Dezembro.

21:46

Eu sei que o tempo anda difícil
e a vida tropeçando
mas se a gente vai juntinho, vai bem.
Eu não sei se você sabe
mas eu ando aqui tentando
e a gente tem o eterno amor de além.

(Olha só, moreno - Mallu Magalhães)

Dezembro nunca foi um mês fácil. É a época onde algumas coisas vêm para a superfície e começam a latejar ao mesmo tempo em que os enfeites de Natal saem das suas caixas para enfeitar o mundo. Em dezembro meu coração sempre perde o compasso e a vida segue um tanto desafinada. Apesar de, você sabe que gosto de montar a árvore com a família reunida e retratar mais um momento de abraço e comunhão de amor, mesmo com a melancolia me absorvendo sem avisos.

Não durmo noites inteiras há algumas semanas, repasso a vida a limpo sempre que o ano vai chegando ao fim e às vezes não consigo segurar todo esse imenso peso de sermos. As olheiras denunciam essa insistência em fazer as contas de uma matemática que nunca terá lógica. A ansiedade não me deixa fechar os olhos e sonhar acordada é um desconforto do qual não consigo me desvincular. Esse ano foi mais difícil que todos os outros, mas poderia ter sido pior se não houvesse você para segurar todas essas ondas mais selvagens ao meu lado.

Obrigada por me ensinar um pouco mais sobre parceria. Por me dar forças para continuar remando. Por fazer sol em todos os dias onde chovi desprevenidamente e sem intervalos. Obrigada por me pegar pelas mãos e me levar por um caminho diferente enquanto improvisava um passo de dança no meio de qualquer rua. Obrigada por rasgar a seriedade do meu rosto com os melhores sorrisos que alguém poderia ter de mim. Por encostar tão perto do que sou, desse jeito tão seu, sem curvas, dispensando meandros, sabendo exatamente o que preciso para não atrofiar essas asas que insisto em preservar.

Obrigada por me abraçar sem deixar escapar nenhum pedaço - sinto toda essa proteção porque já entendi que o teu amor é o manto onde me sinto mais confortável ao ser coberta. Obrigada por tentar aprender sobre as minhas loucuras e não questionar tanto assim a falta de explicação para o que nem eu mesma consigo dizer. Obrigada por me apontar a direção quando todas as minhas bússolas falham. Por não me deixar desviar do tão cansativo caminho que insisto em seguir. Por acreditar em mim de um jeito tão bonito – saiba que às vezes você enxerga o que ainda nem sou e isso me motiva a tentar sê-lo, e acabo sendo. Obrigada por me ver tão grande, tão possível, tão vocêpodesertudooquequiser – porque às vezes esqueço mesmo e você é sempre esse espelho que insiste em me mostrar o melhor tom para existir. Eu te olho e a vida é boa de novo.

Obrigada por mais um ano lado a lado. Por aceitar a minha família como extensão do que sou e receber de braços abertos todas as coisas lindas que escolheram entregar a você. Obrigada por cuidar de tudo o que amo como se fosse também um amor seu – e alguns acabaram mesmo sendo. Obrigada por me mostrar porque decidi estar aqui. Porque continuo a escolher, todos os dias, estar aqui. Por deixar o meu copo sempre cheio, a minha boca sempre com um beijo e o meu corpo inteiro preenchido desse sentimento tão maluco e intenso que, mesmo quando oscila, eu ainda quero sentir. E sinto. Por você.

Obrigada por todos os dezembros que superamos, principalmente o último. Por todas as mudanças que vivemos juntos. Todas as crises que a vida real trouxe e que domamos de pés firmes. Essa nossa evolução a dois tem sido o maior aprendizado que já tive sobre todas as coisas da vida - e ainda assim não é nada, perto do tanto de mundo que nos espera. Obrigada por querer ser sempre mais, por você, por mim, pela gente. Obrigada por nunca deixar nada apagar essa sua luz tão intensa que me faz brilhar inteira. Obrigada por me aceitar e me permitir carregá-lo por todas essas estradas por onde tenho passado. O meu presente é você. Em todos os sentidos. Em todos os dezembros.

Eu te olho, meu amor, e esse tão incômodo último mês de todos os anos fica querendo ser um mês diferente, cheio de recomeços e histórias felizes. Penso até em enfeitá-lo com alguma poesia futura. Só por causa de você. Eu vou.

Atemporal.

17:26


Eu só queria era saber, seu Zé. Quem é que inventou esse tal de tempo? Porque se o senhor parar e pensar aqui mais eu, deve ter dado um trabalhão bem grande, viu? Repara bem: às vezes ele passa voando, como se estivesse apostando uma corrida muito importante. Não dá nem pra (vi)ver direito. Quando isso acontece eu fico meio angustiada, querendo ser bem rápida para alcançá-lo. Outras vezes ele parece que só quer descansar, aí fica quase parado, dando passinhos lentos, como se pedisse uma canção de ninar. Nessas horas eu imagino cá comigo que, se fosse possível, dava um impulso cheio de força para ele cumprir seus prazos. Não entendo o motivo desse tempo ser assim, tão indeciso. Por esses dias aí, ouvi um moço dizendo na rua que não teria tempo para ir ao aniversário da filha e logo sonhei: se tivesse alguém vendendo o tempo que não usa, poderia emprestar um pouco a esse moço. Seria um presente muito bonito, o senhor não acha? O tempo pode ser tanta coisa, seu Zé. Por exemplo. Quando chove, dizem que vai fazer tempo ruim; quando o céu é amarelo, dizem que o tempo está muito agradável. Viu que confusão mais doida? Tem adjetivo que nem cabe. Gosto muito de chuva e não acho nada feio. O céu também tem suas horas de choro. Eu mesma às vezes choro quando estou muito feliz e fico tão ensolarada nessa hora! Pois então o senhor veja, se até eu consigo ser feliz com os dois tempos juntos, o tempo só pode ser sempre bom. Mesmo quando fica instável, depois ele acaba sorrindo. O arco-íris é a maior prova disso: ele é mesmo é o sorriso do céu. Quando o sol vem mais a chuva, o que acontece é aquarela e mais nada. O tempo é arte, seu Zé.

Outra coisa. Quem toma conta do tempo podia aprender a dividir tudo bem certinho com todo mundo e dar um pouquinho de autonomia. Porque se no meio dessas coisas todas que ele é, cada pessoa puder ter e controlar o seu tempo, fica mais fácil resolver a vida de muita gente. Vejo os trem acontecendo, seu Zé. A minha mãe mesmo vive dizendo que queria que eu ficasse pequenininha por mais tempo, mas ela nem sabe que alguns tempos não voltam mais e isso não deve ser uma coisa triste. Ela pode sempre vivê-lo quando olhar nossas fotografias - pedacinhos furtados de tempo, como o senhor bem disse. Ou então basta fechar os olhos. O meu pai é outro: queria ter mais tempo pra levar a gente numa viagem nas férias, sem nem notar que todos os domingos ao seu lado são o meu melhor roteiro -  e nessa ocasião o tempo é uma festa. A minha avó queria ter mais tempo para conhecer os filhos que eu vou ter quando crescer, mal suspeitando que independente de onde ela estiver, estará também neles só pela herança que deixou arraigada em mim. E eu mesma queria ter mais tempo sobrando quando nos encontramos, só para fazer uma lista de suposições e questionamentos que o senhor sempre chama de poesia. Mas na poesia o tempo é sempre, né? Eu já sei. Na verdade, seu Zé, eu acho mesmo é que o tempo é poesia. E quem vai entender uma coisa dessas? Todo mundo queria ter mais tempo, mas ninguém nem presta atenção nele. Vai ver toda essa reclamação é na verdade porque ninguém entendeu ainda que pode fazer mágica. Cá entre nós, fora em situações muito inevitáveis, a gente acaba criando tempo, como num feitiço. Eu tenho até um segredo: atraso meu relógio quando é hora de amar e nem ligo. No amor é sempre tempo, seu Zé. Para o amor, o tempo sempre será.

Teve um dia meio esquisito uma vez, quando meu avô foi morar no céu e disseram que o tempo dele aqui já tinha acabado. Dizem que quem tem os cabelos branquinhos assim que nem o do senhor, é porque já viveu muito tempo. E se o tempo é algo que a gente vive, como então que ninguém para e faz um monte de pergunta a ele? Por que é que as pessoas falam que não dá mais tempo de fazer alguma coisa se tá todo mundo bem vivinho e sendo? O tempo é estar. Existe sempre um instante pra tudo, seu Zé. Mesmo quando não dá tempo, ainda dá. Isso eu entendi sozinha. E um fato que vem sendo muito conhecido meu é o seguinte: o tempo de ninguém é igual. O senhor, mesmo. Agora escolheu morar na roça e cuidar das suas plantinhas, mas a minha vizinha, que tem um tempo muito parecido com o seu, resolveu que agora era a vez dela de começar a ser tudo o que achou que perdeu. Não sei se estou explicando direito... Eu só queria que todo mundo entendesse que não existe hora marcada para que nada aconteça. E se na sua vez aconteceu de um jeito, na vez do outro pode acontecer tudo diferente e ser muito bom também. O tempo a gente é quem faz, seu Zé. Agora entendi foi tudo.

O tempo é sempre uma vantagem. O que aprendi muito com meu avô foi que, uma das mais bonitas vantagens do tempo que passa, é que podemos guardar tudo o que passou aqui, bem dentro da gente. Daí tudo fica. É nessa hora que nos enchemos de vida, seu Zé. Eu enxergava direitinho nos olhos dele todo mundo que ele foi no tempo antigo. Cada história que ele jogava pra dentro de mim, era um jeito de me presentear com um pouco do seu tempo. O senhor não acha maravilhoso o fato de que sejamos assim, cheios de tempo de ontem para espalharmos pelo tempo que ainda virá? As minhas idades todas estão aqui, bem guardadinhas dentro do que eu sou. Essa é outra vantagem do tempo: podemos ter a idade que quisermos, pois elas seguem em quem somos. O tempo do meu avô, seu Zé, hoje mora no meu coração. Tudo fica e ele fi(n)cou. A cada vez que falo sobre ele, tudo vira parte do meu tempo de hoje. Então a verdade mesmo é que o tempo de ninguém acaba, porque somos sempre continuação do que já aconteceu. O senhor concorda que também somos, nós mesmos, o tempo? Daqui a pouco, seu Zé, vou continuar também o senhor e alguém vai continuar nós dois quando tirar um pouco do seu tempo para ler essas nossas palavras.

O tempo é contínuo. E só somos assim, tão eternos quanto ele, porque sempre haverá alguém levando um pouco dos nossos contos. Dos nossos casos. Sempre existirá pelo menos um coração onde seremos infinitos. E nesse infinito, seu Zé, somos todos atemporais.

Acontecência.

19:58


Amor é sorte
de encontrar.

[Corte e Costura – Achiles Neto/ Conrado Pera]


Amor é acontecer – devagarinho ou muito célere. É construção. Desabrochar. É ver nascer nos olhos do outro todas as estações do ano dentro de um mesmo dia. É aquele retrato atual dos meus avós, onde olham um para o outro como se tivessem acabado de descobrir a paixão que os une ainda hoje. Amor é quando tudo parece estar no seu lugar exato e de repente o mundo joga um terremoto de emoções só para que aprendamos a encaixar outra vez, revisitando aldeias internas. Amor é abraçar os defeitos, nossos e do outro, e não tentar anulá-los por entender que tudo é sustento; mas atenuá-los, por saber a necessidade de caminhar mais leve. Amor é também tentar consertar, pelo todo, mas principalmente por nós mesmos - é nessa hora que descobrimos a importância de sermos muita coisa, daí então espanamos a poeira dos nossos mais lindos cantos para que alicercemos todos os futuros sonhos de dois.

Amor não é só bom. É um sentimento maior que absorve em si todos os demais sentimentos, até aqueles que temos vergonha de admitir. Quando amamos, procuramos sempre tratar com carinho tudo aquilo que guardamos e entregamos. Amor é lidar com o que existe além. Não existe maquiagem, conhece-se cicatrizes. Amor cura em par. Foi ao lado dele que comecei a conhecer algumas das várias versões do amor. O amor que começa a amar de manhã cedinho e faz do outro um brunch sem precisar sair da cama, porque é domingo – e domingo o amor não tem pressa de ser. O amor que irrita, como se muitas vozes misturadas falassem coisas diferentes ao mesmo tempo. O amor tão doce, que chega do mercado cheio de sacolas e tira o outro para dançar na sala levando embora aquela dor nos pés. O amor que faz sorrir porque toca, amansa, amassa. O amor que faz doer com palavras confusas ditas em instantes cinzas e um tanto frios. O amor que está, mesmo quando sente – por um tempo - vontade de ir. O amor que reclama, por serem os dois muito rabugentos. O amor apaixonado, que faz com que os lábios se beijem o dia inteiro. O amor entre lágrimas, de felicidade, de saudade, de amar, apenas. O amor com muito tesão, que deixa rastros de roupas e brilhos de suor no corpo todo, fazendo da intensidade um confete muito sensual. O amor que entende, inventa, acredita, discute, acalma. O amor azul, esse do qual sempre falei em cada poetice que já escrevi até aqui - e não sabia ser tão real e esotérico assim. E o amor que vence todos os demais – esse, que permanece. Esse que me dá uma certeza às vezes um pouco tímida de que não importa qual versão apareça no meio do caminho: se ele encostar o coração no meu, como sempre fez, tudo vai acabar ficando bem.

O amor me ensinou desde muito cedo a não acreditar em almas gêmeas - apesar de sermos muito parecidos em nossas inúmeras diferenças. O mundo é muita gente, tanta história, infinitude doce. Sempre me soou meio impossível a teoria de que, diante de tamanha imensidão, houvesse apenas uma pessoa para amar – romanticamente - a vida inteira. Sou fruto de um amor que virou outro e de onde outros vários brotaram. O amor me ensinou que amar não tem certezas e isso nunca deve ser motivo para deixarmos de. Antes de sermos nós, eu e ele, amamos. Em outros caminhos e em outras épocas, a vida teve cuidado em nos moldar através de outros olhares, outros toques, inúmeros erros e alguns acertos. O passado soube ressignificar o presente através de uma silenciosa lapidação dos nossos sentimentos para que estivessem prontos – ou pelo menos mais seguros - quando nos encontrássemos. E nos encontramos. Seus olhos, sempre tão abertos, me enxergaram. Inaugurou-se ali um jeito novo de olhar, como se uma grande festa estivesse acontecendo dentro das nossas retinas acesas. Os cílios entraram também na dança e sambaram macios, insistentes em derramar muita poesia a cada piscadela distraída.

Fui doutrinada por um amor que informou ser basilar haver atenção nas leituras em par, para que escolhamos as palavras certas a serem usadas nas próximas páginas. Amar é fácil, de graça, todo mundo pode – e deve. Mas construir uma história de amor exige uma edição especial. Revisão. Ajuste. Adaptação. A mágica não é vista pela capa: maior esmero está no conteúdo. E para ser bonito assim de ler, eu não poderia ter escolhido coautoria melhor. A publicação acontece por etapas e sei que não há estante no mundo capaz de acumular tanto excesso de tudo isso que é coberto de um fascínio enraizado de sentir.

Assimilei com muita tranquilidade que um relacionamento é corte e costura. Cada um chega com seus muitos retalhos já vividos e tudo vai sendo remontado com a bagagem do outro. Não precisa combinar ou fazer sentido. Basta encaixar. Enfeitar. Basta que haja alguma cor. Basta haver eu e ele e todo esse magnetismo. Essa vontade eterna de seguirmos em frente, juntos. Lutando. Ele, acontecendo em mim. Eu, acontecendo nele. A vida se desenrolando.

Amor acontece.

Página.

16:55


Quando é outono o tom da vida fica sépia e minhas horas mais suaves. É a estação onde me sinto mais sã, quando o tempo sopra um pouco mais manso e consigo desacelerar alguns sentidos para fazer história do que foi passando até aqui. É essa a época que escolho para remontar minhas epifanias mais intensas e para reaprender a desengasgar meu coração. No outono as coisas caminham sem pressa para os seus lugares preferidos e refaço mentalmente todos aqueles bons projetos que me pegam pelas mãos e me empurram para frente a cada dia um pouco mais, porque é sempre tempo de.

Quatro horas da tarde e o céu começa a mudar. Chove. Tudo o que derrama em mim é muita coisa, mesmo eu sendo assim tão rasa dentro dessa profundidade de emoções. A vida não é mais a mesma e sei que pelo menos uma coisa jamais será igual. Uma lágrima cai. Entro tão para dentro de mim mesma que resolvo fazer um bolo só para que a casa possa soltar por todos os cantos esse cheiro acolhedor de muitas memórias. A receita já está decorada, basta tatear um monte de ontem e consigo mixar vozes e sorrisos. Passo a passo tudo se remonta em minhas mãos e na mistura de sensações minha vida acaba sendo doce. Forno quente, o apartamento começa a ser preenchido enquanto exala um aroma de muitos dias bons pelos quais passei. Daí então meu coração se acalma e eu me sinto mais perto. De tudo.

Quando ele chegou, foi guiado por toda essa poesia palatável. O que escrevo nem sempre é palavra e ele sempre entende. Me abraça perdido no meio das minhas inúmeras guerras particulares e sofre quando não sei pelo que sofro. Ele fica, mesmo assim. Nessas horas me dá uma certeza besta e distraída de que fiz a escolha certa. E continuo a escolhê-lo, todos os dias. Sem romantizar tanto assim, vivendo a realidade, pagando contas, olhando para o lado na rua, sentindo enjoos, quebrando paradigmas dos versos alheios. Ele reclama que me chama para dançar e não danço, sem nem suspeitar que foi o único a quem já permiti guiar muitos dos meus passos. A gente se tem e é bom. Não existe garantia e é muito importante que nós dois saibamos disso. Não existe manual, a cada instante algo vai se encaixar diferente num lugar onde a gente nem sabe que existe. Amar não basta e tudo é soma. Não precisa ser fácil. Só precisa ser.

É fim de tarde e no outono o amarelo do sol é mais bonito. Sirvo um pedaço do bolo e tento lembrar aquela música com letra engraçada que ouvi tocar no rádio, sem sucesso. Decido escrever enquanto coloco as roupas na máquina de lavar e penso em comprar florais e flores. Refaço meu mapa astral buscando explicar algumas confusões, mas nunca consigo entender nada. É sempre azul o lugar que me atrai.

Hoje escrevi pela primeira vez uma carta de amor, e ela foi endereçada a mim.

Felicidade.

01:27


Tenho uma sapatilha vermelha que uso quando sei que vou pisar em caminhos de ir além. Tenho sonhos tranquilos, saudades mansas e muito amor bom. Numa autobiografia eu inventaria um monte de palavras amigas para conversarem entre si enquanto afagariam entre vírgulas e com muito carinho o coração de quem se derramasse nas minhas histórias de ser quem sou. Acho muito importante falar sobre sentimentos, mas nunca aprendi. No entanto, isso nunca me desviou da poética irregular de tudo o que é. Sinto muito, por isso escrevo.

Suspiro demais, transbordo com facilidade. É preciso muito pouco para me tocar. As emoções me dançam sem nenhum ensaio e fico sempre enfeitada de acontecências. Meu alimento maior vem pelas veias, como num fio invisível onde só as coisas de fazer bem são filtradas para recarregar meus próximos passos. Aprendi sobre felicidade num dia que nem me lembro, mas sei que era fim de tarde, pois já havia descoberto ser essa a melhor hora para amar. Daí então um monte de coisa sem nome nasceu dentro do que eu estava sendo, e fui feliz dentro de quem descobri ser, ali. Com ele. É importante o fato de que felicidade seja também gente, porque eu, desde que (re)nasci, aconteci de ser muitas pessoas.  

Felicidade é quando o amor voa pelo meu avesso e acende todas essas lanternas das vielas onde costumavam morar sentimentos bonitos que adormeceram, pois é fundamental que eles saibam que já é tempo de acordar. É quando um bocado de paz permite ladrilhar de azul bem claro todos os meus caminhos mais profundos. É quando na minha esquina principal percebo que me persegue tudo o que o olhar tão manso dele me entregou com um jeito de céu, quando o sol nasceu. Felicidade é quando todas as coisas muito lindas se juntam nesse interior inacabado que visto. Inauguro então uma casinha e na frente do espelho penduro tudo o que é de encanto. Quando o acúmulo se movimenta e me sinto habitar de tamanha completude, meu lado de fora sorri, porque reflexo sempre foi mágica.

Felicidade é quando nos descobrimos uma poesia mais leve e entendemos que, na cidade que somos, as construções internas são as mais importantes. E nos deixamos povoar.

(Im)possibilidades.

20:29


Pode ser que seja efêmero, João. Que no último cigarro ela não saiba mais quem você é. Pode ser que ela se apaixone, ou talvez só queira te engolir. Pode ser até que esqueça seu nome e não tenha anotado o número do seu telefone, enquanto as marcas de batom borram seu travesseiro. Pode ser que um sorriso dela caia no seu rosto, João, para disfarçar o desconforto que vai deixar enquanto você faz o café para ninguém e acabe cortando o dedo. Pode ser que o encanto seja poesia de ontem. Pode ser que não seja ela, João.

Pode ser que ela te faça sofrer. Que suba na mesa do bar e se declare para um amigo seu. Pode ser que vocês comecem voando e terminem com os joelhos ralados de tanto insistirem em seguir. Pode ser que ela te quebre um copo, João, que as verdades sejam de doer. Que você resolva ir embora. Ou que ela te peça para ir. Pode ser durante uma caminhada na praia, enquanto o sol se põe e você não encontre mais o que sentia. Pode ser que não seja eterno, João.

Pode ser que exista um ninho, uma doçura recém dolorida de estar junto. Pode ser que as personalidades se desafinem enquanto se engole uma bebida. Que o que brilhava seja ofuscado pelos cantos escuros do apartamento. Que as contas se embolem. Que vocês briguem pela bagunça na sala. Ou pior ainda, João, que vocês deixem de brigar. Pode ser que ela se canse, João, e você resolva ir até a esquina encontrar outra pessoa. Pode ser que ela encontre outra pessoa e te escreva uma carta explicando tudo o que não é mais. Pode ser que a vida estrague, João.

Pode ser no meio da festa, João, quando a música pausar em seus olhos. Pode ser que o tesão acabe e você sinta tudo congelar. Que ela borre a maquiagem enquanto um cometa rasga seus cílios. Que o seu botão descosture quando você dobrar as mangas. Pode ser que ela te abrace, João, procurando o que já não é. Pode ser que já não escutem mais o que um dia era a melodia de um dueto. Que ela sambe em outra roda, João, enquanto você resolve dormir. Pode ser que a luz acabe, João.

Pode ser pela insônia. Pelo reflexo no espelho. Ou ainda durante o sexo, quando ela fingir gozar. Pode ser que já não sejam mais quem eram e precisem se encontrar. Pode ser que ela saia de um mergulho do mar completamente despida de você. Pode ser numa epifania, no meio de um monólogo, quando você entende que tudo pode ser outra coisa. Pode ser que o sinal fique vermelho, João, e ela te ligue com saudades. E pode ser que nessa hora você já tenha outra metade. Pode ser que aconteça de novo, João.

Pode ser depois do cinema, quando ela seguir para o carro sem te dar as mãos. Pode ser pelo excesso de parágrafos mal pontuados. O almoço que ela fez e você não chegou a tempo de provar. Pode ser em qualquer cidade, João. Na sua estação preferida com um céu muito bonito, ou talvez no ponto de ônibus enquanto cai uma tempestade. Pode ser aquela palavra errada, João, que você usou na terça-feira à tarde. Pode ser que ela esteja lavando os cabelos e nunca mais sinta o seu cheiro. Pode ser que ela mude o perfume, João.

Pode ser que nada seja, João. Que o amor vire miragem. Pode ser que a vida não permita agora. Que todas as histórias se acabem. Pode ser que o poema seja falso. Pode ser que essa mulher escape, João, que nada valha a pena. Que você resolva encher a cara. Pode ser que o tédio seja imenso e você não tenha nada ao alcance dos seus braços quando o domingo acabar. E pode ser que um dia, João, sua carteira já esteja vazia quando decidir pagar para ver.


Mas o que te dá mais medo, João, do que o quê pode acontecer se tudo funcionar?

Acredite, Maria.

12:56


No mundo, tudo tem sua razão de ser, mesmo quando ainda nem sabe que é. Poesia cresce que nem mato, em todo lugarzinho que acha brecha. Quando a gente deixa de enxergar o bonito de algum momento, é porque precisa trocar de lente. É fato muito bem sabido, veja bem, que um sorriso acende qualquer dia muito escuro. Poesia e sorriso - quando a gente mistura tudo isso, geralmente está falando de amor. E no mundo, Maria, tudo o que é, ama. Bastou ser e lá está um coração pulsando. E nesse universo imenso, até de olho fechado dá pra ver: amor é o que movimenta.

Penso eu, Mariazinha, que poesia somos todos. Individualmente somos versos, lapidados cada um para caber num poema. Esse poema é a família. E quando um poema é tão bem escrito, a ponto de fazer caber no verso uma porção de sentimento bom, surge necessidade de extensão. A gente entende que a parte mais doce do que se sente precisa ser dividida, porque é sim muito importante que exista uma história de dois a ser contada. Esse par passa a ser um soneto – quartetos e tercetos nascem conforme o tom dos passos seguintes. Se o futuro quiser, novos poemas serão feitos. Tudo sempre entrelaçado. O mundo é esse poeta silencioso, mas não deixa nunca de escrever. Pontua tudo com estrelas, porque as noites não precisam ser tão sérias assim. A lua chega quando se está em festa.

Olha então o mar, Maria. É um grande exemplo de como tudo por aqui é encantado. Impossível não acreditar que ele é inteiro aparelhado de mágica. Suas formas são todas. As ondas parecem indecisas, indo e voltando o tempo todo. Mas o que é a vida senão esse eterno ciclo de chegadas e despedidas? O que ninguém conta eu te sussurro: quando o mundo foi construído, a correria na distribuição de tudo era tão grande que, quando o prazo foi encerrado, uma pessoa percebeu a quantidade imensa de coisas lindas que ficariam para trás. Daí então ela misturou tudo e fez desaguar. Penso eu que num descuido deixou cair junto seu coração. É esse o motivo pelo qual todos se apaixonam e não se cansam de admirá-lo. O mar, dona Maria, é também amor – profundo, infinito, indomável e azulzinho. Às vezes ele é só um espelho do céu. Ou seu.

Viver é ser um pouco passarinho e borboleta – cuidado e metamorfose, mas sempre com muitas asas. Viver é natureza, fazer colheita de tudo o que se planta. Estar aqui é muito rápido, Mariazinha. Daqui a pouco o mundo é outro, porque o tempo não tem muita paciência para esperar. Daí então a gente constrói nosso próprio relógio. Cada um no seu momento, sim. Mas quem controla os ponteiros é mistério sem nome. Então aproveita, menina. Carregue bem todas as tuas horas. Faça uma música para os instantes, quem sabe eles não deixem tudo passar mais devagarinho quando for tempo só de amar? Não se preocupe com rumos, minha Maria. O sol sempre nasce para tudo desabrochar. Afinal não somos todos também flores? Então vai. Voa. Os caminhos não deixam de ser delicados para quem tem esse excesso de nascença de enfeites dentro de si.

Quanto a mim, sobra essa certeza de saber muito sobre coisa nenhuma. Mas de amor eu sempre falo. Porque sinto. E amo entendendo tudo, porque não sei. 

Amor é a poesia do que se sente, Maria.