24 agosto 2010

(Re)vestir-se.

Os delírios verbais me terapeutam.

[Manoel de Barros]


Eu conto que é bonita a maneira como o vidro da janela deixa a manhã entrar em meu quarto. Seguro o sol com meus olhos e faço silêncio para ouvir os afetos delicados despertando. O agosto vai passando com sua violência hostil e tudo o que me importa é a poesia.

O que tem me atraído é a vontade bizarra de passar o dia inteiro tomando sorvetes e escrevendo todas as paixões. Por nada e qualquer coisa. Eu me observo e gosto de brincar com as cores no espelho. Encho o corredor da casa com meus bom dias, esqueço alguns sonhos na mesa e abro as portas sorrindo, sempre com um fiapo de amor entre os dentes.

Pelas ruas, entre passos apressados, um vento frio faz estremecer algumas certezas. Esqueço-as. Espalham-se todas pelo bosque onde passo sem nem notar. Já não amo ninguém. A escrita permanece atravessada. Minha língua guarda promessas e alguns planos. Guarda palavras ensaiadas para serem entregues a alguém que nem desconfia. Guarda um potinho de ilusões que espalham um gosto de estrela no céu da boca. É o que me faz sorrir.

Ontem falei de saudades e um cisco nos olhos foi a desculpa para a neblina. Todo o brilho coube no vermelho das pedrinhas desses brincos, flores pequenas que fazem meu rosto querer submergir em meio a um par de olhos escuros sobre os quais escreveria por mera distração. Ou atenção demasiada. Um quintal, um jardim. Par de olhos esses que às vezes se escondem e brincam com o castanho que guardo, pedindo-lhe para que os encontre.

Não me explico, optei por sentir. É como quando as duas mãozinhas delicadas da minha outra menina, pequena, desenham minha face: tudo fica doce. E também diria ainda das cartas que me esperam na cama, uma vez por mês, pintadas de carinhos que saltam tão logo os envelopes são abertos. Minha letra diminuta demora, emudece, e depois responde, apertada, que é para amarrar as coisas mais lindas e remetê-las todas de um jeito muito leve.

Quando me perguntam o porquê das tardes de repente ficarem tão amarelas, eu finjo nem saber, mas desconfio. Sinto logo as amoras estalando em meus dentes, vejo o céu descabelando as nuvens e a felicidade me desarrumando inteira. Efeitos que componho enquanto tento equalizar o silêncio, carícia mais suave.

Em meio a uma imensidão de desejos embaralhados, separo uma história. A da poesia que derramou-se em meu vestido quando o amor adormeceu em meus ombros.

Eu venho por um motivo. Esse, que me alarga os lábios enquanto dá voltinhas alegres em minha boca.
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Para Lulu, por várias razões, mas, principalmente, por borrar com doçura meus olhos.
Por estar, mesmo sem nenhum sentido. Ou todo ele.

11 agosto 2010

Ideia.

Fiquei apenas pensando que seu rosto
parece com as minhas ideias.

[Corpo de lama - Chico Science]

Eu quero me aninhar no teu peito, baby. Quero que você me conte bobagenzinhas enquanto escuto tua respiração. Quero sentir teu coração bater, ouvir tua risada, segurar tua mão por mais tempo, te entregar mais que dois sorrisos. Mais que um ruído. Eu quero espalhar beijinhos no teu rosto e passear, confusa, em você.

Quero te ligar no meio da noite e ficar em silêncio até conseguir dormir outra vez. Quero que você me abrace. Que você sempre me abrace. Que caminhe ao meu lado segurando no bolso de trás das minhas calças. Quero saber a frequência com que pisca os olhos e decorar o que te faz franzir o nariz.

Quero papos desconexos, propostas decentes e outras tantas avessas. Quero entrar no primeiro ônibus disponível e passar um dia inteiro num lugar onde sejamos estranhos. Quero te puxar pelos braços e que você recue para me pirraçar enquanto vai pintando poesia nos dentes. Quero que teu cruzar de pernas me inspire um texto e que você faça um carinho bom em minha nuca, me abraçando por trás enquanto me observa sentada ao computador.

Quero que você me veja chorando ao cortar cebolas e sempre cante a música de Caetano, só para me ouvir te chamar de previsível e debocharmos juntos das mesmices que são só nossas. Quero que não me diga que sou ciumenta e não se importe com minhas melancolias mensais.

Quero que a vodka tempere nossas brigas bobas, e que deitemos exaustos no colchão ali, no chão da sala, enquanto a vida corre do lado de fora da casa. Quero ver você dar risada da minha cara ao desistir de calcular o troco e que não se importe em ir ao cinema nos horários mais improváveis.

Quero que você se arrisque na cozinha só para me ouvir reclamar depois. Quero nossos beijos cítricos e tua língua tingida com o vermelho do que vai sempre arder em nós. Quero aquelas noites com a luz fraca, tua arte exata e minha busca imperfeita.

Quero que você aumente o som quando começar a tocar uma música que eu goste. Quero te telefonar ao me deparar com algo que se pareça contigo. Quero te ver fechar o jeans, te puxar de volta para a cama, te fazer vacilar, burlar resistências.

Quero pizza gelada enquanto te mostro meus filmes preferidos. Quero te fotografar até você arrancar a câmera das minhas mãos e fazer o mesmo comigo. Quero me rasgar aos pouquinhos para você, só para você. Quero que folheie um caderno meu e reclame porque não escrevo na linha. Porque não escrevo.

Quero entender quando dói e fazer parar de doer. Quero te adivinhar com meus lábios. Quero te projetar: você-filme. Quero espernear. Quero que você bagunce o quarto e te olharolharolhar com minhas pálpebras egoístas que te guardam só para mim. Quero todo esse medo de abri-las para não te deixar escapulir. Quero te achar ridículo enquanto escuto você cantar ao chuveiro. Quero colo.

Quero que você entenda minha euforia após o teatro. Que não se espante com minha sensibilidade. Que não sofra com minha insensibilidade. Que não soframos tanto, apesar das crises, raivinhas, impaciência e muita falta de sentido.

Quero você na minha parede verde. Quero pintar nossa parede. Te borrar a roupa. Tomar banho na chuva, rolar na areia da praia. Quero decifrar tua chegada pela maneira como toca o interfone. Te cantar músicas bregas, caminhar pela praça.

Não quero nada. Só preciso inventar uma palavra. Algo que te explique. E olhar para você mais um pouco, assim, sem querer.

É uma ideia.