05 maio 2011

Condicional.

Alguma coisa a gente tem que amar.

[Condicional - Rodrigo Amarante]

Eu sempre achei que amor era o mais importante. Essa necessidade de sentir para ganhar sentido. Acho que é aí, nessa hora, que você consegue sacar a vida: quando ama. Aí que tem essa delícia plena de notar-se sempre com treze anos quando descobre-se que aquele alguém também gosta de você. Essa coisa bonita de sorrir e ser sorrido, até que, num piscar, os sorrisos se embaraçam num beijo. É essa possibilidade fantástica de enfiar-se no campo magnético daquela outra pessoa e sentir-se protegido porque estar dentro daquilo é muito bom. E as primeiras investigações. Recitar um diálogo juntos e maldizer aquela poesia que todo mundo gosta e idolatrar aquela música brega e sair dali assustado com o mundo ao notar que ainda existem coisas encantadas. Que dividir um pacote de pipocas no cinema é a melhor desculpa para deixar as mãos se tocarem pela primeira vez. Tenho essa necessidade de ter alguém e sentir que todas as peças desencaixadas de dentro de mim poderiam ser montadas naquele momento, com uma intensidade despreparada ao redor. Daí os outros me dizem das minhas precisões antigas. Das minhas necessidades antigas. Ninguém recorda que quando nasci não teve anjo nenhum me dizendo nada, como Drummond e Chico tiveram. Só me dizem que é foda. Que adoece. Fuço numa lembrança e vejo que sim, já sofri pra caralho, já senti essa dor quase física quando fui deixando um amor partir. E todo mundo já sentiu também porque essa dor é uma dor coletiva. É em torno disso que o mundo gira, por mais que se disfarce. Esse meu amor não foi vivido, mas milimetricamente fantasiado. Coisa ficcional demais que possibilita uma porrada de histórias. Naquela época cheguei a pensar que, cara, o que vai ser de mim se tudo isso minguar? E passou e eu sobrevivi. Agora tem todo esse medo de pirar, porque, honestamente, sinto muito, mas não sinto porra nenhuma. Fico numa angústia, naquelas de estar down e pensar que nunca vou amar ninguém e puta que pariu. Eu comprei essa história. Já briguei. Não consola, disse o verso. Então eu penso e invento de escrever uma canção dizendo que estou sozinha, apaixonada. Para lançar no espaço sideral. Um sentimento no vácuo. Objeto não identificado. Fico nessa onda de sair de mesa em mesa tentando pescar qualquer migalha de amor nos copos alheios, tentando me interessar por pessoas e coisas óbvias quando isso não tem nada a ver comigo. E não tem nada mais patético, nada mais agressivo a si mesmo do que catar raspas e restos desinteressantíssimos. Porque não. Não tem mais nada, cara? E o sentido maior da vida? Questões e um desespero estonteante porque saio de uma cidade para outra acreditando que agora eu vou entender essas existencialidades malucas que se agarram em minhas entranhas. Mas, olha só aqui pra mim, que tal essa pose? Ideologiaeuqueroumapraviver. Fico aqui, parada, cada vez mais só, porque é o que acontece quando se acha mais da metade do mundo vazia demais, superficial demais. Ao mesmo tempo em que me invade essa certeza de ter nascido blues demais. Mas não se preocupa não, ainda tenho essa paciência para acreditar, para amansar a dor, para sepultar um sentimento e regar o outro que nasce. Eu não atendo o telefone, não consigo. E também não tenho para quem ligar no meio da noite e dizer que tá doendo pra caralho, vem me ver, por favor. Ninguém para atravessar a cidade por mim. Eu preciso chorar com coisas lindas, como quando assisti à peça Aqueles Dois e saí dali desnorteada de tanto amor por um dos atores. Preciso de muita energia mágica concentrada, como naquele outubro debaixo do céu de Salvador com Marcelo Camelo berrando que Deus vai dar aval sim e o mal vai ter fim. E Deus, meu Deus? Porque sou muito centrada, muito doada, muito osoutrosdepoiseu. E nesse mês de abril recebi tantos socos, afoguei tantos sonhos nos meus travesseiros, suei frio de tantas saudades, perdi três quilos. Amor é meu tarja preta, mas tá em falta e eu sou completamente viciada. Sentir sempre foi a minha droga, onde será que encontro uma embriaguez levinha? E ainda tem essa obrigação filha da puta de ficar contente porque se você quer se isolar e sofrer tudo da maneira como tem direito, ninguém deixa. Aparecem os colos necessários, os convites para um porre, mas também tem muito conselho que não serve para nada porque as pessoas ainda não entendem que sempre que alguém está doendo vai achar que não tem dor maior no mundo do que a sua própria. O que, aliás, eu acho muito justo. Ser egoísta na dor é necessidade. Aí fica assim, a realidade toda fodida e eu sem nem sequer saber como me iludir. Só me iludo na hora errada, na hora da paixão, quando começo a ficar cheia de asas e a espalhar excesso no meio das fantasias. A realidade do sentimento é sempre mais fraca, o que salva é a poesia. O que a gente pensa oferece abertura a tendências que se desviam do que de fato é. Dois níveis - emoção e razão. E é tudo tão doído também, tão perverso. Tem essa correria, essa loteria, essa minha pressa em sair de casa quase esquecendo de levar o coração junto. Amar é tão de graça, cara. Eu sei porque já estive lá. Sei que existe. Existe todo esse blábláblá e clichês e mimetismos. Vai ver estou andando pelos lugares errados. Não tenho nada nas mãos, aqui. Lugares geográficos, esse é o problema. Não caibo. E sempre estrago tudo. Porque quando a coisa fica bonita demais eu vou me autossabotando até não existir mais nada. Medo do que me faz bem, de ser bom. Não tenho esse dom de atuar em cima da vida pagando de normal, de ahcomoesseassuntoéinteressante, mecontamaissobrevocê, porque não rola. Não tem espaço. Eu preciso chegar, olhar no olho e dizer, benzinho, estou loucadevocê. As projeções que comprei ao longo do tempo, malditas, diminuem qualquer emoção real. Deixa pra tocar o chão depois, sabe. Sonho não se dá, diz o Ruivo. As medidas do Bonfim, tantas, ainda hoje não me valeram. E a cada uva que conhece minha boca nos finais de ano, é um amor que engulo em pedido. Já andei exausta de tanta ternura. Desmantelada. Hoje, meu amor é um casaco jogado no chão, de braços abertos, esperando quem saiba vesti-lo.

Existe alguém para me libertar.