Ensaio sobre ele.

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Os olhos escuros, quando muito perto dos meus, ficam mais claros. Parecem acender luzes para me mostrar os caminhos por onde seguir. São olhos meninos, quando sorri bonito de coisas tão simples. Olhos atentos, quando me derramo neles. Olhos ousados, quando me olham de cima, piscando intenções duvidosas. Olhos de tela para tudo o que seu coração sente – e que o meu aprendeu a ler desde a primeira vez onde minha retina descansou junto à sua.

O abraço é o começo de todos os seus carinhos. Me aperta, me desmonta, me recompõe, me traz de volta para mim, quando me perco no fim da tarde de alguma segunda-feira cinza. O abraço tem a medida exata de onde nasci para caber. No seu peito, aninhada em seus braços tão seguros, tudo pulsa cheio de calma – até mesmo as urgências deixam de ter tanta pressa, só para sentir tamanha eficiência: o mundo para enquanto a gente brota um pouco mais, um dentro do outro.

Tem uma voz tão séria que às vezes chega a trovejar. Ao mesmo tempo, essa mesma voz se adapta a tudo o que ouve. Canta para mim, quando está feliz ou muito bobo. Sussurra doce, desfazendo meus nós mais difíceis. Diz que me ama com a maior afinação de amor que existe no mundo. A acústica das suas palavras são mais precisas quando caem nos meus ouvidos que nunca se cansam de ouvi-lo. E no silêncio, em meio a todo aquele cafuné dengoso, sonhos comuns se aconchegam em nossos colos de nuvem.

Quando chega em casa muito cansado, preparo um afago de duas mil horas. Beijo sua testa, seus olhos, mordo suas bochechas e entrego um beijo bagunçado, só para vê-lo sorrir. Quando faço cócegas nas suas costas, todos os pelos se arrepiam – daí então ele implora para não parar nunca mais. Fico ali, distraidamente concentrada, deixando seu cheiro alimentar tudo o que respiro. Depois dele, não acendo mais incensos. Toda a essência do que me tranquiliza, me acorda, me espiritualiza, me faz melhor, encontro ali, no seu cangote – um mundo a mais em meio a todos os mundos que seu corpo me permite conhecer.

Me escreve coisas sempre transparentes, num exagero de sinceridade, tão comum a tudo o que representa. Faz chover em meu rosto lágrimas muito satisfeitas, a cada vez que uma frase ou um verso seu nasce para mim. Sente a vida de um jeito tão encantado que às vezes tento pegar suas lentes emprestadas, só para enxergar um mundo tão manso assim. Em meio a toda a sua lucidez, consegue fantasiar o que todos os meus momentos pedem, só para fazer doer menos. A surpresa mesmo acontece quando a realidade abraça nossos sonhos e entendemos o poder de querer, em par.

Me ensinou a andar de mãos dadas, a pluralizar meus pronomes. Me faz brilhar diferente, enquanto ele mesmo reluz em mim. Consegue me tocar com uma suavidade que nem parece caber em seus gestos firmes. É minha família mais próxima. Meu melhor amigo. Cuida tão bem das minhas horas que devolvo cada segundo com um amor assombrosamente imensurável. Sou maior, tão grande assim, por sê-lo, além do que sempre fui. E somos.


Hoje, todos os meus parágrafos antigos sentem muitos ciúmes. Não fazem parte dessa história, a mais bonita que já escrevi - sobre o meu melhor amor.