(Re)inventar.

17:18


Inventou amor
Dentro dela
Não conseguiu tirar

O mundo ficou pequeno.

[João Paulo Cuenca]

Aproximou-se aquele dia, depois de tantos dias, para me devolver o livro que esqueci em seu quarto. Não notou que meus cabelos balançavam uma crise existencial no meio de todo aquele gesto, de todo aquele sorriso largo, de toda essa coisa confortável que sua presença me trazia. Nunca foi muito bom em notar, na verdade. Bebeu do meu suco: senti o hálito de estrelas adormecidas no céu da sua boca. Trocamos algumas palavras enquanto meus dedos brincavam com a borda do copo e ele comentava alguma coisa sobre o último parágrafo de algum capítulo. Acendeu um cigarro, fez um samba batucando na caixinha de fósforos e eu pensando em como seria bom deixá-lo tomar conta de tudo o que guardo. Ele ficava ali, muito parado, muito bonito, me olhando.

Daquele instante, não teve convite nenhum. Não ousou me olhar com outros olhos, com olho algum. Apenas pegava minha mão, fazia um carinho, dava um cheirinho, me convidava para mais uma noite de música. Era importante porque deixei que se tornasse. Deixei que me apanhasse em casa todas as noites que quis. Nunca precisou perguntar nada, eu não dizia nada. No final, me abraçava, pontuando tudo. Era só o que eu precisava. Depois do abraço, ninguém notava, mas sempre voltávamos trocados: um levando o coração do outro. Eu já pensava muito nele. Ele, que me tocava, me sorria, me desmantelava. E eu ia amando, serena, disfarçada, com medo de gritar. Ele gesticulando enquanto dirigia e eu falando de tempos antigos, sobre a vida ser uma invenção fantástica, sobre as saudades das praias, minha vontade de ir embora, meu descaso com os sentimentos. Arrumava desculpas para colar sua pele na minha só para ver o que despencaria de tamanha fusão.

Não espalhamos nossos amores no chão do quarto, mas deitávamos juntos na cama estreita para assistirmos ao mesmo filme pela enésima vez. Ele guardava meu sono. Jamais soube das minhas pieguices. Não me viu chorar no teatro no meio daquela história de amor e caras pintadas. Me ouviu dizer que todas as histórias são de amor e ficava feliz quando eu estava feliz. Me fotografou, provou do meu doce, espalhou seu perfume em minha casa, misturou seu cheiro nas minhas blusas preferidas. Jamais soube das minhas neuroses. Implicava com meu sotaque, me ouvia falar da Bahia. Jamais soube da minha vontade de beijar as pontinhas dos seus dedos. Não sabe que quarta-feira é dia de Iansã e meu dia preferido. Jamais soube que alguns meses depois, três horas da tarde, quando cantarolei o trecho daquela bossa que ele assobiava, eu já estava completamente perdida. Me sentia bonita, toda luzindo e meio azul, porque eu sentia. Até a última gotinha, eu sentia. E pintava tantas vontades naquela tela, com tanta pressa, que os sentimentos se borravam todos e ficava só aquela mancha vermelha de coisa feita para arder.

Veio então esse instinto de convidá-lo para fugir. Mas preferi ficar ali, enquanto ele me falava de constelações, astrofísica, sopa, a cor dos olhos de Chico, futuro, cinema. Eu, atenta, morando naqueles olhos escuros, pensava num abajur barato. Pensava em como francês é lindo. Quis rabiscar as paredes da sala, pregar o botão que caiu da sua roupa, que ele me acompanhasse, que me perguntasse aquele monte de coisas doidas que não pergunta a mais ninguém, que me deixasse aninhá-lo em meus braços. Pensava em gastar aquela grana comprando uma vitrola antiga, discos. Imaginava que tudo o que precisávamos era um tapete enorme, algumas almofadas e uma parede de fotografias. Pensava em colocar uma bandeira com nossos nomes na lua. No fim, só acabava puxando-o pelo sorriso até a próxima esquina.

Foi meio aquela história de avencas e samambaias e crescimentos insuspeitados. E eu inventando histórias aleatórias e muito intensas enquanto ele ia tomando conta de mim e eu pensava nas cartas que escrevi para o meu primeiro namorado, sem saber de nada da vida. Não sei de nada da vida. Sentava na escada com meu caderno, desenhava estrelas de caneta bic e pensava em como o cheiro do pescoço dele me pervertia. Pensava em passar as horas ali, ouvindo Novos Baianos e completamente viciada em falar de amor.

Lembro muito da noite em que segurei um cálice de vinho, olhei em seus olhos e adiantei as saudades só para que elas acabassem se confundindo, na esperança de que depois não soubessem por onde caminhar. Me embriagava e repetia: está tudo bem, coração. Tudobemtudobem. E vinha essa vontade de chorar, fugir para alguma cidade no interior de Minas, publicar um livro só para contar que tinha achado um amor e ainda sentia. Repetiria em uma folha inteira: ainda sinto. Ad infinitum. E provaria que nada mais é tão importante assim.

No momento em que minha língua adormeceu de tanta poesia, meus gestos lhe explicaram que existem pessoas que ainda acreditam, sentem, deitam na grama, enlouquecem, caminham sem rumo, abraçam, se importam. Existe o sempreamar. E enquanto for assim, vale a pena estar vivo. A vida. Essa vida, em todas as cores-dores-energias-sinceras. A punição não é outra senão carregar esse coração cada vez mais arregaçado de tanto. De tudo.

Coisa mais frágil, entregue, irresponsável, amara. O amor. Dura o tempo de um para sempre.

E começa outra vez.

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Junho de 2011, republicado.

Carn(av)al.

22:21

Sem olhos, sem boca
sem dimensão.

[Drummond, em: Um homem e o seu carnaval]

O batuque, a poesia jogada passando de raspão. As vozes misturadas, sonhos embaralhados, paixões enlaçadas, multicores. Brilhos, um beijo em cada esquina, uma lua morando no mar. Versos loucos escorrendo pelas ladeiras. Cada uma das gentes, em suas belezas, parecia ser patrimônio local. Desconfia-se que tenham nascido para participar aquilo. Todos os cheiros se enroscam e o feitiço ambiente faz de tudo um grande samba. Até o chão, num tímido movimento espontâneo, levanta suas faíscas de poeira para entrar na dança.

Os sentimentos doidos varridos encontram labirintos e também se perdem, outros se (re)encontram. Foi assim que ele dobrou aquela esquina. Eu havia acabado de fazer um pedido, e ele dobrou naquela curva, quando a rosa amarela despencou dos meus cabelos. Viu, veio me entregar, entregou-se. Observou meus olhos escuros cansados de guardar estrelas que cintilava euforicamente vários tons tresloucados de amor. Sorrimos, nos abraçamos, cantamos juntos e recitamos, tontos, todo aquele exagero do poeta que falava sobre essa coisa quimérica que era o fato de estarmos ali, dependurados nos cabelos azuis de fevereiro.

Naquela noite fiz questão de estar presente em todas as suas interjeições. A cada vez que ele me tocava, eu usava o gesto como desculpa para me aconchegar. Daí então as horas passaram e declaramos desejos debaixo de muita luz. Não sabíamos ao certo o que fazer com as mãos: acabávamos sempre conexos, pertencentes, doados. Acarinhava sua face atrasando os ponteiros de todos os relógios que nem existiam debaixo daquele céu espantosamente bonito, e meu coração já pulsava na garganta quando me desesperei no meio daquele povo. Daquilo tudo que treluzia. Ele, atrás de mim, observava as fantasias: me disse que todo aquele nosso disfarce era a maior revelação.

Deslizei meus dedos em seus lábios, medindo as possibilidades de doçura morando em sua boca. Provoquei o que também ardia em minha língua, deixei que seu nariz fizesse um carinho manso no meu, e mostrei-lhe como as pálpebras também beijam lembranças bonitas. De lá pra cá, fazendo história em toda aquela rua de pedra, mentimos um para o outro afirmando dominar o amor. O frevo, os confetes ao nosso redor, os rodopios. Estávamos perdidos. Sem olhos, sem boca, sem dimensão. A poesia já passava apertada, impossível desviar-se. Sentamos na calçada, tomamos emprestado todos os delírios encontrados próximos ao meio-fio. Ele acendeu um cigarro e eu pesquisava seus sentidos.

Parecia um sentimento que já morou em mim na época onde eu sorria melhor e mais bonito. Parecia um desencontro, um mapa mal direcionado. Parecia uma notícia bonita. Uma poesia nova. Um beijo dado bem devagarzinho. Parecia a vontade que eu tenho de ser feliz. Parecia carregar um pedaço concentrado do que sou, sem ter a mínima noção de tanto. Parecia ter esbarrado em meu peito. Deixou minha alma balançando, desatada.

E dançamos. Pulamos sem deixar que as almas voltassem para seus lugares, caímos no chão, trêbados, enquanto eu reclamava dos pisões que levava nos pés. Era nosso passo, nossa ausência de ensaios. Não havia tempo para não viver. Ele entendia minhas mímicas de amor não dito enquanto brincávamos de ser criança e nos apaixonávamos a cada piscar de olhos. Tudo parecia uma citação grifada no meu livro preferido. Virei a página: dois suspiros mais distantes dali, meus cabelos balançaram vontades muito vermelhas. Ouvíamos o som abafado da rua já distante, fogos riscando o céu e os tambores batendo ainda dentro em nós.

Um dedilhar primário, um reconhecimento: seus anseios em meu vestido, cujas alças deslizaram mostrando os ombros nus que agora carregavam, leves, suas urgências. Me convidou com seus olhos, me tocou com sua respiração. Suas mãos em minhas mãos, seu suor em minha pele, os corpos inteiros bocas. Dedos, línguas, dentes, um pecado tatuado em minha virilha. Um enlevo em comum e dois murmúrios enleados sem nem notar que já havíamos enlouquecido faz tempo, ali, entrelaçados, sôfregos. No primeiro abrir de olhos, entoamos duas dúzias de palavras mágicas e o amanhã já chegava, fazendo sol sob os jornais. Vestiu-se de fumaça, vesti-me com sua blusa. Daquela vez, como se fosse a última, a única. Observamos pela janela e vimos que em passos trôpegos, pisando em toda aquela alegria esparramada, apresentava-se a quarta-feira, já cinza de toda aquela chama.

Fevereiro passou. De azul que era, encarnou-se. Guardamos poemas nas pedras daquelas ruas de ser feliz, lembrança de um tempo onde havia coisas lindas. É tudo sempre parte de um dos ritos do amor: carnaval e tê-lo. (E)ternamente.