06 novembro 2010

Poetice.

Dá-me o direito
de dizer coisas sem sentido
de não ter que ser perfeito
pretérito, sujeito, artigo definido
de me apaixonar todo dia.


[Alma nua - Vander Lee]

No início eu não entendia muito bem. As ruas estreitas, o cinza, as pessoas, a minha chegada, a incoerência de tudo. Uma proximidade da solidão e da loucura. A cidade nova, tão antiga, fazia desaparecer aos pouquinhos toda aquela outra cidade, ainda tão minha. Mais até do que a que voltou a me pertencer. Achei normal quando João Gilberto soprou bem de levinho nos meus ouvidos, ao atravessar a rua no sol das doze horas. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi.

Não é que hoje eu entenda alguma coisa, não. É questão de ter as percepções desviadas, de sentir alguns braços me atravessando as avenidas, de não precisar de um motivo. Hoje eu deito no chão da sala e acompanho os barulhinhos que vêm de lá de fora. Tem um passarinho que entra pela janela todos os dias, miudinho. Basta que eu pouse meus olhos nele para que saia voando pelo mesmo caminho por onde entrou, dessa vez levando o eco das minhas risadas de moça boba para soltá-los de lá de cima, com a pura intenção de contaminar qualquer lábio costurado.

Vou caminhando por onde acredito, hoje. Tenho feito as coisas do jeito que acho que ficam mais leves, mais clarinhas, mais fáceis de carregar. Ando sempre bem. A verdade é que nessa procura de me fazer, encontrei retalhos de coisas que doem. Doem mas não precisam trazer aquele gosto de água e sal, na boca. Guardo no bolso, jogo para cima, vou tomar um sorvete. Quando você não se prende, vai aprendendo de um jeito muito manso a voar novamente. Um e outro arranhão nos joelhos, pequenas quedas, mas nada disso importa depois que se prova um pouquinho de céu.

Eu tenho tanta fé em tudo, agora. Tenho gostado tanto de todo mundo, de mim, dessas repetições. Me assustei, então, ao perceber que é tudo uma questão de escolha. E o bom do susto é que a gargalhada sempre demora mais.

Hoje o teto lá fora é azulzinho. Logo ali, existe alguém que me faz cócegas. Alguém que me faz olhar ao redor, procurando-o, sempre que chego. E ele me faz levantar os olhos quando pronuncia meu nome, me transformando num girassol desajeitado, acompanhando-o a cada movimento. São vários pontinhos que eu vou ligando com essa caneta sem tinta, em meio à incerteza de rabiscá-lo em minha tela. É tão bom que eu sinta, por sentir, porque é preciso sentir.

Então eu procuro uns potinhos de tinta para borrar minhas mãos, porque nem sempre as palavras decifram o que o coração batuca. E me aproximo assim, de perto, dou um beijinho em seu rosto e deixo escrito uma história. Meus lábios, pincéis travessos.

É a vida resolvendo fazer carinho. E eu não quero entender nada.