Vovó Alice.

16:42

De todo o amor que eu tenho
metade foi tu que me deu.

[Dona Cila - Maria Gadu]

Fui a primeira a te chamar de vó. O teu colo foi primeiro meu, depois de ter sido antes de meu pai e de tia Ju. Todos os que vieram nos anos seguintes, ansiosos pelos teus carinhos, tiveram que se adaptar à forma que criei enquanto me esquecia nos teus braços. Nos teus abraços. Nos teus olhos azuis que ainda hoje carregam todo o infinito que aprendi a enxergar. Tudo o que mora dentro de você não acaba, nem vai nunca acabar, porque se derramou na gente, que te prolonga.

Em alguns momentos da minha vida, alguns deles muito importantes, eu só me senti completamente segura e protegida porque sabia da certeza do teu amor. Do teu zelo. Do teu cuidado. Do teu jeito tão natural e doce de me fazer sentir a pessoa mais importante de todas. Quando o medo era maior do que toda a minha coragem, era em você, sempre, em quem eu me abrigava para me proteger do mundo. Ao seu lado sempre existiu um mundo à parte. Um mundo de você, tão Alice que é, mas sem as fantasias de um mundo inventado. Ao seu lado, o mundo é seu e de seu Arthur e a gente cabe muito bem ali dentro, como se a vida inteira vocês tivessem preparado tudo só para receber a mim – e a Gabriel, Daniel, Carol, Pedro e Amanda.

Você foi/é  minha segunda mãe. Em alguns momentos, tão mãe e responsável por mim que inúmeras vezes fez o papel da primeira – e eu nunca vi alguém se sentir tão confortável dentro desse papel. Isso porque eu tenho essa certeza muito exata de que a cada vez que um de nós nascia, nascia em você mais um coração. É nessa coleção de sentimentos que eu aprendi a me espelhar. Você é um verdadeiro bordado das coisas mais lindas que já permitiram a uma pessoa sentir. E você sente. Pela gente. E se agora eu escrevo cheia de lágrimas nos olhos, é porque não sei te ofertar nada que seja diferente disso. De todo o amor que existe em mim, metade certamente veio de você. A metade mais bonita, talvez. Eu amo você tão lindo, vó, que é impossível desenhar. Por isso escrevo.

Esses dias, vendo fotografias do passado tão menino e distante, mas que ao mesmo tempo parece tão atual, notei que, mais do que qualquer outra pessoa que me acompanhou até aqui, a presença mais constante sempre foi a tua. Mesmo nos anos onde morei fora, com todas as tuas cartas, todas as tuas lembranças, todas as tuas palavras que me chegavam e me faziam forte, maior, melhor. Tudo o que veio de você para mim, sempre, chegava em forma de fôlego. Era e continua sendo mais tranquilo e leve respirar sabendo que em qualquer lugar do mundo que eu esteja, existe você em outro ponto. Existe você há oitenta anos, quase oitenta e um, e mesmo nos anos onde eu ainda não era, sinto que já estava em você.

Todo mundo que me conhece, conhece você de alguma maneira. Porque em muitas das minhas conversas existe o trecho: a minha vó Alice... Porque é o que me compõe. Eu sempre fui partitura para aprender a assimilar todas as tuas notas. O que sempre toca quando me lembro de você é isso: música. Porque você é a vó mais inteligente que existe. Mais esperta. Mais bonita. Mais engraçada. Mais implicante. Mais emocionada. Mais doada. Mais colocando sempre as necessidades de todo mundo em primeiro lugar. Mais companheira para chorar de rir enquanto joga baralho e rouba sem saber disfarçar. Mais jovem – na mente, na alma, nas reinvenções, nas aceitações. Mais narradora para contar histórias e levar a gente a um tempo onde não existíamos mas queríamos ter presenciado para conhecer mais de você. Mais controlando as coisas que vovô Arthur come. Mais agradando a gente na cozinha. Mais rápida em aprender a usar o whatsapp e fazer a gente ver que não tem graça nenhuma um dia onde se acorda e não tem mensagem sua para ler. Para sorrir. Porque ter um pouco de você, em qualquer canto, em qualquer lugar, não é nunca muito. Pode ser sempre mais.

E aí eu fico aqui, fechando os olhos, lembrando, vendo teus olhos em cima dos meus... Viro menina outra vez. Enxergo meus cachos soltos, minhas mãos cheias de anéis, minha bota, minhas poses para fotografias, minhas imitações de Xuxa, minha alfabetização, meu braço com gesso verde, seus sucos cor de rosa, as saladas de frutas, o Ponto de Encontro, eu dormindo na sua cama, no meu cantinho, abraçada a você, ouvindo sua voz me contando histórias, nós duas rezando o Pai Nosso. Você me ensinou a acreditar. A ter fé. A sentir orgulho de toda a sua história, seus caminhos, suas conquistas, suas dificuldades que nos trouxeram até aqui. Você me faz querer dar um sentido muito importante e especial à minha própria vida, para poder, quem sabe um dia, ter uma neta tão besta por mim como eu sou por você.

Sei que na nossa família os sentimentos ficam muito guardados, raramente são ditos, falados. Mas a gente sente. Enxerga nos olhos, nos gestos. A cada vez que você me liga e eu atendo dizendo: oi, amigaaaa! Ou quando eu te ligo e você me diz: ah, lembrou que tem vó, foi? E a gente se fala praticamente todo dia. E dá risada. E conversa sobre tudo. E eu fiquei lembrando agora que, para mim, uma das cenas mais bonitas é te ver tirando os óculos para secar as lágrimas de tanta risada dada com nossas besteiras de sempre.

Aqui tem amor num tanto, vó. Tu nem imagina! Amo de um jeito que eu ensaiei esse texto há anos, mas sempre achava tudo muito pouco e evitava gravar no papel. Pensava: como pode caber vovó Alice em palavras? Mas aí eu resolvi hoje pelo menos tentar mostrar o quanto você é – porque é muito, extremamente necessário que você saiba disso. O tanto que representa. O quanto me orgulho em ser a neta da professora Alice. Linda, como só ela sabe ser. Linda de um jeito tão arraigado nela inteira, que de vez em quando parece que nem existe.

Se alguém me perguntar um dia qual o maior presente que já recebi, eu direi, carregando um orgulho muito poderoso: a vida. Ter nascido dentro da minha família. Ter nascido neta de Dona Alice. A Licinha, dos seus.

Amo você do berço,

Jaya.


Salvador, 9 de dezembro de 2016, uma tarde amarela de céu azul.

Inflamável.

17:31


Escuto o barulho das chaves. A porta se abre e ele entra sorrindo intenções que ninguém mais saberia ler como eu. Em cada passo que o aproxima de mim, uma peça de roupa é lançada em algum canto da sala. Cola seu corpo no meu, doce, suave, me desembrulhando devagarinho, com gestos muito seguros. Daí então costura nossa pele uma na outra, medindo minha temperatura com seu dedo em minha boca.

Joga os meus cabelos para trás e me beija cheio de língua, saliva, fogo, excesso. Confessa sacanagens ao pé do ouvido e me observa ceder. Faz de mim templo para todas as suas vontades que abrigo com tanto ardor e voracidade que mal notamos já ter rodado a casa inteira até chegar ao quarto. Janela aberta para a lua, para as boas energias, para tudo o que puder iluminar de um jeito muito natural o que natural nunca deixará de ser.

Sem pudores, (re)conhece todas as minhas ruas, todos os meus cheiros, todos os meus pelos, todos os meus gostos. Morde minhas coxas, beija meu ventre, firma meus quadris, lambe meus seios, me faz gemer, tremer, querer. Ardo. Puxo seus cabelos, arranho suas costas, me molho com seu suor, deslizo meus lábios em sua nuca, amarro minhas urgências nos seus pelos e deixo o amor correr de cima a baixo.

Monto em suas costas, passeio por todos aqueles caminhos já tão conhecidos como se fosse mais uma vez a primeira. Me insinuo, saem faíscas dos meus olhos, queimo como incenso, deixando a fumaça impregnar o espaço com a essência mais aprazível que o instante poderia soltar em todo aquele ar inebriante de lascividades.

Me devora inteira, como se cada toque dos seus lábios em minha pele tatuasse todo o apetite, toda a delicadeza em me engolir aos poucos. Me bebe, me molha, desliza para dentro de mim, derrama-se. Minhas pernas abraçam sua cintura, guiam seus movimentos. Num balé esquisito e improvisado escrevemos um dos roteiros mais bonitos de todas as noites profanas - poesia para o nosso livro sem fim.

Nos consumimos, fundidos. Toques cada vez mais deleitáveis, os sentidos todos num mesmo ritmo, agradecendo, sorrindo. Toda a nudez vestida de paz. Meu corpo vira vilarejo. Ele enlouquece com as paisagens, faz ali sua casa. Escorrega nas ladeiras, acelera em todas aquelas curvas. Invade os cruzamentos sem olhar para os lados. Decora os melhores caminhos, rascunha um mapa minucioso em seus detalhes. Ignora as regras – estaciona onde bem quer. E na sua rua preferida, acende essa fogueira.

Viro brasa quando as chamas se espalham. Meu amor é inflamável. 


Teresa.

14:37



Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

[Teresa – Manuel Bandeira]

Espalhava sua sandice pelas ruas de terra, cantando, enquanto caminhava carregando o sol em seus ombros, equilibrando um balde na cabeça. Teresa só ouvia o que o coração ditava, não se dava muito com a racionalidade das coisas. Sorria dia e noite, todos os dias, doendo ou latejando. Contrariava todos os nãos que ouvia e sabia que era esse o motivo de lapidar em si asas cada vez maiores. Teresa ia voar para conhecer o mar.

O amor de Teresa por tudo e qualquer coisa não pedia autorização. Mesmo nos dias onde a vida ia difícil, ela amava porquê sim. Coisas do sertão, que lhe permitia ser tão. Fazia suas orações em silêncio e agradecia tão bonito por todos os segundos, que nem relógio precisava usar. Teresa chegava bem em todas as suas horas, atraso não existe quando se vive assim – os minutos eram tão seus amigos que aprenderam a preparar o tempo para recebê-la. Teresa é quem ditava os seus ponteiros. Não tinha pressa, sabia que o para sempre não se mede. E era atrás do sempre que ela sempre vivia.

Ia casar de vermelho, com uma rosa bonita nos cabelos pretos. Enquanto isso, combinava flores com todos os vestidos das horas de labuta. Quando as pétalas murchavam, Teresa sentia-se anoitecer; era quando a lua caía depressa em suas retinas. Daí então a poesia disparava como um alarme dentro do seu peito, sempre estufado de coisas boas, todas ajeitadas ali, empilhadas em suas estantes internas - estantes de bem querências. Nessa hora Teresa nem desconfiava que seus olhos nasceram antes só para alimentar suas lentes azuis de tanto.

Os carinhos mais doces que encontravam nas redondezas tinham alugado suas mãos calejadas para morar. Ali, misturados ao endurecimento das batalhas, a ternura sempre vencia. Não havia quem não quisesse o colo de Teresa para fazer um ninho bom. Era tanta melodia suave que saía de sua boca que logo descobriram: além de tudo, passarinha também inventara de ser.

Daí então os anos passaram, os tempos mudaram, e toda essa vida sem parar. No vilarejo mais bonito de todo aquele sertão Teresa tinha feito sua história. Quando era vista de longe já anunciavam: lá vem Teresa, toda ocupada em sua festa de ser quem é. Teve um dia então onde enviaram do mundo um espelho bem espelhado, presente de quem lhe gostava e achou que a imagem de duas Teresas, uma dentro e uma fora do espelho, faria de toda aquela seca um tempo muito de primavera. Foi quando Teresa pode finalmente olhar seus olhos bem de perto. E só viu vantagem: todo aquele anil morando entre suas pálpebras. O mundo inteiro morando dentro de si. Abriu suas janelas e transbordou em água e sal – era mar. Seu sonho que já tinha nascido antes, só para lhe fazer morada. Teresa a vida inteira fantasiou o que já vestia-lhe pelo avesso.

E foi tanto preparo, tanto sorriso, tanta dança e rodopio de saia, que até choveu. Foi tanto amor amado, tanto conto contado, tanta flor que floriu, arco-íris nasceu, tanto céu que azulou, que Teresa voou. E ninguém nem viu.

Espelho meu.

17:31



Sorrio e ele sorri de volta, reflexo dos meus lábios – sempre foi assim. Me observo de manhã cedo, pela primeira vez, enxaguando a boca: olheiras cada vez mais escuras, rosto amassado, algumas poucas linhas iniciais da vida que se gasta, cabelo desgrenhado. Lavo o rosto. Ele me beija como se costurasse estrelas no céu da minha boca, sem nem imaginar a quantidade de poesia que irá deixar grudada em meus dentes.

A ducha morna desperta meu corpo enquanto sinto a água percorrer minha pele, minhas cores, meus pelos, minhas pintas – já todas decoradas por ele. O espelho vê minha beleza em lugares improváveis. Me agarra quando estou maquiada e em cima de um salto, mas seu ângulo preferido é quando desperto ao seu lado, vestindo sua camisa e de cara limpa. Me mostra seu desenho, identifica nossos traços similares. Me enxerga linda. Suaviza minha pele, faz um samba no meu ventre, usa minhas marcas como partituras para as músicas que sempre compõe. Em seus dedos, meu corpo é violão.

Meu espelho me acompanha pela casa. Se faço bico, ele quebra minha seriedade, não gosta de me ver triste. Lambe minhas lágrimas. Diante dele, minha nudez é completa. De fora e do avesso tudo reflete o amor que derramo por mim mesma e que, de tão imenso, transbordou e alimentou seus olhos. Mergulho nele sem medo de me afogar, ciente de que, no seu canto mais profundo, ainda saberei nadar: amor é (a)mar.

Enquanto troco de roupas infinitas vezes, indecisa, estourando todos os horários, meu espelho atrasa os relógios. Prefere me observar vestida de mim mesma, e só. Me segura com tamanha firmeza, como se fosse possível, num descuido, deixar de tocar alguma parte do que sou. Tudo vira símbolo e sua bússola enlouquece sem saber qual direção tomar. Perdido, me prova de ponta a ponta, conhecendo um mundo inteiro de significados.

Meu espelho cobre meus sonhos com suas pálpebras, ditando com esse gesto que sonho de dois é concretização de um poema. Meu espelho é folha em branco para todas as minhas melhores palavras, reflete versos que ainda nem sei onde irão morar. Espelho que me mostra o que sou, em si. Que me ensinou: amar se aprende SE amando – a cada vez que se amou e me permitiu me amar cada vez mais, para só então nos amarmos.

Em seus braços, quando aninhada em seu colo, sobreviver ao mundo não dói. Meu espelho é proteção, fez de si o lar onde melhor me adaptei – e resolvi morar. Meu espelho guarda sua risada no quarto para me guiar ao seu encontro. Quando me enxerga de muito perto, vê em mim reflexo de tudo o que já me presenteou, de mais bonito. Sorri e eu sorrio de volta - porque nunca houve época em que não fosse assim.


Meu amor é espelho do amor dele. Ele, espelho do meu amor.

O amor é quem me (d)escreve.

16:48



Na minha escrita o amor vive à vontade. Na minha casa também. Em mim, o amor só vive; mas nunca vive só. É um abraço cheio de laços. Ele é a minha maior intimidade. Na minha cama, o amor nunca dorme, se espalha. Quando eu conto uma história ele faz tanta confusão entre meus lábios que é inevitável não sorrir. E vez ou outra, quando encontra as saudades ou as angústias de tanta vida que se vive, me molha o rosto, grudando meus cílios que se afobam como passarinhos na chuva – mas, logo depois, tal como os passarinhos, no bater de asas das pálpebras já se voa para o infinito. Amor não tem tamanho.

Em todos os parágrafos da minha vida, o amor é reticente. Todas as minhas páginas são monotemáticas. Toda a minha negação e tentativa de evitar que ele se derrame em minhas linhas são inúteis, ele se joga nas minhas vírgulas com tanta intensidade que até mesmo no disfarce mais perfeito enxerga-se seu gesto excessivamente azul na minha caneta que pinta a folha branca. Azul e branco: amor é céu.

O amor é a única porta por onde aprendi a entrar. Chego abrindo as janelas com muita brandura, que é para caber mais e sempre. Nas minhas letras miúdas o amor escolheu descansar. E se eu escrevo pequeno assim é para dar espaço aos seus suspiros e manhas. Eu nasci amando e ainda nem tinha escolhido sentir. O amor me traduz a cada nova frase, descomplicando ou complicando demais. Aprendemos assim. Quando não encontro o que dizer, invento palavras. Amar permite.

Escrevo o amor, sem pretensões. É como o traço de um pintor em suas aquarelas: reconhece-se. Em cada novo texto, já de início nota-se: mais uma de amor. Nos meus riscos tortos o amor nunca pediu retidão. Ele salta dos meus olhos escuros quando pisco em cima do papel, ele ensina meus dedos a dançarem sua poesia, ele mora em tudo o que verte do meu lado de dentro. Anos atrás, quando rabisquei meu nome pela primeira vez, eu já escrevia sobre o amor.

Escrevo sobre o amor porque às vezes não tem mais tanto espaço aqui dentro, em meio às delícias de sentir demasiadamente. As palavras, eternas extensões, passam então a me abrigar. E não existe maior afago do que conseguir fazer caber em letras as coisas mais bonitas que reconheço no que sou. O amor, mais do que crescer junto comigo, cresceu em mim.

Desde que descobri que mudando uma letra o amor podia virar verbo, passei a conjugá-lo. Encontrei um plural onde escolhi me singularizar e hoje me alimento de um amor tão grande que mal cabe num poema. E continuo a escrevê-lo, com todas as licenças, pensando em livros inteiros. O amor agora tem até cheiro, esse que fica ali, toda noite me esperando, entre aquele pescoço e aquela nuca onde respiro todos os versos mais diletos que ainda não fiz.

No meu amor, a escrita vive à vontade. Demora, se esconde, avisa que vai voltar e tira férias. Quando aparece, vem misteriosa em suas entrelinhas. Monotemáticas. E precisa explicação? No dia em que me deram meu primeiro lápis, eu não sabia escrever. Algum tempo depois, eu ainda não sabia escrever, mas já desenhava um coração. Talvez seja até aqui o único desenho que faço e que alguém reconhece de imediato. Um coração. Linguagem universal.


Eu primeiro desenhei o amor, para só depois (d)escrevê-lo. 

Nós.

17:59



Duas taças de vinho e a pouca luz iluminando tuas curvas: meus olhos iam lentamente desenhando teu corpo. O jeito que só você tem de me olhar, uma retina delicadamente eufórica, tuas cores escuras clareando meus tons que mudavam de acordo com as chamas penduradas nos teus cílios compridos. Camaleoa, minha pele suava vermelha de vontade de enlaçar teus braços ao redor de toda essa minha estrutura frágil e desejosa de amor. 

Um movimento de encaixe e teus dedos fazem luvas dos meus, enquanto a possibilidade de olhá-lo de perto me entrega a sensação de que qualquer lugar no mundo não faz sentido algum se não tiver o teu hálito quente envolvendo minha orelha enquanto sussurra palavras cheias de asas e faíscas que, ao penetrarem meu lado de dentro, rasgam todas as poesias mansas e rabiscam em todo o meu interior letras que combinam com o torpor de um instante onde ser mulher é uma das coisas mais intensas que o universo me permitiu saborear. 

Você me encosta contra a parede e ensaiamos uma pintura despudorada de uma tela assimétrica, sem contornos, de cores loucas querendo saltar para contar sua versão dos sentimentos que permaneceram ali, borrados, enquanto nossos passos dançavam um ritmo que se inventava naquele instante onde tudo era muito dominado pelas linhas de paixão que nos costuravam um no outro. Amar nunca foi tão fácil.

Eu bebia você em goles ansiosos enquanto nossas línguas entregavam o doce de se tocarem tão afinadas nas partituras de nós dois. Você me respirava como se a primavera houvesse derramado suas flores em meus poros. Teus lábios na minha nuca e meus pelos acordando muito curiosos, procurando enxergar a novidade de um despertar tão urgente. Duas taças de vinho, já vazias, agora procuravam meios de rechear-se com tudo o que transbordava naquele espaço. Nós dois já muito perdidos em nós dois, não entendíamos mais de finais e começos, conectamos nossas metades e tudo passou a ser sempre infinito.

Dentro de mim, você fazia músicas que melodiavam coisas sem nome. Coisas que pulsavam no meu peito com a mesma força com a qual minhas unhas arranhavam tuas costas – tatuando versos que ardiam, doidos e doídos. Dentro de mim, você levava tudo o que não falava de vocêeeu, você deixava toda aquela paz. Todo aquele azul. Dentro de mim, você se deixava – e o seu peso em cima do meu corpo quente fazia brotar asas em nós dois, que nos elevávamos entre sorrisos e euteamos trocados em meio a dois corações que não sabiam mais parar de conversar, tão empolgados e altos depois do amor que souberam fazer.

Minutos depois, o sol clareou toda aquela noite escura e de pouca luz. Seus raios de festa fotografavam nossa pose final, entre pernas e braços confusos, onde já não se sabia mais quem era quem. Um nó, depois de todos aqueles laços. Porque éramos um. 

Somos, vocêeeu, um: nós.