Dulce.

Poema sujo: Leo.

00:36


Um coração lascado
e duas doses de amor no chão.

Ele usava óculos. Sempre fui fissurada em caras que usam óculos. Mas não era só isso. Foi também o modo como ele se encostou no poste e a blusa xadrez por cima da calça surrada. Talvez tenha sido a maneira como segurava o cigarro entre os dedos compridos e a feição que sua boca adquiria a cada trago. A fumaça suspirada. A medida do Bonfim no pulso esquerdo.

Meus olhos se largaram nele e decidi que tinha de buscá-los. Nos encontramos então ali, no cruzamento daquelas duas avenidas que não se conhecem. Perguntei se ele tinha fogo. Tenho. Me acende. Acendeu. E o isqueiro vermelho virou brinquedo em suas mãos enquanto nos sentamos no meio-fio daquele boteco. As sobrancelhas dele me sorriam. Retribui. Conversamos vigiados por uma e outra janela das casas e edifícios ao redor. O céu era nublado. A bebida era gelada. O cigarro estava aceso.

Três batidas de limão depois, talvez ele começasse a me achar muito louca. Sexo, culturas fúteis, solidão, astrologia, eu não sei. Eu falava sem parar. Três batidas de limão depois e eu precisava de amor. Três batidas de limão, ele, eu e depois. Sorri pela primeira vez. Ele incomodava meus lábios.

Sem saber, eu já o imaginava tomando café encostado na cortina do meu quarto numa noite que ventaria muito. Eu me senti maior. Ou talvez o mundo tenha diminuído. Talvez, naquele instante, tenhamos descoberto nossos mundos. Numa vontade infantil, beijei-lhe as pálpebras. Os olhos castanhos desse rapaz começaram a me invadir. Gargalhei por dentro. Gargalhei da minha tentativa frustrada de esvaziar o mar com um balde furado. Era mais ou menos assim. Mais assim.

Numa conversa de perto, insustentados pela leveza, lembro quando ele disse gostar das minhas cores e da maneira como minha roupa andava. Eu usava saia e meia-calça pretas. Blusinha branca, tela para o que a noite pintasse. Os cabelos soltos, ao vento. Sem maquiagens, sem máscaras. Ele me via em cores. Eu era preto e branco. Choviam elipses enquanto borboletas bêbadas iam me perturbando a garganta. Tive uma curiosidade de outros tempos em olhá-lo por dentro. Senti ciúmes. Quis saber sonhá-lo.

Uma mesa esvaziou e tratamos de ocupá-la. Lembro de como ele se levantou, bebendo o mundo a doces goles e tentando falar bonito sobre toda a ausência de sentido em sentir. Me confessou semanas depois que nesse momento, ao me ter mais perto, ele soube que treparíamos dali a alguns dias. Eu também soube. Enquanto ele comia amendoim e Gal cantava Baby, eu soube. Soube ainda quando senti inveja dos seus cílios brincando uns com os outros.

Meu reflexo viveu em suas lentes. E era absurda a quantidade de coisas lindas que iam sendo despejadas em cima daquela mesa plastificada. Meu pedido era que ele houvesse me fundado dentro em si. Era nascer nele, para mim. Meu coração tava batendo. Porra, sabe? Sinais. Sinos. Era um samba, um samba. Era a noite indo embora e um bilhete, quando voltei do banheiro:

Passeia entre os poemas rasgados em cima da mesa,
em nome de cada amor que se ergue nessas paredes manchadas.
Passeia para depois descansar em mim.
Descansa em mim, coração.

Leo

Atrás, um número de telefone. Fiquei por mais alguns minutos. Pensei bobeiras. Pensei em como ele caberia na minha sala, decorando meu apartamento. Tive uma vontade boba de que lavássemos roupas juntos. De tê-lo amassando minha cama. Tive medo de atrasar o amor, de que ele esquecesse de começar. Naquela cadeira de ferro, amarela e gelada, torci cachos inexistentes. Minhas retinas se afogaram, momentaneamente. Engarrafei poesia para ser entregue um dia. Se viesse.

Uma semana depois, telefonei. Leo, Isabela. Apesar de não saber meu nome até então, ele soube que era eu. Nossos dedos se buscaram entre as linhas. Entrelinhas. A vida falada, uns silêncios, nossa respiração se abraçando. Um novo encontro, aqui. Era noite, ele chegou. Eu, ausente de mim que era, cheguei ao mesmo tempo. Pela maneira como o cabelo caiu em minha testa, ele soube: eu estava pronta. Descansar, enfim. Viver de repente pareceu fácil.

Conversamos. Naquela noite, Leo cheirava às reuniões de porta aberta na casa de Vinicius. Um puta cheiro de inefabilidades. Ele segurou minhas mãos. Contei que precisava que ele segurasse minhas mãos. Que entendesse minha ausência de romantismo falado, praticado. Eu só precisava que ele segurasse minha mãos, assim, enquanto ficávamos sentados no corredor do sétimo andar, em frente ao elevador. Era o momento onde meu coração descia para a palma da mão e o amor escorregava para as pontas dos dedos. Ali, eu entregava tudo. Aqui, fico cavando um espaço para poetices. Fico contando, cantando, porque, cara, eu precisava falar disso tudo. Minha língua já não pousava nas palavras que sabia. Era uma anestesia louca de carinhos: todos os amores sendo arrumados para que coubesse ele. Meu amores são todos guardados, na composição deles é onde me encontro.

Naquele dia ele me trouxe uma frase feita com meu nome. Usei de todos os neologismos para traduzi-lo. Ineficaz. Corria o risco de voltar para casa ausente de braços. Ele tentava me ensinar a dizer o amor. Drummond soltou meus cadeados, por ele. Porque, Isa, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Nós não sabíamos. Mas, hoje beija? Me beija! E ponto. Alcancei seus lábios e cobri todos os nomes que ali moravam. Ele me abraçava rascunhando todos os contornos do meu corpo.

Na manhã seguinte, abri os olhos e havia sido deixado nos lençóis esse eco de sorriso. Paixão saltando da janela. Uma coisa que dizia que a gente deve ser feliz. Uma vontade de viver mais, de se cuidar mais. Uma necessidade de plantar uma flor. Deixou-se, em mim.

Tão mais tarde, descobri-o sendo minha insanidade etílica. Minha ressaca mais lírica. Esvaziar de garrafas, encher de cinzeiros. Equilibrei minha falta de métrica e ele escolheu aconchegar-se em meus cantos. Espalhou-se. Eu precisava muito me encantar absurdamente com qualquer coisa antes que acabasse a sexta-feira. Me encantei. Ele se propôs a deitar entre as vírgulas e pontos desse texto. Tudo era linha nova cosendo meu coração de retalhos.

Talvez ele esteja agora mais distante que as nuvens. As nuvens, as nuvens eu vejo. Aprendi, ali mesmo, a amá-lo poeira. Leo tinha um rosto de primeiro beijo. É lindo sê-lo.

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Isabela já escreveu a Leo,
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Hoje, escreveu sobre.