Divã

Sentada numa poltrona confortável, ela desenhava num quadro os fios de memória que me levaram até aquele instante: o instante de estar naquele consultório, pela primeira vez abrindo todas partes de mim diante de uma pessoa que nunca havia encontrado antes. Ela ajeitava os óculos enquanto me oferecia um lenço para conter o transbordamento inevitável das minhas lágrimas e da minha alma machucada. 

Meu diagnóstico veio aos trinta e dois anos. Antes de recebê-lo eu já tinha a certeza, mesmo sem nunca ter sentido a vida com tamanha força e derramamento. Sempre achei que era mais uma fase, que o tempo consertaria, que as horas amansariam, que passaria — e de fato, passa, mas pode ser mais leve enquanto não acontece. Não tem cura. Não faz cerimônias, simplesmente chega. Não pede licença. Todavia, está longe de ser indomável. E foi aos trinta e dois que, vivendo uma vulnerabilidade enfática, resolvi enfrentá-la.

 

Desde criança eu já roía as unhas, não gostava de ser o centro das atenções, não gostava de comemorar meu aniversário e me dava um silêncio muito grande estar em meio a multidões. Diziam ser timidez e eu repetia: sou tímida. Menos com os meus. Pré-adolescente, não mudou nada. Uma vez tivemos que falar na sala de aula, na frente de todo mundo, sobre o livro que havíamos lido. Adoeci. Passei uma noite em claro chorando, faltei aula, até que a professora, fingindo ter esquecido de mim, me pediu, num rompante, para contar minha história. Pode ficar sentada no seu lugar, não precisa vir aqui na frente. As palavras sumiram da minha boca e meus olhos encheram d’água. Meus colegas não entenderam. Minha melhor amiga apresentou seu livro com a maior desenvoltura enquanto eu não parava de sacudir as pernas. É porquê ela é tímida, justificavam. E eu voltava a meu lugar de conforto. A essa altura, já sem unhas e com os cantos dos dedos feridos.

 

Mudei de estado, escola nova, amigos novos, professores novos. A socialização foi imediata. Vieram os seminários, toda sexta-feira. No começo, treinava falando para o espelho, suava frio na hora do sorteio e acabava falando tudo com muita pressa, só para que o pesadelo acabasse logo. Meses depois, eu e uma amiga disputávamos para ver quem seria a primeira a apresentar. Falava tranquila, sentia que estava dentro de uma nova família. Era bonito. Éramos cúmplices. Mas um dia chegou a transição para o ensino médio.

 

Quase todos os meus colegas estavam fazendo cursinho para prestar o vestibulinho da federal que eu nem sequer sabia que existia. Obviamente comecei a ouvir as lendas cheias de referências àquele novo lugar para onde todos estavam ansiosos para ir. Era certo que sairíamos daquela escola, pois o grau máximo era o que estávamos cursando. Eles se movimentavam e eu evitava pensar no assunto até que, em casa, minha mãe, professora, trouxe o assunto. Perguntou se eu queria fazer o curso, respondi que não. Eu não queria antecipar nenhuma das possibilidades de despedida. Saiu o esperado (não por mim) edital, li o livro que estava na lista, li a gramática inteira e fugi da matemática, como sempre. Tratava aquela prova como se fosse nada, enquanto o assunto era cada vez mais foco na sala de aula. Próximo do dia, as coisas mudaram. Na noite anterior? Não dormi. Fiz as questões com o maior cansaço do mundo. O resultado: passei.

 

Aconteceu tudo muito rápido. Lembro que faltei toda a primeira semana por ter viajado e quando voltei ainda estavam todos na rotina de apresentação da escola, metodologias etc. O CEFET era realmente a maior e mais bem organizada escola que já vi, até hoje. Pavilhões separados, quadras cobertas, campo, piscina, laboratórios, auditório, jardim, ônibus para excursões etc. Lembro de caminhar assustada pelos corredores, sem encontrar ninguém que eu conhecesse dentre as quatro turmas de primeiro ano. Nenhum dos meus amigos tinha conseguido. Tive febre nos dias seguintes, chorava, não queria estudar naquele lugar. Um curto estágio depois, foi ficando mais fácil. Ali estava outra família. Estudamos juntos por três anos e tive a oportunidade de conhecer algumas das pessoas mais fantásticas do mundo — algumas delas são até hoje minhas amigas. E minha melhor amiga também foi dali que saiu. A ansiedade com os seminários? Existiram, mas aos poucos tudo se transformou num processo natural. Acabou o terceiro ano.  

 

Vestibular. Escolher onde morar. Escolher o que estudar. Insegurança. Pressão. E enfim, faculdade. Que processo estranho. Lá estava eu, novamente a mais nova, como sempre foi em todas as vezes que entrei numa sala de aula. Ali tive a oportunidade de conviver com pessoas extremamente diferentes. Pessoas com idades próximas, pessoas com a idade dos meus pais, pessoas quase com a idade dos meus avós. Não viramos família. Muita gente era passageira, muita gente era interesseira e muita gente conseguia pisar em cima de outras gentes. Discussões aconteciam ao redor. Briga de egos, o tempo inteiro. Fiz pouquíssimas amizades e celebrei quando tudo teve fim. Não sem antes quase surtar, obviamente, e viver meses de insônia elaborando uma monografia, trocando as horas, dormindo no chão em cima dos livros (literalmente), sendo perfeccionista e na hora de abrir o arquivo da apresentação, o power point havia sido salvo apenas pela metade. Não dava tempo de ir em casa, chovia torrencialmente, ruas estavam alagadas e eu senti que meu mundo acabaria ali. A vontade foi de sentar no chão abraçada a uma garrafa de tequila e chorar. Ocorreu que todo o nervosismo de todos os anos anteriores montou nas minhas costas, apresentei sem norte, falando o mais rápido que podia. No fim, fui aprovada com mérito, o que desencadeou num choro coletivo meu e da banca avaliadora.

 

Formado em Direito, seu diploma só é socialmente validado se você vence a etapa da prova da OAB, mesmo que não queira advogar. Novamente: insônia. Dessa vez com vômitos ocasionais e falta de apetite em tempo integral. Depois de passar na primeira fase, fui pra segunda e reprovei — não consegui terminar a prova a tempo. O que me levou, conforme a regra da época, a refazer a primeira fase. Passei, de novo. Na segunda, obviamente com todas as consequências de sempre, sentei e não consegui ler a prova. Como assim eu não conseguia ler? Levantei, passando mal, e fui para o banheiro. Em seguida fui embora pra casa. Uma sensação de impotência tomando conta do meu corpo inteiro. Chorei por horas seguidas e no dia seguinte acordei decidida a procurar ajuda. Procurei. Novamente: faz a primeira fase, passa e vai pra segunda. Fiz a prova tão calma que parecia outra pessoa. O resultado? Aprovada. Abandonei a ajuda em seguida.

 

Os anos passavam e as datas e acontecimentos significantes — e às vezes nem tão significantes assim — quase não eram vivenciados quando ocorriam, tamanha era a exaustão física e mental, típica de quem vive a antecipação e analisa absolutamente todos os minutos do futuro, como se tivesse o poder de prever o que poderá acontecer, em todas as suas maneiras. Insônia, suar frio, sacudir as pernas, lábios ressecados, respiração irregular, náuseas e enjoos. Falta de apetite ou apetite extremo. Gastrite nervosa. Pensar em sair de casa e desistir com medo de sentir alguma coisa e atrapalhar alguém. Sintomas que vez ou outra me acometiam e eu não entendia direito o motivo. Os diagnósticos apareciam e a solução nunca. Os dias pediam uma versão de mim que havia sido perdida dentro do emaranhado de emoções. Era gigante minha preocupação com o depois e impossível estar presente no agora. 

 

De outro lado, vivia um relacionamento com uma pessoa que piorava minha situação de todas as maneiras possíveis. Emagreci, as olheiras aumentaram, chorava como nunca havia chorado. Às vezes dava pra respirar, então eu era machucada outra vez e meu coração rachado despejava em mim toda essa dor incrivelmente orgânica. Eu tinha que ouvir, todas (todas) as vezes, o quanto era dramática e como gostava de passar os dias procurando motivos para me sentir mal. 

 

Após lidar a vida inteira com episódios que sempre foram amenizados por mim mesma, acumulou-se numa sequência: problemas no relacionamento, TCC da pós, morte de um familiar que era uma parte enorme de mim, Bolsonaro eleito, ataques ao meu irmão etc. etc. Tive a primeira crise real, quase palpável de tão terrível. Defino como as semanas mais pesadas que já vivenciei. Começou nas madrugadas, quase silenciosamente: acordava no meio da noite com calafrios e respiração ofegante. Não conseguia voltar a dormir e passava o dia com a sensação de aperto no peito. Fui ao médico, neurologista, o primeiro onde consegui vaga. Passou um remédio que, além de não ajudar, me deixava com uma ressaca bastante potente. Parei de tomar e fui piorando. Acatando uma sugestão, fiz algumas sessões de acupuntura. Comecei a dormir melhor e a respirar sem sentir o mundo doer tanto assim. Me abraçava um desânimo tão grande, não conseguia enxergar possibilidade em nada, não conseguia sair, não conseguia andar, ficava sentada ou deitada, queimava incensos, tentava meditar. E nada. Tentava comer e não conseguia engolir. Emagreci cinco quilos em sete dias. Saía da cama, deitava no sofá. E nada. 

 

No ápice do transtorno, sozinha em casa, achei que fosse desmaiar. Não conseguiria ir sozinha ao hospital. O então namorado, talvez certo de que era apenas um drama, foi para o trabalho. Eu em casa, sem forças para conseguir sequer ir ao banheiro. Insisti. Liguei diversas vezes até ele me priorizar, mesmo com alguma irritação. No hospital, tomei soro e remédios para enjoo. Fiz exames e voltei pra casa pelo menos hidratada. Chorei. Muito. Um dia inteiro. Sem pausas. Ficava cansada, respirava e voltava a chorar outra vez. Ele me olhava com olhos assustados e mesmo me dizendo que ia ficar tudo bem, eu sabia que ele não sabia se ficaria. O medo era real. Me pedia pra reagir, sem entender que isso era tudo o que eu mais queria. Eu tentava. Era só o que eu queria: ficar bem. Ser eu. Inteira.

 

Diante do caos, foram me socorrer. Fui na acupuntura, fiz uma massagem, fui no psiquiatra. Tive a sorte de encontrar um profissional bastante delicado, atencioso, preocupado com todos os movimentos que aconteceram/aconteciam/aconteceriam. Medicação e recomendações receitadas,  benefícios viriam lá pelo final do mês. Demorou um pouco até conseguirmos regular as dosagens, mas descobri posteriormente ter sido mais rápido do que acontece para a maioria das pessoas. Vim embora. Não poderia ficar lá sozinha e em casa as demais terapias seriam mais fáceis de serem trabalhadas.

 

Voltei a fazer acupuntura regularmente, o que me garantia automaticamente boas horas de sono e relaxamento. Encontrei, no mesmo local, uma psicóloga que já no primeiro encontro acolheu todas as minhas questões, muitas vezes me explicando para mim mesma e me ajudando a enxergar todos os caminhos: os que escolhi, os que foram inevitáveis, os que precisavam ser abandonados e as diversas possibilidades por onde seguir a partir daquele instante. Eu ia crescendo e era bonito sentir. 

 

Obviamente, em meio a tantas análises, as situações dentro daquele relacionamento foram aparecendo. Comentei com ele como estava sendo bom olhar para dentro de mim, me colocar do avesso sem censuras e saber o que poderia ser costurado e o que era melhor rasgar de uma vez. Falei como estava mudando, como estava ficando forte. Como estava me recuperando para mim mesma. Ele interpretou como quis e achou que eu estava caminhando para encerrar aquele namoro. Fechou-se em si mesmo. Me machucou de maneiras inimagináveis, me dizendo palavras que até hoje não entendi, me deixando plantada por dias, sendo tratada como um objeto que estava no lugar errado. Sempre existiu espaço para conversas e sempre existiu um único pedido: honestidade. Principalmente com os sentimentos. Não tem que ser eterno, mas precisa haver a tal da responsabilidade afetiva. Não houve. Doeu diferente e resolvi ir embora. Não sabia mais por onde caminhar ali dentro, conhecia todas as esquinas e nenhuma delas me parecia convidativa. Eu não podia perder o meu foco e nem ousaria arriscar me perder de mim. De novo. Queria alguém que se dispusesse, que me segurasse, que me motivasse e seguisse caminhando e sorrindo a meu lado. Ele não sabia ser essa pessoa. E mais importante: ele não queria ser essa pessoa. 

 

Na terapia, discutimos, em cima de dados, sobre como os homens não sabem lidar com a vida real, especialmente em momentos onde são chamados a adquirir instintos de cuidados. Estudos mostram que uma grande porcentagem pede divórcio ou simplesmente vai embora ao encarar a parceira pós gestação ou vivendo algum transtorno emocional. E assim aconteceu. Oito meses de tratamento e nem todos os anos onde estive ali e segurei todas as suas piores barras (piores até que a minha) foram suficientes para que ele fizesse o mesmo por mim. Chorei dois dias. Doeu três meses. Depois comecei a enxergar o que agora exponho e segui por onde o amor estava: em mim. 

 

Em menos de um ano, as sessões de terapia semanais passaram a ser quinzenais. Parei a acupuntura e comecei a ioga. Fui cercada por presenças que realmente importavam e quando dei por mim, minhas asas tinham novamente crescido e eu já conseguia enxergar novos caminhos em meio a esse tanto de céu. Me vi tão solta como nunca estive, me aproximando do meu propósito e encontrando corações dispostos a me impulsionar nessa onda preciosa de (re)descobertas.

 

Aos trinta e dois, fui diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada – TAG. Demorei uma vida inteira para aceitar, engolindo a clareza dos indícios. Demorei para entender que não conseguiria sozinha e que isso não era de maneira alguma uma coisa ruim. É uma doença e não um sentimento, precisa de cuidado. É paralisante. Se não for tratada, vai se potencializando até o momento onde você não consegue mais ser dono de si. É importante que se procure ajuda especializada e que os passos sejam acompanhados por um profissional que te faça sentir seguro dentro do seu processo. Não precisa ter vergonha, precisa ter amor. Por si mesmo.

 

Estima-se que, atualmente, 3,6% da população mundial sofra com algum transtorno de ansiedade. E segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, o Brasil é o país onde se concentra a maior parte das pessoas ansiosas do mundo. Os motivos são vários, tendo em comum o fato de sermos brasileiros e, por consequência, caminharmos em cima de todas as mazelas existentes em nosso país. Dito isto, tenho a sorte de viver em um ambiente de privilégios e de contar com o apoio de uma família que sempre está. E graças a essa sorte, hoje caminho diferente. Mais eu e menos tudo aquilo que não preciso carregar.

 

Ansiedade não tem cura. Mas aprender a olhar para si mesmo com gentileza, entendendo e aceitando ser você mesmo sua essencial fonte de cuidado, é a principal etapa para iluminar-se atento e potente. A vida vai sempre bater, porque somos sempre mais fortes. Conseguimos, pode seguir. Acredita.

 

Dá sempre tempo.

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2 comentários

  1. Tão amada você Jaya!

    Ultrapassar barreiras, desvendar limites.
    Matar a sede da saúde, Sobreviver as dores.
    Renascer, reaprender. Viver.
    Viver,é isso que você faz. E faz tão delicadamente.
    Todos nos temos algum tipo de doença, e esse seu texto
    é um incentivo a procurar ajuda.
    Grata sempre pelas palavras. Você é contagiante.
    Beijos meus, feliz final de semana.

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  2. Oi Jaya, menina, estou sem palavras... Me identifiquei - novamente - muito com o seu texto. Nesta pandemia fui parar num pronto-socorro de madrugada por conta da ansiedade.

    Por coincidência ou não, também sou do Direito. Menina, quantas pressões sofremos e passamos né? Deu até vontade de chorar agora haha. Preciso fazer um trabalho para domingo e simplesmente não flui, estou travada. Misericórdia.

    Enfim, você não está sozinha. Que bom que descobriu ainda na casa dos trinta, tem gente que vive sem tratamento e a verdade é que, sabemos, não vive direito. Abraçar as nossas dores e particularidades faz parte do processo.

    Uma semana bonita e tranquila para você!

    Beijos!!

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