30 junho 2010

Uniforme.

Tudo começa
do mesmo jeito
diferente

[Alice Ruiz]

Às vezes é sem querer. Você chega quando alguém já está. Você sobe as escadas e joga o coração dali, pelo prazer em vê-lo cair. No fundo, a esperança é sentir alguma coisa. Qualquer coisa.

Você não me conhece. Não sabe que escrevi uma carta de seis páginas, ainda ontem, contando os mais miúdos detalhes daquilo que suponho estar acontecendo. Do lado de dentro, do lado de fora. Não tenho conseguido fundir. Não sou uma só. Nunca fui.

Preciso comprar mais livros, conhecer músicas novas, trocar as fotos do mural, ir à praia, amar Ilhéus de perto, colocar uma flor na minha estante. E, quando deito, preciso de você na minha cama, me beijando a testa, segurando minhas mãos. Sei lá. Poesia. E aquela coisa de me esquentar a nuca para que eu ande feliz, em meio aos casais de porcelana que enfeitam a rua. Amor não se toca, é para ser ouvido.

Tenho fases de desespero. Quando é quarta-feira, no meu céu só tem estrelas e eu tropeço buscando o sol. No cinema eu como chocolates, não pipoca. E se você aparecesse eu te tomaria pelas mãos e sairia por aí, asfaltando a cidade inteira com nossas historinhas. Eu penso que eu só preciso saber que você está. Mas não te convido.

Não sei quanto dura. Não sei até quando vou ignorar teus sorrisos que se quebram diante da minha seriedade. Não sei até quando teus olhos tristes vão permanecer em cima dos meus. Sei menos ainda para onde você vai levar minhas vontades, a cada vez for embora. Mas queria saber se meus braços podem se encaixar aos teus e se nossas pernas preferem o mesmo caminho. É o começar.

Daqui, eu imagino que você tenha uma queda pelo francês. Imagino que abra um conhaque, nessas noites frias, para catar palavras. Da minha boca derramam-se sacanagens que já foram de outros caras. E que provavelmente serão tuas. Antes de tocar o papel, pensei em começar dizendo que aprenderia a tocar piano só para te esperar. Prefiro violão.

Sou daquelas garotas que sofrem. Que esperneiam em busca de um abraço, assim, do tamanho do teu, com um sussurro contido dizendo que está tudo bem. E acreditam no amor. Uma garota que, hoje, quis adivinhar as medidas do que desconhece. Com coragem para ir embora. Com impulsos, cabelos curtos, unhas pretas e possibilidades. Você só precisa me fazer rir. Ou estampar qualquer coisa de mim num cantinho escondido teu.

Te documento enquanto você me atualiza. Você-novidade. Tiro o salto quase nunca usado, me molho na chuva, a bebida queima, te procuro na esquina. Levei todos esses parágrafos para contar do que não pode ser lido. Do que ninguém iria entender. Amanhã vejo uma coisa linda na rua, em meio à neblina, e me lembro de você. Anônimo. Basta meus olhos cheios da tua presença, por esses dias.

Paris, cigarros displicentes. Palavras inventadas. Acontece que vai ver eu já esteja entregue. Something vai se arrastando como trilha sonora. E você poderia vir. Me beijar devagarzinho, bagunçar meus cabelos enquanto faz um afago manso, me vestir de você, grudar teu cheiro em minhas mãos, usar algum elogio abusado e escrever ali, naquilo que chamam de alma, toda essa sua eficácia em me amanhecer.

É diferente. Eu sou igual a todo mundo. E sinto. Sintosintosinto.

Você.

06 junho 2010

Apenas o Fim.

- Isso é só o fim. O que importa já foi feito.
- E agora?
- Agora é o resto das nossas vidas.


[Trecho do filme: Apenas o Fim]

Acabou de dar meia noite e eu escuto, baixinho, alguém tocar uma das mulheres de Chico no prédio ao lado. Abro a janela. Joana Francesa. Passei por todos os cômodos desse lugar estranho e guardei o sono atrás da cortina vermelha. É em peixes, meu sol. Netuno, inspiração, idealismo, divino maravilhoso, não-explicação, sem fim. Eu tenho andado feliz. E sim, continuo falando de amor, escrevendo os mesmos textos de sempre, poetizando qualquer coisa que apareça e fingindo não ser romântica.

Agora acabei de equilibrar a doçura, nas pontas dos pés. Consegue ver? Se eu deixar cair, espalha. Sorri no escuro ao lembrar minha infantilidade em procurar o vento, naquela época, para que as palavras chegassem suaves aos teus ouvidos. Fico feliz em notar que ainda carrego delicadeza nos dedos ao escrever a você. Não nos despedimos.

Essa semana peguei um táxi e passei do ponto porque simplesmente estava pensando que, ah!, são coisas muito bonitas nos esperando. E quando pisei no chão, primeiro com o pé esquerdo, deixei cair o pirulito de coração. Despedaçou-se enquanto tive uma certeza: eu vou te amar em todos os meus amores. Já não contesto.

Outro dia revi Apenas o Fim. Cada diálogo foi como se compusesse nossa despedida. Foram coisas lindas. Coisas bobas. Coisas nossas. Ele você ela eu. Quis te mandar um torpedo, quando foi dito: você é meu chicletinho mastigado. Não somente por ser a cara do que fomos, mas também porque interpretei de um jeito engraçado, sabe? É que vai ver o doce se perdeu, mas continua a grudar. Está grudado. Vai sempre ficar um pedaço, uma marquinha. Ficou.

Aprendi que não existe pedagogia para sentimentos. Eu tive febre. E passou. Passou aquela vontade de querer te ligar durante o sinal vermelho só para contar do que andou acontecendo. A vontade de te contar das minhas revoltas, das minhas mudanças. Ando tão madura, tão mais boba, mais eu, menos você. Passou a vontade de falar do medo que tive nos primeiros dias, de ser a cada hora menos você. Passou. Passou inclusive o meu sorriso contente ao me imaginar escrevendo e lembrando nós dois, num futuro, balbuciando entre um suspiro e outro, com uma voz muito concentrada no azul, a frase do poeta: minha impressão é que tenho amado sempre.

Por ter/ser passado, hoje, quero pedir: não me devolva nada. Não me entregue tuas ternurinhas. Não me devolva tudo o que já te entreguei, agora, quando já não interessa. Você deixou a porta entreaberta, eu fechei. Fecho. Se abra inteiro, encontre alguma menina interessante, me deixe passar. O meu amor foi grande. É imenso. É sempre teu. Mas não mais vivemos juntos nele. Ainda penso conseguir um dia estar ao teu lado, saber te ouvir, arranhar teus ouvidos com meus sorrisos, ficar horas pendurada ao telefone. Me engano, assim, para doer menos. Já doeu demais.

Continuo a te querer bem. Respeito nosso relicário. Respeito você. Sempre que noto as coisinhas construídas que me foram deixadas, me sinto leve. Faz cócegas ter você me alicerçando. Amores de ontem, todavia, devem ficar na poesia intocável. Por isso afirmo que aqui, nesse parágrafo, estou me despindo de você. Deixo tudo. Vai haver um ponto final adiante, porque aprendi a usá-lo. Deixo aqui. Não aceito devoluções. Se não for teu, sempre será de alguém.

Te abraço com calma, para que os corpos solucem todos os beijos que não foram dados. Te entrego alguma coisa bem bonita. Que todo o amor que deixei seja teu, ainda que levado por outro alguém.

Que o coração jamais se apague.

P.S.: O que importa, realmente já foi feito. E é nosso. Sempre seremos nossos, porque ninguém nunca nos terá igual. Nunca havia sido tão assim, eterno.