Carn(av)al.

22:21

Sem olhos, sem boca
sem dimensão.

[Drummond, em: Um homem e o seu carnaval]

O batuque, a poesia jogada passando de raspão. As vozes misturadas, sonhos embaralhados, paixões enlaçadas, multicores. Brilhos, um beijo em cada esquina, uma lua morando no mar. Versos loucos escorrendo pelas ladeiras. Cada uma das gentes, em suas belezas, parecia ser patrimônio local. Desconfia-se que tenham nascido para participar aquilo. Todos os cheiros se enroscam e o feitiço ambiente faz de tudo um grande samba. Até o chão, num tímido movimento espontâneo, levanta suas faíscas de poeira para entrar na dança.

Os sentimentos doidos varridos encontram labirintos e também se perdem, outros se (re)encontram. Foi assim que ele dobrou aquela esquina. Eu havia acabado de fazer um pedido, e ele dobrou naquela curva, quando a rosa amarela despencou dos meus cabelos. Viu, veio me entregar, entregou-se. Observou meus olhos escuros cansados de guardar estrelas que cintilava euforicamente vários tons tresloucados de amor. Sorrimos, nos abraçamos, cantamos juntos e recitamos, tontos, todo aquele exagero do poeta que falava sobre essa coisa quimérica que era o fato de estarmos ali, dependurados nos cabelos azuis de fevereiro.

Naquela noite fiz questão de estar presente em todas as suas interjeições. A cada vez que ele me tocava, eu usava o gesto como desculpa para me aconchegar. Daí então as horas passaram e declaramos desejos debaixo de muita luz. Não sabíamos ao certo o que fazer com as mãos: acabávamos sempre conexos, pertencentes, doados. Acarinhava sua face atrasando os ponteiros de todos os relógios que nem existiam debaixo daquele céu espantosamente bonito, e meu coração já pulsava na garganta quando me desesperei no meio daquele povo. Daquilo tudo que treluzia. Ele, atrás de mim, observava as fantasias: me disse que todo aquele nosso disfarce era a maior revelação.

Deslizei meus dedos em seus lábios, medindo as possibilidades de doçura morando em sua boca. Provoquei o que também ardia em minha língua, deixei que seu nariz fizesse um carinho manso no meu, e mostrei-lhe como as pálpebras também beijam lembranças bonitas. De lá pra cá, fazendo história em toda aquela rua de pedra, mentimos um para o outro afirmando dominar o amor. O frevo, os confetes ao nosso redor, os rodopios. Estávamos perdidos. Sem olhos, sem boca, sem dimensão. A poesia já passava apertada, impossível desviar-se. Sentamos na calçada, tomamos emprestado todos os delírios encontrados próximos ao meio-fio. Ele acendeu um cigarro e eu pesquisava seus sentidos.

Parecia um sentimento que já morou em mim na época onde eu sorria melhor e mais bonito. Parecia um desencontro, um mapa mal direcionado. Parecia uma notícia bonita. Uma poesia nova. Um beijo dado bem devagarzinho. Parecia a vontade que eu tenho de ser feliz. Parecia carregar um pedaço concentrado do que sou, sem ter a mínima noção de tanto. Parecia ter esbarrado em meu peito. Deixou minha alma balançando, desatada.

E dançamos. Pulamos sem deixar que as almas voltassem para seus lugares, caímos no chão, trêbados, enquanto eu reclamava dos pisões que levava nos pés. Era nosso passo, nossa ausência de ensaios. Não havia tempo para não viver. Ele entendia minhas mímicas de amor não dito enquanto brincávamos de ser criança e nos apaixonávamos a cada piscar de olhos. Tudo parecia uma citação grifada no meu livro preferido. Virei a página: dois suspiros mais distantes dali, meus cabelos balançaram vontades muito vermelhas. Ouvíamos o som abafado da rua já distante, fogos riscando o céu e os tambores batendo ainda dentro em nós.

Um dedilhar primário, um reconhecimento: seus anseios em meu vestido, cujas alças deslizaram mostrando os ombros nus que agora carregavam, leves, suas urgências. Me convidou com seus olhos, me tocou com sua respiração. Suas mãos em minhas mãos, seu suor em minha pele, os corpos inteiros bocas. Dedos, línguas, dentes, um pecado tatuado em minha virilha. Um enlevo em comum e dois murmúrios enleados sem nem notar que já havíamos enlouquecido faz tempo, ali, entrelaçados, sôfregos. No primeiro abrir de olhos, entoamos duas dúzias de palavras mágicas e o amanhã já chegava, fazendo sol sob os jornais. Vestiu-se de fumaça, vesti-me com sua blusa. Daquela vez, como se fosse a última, a única. Observamos pela janela e vimos que em passos trôpegos, pisando em toda aquela alegria esparramada, apresentava-se a quarta-feira, já cinza de toda aquela chama.

Fevereiro passou. De azul que era, encarnou-se. Guardamos poemas nas pedras daquelas ruas de ser feliz, lembrança de um tempo onde havia coisas lindas. É tudo sempre parte de um dos ritos do amor: carnaval e tê-lo. (E)ternamente.

You Might Also Like

25 comentários

  1. Era tudo que eu precisava hoje, amor. Mesmo que seja um amor assim, carnavalesco, é amor e isso me deixou mais feliz aqui por dentro.

    Lindo texto, Jay.

    Beijo!

    ResponderExcluir
  2. Jaya, eu tava pensando em uma palavra que chegasse mais próximo do texto como um todo. Sabe qual é a palavra? Supetão.
    Por causa de tudo. Primeiro, na forma: o texto tem que ser lido direto, sem dar trégua. E, depois, no conteúdo do texto: o pedido, o encontro, o conhecimento, - e o auto-conhecimento - a entrega, a lembrança... O texto, ao que parece, foi escrito no susto. E ainda bem que eu absorvi dessa forma, acho que pude extrair tudo de bom que o texto traz em cada palavra.
    É. E assim você vai construindo uma imagem do que você é nos escritos. E, dessa forma, vai deixando saudade nas horas de ausência. Mas uma coisa é certa: não dá pra copiar, pra imitar. O seu estilo já é intrínseco a você. Copiá-lo é como roubar uma alma, sei lá, extorquir a poesia.
    Mas há uma contradição: o susto, geralmente, não permite surpresa no final. E, no título, você constrói uma imagem na nossa cabeça. E deixa o melhor pro fim, no desenrolar do texto: não é só carnal.
    Eu sempre digo que, embora próprio, seu estilo se assemelha ao de Guimarães Rosa. Hoje foi diferente. Tive sensação de estar ambientado numa obra de Jorge Amado.

    E, porra, saí fodido do seu texto. Coisa linda. hehe
    Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Confesso que estava sentindo falta de um texto assim. Cheio desse amor urgente, de desejo, entrega. E tu, dona, consegue colocar tudo isso com a melhor das poesias e sem perder a sensibilidade. Porque é amor, né?!

    Jaya, tua escrita é única. Concordo com Felipe, não dá para copiar, para imitar.
    Eu moro no meio das suas letras e mesmo assim, quando chego e me deparo com um texto desses penso: Caralho, Jaya, onde tava isso, véi?!

    Eu li inteiro com um sorriso no rosto. E enquanto estou aqui comentando, o sorriso continua. Aliás, sou só sorrisos ao falar de tu e tua escrita. Tu sabe.

    Que texto incrível! Lindo. E sim, as cenas estão todas aqui, na minha cabecinha. Mais um filme.

    Eu deixo sorrisos, para vc. Mando carinho o tempotodo. Não esquece, tá? É querer-bem demais.

    Um obrigada imenso, viu.
    Beijo, nêga.
    :*

    ResponderExcluir
  4. Como consegue ser tão doce, mesmo em meio a tanta nostalgia?


    Lindoooooooooooo


    bjkas

    ResponderExcluir
  5. Eu estava sentindo falta desse encanto que as suas palavras provocam; estava sentindo falta dessa música boa que toca quando esses encantos nos tocam. E tudo sugere suspiros, leveza... Uma vontade enorme de se enlaçar com tais palavras e não abandoná-las jamais. E é isso o que acontece, porque não tem como sair daqui sem levar um pouco dessa magia, ela gruda nos olhos, invade a memória se instalando delicadamente em um lugar bom.

    Beijo grande Jaya, e como sempre saio daqui toda suspiros.

    ResponderExcluir
  6. Você é um presente! Fiquei com os olhos brilhando quando li o seu comentário e que felicidade enorme essa de me fazer saber por vc através dos meus textos. Você é uma das poucas ( acho que a única, na verdade) que consegue entender o que eu escrevo e acompanhar as coisas. O mais lindo é ver você feliz junto com a minha felicidade e torcendo pra que ela continue, se desenvolva, dê frutos.
    E outro presente é poder abrir sua página e ler sempre uma coisa mais linda que a outra. Nesse texto, cada linha tem um brilho mais que especial, e me fez poder enxergar o seu sorriso iluminado, as suas mãos que transmitem tanta luz e energia. Jaya, eu consegui um autógrafo do Veríssimo, aquele dia. Me arrepiei todinha quando o vi. E sei que vou me arrepiar quando for te ver e ganhar um autógrafo seu. Minha autora favorita!

    Um beijo bem grande!
    :)

    ResponderExcluir
  7. em setembro fez-se fevereiro por aqui.
    estamos mesmo nessa coisa dos meses, né?

    agostou acabou tropeçando e setembro só piorou. claro, você tem razão, os sentimentos não escolhem os meses. mas fevereiro...ah!fevereiro nunca é ruim.

    tava com saudade de passar por aqui, ler com calma e curtir como sempre.

    beijos querida!

    ResponderExcluir
  8. Você transcende e me toca.
    Te admiro. E só. Porque não te conheço e não sei sentir outra coisa. Tá, talvez uma vontade estranha de te abraçar e sorrir profundo pra você.

    Esse texto diz e me silencia.



    Um parabéns bem demodê pro cê.

    ResponderExcluir
  9. Jáaa estava com saudade!
    lii no dia que vc postou mais faltou palavras para fazer um comentário,que texto BOM a leitura é rápida e o coração acelera junto.Aaa esses amores de carnavais! hahaha

    Querida Jaya,
    Obrigada pelo comentário lá no meu espacinho,fico feliz quando te vejo por lá! (deixei lá a resposta)
    Que Deus continue te iluminando com esse seu dom que tanto faz bem ao meu coração!

    Um beijo com carinho! ;)

    ResponderExcluir
  10. Voltar sempre nos dá como água o mesmo copo: previsibilidade.

    Com você não. Voltar é continuar com sede.

    Saudades

    ResponderExcluir
  11. Essa pressa me apetece, esse não economizar a vida.

    ;)

    Um beijo.

    ResponderExcluir
  12. Jaya!

    Sabe, antes, quando a palavra existia em nós ou nos cadernos e papéis guardados nos fundo de uma gaveta qualquer, dentro da nossa casa, o acesso a poesia era limitado. Limitado ao nosso verso e aos grandes escritores que conseguiam publicar seus livros. Depois, com a internet, com os blogues, com as editoras virtuais, as gavetas se abriram e a poesia passou a transitar, a percorrer, a fazer parte da vida de todo mundo. E com ela, as pessoas e a possibilidade dos bons encontros: esses que produzem encantamento quando a gente lê coisa bonita.

    Tudo isso só para dizer: Amei o seu texto! O seu jeito de conduzir a palavra e produzir esse encantamento. Amei, também, ler seu comentário lá, no meu universo.

    Beijos, querida!

    ResponderExcluir
  13. Como sempre, texto lindo.
    Obrigada pela visita 'lá em casa' flôr, és sempre bem vinda por lá.
    Bjos

    ResponderExcluir
  14. (suspiros)

    Um lindo fim de semana.

    beijinhos doces.

    ResponderExcluir
  15. Não quero nem dizer nada. Fico daqui só batendo palmas.

    ResponderExcluir
  16. Jaya, infelizmente, não enxergo mais poesia no que escrevo, um abismo entre mim e as letras [a poesia pura], perda do caminho do lírico e na tentativa de resgate, me limitarei ao caderno de anotações [só pra mim, como fazia no início de tudo].

    Na íntegra, minha querida, encontro-me enfadada de entradas com saídas repentinas no universo virtual, na qual confirma conceitos [pensamentos que me rondavam].

    Já, não há gosto, prazer por escrever no blog, ou qualquer outro meio ligado ao virtual, causa-me tamanha indigestão. Capturo gritantemente, a distância do que pensara ter conquistado; caio na real de tudo ter sido uma miragem - plena cegueira. E na constatação, sofri perdas incalculáveis [construções ao qual base fora inexistente, como vento intitulo], relacões [grande massa] na inconstância e falácias.

    De qualquer forma, agradeço ave rara pelas palavras acima. Suas palavras são sempre respeitosas e acolhedoras para com o próximo. E peço-te que não tome pra si o que acabo de escrever. Afinal de contas, tenho grande consideração por seu espaço [pessoa] através de palavras vivas e bastante expressivas, tais que em muitos momentos cairam como luva nos meus dias.

    Abraços!

    Priscila Cáliga

    ResponderExcluir
  17. Você nunca vai perder este encanto sublime. Ler você é sempre um embate transcendental, porque você derrama nas letras sentimento multiplural. São pedaços teus multifacetados em cada frase escrita. Terno eterno no dedilhar que exala poesia. Teus dedos que sabem bem o ritmo desta folia chamada amor.

    Você baila em marchinhas que ditam os passos da tua vida e fazem os olhos brilharem. Confetes de sonhos embalam teus olhos. Há um carnaval que retumba dentro de mim. Sentimento que lateja no favereiro da alma.

    Teu texto é assim, uma apoteose de sentimentos, em regalos plenos de amar, de querer, de extravasar. É fantástico a forma como as palavras suavizam pelos teus mágicos dedos. Tuas mãos compõem o melhor samba-enredo que conheço: amor.

    Fica nítido nesta história forte, tocante, amorosa. Um texto que laça no peito toda esta plenitude que existe no amar. Despudorado, mas livre, encantador; romântico e acima de tudo meigo. Porque é puro, é verdadeiro, é autêntico.

    Não há como não aplaudir. Não há como não sambar no teu sambódromo. Seu coração é assim, porta-bandeira em busca de mestre sala.

    É marquês de sapucaí sendo embalado ao som do teu samba-enredo, entoado pelo coração: amor.

    Ler-te sempre será um prazer. E sempre foi. Sentia falta de te dizer. De deixar aqui. De ficar presente em palavras. Aqui.

    Beijos de quem te gosta muito.

    Saudades!!

    ResponderExcluir
  18. Esqueci de dizer...

    este texto é


    Notaaaaaaaaaaa

    DEEEEEEZZZZZ!!!

    *risos


    Beijos!

    ResponderExcluir
  19. O quinto parágrafo e a sua eterna forma carinhosa de desenhar coisas em comum.


    se sinta muito abraçada, jaya!

    estava com muita saudade, nunca mais te lia, também não atravessava pelo meu blog. Quem bom que sempre voltas!

    Flores.

    ResponderExcluir
  20. Desertei-me.
    Desertaram-se.

    Mas que era (...)

    Era.
    E não é possível que não fosse.

    ResponderExcluir
  21. O que mais me surpreende em seu blog, é além da forma como você poetiza a vida, é a maneira como isso comove as pessoas que passam por aqui e comentam.
    Sinto saudades de você, baiana sacana.
    Grande beijo.
    :*

    ResponderExcluir
  22. Um dia vou escrever algo sobre sua timidez poética. rsrs

    ResponderExcluir
  23. Ah, se a vida fosse sempre esse supetão, essa coisa boa e leve e intensa e eterna.
    Um vez por ano, ao menos, a gente tenta esquecer que sofre, que doi, que sangra e só se lembra que ama.
    Adorei, de verdade. E já estava com saudades.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  24. Mermã,

    VOCÊ É CAETANO!

    https://www.youtube.com/watch?v=5UBGUPnWzwE

    Ou melhor, não sei como você consegue, mas você é muito mais foda que ele. Muito mais.

    Porque eu volto pra ler um texto que tô cansada de ler e continuo ficando sem ar. Puta que pariu você, hein?!

    ResponderExcluir