Vinte e três.

00:00

É isso a vida? Então, de novo ela!

[
Fritz, o barbudo].

Continuo a mesma. Continuo no mesmo endereço de um ano atrás. Continuo com a mesma árvore de folhas sempre verdes na calçada. O mesmo muro de pedras que resolvem brilhar à noite refletindo a luz da lua. Continuo na mesma casa de tons pastéis. Continuo com a mesma janela que dorme aberta e os mesmos incensos acesos em noites onde são necessários. Continuo com o mesmo nome, o mesmo sobrenome, RG, CPF, só transferi o título. Continuo com o mesmo celular. Continuo com o mesmo jeito direto que assusta algumas pessoas. Continuo a mesma boba que sorri de nada. Que faz bico quando chora. Continuo com o mesmo jeito tímido. Continuo com a mesma cautela. Continuo com um exagero abusado e um drama para achar graça. Continuo falando bobagens. Continuo acreditando nos amores. Continuo quebrando a cara. Continuo brincando de ser feliz. Continuo eternizando letras. Continuo a ver São Jorge na lua cheia. Continuo com minhas insônias. Continuo com minhas defesas, medos, desesperos. Continuo vivendo muito para dentro. Continuo sem paciência para o social. Continuo com umas ondas de velhinha. Vez ou outra dou uma de João Gilberto. Continuo crítica, principalmente comigo mesma. Continuo azeda, mas muito doce quando doce. Continuo do contra e adoro discordar para pirraçar. Continuo tomando dramin para viajar e viro a pessoa mais imbecil do mundo sob o efeito dessa droga. Continuo a fazer aquela vozinha cuticuti quando converso (?) com bebês. Continuo séria. Continuo sorriso. Continuo a tomar o microfone só para mim quando tem um videokê por perto. Continuo com o joelho esquerdo me perturbando. Continuo a fazer telefonemas de carinho ali no quintal, olhando para o céu. Continuo viciada em pão de queijo e a achar Friends o melhor seriado. Continuo a reclamar do calor. E se faz frio, reclamo do frio. Continuo a preferir o inverno. Continuo fã de sorvetes. Continuo a soprar cílios. Continuo a me apaixonar todos os dias. Continuo a sofrer para pisar no chão e deixar a fantasia de lado. Continuo descaradamente pisciana. Continuo com umas coragens insanas. Continuo a irmã mais velha de Éden, Daniel, Sofia, Clara, Pedro, Rebeca e Amanda. Continuo a perder a conta quando me perguntam quantos irmãos tenho. Continuo sendo várias, depende de quem me chama. Continuo a soletrar meu nome em todo canto. Continuo a saber que é meu nome que será chamado quando aparece uma trava na boca das pessoas que leem o papel. Continuo louca por abraços. Continuam a cantar a música de Chico César para mim, quando me conhecem. Continuo a sorrir dizendo que não tem nada a ver. Continuo a fingir que não tenho medo de avião. Continuo a fazer poesia dentro do ônibus. Continuo a me preocupar com as revoltas naturais do mundo. Continuo filiada ao Greenpeace e também à WWF, por não encontrar maneiras mais ativas de ser solidária nesse ponto. E continuo não gostando de animais. Continuo travada nos euteamos. Continuo com o mesmo perfume. Continuo na academia. Continuo a trocar baladas por cinema. Continuo a ter nojinho de piscina. Continuo a enxergar em Minas Gerais um lugar que é abraço. Continuo louca pela minha Bahia. Continuo a cobrir meu corpo inteiro quando durmo à noite após um filme de terror. Continuo a achar mesmo que o cobertor me protege, nessas situações. Continuo obviamente besta. E chata. Continuo observadora demais. Continuo calada quando muita gente fala ao mesmo tempo. Continuo a criar histórias para pessoas desconhecidas enquanto sento num banco qualquer pelas praças. Continuo essencialmente MPB e bossa. Continuo sempre com um trident de canela na bolsa. Continuo a demorar para responder e-mails. Continuo a escrever cartas. Continuo a achar estranho unhas dos pés pintadas de vermelho. Continuo a tomar banho de chinelo. Continuo a escovar os dentes com a mão esquerda na cintura. Continuo com a letra pequenininha. Continuo a procurar erros de português em todos os cantos. Continuo a me sentir nua sem brincos. Continuo sarcástica. Continuo ótima ouvinte. Continuo sensível demais. Continuo insensível demais. Continuo a dizer que De onde vem a Calma é a fotografia do meu lado de dentro. Continuo achando quarta-feira o melhor dia da semana. Continuo acumulando leituras indicadas. Continuo a achar que chuva forte é aplauso. Continuo com inveja das pessoas que gostam de café e amendoim. Continuo a me encantar com ternurinhas. Continuo a ter gastura de pessoas cantando inglês errado. Continuo a ganhar o dia quando me dizem que andei engordando. Continuo a ter medo de panela de pressão. Continuo sem beber refrigerantes, sem orkut, formspring, twitter, facebook. Continuo sem cachos. Continuo a não usar batom. Continuo a achar Para uma menina com uma Flor um dos textos mais lindos do mundo. Continuo preferindo a calça jeans. Continuo a ver duplo sentido em quase tudo. Continuo a achar melancia uma fruta alegre, porque cada talhada é um sorriso. Continuo achando que preciso usar óculos. Continuo com preconceito musical. Continuo com preguiça de gente. Continuo com saudades imensas de Roraima, daquele monte de verde e dos amores que lá permanecem. Continuo a babar horrores com a bala 7 belo. Continuo a sorrir quando vejo uma câmera fotográfica. Continuo a não saber dar parabéns além do básico: parabéns! Continuo a gostar de acarajé quando o dia tá indo embora. Continuo preferindo coxinha a brigadeiro. Continuo a sentar na grama. Continuo a me tranquilizar quando a chuva cai lá fora. Continuo na minha sozinhez. Continuo a brigar com minha escolha profissional. Continuo a pedi-la em casamento todos os dias. Continuo a achar que catchup, purê de batatas e diamante negro são invenções dignas. Continuo a ficar com a cara amarela quando chupo manga. Continuo a tchutchar o pão no prato de sopa. Continuo a achar que pra caralho é uma expressão que intensifica as coisas pra caralho. Continuo pagã. Continuo a ter que me cobrir da cintura até os joelhos, mesmo que o calor seja imenso, ou então não durmo. Continuo a não ser mulherzinha. Continuo a não ter amigas mulherzinhas. Continuo com as pernas inquietas que dançam debaixo da mesa. Continuo a ter crises de enxaqueca durante implosões. Continuo a tirar o esmalte com os dentes deixando o chão cheio de pontinhos vermelhos, quando ansiosa. Continuo solta. Continuo amante de praias. Continuo a usar close-up verde. Continuo a ficar tonta na rede. Continuo monstra quando acordo e mais ainda quando sinto dor. Continuo achando a acústica do banheiro algo sensacional. Continuo a contar meus mais amigos nos dedos da mão direita. Continuo com doses de melancolia. Continuo a voar para dentro das pessoas quando vejo pedacinhos meus por lá. Continuo a ver um lado escondido quando o espelho me enfrenta. Continuo a chorar de repente, do avesso, florindo. E depois, planto sorrisos. Continuo a me gastar de maneiras lindas. E a contabilizar meus pedaços assim, todo dia dezenove de março. Que eu escolhi para meu. Que me recebeu, com suas águas. Toda essa promessa de vida. E vários corações.

Continuo amor.

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Inspirado na sequência de Fabrício Carpinejar, em: No Mesmo Lugar.

Para deixar as coisas tão mais lindas,
teve amor despencando

Trocando em miúdos.

00:29

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.


[Chico/ Francis Hime - Trocando em miúdos]

Eu fico abraçada aos discos antigos. O violão me espia, mudo. Espalho papéis no chão e passeio entre todas essas letras caladas. Me debruço sobre versos já tantas vezes lidos e me alugo para sonhar, como o poeta da solidão. O incenso queimou. Já não lembro teu cheiro.

Guardei a dor em casa e vim ao teu encontro. É aqui, nessa folha branca, que eu te amo. Cultivo um perfil desbotado de sorrisos, desabitado de carícias, mas te permito em meus olhos. Eu subo as escadas, mochila nas costas e o apartamento se manifesta com inúmeras coisinhas desmaiadas.

Um passo a mais, o espelho. Minha ternura por minha imagem apenas por te saber havido ali dentro, refletido há algumas horas. Cabelo preso num coque, moletom, jeans, tênis e um perfume caro. Me espio. Piso no cigarro e observo o nada pela sacada. A fumaça vai como um suspiro para o mundo. Vem a mim como um congestionamento interno. Me falta a euforia depois do teatro. Um amor acabando na sorveteria. Minha conta de telefone já não te anuncia há meses.

O som ligado no quarto me chama. Toalha molhada na estante. O ambiente é puro café para as melodias caetaneadas. Mora na filosofia. A impressão é a de que o mundo já acabou faz tempo. Fico com a possibilidade imbecil de te ouvir numa concha, nos verões etéreos, disputando a harmonia do mar. Importa são as escalas da tua voz brincando de dar nó em todos os coraçõezinhos que me percorrem.

Chove lá fora. Chove azul, luz, água. Eu carrego um gosto de dois anos atrás, sorrio meia dúzia de amores tortos e me recomponho. Tenho mania de guardar carinhos. Amarro as pontinhas doces de tudo, insistentemente. Não troco minha poesia solta por nada que não rime com línguas, dentes e saliva. Poesia desaforada, escandalosamente cheia de buracos. Precisando de costuras. Talvez o papel vire renda.

Deito na cama de lençóis sem estampa e, no teto, passo o amor a limpo. Queria te saber por dentro, hoje. Inventar uma palavra que não tivesse nome de sentimento. Te preparar um beijo antes que você terminasse o vinho. Me espreguiçar fotografada por teu rosto e te ver me guardando em tuas pálpebras, me deixando escorregar em tuas curvas instantes depois. Escrevo sem borrachas, mas viro a página.

Que sejamos agora sonhados pelos outros. Quarenta e nove cartas de amor na minha caixinha do correio e um lugar vago no banco de passageiros do meu fusca. A vida é cigana. Essa noite vou a pé. A cidade já dormiu e eu não quero nunca terminar de começar.

Caminho devagar para me molhar mais. Para depois, escorrer mais. E agora, com o coração estupidamente dilatado, absinto-me. E voo.

Preciso de alguém que me segure com a boca.

Rebeca.

16:14

Se soubesses o bem que eu te quero
O mundo seria, Dindi
Tudo, Dindi
Lindo, Dindi.

[Tom Jobim/ Aloysio de Oliveira - Dindi]

Para quando você aprender a ler.

Precisei te trazer para perto. Cheirar teus olhinhos de meia-lua. Te imaginei sentada em meu colo, com aqueles cachos soltos e sapecas, tais quais teus sorrisos. Quis teu abraço-apertado-que-salvava-meus-dias. Quis você me contando tuas histórias onde encaixava tudo aquilo que ia aparecendo, enquanto, simultaneamente, gritava comigo segurando meu rosto para olhar para você enquanto fala.

Você nem sabe que, enquanto ficava criando mundos com teus brinquedos, eu me pegava te olhando e rascunhando você em mim. Nem sabe o quanto tento te colar nesses meus planos de uma vida inteira. E porque hoje fiquei observando tuas fotografias antigas, lembrei daquele vinte e três de fevereiro, à tarde, todo mundo na expectativa para enxergar teu rosto. Lembrei de estar em casa, ansiosa por notícias. Do telefone tocar, e alguém dizer: nasceu. Tá tudo bem. E é linda. Rebeca é linda.

Naquela noite fui ao hospital. Fui dormir com você. Você sempre de olhos fechados. Bochechuda, botão-de-rosa, e linda. Eu te amei ali, totalmente desprevenida. Porque senti você atingindo meus cantinhos e fazendo um afago que eu nem sabia existir. Te olhei a noite inteira. Você nem dava trabalho.

Porque então comecei a desconfiar se você não era um anjo. E você nem tinha asas, ainda! No dia seguinte, você ao meu lado, duas bolas escuras olhando em minha direção. Peguei você no colo, segurei tua mãozinha e você agarrou meu indicador. Pensei que isso nem existisse. Claro que você não vai lembrar disso, mas eu me derreti como ninguém nessa hora. E meus olhos se umedeceram assim, disfarçadamente. Igual agora, quando os fecho e imagino tua presença. Teu dengo. Teu jeito carinhoso. Teu amor para com a gente. A maneira como você arranca nossas risadas a cada descoberta. A cada palavra. A cada beijo melado.

Lembro de você sentada, com todo aquele jeito de flor, de encanto, fazendo estripulias. Nunca vou esquecer aquela tarde amarela, numa Boa Vista sempre amarela, onde você perguntou: tu gota mim? E diante da minha afirmação efusiva, respondeu que eu gota tu, também. E você tinha acabado de aprender a falar, seu belisco! Aprendeu a falar, a me fazer chorar. Aprendeu a ser minha, ser sempre minha.

Hoje você é uma boneca. Às vezes borboleta. Toda colorida. Cinco anos. E eu sinto falta de quando você só dormia se fosse agarrada a mim, embalada por uma canção de ninar qualquer. E da maneira como você acordava mau-humorada se o sono não fosse bom o suficiente.

Eu às vezes fico olhando a porta do quarto, nessas manhãs de domingo, imaginando que de repente você surja abrindo-a e pulando em cima de mim, toda serelepe. E te imagino rindo da minha antipatia. Hoje, também, eu lembrei você me dando tchau, indo para a escola na maior pose de gente grande. Lembrei do primeiro dia, você chorando, eu chorando, e todo mundo querendo te deixar lá contra minha vontade. É bastante doídinho, Beca. Essa ausência da tua pureza, tua inocência, teu jeito doce que me fazia te apertar inteira, até você ficar vermelha e sem forças, entendendo o quanto tua irmã é louca e precisa de você.

Daí nessas horas eu fico assustada com o mundo, que não é como a gente sonhou, e me forço a procurar os pedaços menos pesados dele, para que sejam teus. E vou te entregando assim, aos poucos. Enquanto isso, fico daqui de longe, querendo te ver voando por aí, fazendo música, rabiscando quadros, pirraçando, correndo, tropeçando, andando de bicicleta, tomando banhos de chuva, brincando de ser feliz, e sendo, de fato. Fico com tua vozinha ao telefone. Fico contente que você já consiga falar comigo, sem os soluços chorosos de antes, enquanto minha mãe dizia que você abraçava o telefone ao ouvir minha voz dentro dele. Fico te querendo bem todos os dias, e olhando tua foto linda pendurada no meu mural. É o meu melhor motivo, até então.

Eu amo você, Rebeca.

Gravo essas palavras para serem tuas. Para você ler quando souber fazê-lo. E me telefonar. Ou me abraçar. Ou apenas me firmar em você, me entregando um pouco do teu lirismo, e me permitindo te carregar em meus bolsos. Você comigo, seja lá para onde eu for.

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Espero que você goste de Tom. Escuta Dindi.
Eu assino com ele, hoje, pelas histórias minhas. E de você também.

Que é a coisa mais linda que existe
.