Chave.

14:44

Algumas coisas lindas ardem.

É aquilo que você faz com as pernas, baby. É o seu levantar da cama e o acender do olhar à beira da janela enquanto observa a cidade se esvaziar. É a calcinha branca que te veste delicadamente enquanto perambula pelo chão vermelho do quarto ao mesmo tempo em que se perde ali no canto, ao lado do abajur apagado. Eu queimo enquanto desenho tua sombra, reflexo da minha própria luz. Ao pé do ouvido, versinhos do nosso descaso.

É aquela maneira como você sobe na cama para agarrar o travesseiro, ou a mim. Ou o modo como tuas pálpebras colam minha imagem dentro em ti. É toda essa ausência de amor. Todo esse excesso de loucura. Você. Você. Você. Nossos rascunhos nas paredes daquele bar. Um sorriso, três doses.

Essa noite a cama é imensa. É necessária minha voz esbarrando em tua pele e escorrendo por todos os teus sentidos. Ou a falta deles. Você, hoje, explodiria doce em minhas mãos. Me deixaria sorrir meus terços de vantagem. Me entregaria teus lábios transbordantes de beijos e eu entenderia os caminhos. É permitido atropelar. Dissolver. Todas as tuas quedas continuam a ser em mim.

Talvez seja preciso um banho teu. Talvez teu corpo inteiro seja boca. Línguas e céus ansiosos. Meus dedos, amigos das tuas blusas. Teu hálito, meu hábito. Nenhum roteiro e belezas decoradas. É como pinto o azul-marinho do teto que se partiu. Um escândalo.

Tua pose de menina se esvai enquanto teus poros se rasgam. Um cheiro de vinho, uns passos trôpegos e uma dança no meio do tapete da sala. O próximo número deve ser em par. Fevereiro arremessado, assim, eufórico. Você com minha camisa, eu com teu gosto. Teus seios amassados no colchão enquanto os cabelos te cobriam o rosto e meus gestos soltos iam distraindo-se em carinhos impraticáveis.

É mais uma sexta-feira. Meu nariz e tua nuca. A água que ferve quando prova tuas curvas. Nenhum sossego, linhas ocupadas, teus gemidos. Minha voz já rouca emaranhada de suspiros. Essa tua coisa de me encarar entre os lençóis. Nossa delicadeza em acordar a cidade. Minha festa cabendo em você.

Te olhando daqui, crio motivos proibidos e alterno entre vertigens furtadas pela falta de ângulo. Você é linda a essa hora, e o dia ainda nem existe. Debruçada em minhas costas, me deixa descobrir tuas senhas enquanto me entrega todas as falhas, rosnando, aninhada em meus abraços. Você me bagunça em todos os cantos. Tua língua me destranca.

Urgência maior é te inaugurar.

Mãe.

00:25

Para o grande amor da minha vida.

É preciso uma pausa nas saudades.

Depois de um ano, você veio. E eu nem liguei de me enrolar no teu pescoço e deixar escorrer minhas lágrimas de tanto amor-maior ali, no meio de todo mundo. Tá fazendo duas semanas que você foi embora e cada dia eu te amo mais.

Esses dias deitei antes das oito, disposta a sonhar e lembrar do sonho. Você sabe que meus sonhos são os mais incoerentes do mundo, mas a noção de realidade que eles trazem para o dia seguinte, é algo muito certo. É como se eu de fato houvesse estado com. Estado em. Foi assim que eu passei pedaços da minha noite com você. Quando o despertador tocou de manhã, fez frio. Eu não sei, mas a ideia que meu coração abrigava era a de abrir a porta do quarto e ter você na cozinha, falando que a cama tava pedindo socorro, de tanto que eu durmo, e depois notar minhas olheiras infelizes de eternas noites insones e começar a me perguntar quais seriam meus passos durante o dia que iniciava.

Antes, repito: tem muita coisa aqui que me faz bem. Muita gente. Muito amor. Mas não tem você, entende? E é justamente nessas horas sacanas que eu penso em como distância é algo foda. Não sei. Depois eu fui ficando bem. O tempo todo, quis te ligar, mas desistia. Porque eu ia chorar mais, você ia chorar também, ia ficar preocupada, ia ficar triste, ia me mandar voltar, eu ia querer obedecer, e de pensar em todos esses nossos diálogos malucos, deixei pra lá. Deixei, mas você ficou.

Eu ainda sinto teu cheiro. Escuto o eco da tua risada. Vejo minha cara de incrédula quando você me chama de meu neném. Sinto falta dos teus olhos implicando comigo. Da nossa mesa barulhenta, das piadas, dos surtos, de todo mundo falando ao mesmo tempo, dos olhares sempre cúmplices de uma pirraça deliciosa, e do teu tempero. Da tua comida. Do prato que você dizia ter feito pra mim, e a maneira como sorria boba quando eu comia feito um monstro. Aqui eu andei emagrecendo. Nada que explique isso. É saudade, penso. E isso não é diagnóstico em nenhum laboratório.

Hoje pela manhã, logo após desligar o telefone e ficar sorrindo da minha ideia maluca (leia-se troca de datas) de te dar os parabéns um dia antes do teu aniversário, fiquei imaginando o que você estaria fazendo. Resolvi que era um fim de semana, e te imaginei ouvindo música. Lembrei de você gritando um bota Clara Nunes, pra mim. E vinha com um sorriso no rosto, e uma dança cheia de trejeitos engraçados. Lembra quando meus amigos estavam em casa e você resolvia que queria dançar na frente deles, me matando de uma vergonha feliz? Aí eu sorri. Pensei também, que se fosse um fim de semana, você chegaria na sala bem na hora do programa que reservei, e chatearia querendo ver um filme. Daí a gente ia ver um filme, enfim, e você dormiria antes da metade. É, mãe, você dorme! E quando eu desligava a TV ainda tinha que ouvir um: tô assistindo. Rá!

Depois fui lembrando de todas as tuas besteiras. De você fuçando meu celular sem saber pra onde ir, de me imitar ao telefone, de querer falar com meus amigos e contar histórias mentirosas de mim, de entrar no quarto quando eu finalmente conseguia dormir, abrindo portas, acendendo luzes e gritando, totalmente afim de me ouvir xingar como quem declama uma poesia fina. Ou então de me ver presa e dizer vai sair, tomar um sol, daí eu ia lá e saia. E saiasaiasaia, pra ouvir o famoso não tem casa mais não, é? É, você é boba, criatura! E no mundo, ninguém mais me entende.

Quando foi entardecendo, lembrei daquela hora onde todo mundo ia chegando em casa aos poucos. Aí eu chegava da faculdade, e você geralmente estava no meu quarto. Será que você ainda fica lá? Eu guardava meus livros, e te empurrava da minha cama. Eu te abraçava, te mordia, te beliscava, só pra ouvir teus gritos escandalosos que eram afagos pra mim. Eu lembrei de tanta coisa que não cabe em palavras... E pensei que eu estava imensamente louca naquele dezembro, quando te disse tchau sem derramar nenhuma lágrima, sem olhar pra trás, sem.

Você me entende, que eu sei. Eu saí daí de dentro, afinal. E continuo a sorrir meu sorriso mais bonito quando me dizem que eu sou tua cara. Eu me desconcerto, quando num gesto mais bobo, dizem que eu fiz igualzinho você faz. Tô chorando agora, mas isso é coisa boa, tá? Todo mundo sabe que somos parecidas, e eu acho isso muito justo, afinal, você é linda como ninguém mais sabe ser. Riu agora, né?

Lembrei da gente, nesse janeiro, e aquele mundo de fotografias antigas passando de mão em mão durante o almoço na casa de vovó Nina. Depois que você foi embora, continuei lá. Vi fotos do teu casamento, você de branco, com aquela flor nos cabelos, e teus olhos (que todo mundo diz serem meus) eram felizes. A gente nunca conversou sobre isso, mas você parecia carregar um mundo de sonhos, ali. Vi todas as fotos. Vi você pequena, você moça, você dançando, você montada a cavalo, você doce, você sozinha porque rasgou o rosto daquele ex namorado de todas as fotografias que tinham juntos. Eu ri de você. Depois, tinha fotos da tua barriga comigo dentro. Você tava diferente. Nem sei explicar do instante seguinte, então, quando já tinha eu no teu colo. Tinha luz, mãe. Tanta luz, que eu não vi nada mais certo que nós duas. Aí eu comecei a conversar com minha tia, tua irmã. As histórias, as cumplicidades. Eu quis muito chorar de feliz. De triste. De você perto, sem estar.

Fazia um ano, sem te ter. Agora, duas semanas que eu não te tenho aqui, que você não me tem aí. Um tempo imenso, onde nenhum abraço é capaz de afagar todos os cantos desabitados do meu corpo. Onde ninguém chega em casa de madrugada e me acorda só pra dizer que encontrou alguém que eu goste na rua, e que essa pessoa me mandou carinhos. Onde eu chego em casa, e ninguém suspeita de uma raiva, uma tristeza, uma paixão, só de medir meu jeito de chegar. Um tempo imenso, mãe. Tempo de uma saudade que se esconde, presente em todas as minhas entranhas. Tempo de vontades. De querer que você pare de me ligar na hora mais acertada, como se ouvisse meu fio de voz chamando teu nome. Um tempo onde ninguém entra no meu quarto, deita ao meu lado, começa a conversar e dizer que me ama. Que sempre vai me amar. Tempo de ausência. Tempo de querer fazer tudo dar certo, por você. Tanto tempo sem você, parece mais é uma vida inteira.

Saudades de xingar os palavrões mais esculhambados do mundo e te fazer gritar o que é isso minha filha? enquanto gargalhava e ficava vermelha. Saudades de te ver feliz. Saudades do cheiro de incenso que você e Paulo acendiam enquanto tocava Zé Ramalho naqueles fins de semana barulhentos que me faziam fugir de casa, ou me trancar no quarto praguejando qualquer coisa ininteligível. Saudades de fofocar até mais tarde, contando pra Éden o quanto ele é bobo. Saudades de você falando mal de mim pra Manu, e de contar pra todo mundo desse orgulho besta que você sente quando eu faço coisinhas legais que te afetam tanto. Saudades principalmente de ter alguém acreditando desesperadamente em mim, inteira, porque às vezes é bem foda acreditar sozinha.

Às vezes chove, mãe, mas sei que todo o sol continua a se concentrar aí, nesse canto onde tem você. Sei porque meu corpo inteiro deixa de ser gelo, com as palavras que você despeja em mim, por telefone. Você chora e eu sorrio. Depois, eu chovo sozinha, mania minha. Mas tem uma fogueira, nessa hora. Você. Sempresempresempre. E só em você essa palavra cabe: sempre. Porque é um pra sempre sem fim. É coisa certa. Sentir exato.

Agora vou. Não quero mais prolongar essa saudade escrita. Uma coisa: meu quarto aqui tá com uma parede verde, porque é tua cor preferida. E coloquei um mural com fotos de todo mundo, pra me sentir mais perto. Falta uma de nós duas. Ontem, usei aquela minha blusa preta que tem mangas curtas, lembra? Lembrei da gente brigando por ela. Lembrei que eu tinha te dado, e só entendi agora porque tomei de volta: pra lembrar de tudo isso. Sentiu falta dela? Eu sinto falta de te arrumar. Vez ou outra penso em você indo pro meu quarto, pedindo ajuda, se tava combinando tudo, se a sandália tava bacana. Você roubando meu perfume, minha maquiagem, e deixando tudo bagunçado só pra ver minha chatice explodir, com minha mania de querer tudo no lugar. Aposto como você deve sentir falta disso! Tô sorrindo. Sorrindo daquele mesmo jeito que eu te sorria quando eu dizia estar sem fome e você dizia que eu só podia estar apaixonada. Minha cara de boba. Apaixonada por você, bestona! Sempre fui.

Beija todo mundo aí por mim, mãe. Abraça Beca por quase uma hora inteira, e dorme agarrada nela, como eu fazia. Abraça Sofi e pede pra ela te levantar, igual ela fez comigo, na garagem, no dia que eu vim embora. Abraça Cacá até ela xingar qualquer coisa. Abraça Paulo, também. Diz pra Éden que tô contando os dias pra ele chegar. E diz pra quem quiser saber de mim, que eu tô bem, e sinto saudades.

Uma entrega urgente: eu pra você. Tô aí. E sinto tudo. Nem é só amor. É o mundo inteiro das coisas mais indizíveis que já couberam um dia num coração apertado. O meu. E é tudo, tudo teu. O aperto? É excesso de querer-bem.

Feliz teu dia, meu amor. Feliz você.

Eu te amo do umbigo,

Jaya.