O amor é fodido.

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Um amor só um bocado fodido
pode ser a coisa mais bonita deste mundo.

[Miguel Esteves Cardoso, em: O amor é fodido]

São em noites como essa que algumas ausências me corroem. A vida pode ser muito sacana se resolvermos tratá-la como algo real - porque eu sempre achei a vida uma ilusão tamanha, você sabe. E eu ando sem paciência para determinadas coerências, ma belle. Acabo de sair do banho. O cheiro de sabonete toma conta do quarto junto ao vapor da água quente. Enquanto secava meus cabelos, a água escorrendo pelos ombros, um sambinha macio ia se libertando do vinil. Pensei em amor. Pensei em cenas antigas de cinema, naqueles movimentos mudos, e dancei, nua, como se o momento inteiro fosse uma partitura. Mas não houve quem me tocasse, quem me cantasse. Vesti o roupão, abri as janelas, contemplei.

O amor é obrigação? Essas conversas bobas, apenas um pretexto para terminar na cama. Pensamentos curtos, comodismos, discursinhos ordinários. Olho e não enxergo. É tudo pequeno. Cadê o desmedido, entende? Cadê o que se expande em cada encontro? Um papo que estique e dê valor ao clichê naminhacasaounasua?, cadê? Às vezes eu troco tudo pela companhia de uma planta qualquer. Continuo com essa minha mania de contemplar o nada com uma admiração gigante. E tem o filme que contei a você, as neuras que desataram, essa coisa de saber que estamos todos suspensos, pendendo entre o destino e a sorte.

Eu não sei, mas o norte me parece meio embaçado. Preciso que qualquer acaso desencante essas amarguras, que me faça levantar da cama, tirar aquele outro disco empoeirado da estante e me ofereça uma dose de uísque, sem gelo, enquanto caminho pelo apartamento usando meias e calcinha só para dar um tom qualquer. É nesse ritmo que algumas indecências batem à minha porta e deparam com essas lágrimas pretas. Sentadas nas escadas, fumando um cigarro e olhando fixo para um ponto insignificante, essas indecências. Esclarecendo: parei de adocicar os contos de fadas, o felizes para sempre. A verdade é que tudo termina com o era uma vez. Porque já não é mais, vê? Na maioria dos casos não teve vez nenhuma.

Resolvi olhar o amor com olhares obscenos. Tem mais a ver com prazer, com repousar o coração num lugar tranquilo, ainda que por apenas uma noite. Ninguém precisa ser o futuro de ninguém, isso assusta demais, convenhamos. As coisas acontecem no agora? Nele permanecerei. No agora é onde consigo sentir. Consigo preparar receitas para que sejam descumpridas, recheadas de pitadas desconhecidas. O amor pode chegar deslizando as alças do meu vestido, ensaboando meu corpo, acariciando minhas formas, tatuando minha virilha, gemendo sob minha pele suada, sufocando minha voz com beijos a me queimar a língua enquanto fuma meu hálito. Ou pode não chegar, também.

Você sabe, deve haver um feeling qualquer, porque a solidão, ma belle, essa não se esvai com meras trepadas. E eu nunca fico. No máximo a TV permanece ligada enquanto desenhos animados brincam com a vida de lá. Eu me mando, a ressaca fica. Eu me mando para respirar, abrir a geladeira, medir meu desespero em qualquer garrafa.

O amor, todavia, insiste num balé de cheiros impregnantes. Disfarça, rodeia, mas gruda em cada dobrinha. E daí a gente finda tomando um banho juntos, escorre juntos. Ele escorrega e fim: sobram uns risos convulsivos. Talvez, ainda, eu faça uns malabarismos com as pernas, arrisque uma pose de mocinha psicótica, daquele jeito, com um explosivo em cada olho, suba na mesa, arremesse uma taça. Só para chamar a atenção. Só pro meu prazer. Porque, não é de agora, palavras bonitas não me emocionam. Eu preciso de reações, me rasgar na cama enquanto Luiz Melodia grita que baby, te amo, nem sei se te amo...

Me ocorre agora, veja bem, tudo se dissolve. Você pode achar que não tem sentido. Mas, honestamente, o que tem sentido? A busca louca pelo amor geralmente resulta em pernas abertas e desencontros. Em outros casos tem-se um cigarro e olhares para o teto. Não mais, não menos, mas também.

O amor é um interlúdio. O amor, ma belle, é fodido. E nem por isso deixa de ser amor.