Meu plano.

16:05

Nem vi você chegar,
foi como ser feliz de novo.

[Ensaio sobre Ela – Cícero]

Eu queria virar uma história bonita em meio a tanta história bonita que andava ouvindo por aí. Esse talvez tenha sido o meu único plano da vida inteira: uma história bonita.

Meu plano não era que ele preenchesse meus espaços. Não era contar o que penso quando penso nele – e penso muito. Não era beijá-lo antes de saber sua cor preferida, apesar de achar que ele fica muito bem de vermelho. Não era abraçá-lo sem que ele soubesse que ainda sou a menina do texto de Vinicius, sem a flor. Meu plano não era gostar tanto dos seus olhos me enxergando de cima e querer meu corpo junto ao seu mais um pouquinho.

Meu plano não era sonhar uma parede branca para escrevermos nossas inspirações de amor barato sempre que desse vontade. Não era me apaixonar por ele mais tarde. Ou de manhã cedinho. Ou qualquer hora que eu olhasse o relógio. Não era me apaixonar por ele a qualquer tempo, o tempo inteiro. Não era ouvi-lo dizer que parecia estar vivendo tudo o que um dia escreveu sonhando e sentir a mesma coisinha, em todos os detalhes.

Meu plano não era me esquecer naquele cara logo no primeiro segundo em que nos encontramos. Não era ir trazendo-o para mim enquanto aquelas garrafas de cerveja iam sendo esvaziadas entre palavras demais, sorrisos demais, olhares demais. Não era. Não era comer todos os beijos que estavam em sua boca durante minha presença. Não era saber que não ia me saciar tão cedo.

Meu plano não era tanto carinho. Tanto toque. Tanta vontade. Não era deixar nossas palavras se enlaçarem. Não era andar por aí de mãos dadas com ele, sentir um frisson desarrumado dentro do seu abraço, me acostumar com todos aqueles lugares diferentes apenas por tê-lo ao lado. Não era deixar aquele emaranhado de coisas acumuladas despencando pelas ruas de pedra do Pelourinho enquanto caminhávamos em cima da poesia alheia.

Meu plano não era meu coração balançar no dia seguinte, na hora de dizer tchau. Não era convidá-lo a vir embora comigo. Não era fazer o caminho de volta completamente anestesiada de uma paixão que ainda não sabia ter nome. Não era ficar assustada com uma saudade que quase dava pra tocar, de tanto que era sentida. Não era chorar quando ele me disse uma coisa bonita, nem me perder a cada vez que lembro um momento nosso.

Meu plano não era me apaixonar. Não era me apaixonar por um cara tão chato quanto eu. Não era me deixar levar por um cara que tem uma lábia tão sacana. Não era conhecer melhor esse cara, encontrar afinidades, poesia, terapia, delicadeza, loucura, intensidade, música, sensibilidade. Não era deixar que as palavras antecipassem nossos momentos. Não era desativar todos os meus freios apenas por estar louca de curiosidade para ver onde vamos chegar. Não era nada disso. Meu plano não era me encontrar, nesse cara.

Meu plano não era chamá-lo para deitar ao meu lado, naquele dia de manhã cedinho. Meu plano não era que nos encaixássemos tão bem. Não era gostar de fazer um carinho em seus cabelos, de dar uma mordida em seus lábios e tampouco de me esquecer em seus ombros. Não era me acostumar com sua presença, um pouquinho mais a cada dia. Não era seguir desatenta para lugar algum e chegar onde estamos. Não era querer fazer dar certo. Muito certo, mesmo eu sendo tão errada. Não era deixar ligar uma emoção tão vermelha assim, em mim.

Meu plano não era deixá-lo cravar suas vontades em meu peito. Ser dele como nunca antes havia sido de ninguém. Não era sorrir ao tê-lo e muito menos que nos notássemos assim, intensos demais, borrados de todasascores, alicerçados por desejos, sem marcar tempo ou dar medidas. Não era que ele me fizesse esquecer onde já doeu, que me tomasse o medo de encarar meus medos. Não era que seus gestos doces desprendessem todas aquelas coisas lindas que já andavam esquecidas aqui dentro. Não era que ele as tivesse tão facilmente.

Meu plano não era escrever um primeiro texto assim. Não era, tão cedo, passar a encontrá-lo em tudo o que leio. Tudo o que ouço. Não era deixar meu coração dançar quando ele me entregou aqueles versos no papel. Não era permiti-lo desafiar minhas certezas em relação ao que havia adormecido. Permiti-lo acordar constelações pequenas que já reluziam meio fracas do meu lado de dentro. Não era estar como agora, fazendo sol por qualquer motivo.

Meu plano em nenhum momento foi perder as chaves quando deixei-o entrar. E talvez agora ele se embarace nessas linhas. Talvez ele se embarace e, no final, ao resolvermos montar as coisas certas, terminemos levando as palavras um do outro. Quem sabe um novo poema seja escrito. Quem sabe já estejamos escrevendo-o desde que existiu aquela ponte entre dois olhares. Carrego ainda cachos daqueles afetos azuis pendurados em meus cílios. Meu plano não era fazer dessa uma história bonita. Meus planos não mudaram.

Meu plano, hoje, é ele. A minha história. A mais bonita.

Para o cara de Câncer – meu paraíso astral.

Líricas.

23:59



Viramos livro. Para vocês. Por vocês. O "Líricas", depois de modelado em tantos carinhos aqui compartilhados, pode agora abraçá-los de perto. E sempre.



Líricas é um livro pra quem quer ler suas próprias experiências de amor: o amor desmedido, o amor tranquilo ou sereno, o amor insensato, o amor ousado. É possível encontrar-se em cada linha, o que torna a autora porta-voz dos mais silenciosos. Depois, ao fim, vem a resistência em fechar a última página. O sorriso incontido no rosto inteiro denuncia a sensação de ter a “alma balançando, desatada”. Sorte de quem se permite a leitura dessa vastidão de sentimentos jungidos. Sorte a nossa.


A quem interessar possa, os livros estão a venda no site da Editora Penalux ou diretamente comigo, pelo e-mail: jayamagalhaes@gmail.com.

Espero que apreciem a publicação tanto quanto eu. Toda a ternura que tenho pelas letras foi ali depositada. Dividamos.

Cinco minutos.

10:04


Mais cinco minutos e não me restaria nada, só o amor.  

Em cinco minutos te vi naquela fila e pensei numa música antiga de batidas leves me colocando para dormir. Na verdade a banda tocava um cover tão mais lindo e as pessoas, todas, cantarolavam muito concentradas enquanto eu segurava em alguma mão para não me perder de mim. Em cinco minutos olhei para trás, você sorriu e não houve mais nada além da vontade muito urgente que meus lábios tiveram de dançar sob os teus.

Cinco minutos. Esbarrei de leve em teu braço e quis que você fosse esperto o suficiente para segurar minhas mãos já que eu não tinha bebido o suficiente para te enrolar na barra da minha saia longa. Em cinco minutos, moço, fiz planos sobre tua barba, teus cabelos pretos e teus olhos escuros. Cinco minutos e meu coração com sono querendo entrar na roda.

Cinco minutos bastaram para que você desse risada da minha piada boba e argumentasse com palavras desimportantes, querendo prolongar o assunto. Em cinco minutos eu quis que você visse a mensagem de quem já não liga para grandes acontecimentos em meu rosto antes que fossemos interrompidos por aquela voz apressada cruzando nosso (des)encontro.

Cinco minutos foi o tempo que me fez voltar ao mesmo caminho e me perder em meio àquela gente sem nem ao menos saber a marca do teu perfume para guiar o que os olhos não viam. Em cinco minutos preparei um beijo que começaria na tua testa e se adaptaria ao que o depois pedisse. O depois e todos os cinco minutos que viessem.

Em cinco minutos, você foi sem saber das histórias que amassei no guardanapo com provocações etílicas e o sentimento mais bonito do mundo vacilando sem saber qual direção tomar. Cinco minutos para te falar dos meus erros e te levar para esticar a noite num outro bar, beliscar teus braços, mordiscar tua orelha, te mostrar meus caminhos, entrar na tua vida e mandar um postal para quem possa se interessar.

Cinco minutos e eu tiraria um livro da estante para escolher a palavra mais docemente leviana e entregá-la a você. Cinco minutos e eu estaria falando da quantidade de coisas que poderiam sair da minha caneta destinadas ao jeito como você segura o copo. Cinco minutos e eu não te disse para ficar, mesmo querendo muito que você chegasse juntinho a mim, sem parar para analisar, enquanto me pedia um cafuné.

Cinco minutos, moço, e meu corpo gemendo imensidões depois das várias cervejas compartilhadas. Em cinco minutos a madrugada trouxe uma névoa que cercou toda essa cidade fria e eu, descabelada, só pensava em aquecer minhas pernas ao redor do teu ventre. Cinco minutos, minhas unhas sem os esmaltes vermelhos de sempre para te deixar pistas de como um pouco de pimenta me levaria para mais perto de você.

Cinco minutos e eu enumerando desejos nas pontas dos pés enquanto a maioria das pessoas descolava alguém para levar pra cama. Em cinco minutos faria uma coisa terrível: me apaixonaria por você. E repetiria coisas malucas de quem se alucina com sentimentos instantâneos, só para desafiar minha própria voz anestesiada. Cinco minutos e eu me desequilibraria e deixaria cair de propósito todos os versos apaixonados que já li, só para decorar teu casaco marrom.

Cinco minutos, desnecessária eternidade. Em cinco minutos você me deixou um texto e algumas horas de poesia. Cinco minutos e o que eu mais gostei em você foi o que aconteceu em mim. Cinco minutos e não sei mais a quem escrevo.

Mais cinco minutos e não me resta nada, amor. Perdi a hora.

Tomara.

19:00

Cantaste-me para a loucura;
beijaste-me para a insanidade.

[Sylvia Plath]

Tomara que caia o meu vestido quando teus olhos descerem em meu corpo. Questione o suor da minha pele, derrube beijos nos meus lábios entreabertos, desenhe meus seios em tuas mãos, peça por vagabundagem, estude meus gemidos, arrisque uma mordida, me provoque com teu cheiro, deixe o meu carinho trançar teus cílios, atravesse tuas vontades. Não programe nada.

Prefira as coisas irregulares, diga que me quer, ria da minha falta de habilidade, caia comigo no chão, na vida, nas interrogações. Feche os olhos, menino. Invente alguma música enquanto eu peço uma dose a mais, fale sobre suas horas, finja algum interesse sobre as minhas, esquente, revolte-se, bagunce meus cabelos, me empreste seu travesseiro, deixa eu te proteger. Sejamos doces.

Faça minha bochecha permanecer corada, fale baixinho, me ensine a ir além, mantenha meu copo sempre cheio, não se assuste ao me ver chorar, caminhe descalço em minhas estradas e façamos um brinde aos sentimentos desaparecidos, deixando que nossos peitos explodam coisas lindas ausentes de conceitos. Sorria alguns adjetivos que me arrepiem e deixe que eu te cubra com paredes estruturadas de loucuras antigas.

Pulo, se você pular. Completo tuas frases, durmo no teu abraço, te ensino a caminhar entre as estrelas, a ler minha camisa, a desabotoar meu coração. Diga que não entende meu jeito de fantasiar, abra suas malas, observe meu jeito de chegar, perceba minha maneira de ficar quando você precisar ir. Fica, menino. Esqueça sua voz em meus ouvidos e me queira bem.

Insista. Deite ao meu lado no sofá, delicado, inesperado. Jogue minhas roupas para o alto e me sinta tremer, beije meus medos, meu gosto, meus desejos. Me engole devagar. Diga que está apaixonado, quebre a garrafa de vinho ao me ver confusa, me leve para sua casa, aceite meu convite para sair no meio da noite, com toda aquela chuva. Ao amanhecer, comente sobre ter me achado dentro de um sonho teu.

Deixa cair o sol, se houver lua. Abra a porta do carro e gesticule ao me ter ao seu lado. Solte palavras desconexas, deixe que elas preencham o ambiente, mude a marcha, aceite meus lábios no sinal vermelho, resmungue. Sente comigo na calçada, perceba como fico gelada ao sentir a ternura me invadindo para ser tua, dê um bom motivo para minhas olheiras. Plante uma árvore para mim enquanto despetalo flores pensando em você.

Eu não carrego nada nos braços, menino. Não falo de amor, não sou tão profunda assim, mas tenho uma demência tão poética que me atiro nas letras desmistificando todos os meus cantos, lentamente dissipando o caos. Venha me buscar. Deixa eu subir em tuas costas, sintonizar nossa temperatura, falar de azul e branco, inventar palavras só nossas e colocar nos teus ombros raspas da minha fragilidade. Clareia o meu sorriso, e tudo bem.

Me pegue para você antes que o primeiro foguete parta. Esconda tuas tristezas nos pelos arrepiados dos meus braços, eu seguro. Vivamos de clichês, coisas rasas, ausência de fôlego, lençóis. Deixe as vírgulas de lado, escrevo para você não ler. Aprendo a dançar as palavras para que você transforme em notas. Movimente-se enquanto assumo essa porção de irracionalidades vermelhas e jogo em cima da mesa.

É preciso que uma felicidade esteja passando distraída e resolva ficar ao nos abraçarmos em sua frente. É preciso uma coisa quente desenhada na retina, um pouco de fumaça, uma violência sutil nos gestos. Que caia o meu vestido quando teus olhos descerem em meu corpo. 

Tomara, menino, que você caia. Em mim.

Meu ideal seria escrever.

10:44

Da não-escrita que se sente.

Meu ideal seria escrever uma frase tão bonita que todas as demais palavras ao redor tivessem muita vontade de fazer parte dela. Escrever um amor imenso, misturado, maluco. Escrever um amor meu. Escrever sobre as coisas doidas da vida e sobre como é fantástico arder por aí em pleno verão, fazendo até a madrugada amarelar-se.

Escrever uma história que eu encontrasse guardada na dobra da minha blusa florida, ali, já pronta. Escrever sobre o momento onde uma palavra miúda e cheia de significados embaraçou meus dedos e deu um nó em minha língua. Seria escrever a necessidade de um beijo sorridente e o porquê de meus lábios se descosturarem quando sinto o cheiro dele em qualquer lugar.

Escrever sobre como todo mundo deveria ter pincéis e medo nenhum de se borrar porque o agora é uma tela mágica e daqui a pouco não está mais aqui. Escrever sobre as alegriazinhas que a cidade esconde e que eu nunca tinha percebido até o dia em que sentei no banco da praça e fez um vento fraquinho que abriu de uma vez só um monte de pequenas portas atrás das quais elas se escondiam.

Meu ideal seria escrever fitas e laços coloridos que amarrassem bem dentrinho de mim um tanto exagerado de sentimentos ternos que nunca se abalassem, mesmo quando as coisas feias teimassem em me fazer ficar bicuda. Escrever uma maneira de secar as lágrimas, sem deixar doer mais. Seria escrever usando uma pontuação que, uma vez borrifada, trouxesse sorrisos nesses rostos outrora tristes e murchinhos.

Escrever como é bonito sentir um carinho passeando em meu rosto e que é só assim que meus olhos passarinham: no bater de asas das pálpebras. Escrever tudo o que fica invisível quando ele se aproxima muito de mim. Escrever uma janela mágica que a cada dia que eu abrisse me mostrasse algo que meu coração precisasse muito ver para poder espalhar por aí.

Escrever, sem parecer muito boba, muito triste, muito feliz, muito apaixonada. Mas aí seria uma escrita sem vida. E eu sempre quis escrever a vida. E então meu ideal seria escrever um abraço que atravessasse o papel e pudesse ser recebido por quem deixasse cair os olhos nessas letras. Escrever uma alma-piano, que sempre se deixasse tocar com essas características incríveis que despencam em nossa frente, todo dia.

Meu ideal seria escrever o dia amanhecendo fazendo coceguinhas para levar o humor bravo embora. O dia despertando duzentas e noventa e oito razões para não querer escapar do que me faz bem. Escrever um cheirinho de neném para quando chegar em casa. Escrever sobre quando não tenho palavras e meu corpo sai falando alto demais. Escrever a gargalhada banguela dos que acabaram de chegar. E dos que já estão aqui faz tempo.

Escrever o modo como minha avó tira os óculos para limpar as lágrimas depois de uma crise de risos. Escrever a segurança que a pequena sente quando se enrola em meus braços. Escrever um acarajé no fim de tarde com elas trazendo sorrisos para os meus lábios. Escrever o tom delicado que mora na voz dos meus pedaços de gente. A rotina da cidade quente que fez meus dias mais suaves. Escrever sobre esse amor que vem de graça. E que é o mais valioso que já inventaram.

Escrever um verso para quem não aprendeu ainda a mostrar a poesia que os dentes fazem. Escrever um parafuso e outras ferramentas que servissem para ajustar o céu naqueles dias em que tudo estivesse muito feio e ele ameaçasse desabar enquanto só se precisasse de sol. Escrever uma praia de gentes azuis, cheias de simplicidade e coração.

Meu ideal seria escrever uma inspiração que vivesse de braços dados comigo e não falhasse quando eu quisesse preencher uma folha em branco. Escrever uma emoção bem feliz, daquelas indizíveis, mas que eu conseguiria dizer. Escrever uma amizade que pudesse sair de mãos dadas no primeiro dia, como quando éramos crianças. Escrever um beijo que me fez fechar os olhos e veio embora comigo, pendurado no último arrepio que tremelicou do lado de dentro.

Escrever uma preguiça cheia de cobertores e tempinho frio, enquanto dois pares sapecas de pés disputam espaço para se embolar um no outro. Escrever um jornal inteiro de notícias importantes para quem sabe sentir, contando sobre o humor das nuvens e o balanço das árvores quando a tarde vai caindo. Escrever meus braços e os dele abraçando o que não cabe.

Escrever que, apesar das teorias, eu não sei o que é o amor. Escrever que ninguém sabe, mas que esperamos que seja mesmo muito bom. E que não doa tanto assim. Escrever que espero que não estejamos nunca prontos. Porque amar é não estar pronto, é não terminar-se e começar no outro. Escrever uma realidade onde eu seria bem corajosa e entregaria meu coração sempre que essas borboletas tresloucadas viessem visitar minha garganta.

Meu ideal seria escrever essa vontade de lapidar uma palavra novinha. E que ela tivesse um cheiro doce, uns movimentos cacheados, um desenho de tracinhos finos, um formato que adequasse ao que os olhos pedissem, um significado que contasse só coisas boas. Seria escrever uma palavra que virasse um presente e que eu pudesse entregar a todo mundo.

Palavra de ser feliz.
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Inspiração levinha na crônica Meu Ideal seria Escrever, de Rubem Braga.