Vê se tá bom de açúcar.

14:24

O meu mínimo olhar
me enche de sensação.
E o mais pequeno som,
seja do que for,
parece falar comigo.


[Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)]

Eram várias palavras dentro da minha bolsa, cada uma com duas asinhas, seu Zé. É esse, então, o motivo de não conseguir guardá-las por muito tempo: as histórias acabam voando. Fico observando a capacidade que tudo tem de ser assim, inacreditável. Meus cílios conversam entre si a cada vez que meus olhos piscam e acabam se abraçando quando demoro num sonho, trazendo pro lado de dentro um pouquinho de presente bonito para que o futuro possa desembrulhar. Sei que o senhor sabe como é.

Falando nisso, às vezes fico tentando desenrolar um texto, fazendo parecer fácil essa mania de procurar frases no chão como se olhasse o céu. Porque tem horas que os papéis se invertem mesmo e fico sem saber desembaraçar. Tudo parece andar de mãos bem dadas, como naqueles amores antigos que caminham por aí com seus cabelinhos de algodão.

De vez em quando, seu Zé, eu fico assim, muito triste e chorona, e a vida perde os motivos, perde a graça, perde a mim. Fico querendo achar por aí, derramada sem querer, uma porção de felicidade. Podia ser a granel, para entregar a todo mundo, porque muita gente precisa mais que eu. E aí não saio contando pra ninguém das minhas amarguras, que é pra não ficar circulando ao meu redor, sabe, seu Zé? Procuro tratar das coisinhas pequenas e vou me esquecendo quando vejo um sorriso. No final está todo mundo sorrindo junto e isso é o que importa.

Eu disse ontem mesmo que o mundo é grandão e incrível. As coisas só existem porque acreditamos nelas. Sorrio muito para isso, viu? A gente precisa é de fé. E de pessoas. Porque me sinto meio vazia de pessoas, pessoas dessas que fazem festa na gente, que fazem a alma bater palmas. Pessoas que entendam esse meu jeito de não fazer muito alarde, de chegar sem espantar as borboletas. Eu tenho uma joaninha no dedo indicador e essa sensibilidade ardendo nos ombros desde muito tempo, seu Zé.

Eu confesso: se o senhor quer saber, quero uma casinha à beira-mar, numa cidade miudinha. Bastava caber meu coração, porque eu tenho sim esse amor que dá para cobrir o azulzinho inteiro daquele mundaréu de água. Assim tudo caberia. E lá eu nem ia ficar arrumando CD's, livros e guarda-roupas na tentativa de me reorganizar internamente, porque tudo seria o meu avesso. A vida não ia precisar ficar empilhada num canto. Eu imagino que mesmo quando anoitece, na praia a gente é sempre uma pessoa solar. O senhor não acha?

Me deixa quietinha aqui, nesse canto do sofá, já que tem esse cheiro de jasmim em volta. E se os pelos do meu braço se arrepiarem quando um sentimento novo se encostar em mim, já vou saber da necessidade danada que eles têm de espiar o que foi que andou estilhaçando o gelo que já andava trincando aqui dentro. E daí então se essa pessoa falar de sol, arco-íris e sorvete, vou ficar gostando tanto das palavras dela, que não vou nem me preocupar em dançar no silêncio que de tão branco vai parecer levelevelevíssimo. Silêncio diz é coisa, seu Zé.

Não sei se o senhor sabe, mas tenho um menino nos olhos. Ninguém entende que ele está sempre cheio de cor na curva das minhas pálpebras. Aliás, se tudo tivesse cor, eu talvez desistisse da vontade de saber usar os cílios para varrer as desventuras que vez ou outra me caem nas retinas.

Sinto a realidade assim, hoje: já consigo caminhar na lucidez. É como quando se tira as rodinhas de apoio da bicicleta, o senhor lembra? A gente pedala sozinho sem nem notar. E vai. Só que eu não sei pedalar de braços abertos, ainda. Medo, parece. Quando aprender, eu conto. Vou sair abraçando o mundo como quem quer costurar amor em tudo. Mas, ó, eu tenho ido. É que já tenho asa e isso ninguém nem sabe.

E no mais, vambora contando nossas gigantices sem a vulnerabilidade de nos empequenarmos ao cruzar com essas pessoas pequenas. Sejamos nós dois os maluquinhos que ainda ouvem a voz do passarinho pousado no fio, mesmo com esse tantão de barulho na rua.

Olha aqui bem dentrinho de mim, ó: deixa sempre esse sorriso sabido do senhor esquecido no cantinho do pirex que apoia a xícara de café. O senhor nem sabe, mas esse é o segredo que faz deixar a bebida sempre quentinha.

Eu vou é pendurar mais um tiquinho de coisa boa ali no varal, seu Zé. Tem tanta coisa esbarrando nesse coração que daqui uns dias não vai ter outra alternativa senão dividi-lo.

Vê aí se tá bom de açúcar.

18:20



Eu me sinto como num lugar errado, num tempo errado. Num tempo veloz, em que é melhor ter muito, muito rápido, que criar raízes lentas, cultivar aos poucos e manter por anos a água, o sol. Feito uma árvore. Que precisa estar firme, e pode estar só. Não somos mais firmes. Nunca estamos sós. As pessoas vão esquecendo que só existe EU porque existe TODO. A extrema necessidade de constante companhia cria uma profunda solidão, crônicaguda. E eu sou lenta, sou antiga. Eu quero o cuidado, a morosidade, o i-n-s-p-i-r-a-r-e-x-p-i-r-a-r. Quero ter calma para chorar, quero sofrer tudo. Quero ter tempo de o sangue coagular e a pele nascer. Sem pontos. Sem artifícios.

Não somos apáticos: tem muito tesão, tem muita paixão. E de que vale impulso se não tem porquê? Paixão é desculpa do medo, tesão é desculpa da pressa. Falta tempo para o Amor. Falta respeito ao Amor. Falta Amor. E demorou um tempo pra eu entender que é preciso definir. Porque tudo tem peso, tudo tem nome. Porque não se fazer entender é criar mentiras sobre si.

Que seja feito, que seja livre, que seja romântico. Que seja eterno, platônico, carnal. Que seja Uno, que seja Pluro. Mas que seja
sempre. Que seja o mote, o motivo, que dê c-o-e-s-ã-o à existência.

Amor [s.m.] comunhão íntima, coesão com o universo (com ou sem conotação religiosa).

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Que eu sinto, em silêncio. E ela vai escrevendo por mim. Sobre nós.