na cozinha, falando que a cama tava pedindo socorro, de tanto que eu durmo, e depois notar minhas olheiras infelizes de eternas noites insones e começar a me perguntar quais seriam meus passos durante o dia que iniciava.

Antes, repito: tem muita coisa aqui que me faz bem. Muita gente. Muito amor. Mas não tem você, entende? E é justamente nessas horas sacanas que eu penso em como distância é algo foda. Não sei. Depois eu fui ficando bem. O tempo todo, quis te ligar, mas desistia. Porque eu ia chorar mais, você ia chorar também, ia ficar preocupada, ia ficar triste, ia me mandar voltar, eu ia querer obedecer, e de pensar em todos esses nossos diálogos malucos, deixei pra lá. Deixei, mas você ficou.

Eu ainda sinto teu cheiro. Escuto o eco da tua risada. Vejo minha cara de incrédula quando você me chama de meu neném. Sinto falta dos teus olhos implicando comigo. Da nossa mesa barulhenta, das piadas, dos surtos, de todo mundo falando ao mesmo tempo, dos olhares sempre cúmplices de uma pirraça deliciosa, e do teu tempero. Da tua comida. Do prato que você dizia ter feito pra mim, e a maneira como sorria boba quando eu comia feito um monstro. Aqui eu andei emagrecendo. Nada que explique isso. É saudade, penso. E isso não é diagnóstico em nenhum laboratório.

Hoje pela manhã, logo após desligar o telefone e ficar sorrindo da minha ideia maluca (leia-se troca de datas) de te dar os parabéns um dia antes do teu aniversário, fiquei imaginando o que você estaria fazendo. Resolvi que era um fim de semana, e te imaginei ouvindo música. Lembrei de você gritando um bota Clara Nunes, pra mim. E vinha com um sorriso no rosto, e uma dança cheia de trejeitos engraçados. Lembra quando meus amigos estavam em casa e você resolvia que queria dançar na frente deles, me matando de uma vergonha feliz? Aí eu sorri. Pensei também, que se fosse um fim de semana, você chegaria na sala bem na hora do programa que reservei, e chatearia querendo ver um filme. Daí a gente ia ver um filme, enfim, e você dormiria antes da metade. É, mãe, você dorme! E quando eu desligava a TV ainda tinha que ouvir um: tô assistindo. Rá!

Depois fui lembrando de todas as tuas besteiras. De você fuçando meu celular sem saber pra onde ir, de me imitar ao telefone, de querer falar com meus amigos e contar histórias mentirosas de mim, de entrar no quarto quando eu finalmente conseguia dormir, abrindo portas, acendendo luzes e gritando, totalmente afim de me ouvir xingar como quem declama uma poesia fina. Ou então de me ver presa e dizer vai sair, tomar um sol, daí eu ia lá e saia. E saiasaiasaia, pra ouvir o famoso não tem casa mais não, é? É, você é boba, criatura! E no mundo, ninguém mais me entende.

Quando foi entardecendo, lembrei daquela hora onde todo mundo ia chegando em casa aos poucos. Aí eu chegava da faculdade, e você geralmente estava no meu quarto. Será que você ainda fica lá? Eu guardava meus livros, e te empurrava da minha cama. Eu te abraçava, te mordia, te beliscava, só pra ouvir teus gritos escandalosos que eram afagos pra mim. Eu lembrei de tanta coisa que não cabe em palavras... E pensei que eu estava imensamente louca naquele dezembro, quando te disse tchau sem derramar nenhuma lágrima, sem olhar pra trás, sem.

Você me entende, que eu sei. Eu saí daí de dentro, afinal. E continuo a sorrir meu sorriso mais bonito quando me dizem que eu sou tua cara. Eu me desconcerto, quando num gesto mais bobo, dizem que eu fiz igualzinho você faz. Tô chorando agora, mas isso é coisa boa, tá? Todo mundo sabe que somos parecidas, e eu acho isso muito justo, afinal, você é linda como ninguém mais sabe ser. Riu agora, né?

Lembrei da gente, nesse janeiro, e aquele mundo de fotografias antigas passando de mão em mão durante o almoço na casa de vovó Nina. Depois que você foi embora, continuei lá. Vi fotos do teu casamento, você de branco, com aquela flor nos cabelos, e teus olhos (que todo mundo diz serem meus) eram felizes. A gente nunca conversou sobre isso, mas você parecia carregar um mundo de sonhos, ali. Vi todas as fotos. Vi você pequena, você moça, você dançando, você montada a cavalo, você doce, você sozinha porque rasgou o rosto daquele ex namorado de todas as fotografias que tinham juntos. Eu ri de você. Depois, tinha fotos da tua barriga comigo dentro. Você tava diferente. Nem sei explicar do instante seguinte, então, quando já tinha eu no teu colo. Tinha luz, mãe. Tanta luz, que eu não vi nada mais certo que nós duas. Aí eu comecei a conversar com minha tia, tua irmã. As histórias, as cumplicidades. Eu quis muito chorar de feliz. De triste. De você perto, sem estar.

Fazia um ano, sem te ter. Agora, duas semanas que eu não te tenho aqui, que você não me tem aí. Um tempo imenso, onde nenhum abraço é capaz de afagar todos os cantos desabitados do meu corpo. Onde ninguém chega em casa de madrugada e me acorda só pra dizer que encontrou alguém que eu goste na rua, e que essa pessoa me mandou carinhos. Onde eu chego em casa, e ninguém suspeita de uma raiva, uma tristeza, uma paixão, só de medir meu jeito de chegar. Um tempo imenso, mãe. Tempo de uma saudade que se esconde, presente em todas as minhas entranhas. Tempo de vontades. De querer que você pare de me ligar na hora mais acertada, como se ouvisse meu fio de voz chamando teu nome. Um tempo onde ninguém entra no meu quarto, deita ao meu lado, começa a conversar e dizer que me ama. Que sempre vai me amar. Tempo de ausência. Tempo de querer fazer tudo dar certo, por você. Tanto tempo sem você, parece mais é uma vida inteira.

Saudades de xingar os palavrões mais esculhambados do mundo e te fazer gritar o que é isso minha filha? enquanto gargalhava e ficava vermelha. Saudades de te ver feliz. Saudades do cheiro de incenso que você e Paulo acendiam enquanto tocava Zé Ramalho naqueles fins de semana barulhentos que me faziam fugir de casa, ou me trancar no quarto praguejando qualquer coisa ininteligível. Saudades de fofocar até mais tarde, contando pra Éden o quanto ele é bobo. Saudades de você falando mal de mim pra Manu, e de contar pra todo mundo desse orgulho besta que você sente quando eu faço coisinhas legais que te afetam tanto. Saudades principalmente de ter alguém acreditando desesperadamente em mim, inteira, porque às vezes é bem foda acreditar sozinha.

Às vezes chove, mãe, mas sei que todo o sol continua a se concentrar aí, nesse canto onde tem você. Sei porque meu corpo inteiro deixa de ser gelo, com as palavras que você despeja em mim, por telefone. Você chora e eu sorrio. Depois, eu chovo sozinha, mania minha. Mas tem uma fogueira, nessa hora. Você. Sempresempresempre. E só em você essa palavra cabe: sempre. Porque é um pra sempre sem fim. É coisa certa. Sentir exato.

Agora vou. Não quero mais prolongar essa saudade escrita. Uma coisa: meu quarto aqui tá com uma parede verde, porque é tua cor preferida. E coloquei um mural com fotos de todo mundo, pra me sentir mais perto. Falta uma de nós duas. Ontem, usei aquela minha blusa preta que tem mangas curtas, lembra? Lembrei da gente brigando por ela. Lembrei que eu tinha te dado, e só entendi agora porque tomei de volta: pra lembrar de tudo isso. Sentiu falta dela? Eu sinto falta de te arrumar. Vez ou outra penso em você indo pro meu quarto, pedindo ajuda, se tava combinando tudo, se a sandália tava bacana. Você roubando meu perfume, minha maquiagem, e deixando tudo bagunçado só pra ver minha chatice explodir, com minha mania de querer tudo no lugar. Aposto como você deve sentir falta disso! Tô sorrindo. Sorrindo daquele mesmo jeito que eu te sorria quando eu dizia estar sem fome e você dizia que eu só podia estar apaixonada. Minha cara de boba. Apaixonada por você, bestona! Sempre fui.

Beija todo mundo aí por mim, mãe. Abraça Beca por quase uma hora inteira, e dorme agarrada nela, como eu fazia. Abraça Sofi e pede pra ela te levantar, igual ela fez comigo, na garagem, no dia que eu vim embora. Abraça Cacá até ela xingar qualquer coisa. Abraça Paulo, também. Diz pra Éden que tô contando os dias pra ele chegar. E diz pra quem quiser saber de mim, que eu tô bem, e sinto saudades.

Uma entrega urgente: eu pra você. Tô aí. E sinto tudo. Nem é só amor. É o mundo inteiro das coisas mais indizíveis que já couberam um dia num coração apertado. O meu. E é tudo, tudo teu. O aperto? É excesso de querer-bem.

Feliz teu dia, meu amor. Feliz você.

Eu te amo do umbigo,

Jaya.

Dulce.

Leo,

23:46


Estou te amando muito nesse momento.

Foi o espelho, é essa lucidez, você me mandando beijos soltos que pousam onde bem entendem, notícias, essa minha mania de nunca ser exata. Levantei com umas tendências que nem eram minhas, e olhei meus olhos a fundo. Me vi, através. Comecei a ler meus pontilhados de uma maneira tão avançada, cara. Meu rosto ali, tomado por lembranças tuas. Coisas astrais. Já faz um ano.

Em nós, você e eu, as coisas foram acontecendo aos pouquinhos. Muitos, muitos pouquinhos. O canto de Ossanha e meu desinteresse por Vinicius, sobriedade, discursos, a praia. Joguei infinitos conceitos para o alto porque só tua boca me interessava. Nunca havíamos amado. O fato é que tudo se perde muito rápido. Nós nos perdemos lentamente. Tudo é passado e amanhã não tem mais nada. Daqui mais um tempo, miragens. Porra, sabe? Tem coisa que pesa. Pesa mais ainda em mim, uma viciada nessa coisa de parasempre. Quanta dificuldade, quanta.

Estou fumando. É, voltei a fumar. Pensei em você com mais força, agora. Não penso em você sempre. Muitas vezes é só balançar a cabeça e você vai embora. Acontece sem preparos. Outras vezes, um incêndio sacana surge, e eu não apago. As chamas sempre me fazem entrar em erupção. Violo todos os nossos pactos realizados tacitamente. É uma angústia, um incenso, cheiro de álcool, suor. Eu não sei mais chorar e aprendi que existem flores para todos os instantes. Hoje uso gerânios.

Te escrevo porque é noite, está quente e me convém. Ando íntima de pessoas tão perversas, Leo. Faço barulho, berro de prazer e dou dentadas em pedacinhos de vida. Tenho conversado com tanta gente, tenho me sentido tão longe de todo mundo. Ninguém me traduz. Virei um deserto e nada mata minha sede. Gente demais me dá um silêncio, cara. Pra agora, eu só queria quê. Conversas baixinhas, brincadeiras com minhas mãos, uma sacudida com qualquer filosofia fodida, dilacerada, porque a poesia já acabou faz tempo.

Ontem arranquei coisa pra caramba aqui de dentro. Com minhas unhas, mesmo. Te liguei e fiquei muda, de repente. Em minha voz não coube o excesso de palavras. Ela despenca ao te ouvir, antes de ser entregue. E se de repente eu te escuto, vou para a rua. Você me leva. Atraso passos, te imaginando na esquina seguinte. Batuco músicas com os dedos, sentada à mesa, enquanto meu coração pulsa teus passos inexistentes. Sinto teu cheiro pelo corredor. Quinto andar. Você sorriria ao me ver assim, vestida de mim, e só. Ninguém sabe me traçar com os olhos como você faz.

Já é tarde e eu estava precisando sentir. Sentir. Sentir tudo. O poeta disse: é preciso estar sempre embriagado. É preciso, sim. Embriagado de vinho, vida ou um sorriso teu. Porque por um instante eu perco o medo de me entregar. De ser. E penso que o amor é essa coisa assim, que tomam de você a vida inteira. E sempre vai ter. Sempre tanto. Tanto. É como quando você me deu aquele último abraço e eu me descobri cheia de corações. Seria impossível tamanho rebuliço por conta de um só pulsar. Eu tenho um coração em cada canto. Um acúmulo bonito de coisas que não consigo nem mostrar.

Te escrevo porque, caminhando, vi uma coisa desse jeitinho, todinha azul, completamente blue e lembrei de você. Pessoas sorrindo, um amor acontecendo em algum lugar. E quando o relógio anunciar as duas horas da madrugada, eu escrevo mais uma taça e saio daqui poema.

Eu quero muito ser feliz, cara. Com ou sem toda essa nossa simbiose monstra. A vida é muito mais barra sem você, constato. Te envio então esses meus recortes de um decalque quase-romântico. E te escrevo porque sempre haveremos de ser necessários.

Que todas aquelas coisas lindas te aconteçam,

Isabela.

P.S.: Continuo a andar descalça. Acredito que amanhã vai ser um dia bom e vou fazer muita gente feliz. Gastar amor. Quebrar a cara. Let it be.

Coração vagabundo.

16:38

Meu coração não se cansa
de ter esperança
de um dia ser tudo o que quer.


[Coração Vagabundo - Caetano Veloso]

Achei um amor debaixo da mesa do bar. Havia montes de anúncios brilhando em volta, uma poluição visual bem louca, e aquela poesia escancarada das noites amarelas de verão. Love blues. A bebida me adocicava por dentro, para ser sincera. Estranhei. Eu sou amarga. Sorri sem esperar nada da vida, e fui feliz. Línguas emboladas, palavras decifradas por dentro, segredos vindo à tona. Um gole a mais e eu já era bailarina.

Entre cochichos, gargalhadas, todo mundo ali mendigava carinho. Recitei Cazuza. Ardia. Eu poderia ser encontrada como nunca fui, naquelas horas. Tudo o que já escrevi, coube ali. Encenado. Despejado. Porque eu, na verdade, tava doendo. Ainda tô. Vai ser assim por um tempo, a amiga disse. E tanto, tanto foi dito. Sentido. Exposto.

Eu contei como amo. Desesperadamente inteira. Vacilando. Exagerada. Sem-razão. Maltratei minhas emoções, queimei meus versos, chorei. Doeu. Notei que, enquanto eu silenciava, ele era só meu. Uma vez palavreado, passou a escapar de mim aos poucos. Decidi então que deixaria o amor ir, para ser de todo mundo. Para estar salvo.

Briguei com Chico enquanto ele veio me falar de coisas que eu vivi, que ele viveu, e que acabou. E que depois vai começar de novo. E acabar. E começar. É um ciclo. De tanto contar, pensei: era tanto que não dei conta. Pensei e não disse. Deixei pedaços vermelhos do esmalte pelo chão. Eu me apaixono demais, tem muitos pedaços espalhados por aí.

Eu ouvi, também. Todo mundo ali já amou imenso. Percebi pelo jeito de sorrir. Toda vez que um amor vai, a gente perde um jeito de sorrir que tinha. Levei pancadas deliciosas, verdadeiras. Muita coisa rompeu. A vodca veio temperada com momentos de silêncio. Eu me apaixonei pelo violão do moço. Me apaixonei pela luz que me vestiu. Me apaixonei por todas as palavras que foram ditas. Emudeci. Ouvi coisas realmente bonitas e lembrei dele, dono de todas as coisas mais bonitas que ouvi. Perdi o olhar, discreta. Parei de lembrar. Cansei de inventar.

Minhas cores estão todas borradas, porque eu bati histórias românticas no liquidificador. Hoje à tarde choveu. Minha memória foi se perdendo de propósito. Já não detalho muita coisa. As lembranças pedem para virar imaginação. E eu tenho um medo bem grande, agora. Medo de deixá-lo passar. Porque sei que passa. Medo de deixar de amar. Penso que amar, para mim, é uma distração. Eu saio por aí catando amores que tropeçam no meio fio. Me apaixono por qualquer despertar. Minha alma tem vezes de prostituta, precisa disso tudo. Errado, assim.

Mas daí você vai sofrer de novo, dizem os medrosos. E o bom da vida é o que? É sentir. Des-pe-da-çar. Refazer. Quando tudo se rasga, quem costura sou eu. Dou conta. Se amanhã eu acordar e resolver amar pra caralho, eu amo. Ele, você, outro. Ponto. Que venha a mim todo o amor que houver nessa vida, o tempo inteiro. Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim.

Então, tinha um amor debaixo da mesa do bar. Coube no meu copo. No meu corpo. E eu já era bailarina.


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André, Clarinha, Glau, Mila e Rafa. Quero, hoje, abraçá-los com um monte de palavras doces.
Deixar escrito o obrigada, por permitirem que eu me deixasse um pouco em vocês. Obrigada.

Todas as coisas são possíveis.

Nós somos.
O amor é.