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16:55


Quando é outono o tom da vida fica sépia e minhas horas mais suaves. É a estação onde me sinto mais sã, quando o tempo sopra um pouco mais manso e consigo desacelerar alguns sentidos para fazer história do que foi passando até aqui. É essa a época que escolho para remontar minhas epifanias mais intensas e para reaprender a desengasgar meu coração. No outono as coisas caminham sem pressa para os seus lugares preferidos e refaço mentalmente todos aqueles bons projetos que me pegam pelas mãos e me empurram para frente a cada dia um pouco mais, porque é sempre tempo de.

Quatro horas da tarde e o céu começa a mudar. Chove. Tudo o que derrama em mim é muita coisa, mesmo eu sendo assim tão rasa dentro dessa profundidade de emoções. A vida não é mais a mesma e sei que pelo menos uma coisa jamais será igual. Uma lágrima cai. Entro tão para dentro de mim mesma que resolvo fazer um bolo só para que a casa possa soltar por todos os cantos esse cheiro acolhedor de muitas memórias. A receita já está decorada, basta tatear um monte de ontem e consigo mixar vozes e sorrisos. Passo a passo tudo se remonta em minhas mãos e na mistura de sensações minha vida acaba sendo doce. Forno quente, o apartamento começa a ser preenchido enquanto exala um aroma de muitos dias bons pelos quais passei. Daí então meu coração se acalma e eu me sinto mais perto. De tudo.

Quando ele chegou, foi guiado por toda essa poesia palatável. O que escrevo nem sempre é palavra e ele sempre entende. Me abraça perdido no meio das minhas inúmeras guerras particulares e sofre quando não sei pelo que sofro. Ele fica, mesmo assim. Nessas horas me dá uma certeza besta e distraída de que fiz a escolha certa. E continuo a escolhê-lo, todos os dias. Sem romantizar tanto assim, vivendo a realidade, pagando contas, olhando para o lado na rua, sentindo enjoos, quebrando paradigmas dos versos alheios. Ele reclama que me chama para dançar e não danço, sem nem suspeitar que foi o único a quem já permiti guiar muitos dos meus passos. A gente se tem e é bom. Não existe garantia e é muito importante que nós dois saibamos disso. Não existe manual, a cada instante algo vai se encaixar diferente num lugar onde a gente nem sabe que existe. Amar não basta e tudo é soma. Não precisa ser fácil. Só precisa ser.

É fim de tarde e no outono o amarelo do sol é mais bonito. Sirvo um pedaço do bolo e tento lembrar aquela música com letra engraçada que ouvi tocar no rádio, sem sucesso. Decido escrever enquanto coloco as roupas na máquina de lavar e penso em comprar florais e flores. Refaço meu mapa astral buscando explicar algumas confusões, mas nunca consigo entender nada. É sempre azul o lugar que me atrai.

Hoje escrevi pela primeira vez uma carta de amor, e ela foi endereçada a mim.

Felicidade.

01:27


Tenho uma sapatilha vermelha que uso quando sei que vou pisar em caminhos de ir além. Tenho sonhos tranquilos, saudades mansas e muito amor bom. Numa autobiografia eu inventaria um monte de palavras amigas para conversarem entre si enquanto afagariam entre vírgulas e com muito carinho o coração de quem se derramasse nas minhas histórias de ser quem sou. Acho muito importante falar sobre sentimentos, mas nunca aprendi. No entanto, isso nunca me desviou da poética irregular de tudo o que é. Sinto muito, por isso escrevo.

Suspiro demais, transbordo com facilidade. É preciso muito pouco para me tocar. As emoções me dançam sem nenhum ensaio e fico sempre enfeitada de acontecências. Meu alimento maior vem pelas veias, como num fio invisível onde só as coisas de fazer bem são filtradas para recarregar meus próximos passos. Aprendi sobre felicidade num dia que nem me lembro, mas sei que era fim de tarde, pois já havia descoberto ser essa a melhor hora para amar. Daí então um monte de coisa sem nome nasceu dentro do que eu estava sendo, e fui feliz dentro de quem descobri ser, ali. Com ele. É importante o fato de que felicidade seja também gente, porque eu, desde que (re)nasci, aconteci de ser muitas pessoas.  

Felicidade é quando o amor voa pelo meu avesso e acende todas essas lanternas das vielas onde costumavam morar sentimentos bonitos que adormeceram, pois é fundamental que eles saibam que já é tempo de acordar. É quando um bocado de paz permite ladrilhar de azul bem claro todos os meus caminhos mais profundos. É quando na minha esquina principal percebo que me persegue tudo o que o olhar tão manso dele me entregou com um jeito de céu, quando o sol nasceu. Felicidade é quando todas as coisas muito lindas se juntam nesse interior inacabado que visto. Inauguro então uma casinha e na frente do espelho penduro tudo o que é de encanto. Quando o acúmulo se movimenta e me sinto habitar de tamanha completude, meu lado de fora sorri, porque reflexo sempre foi mágica.

Felicidade é quando nos descobrimos uma poesia mais leve e entendemos que, na cidade que somos, as construções internas são as mais importantes. E nos deixamos povoar.

(Im)possibilidades.

20:29


Pode ser que seja efêmero, João. Que no último cigarro ela não saiba mais quem você é. Pode ser que ela se apaixone, ou talvez só queira te engolir. Pode ser até que esqueça seu nome e não tenha anotado o número do seu telefone, enquanto as marcas de batom borram seu travesseiro. Pode ser que um sorriso dela caia no seu rosto, João, para disfarçar o desconforto que vai deixar enquanto você faz o café para ninguém e acabe cortando o dedo. Pode ser que o encanto seja poesia de ontem. Pode ser que não seja ela, João.

Pode ser que ela te faça sofrer. Que suba na mesa do bar e se declare para um amigo seu. Pode ser que vocês comecem voando e terminem com os joelhos ralados de tanto insistirem em seguir. Pode ser que ela te quebre um copo, João, que as verdades sejam de doer. Que você resolva ir embora. Ou que ela te peça para ir. Pode ser durante uma caminhada na praia, enquanto o sol se põe e você não encontre mais o que sentia. Pode ser que não seja eterno, João.

Pode ser que exista um ninho, uma doçura recém dolorida de estar junto. Pode ser que as personalidades se desafinem enquanto se engole uma bebida. Que o que brilhava seja ofuscado pelos cantos escuros do apartamento. Que as contas se embolem. Que vocês briguem pela bagunça na sala. Ou pior ainda, João, que vocês deixem de brigar. Pode ser que ela se canse, João, e você resolva ir até a esquina encontrar outra pessoa. Pode ser que ela encontre outra pessoa e te escreva uma carta explicando tudo o que não é mais. Pode ser que a vida estrague, João.

Pode ser no meio da festa, João, quando a música pausar em seus olhos. Pode ser que o tesão acabe e você sinta tudo congelar. Que ela borre a maquiagem enquanto um cometa rasga seus cílios. Que o seu botão descosture quando você dobrar as mangas. Pode ser que ela te abrace, João, procurando o que já não é. Pode ser que já não escutem mais o que um dia era a melodia de um dueto. Que ela sambe em outra roda, João, enquanto você resolve dormir. Pode ser que a luz acabe, João.

Pode ser pela insônia. Pelo reflexo no espelho. Ou ainda durante o sexo, quando ela fingir gozar. Pode ser que já não sejam mais quem eram e precisem se encontrar. Pode ser que ela saia de um mergulho do mar completamente despida de você. Pode ser numa epifania, no meio de um monólogo, quando você entende que tudo pode ser outra coisa. Pode ser que o sinal fique vermelho, João, e ela te ligue com saudades. E pode ser que nessa hora você já tenha outra metade. Pode ser que aconteça de novo, João.

Pode ser depois do cinema, quando ela seguir para o carro sem te dar as mãos. Pode ser pelo excesso de parágrafos mal pontuados. O almoço que ela fez e você não chegou a tempo de provar. Pode ser em qualquer cidade, João. Na sua estação preferida com um céu muito bonito, ou talvez no ponto de ônibus enquanto cai uma tempestade. Pode ser aquela palavra errada, João, que você usou na terça-feira à tarde. Pode ser que ela esteja lavando os cabelos e nunca mais sinta o seu cheiro. Pode ser que ela mude o perfume, João.

Pode ser que nada seja, João. Que o amor vire miragem. Pode ser que a vida não permita agora. Que todas as histórias se acabem. Pode ser que o poema seja falso. Pode ser que essa mulher escape, João, que nada valha a pena. Que você resolva encher a cara. Pode ser que o tédio seja imenso e você não tenha nada ao alcance dos seus braços quando o domingo acabar. E pode ser que um dia, João, sua carteira já esteja vazia quando decidir pagar para ver.


Mas o que te dá mais medo, João, do que o quê pode acontecer se tudo funcionar?

Acredite, Maria.

12:56


No mundo, tudo tem sua razão de ser, mesmo quando ainda nem sabe que é. Poesia cresce que nem mato, em todo lugarzinho que acha brecha. Quando a gente deixa de enxergar o bonito de algum momento, é porque precisa trocar de lente. É fato muito bem sabido, veja bem, que um sorriso acende qualquer dia muito escuro. Poesia e sorriso - quando a gente mistura tudo isso, geralmente está falando de amor. E no mundo, Maria, tudo o que é, ama. Bastou ser e lá está um coração pulsando. E nesse universo imenso, até de olho fechado dá pra ver: amor é o que movimenta.

Penso eu, Mariazinha, que poesia somos todos. Individualmente somos versos, lapidados cada um para caber num poema. Esse poema é a família. E quando um poema é tão bem escrito, a ponto de fazer caber no verso uma porção de sentimento bom, surge necessidade de extensão. A gente entende que a parte mais doce do que se sente precisa ser dividida, porque é sim muito importante que exista uma história de dois a ser contada. Esse par passa a ser um soneto – quartetos e tercetos nascem conforme o tom dos passos seguintes. Se o futuro quiser, novos poemas serão feitos. Tudo sempre entrelaçado. O mundo é esse poeta silencioso, mas não deixa nunca de escrever. Pontua tudo com estrelas, porque as noites não precisam ser tão sérias assim. A lua chega quando se está em festa.

Olha então o mar, Maria. É um grande exemplo de como tudo por aqui é encantado. Impossível não acreditar que ele é inteiro aparelhado de mágica. Suas formas são todas. As ondas parecem indecisas, indo e voltando o tempo todo. Mas o que é a vida senão esse eterno ciclo de chegadas e despedidas? O que ninguém conta eu te sussurro: quando o mundo foi construído, a correria na distribuição de tudo era tão grande que, quando o prazo foi encerrado, uma pessoa percebeu a quantidade imensa de coisas lindas que ficariam para trás. Daí então ela misturou tudo e fez desaguar. Penso eu que num descuido deixou cair junto seu coração. É esse o motivo pelo qual todos se apaixonam e não se cansam de admirá-lo. O mar, dona Maria, é também amor – profundo, infinito, indomável e azulzinho. Às vezes ele é só um espelho do céu. Ou seu.

Viver é ser um pouco passarinho e borboleta – cuidado e metamorfose, mas sempre com muitas asas. Viver é natureza, fazer colheita de tudo o que se planta. Estar aqui é muito rápido, Mariazinha. Daqui a pouco o mundo é outro, porque o tempo não tem muita paciência para esperar. Daí então a gente constrói nosso próprio relógio. Cada um no seu momento, sim. Mas quem controla os ponteiros é mistério sem nome. Então aproveita, menina. Carregue bem todas as tuas horas. Faça uma música para os instantes, quem sabe eles não deixem tudo passar mais devagarinho quando for tempo só de amar? Não se preocupe com rumos, minha Maria. O sol sempre nasce para tudo desabrochar. Afinal não somos todos também flores? Então vai. Voa. Os caminhos não deixam de ser delicados para quem tem esse excesso de nascença de enfeites dentro de si.

Quanto a mim, sobra essa certeza de saber muito sobre coisa nenhuma. Mas de amor eu sempre falo. Porque sinto. E amo entendendo tudo, porque não sei. 

Amor é a poesia do que se sente, Maria.