14 fevereiro 2017

Cais.


De onde eu vim
Não tem mar
Onde eu vim parar?

Atraquei
Nesse cais
Por amor demais.

[Cais – Mallu Magalhães]

A Bahia nasceu para começar o Brasil e o nosso amor. Um país inteiro se fez ao redor de onde brotamos: você, na cidade onde o sol mais ofusca; eu, na serra onde o frio é mais intenso. Na mistura de climas, desembarcamos os dois em Salvador, completamente tropical, belamente Tropicália, só para colher o que Portugal mal sabia haver plantado: um bem-querer tão bonito assim.

Tudo o que aqui nasce, São Salvador abençoa para que cresça. São, no lirismo do cantador, trezentas e sessenta e cinco Igrejas, uma para abrir caminho a cada dia do ano – todas juntas para iluminar os passos que damos pelas ruas de uma área minuciosamente aquarelada, naturalmente observada pelos olhos de Oxum, mãe de tudo o que sorri em suas estradas. No sincretismo infinito de todas as coisas do mundo, nessa cidade o que transborda é sentimento. E a gente sente.

Numa mesa boêmia do Rio Vermelho, entre cervejas, acarajés, e a história que Jorge e Zélia contam ainda hoje ali sentados, Iemanjá costurava, do outro lado da rua, na Praia da Paciência, os primeiros pontos firmes de todos os enleios que se alinhavam dentro de nós. O Largo de Santana nunca foi tão cheio de graça. Era um céu escandaloso, do jeito que a Bahia mais gosta de ostentar. Anoitecemos ali, os dois, fazendo muito sol. Salvador precisou que eu deixasse minha alma andar descalça em suas terras de ariana intensa e louca para me presentear com as maiores doçuras que desejei a vida inteira. Novembro, feriado nacional, a colônia de pescadores havia decidido soltar no mar uma paixão cheia de vontades.

Em meio a tantas novidades morando em seus olhos, eu me entregava a você e me desmontava pelas curvas das esquinas, cambaleando, muito leve. Subimos o Lacerda e, já ao pisar naquelas pedras, senti o peito pulsar em todas as minhas veias. Estávamos no Coração da Cidade. Da minha serra cinza, sertaneja, de falas amenas e rostos desbotados, foi impossível não contrastar. Foi ali, no Pelourinho, que todos os meus pelos acordaram para ver de perto o que corria lindo entre os temperos de uma cidade inquieta. Com a mão enrolada na sua, senti uns formigamentos de ternura acordando minha pele, a cada passo dado naquelas ladeiras. Quando o Olodum saiu de casa com seus tambores, trovejando cantos do meu corpo que eu nem sabia existir, nas suas janelas abertas já moravam descompassos que se afinavam junto a toda a poesia das mobílias que eu queria guardar dentro em você. E guardei. Uma energia muito bem-vinda nos impregnou. Ali, então, em meio a todo aquele axé, há quatro anos, eu amei você.

Amei você depois, no Farol, com a Barra toda maquiada e meu coração sentindo um calor afável por estar enovelado ao teu. Amei você no saguão do aeroporto, no desembarque da rodoviária, com tanto abraço, tanto aperto, tanta urgência. Eu amei você enquanto andávamos por Itapuã e decorávamos os nomes bucólicos de suas ruas, quando ainda ali vimos Caymmi e Vinicius eternizados, quando nos beijamos em cima de suas pedras. Eu amei você ao observar o pôr do Sol no Solar do Unhão, quando o sol engravidava o mar de um jeito tão gentil e cinematográfico. Amei você em cada um dos acordes que a JAM tocou no MAM, enquanto tudo em mim já era completamente teu. Amei você no Bonfim, quando amarrei aquela medida azul e desejei, em cada um dos nós, a sorte de um amor tranquilo, como o poeta desejou um dia. Amei você pela orla inteira, indo e voltando, voando. Amei você no Campo Grande, na Praça Castro Alves e mais ainda no Teatro, quando a Concha nos permitiu ser partitura um do outro. Amei você no carnaval, quando as marchinhas antigas tocadas por todos aqueles cabelos de algodão nos presentearam com um pouco do ontem em meio a tanto hoje. Amei porque era você. Eu amo você: na cidade toda e em todas as cidades.


Salvador há de ser sempre cais. Cais onde ancoramos você e eu, depois de tanto nadarmos. Cais onde ancorou o nosso amor, abençoado por todos os Orixás.