Retalhos.

02:52


Outra noite insone. Levanto com meus olhos desajeitados e espio pela janela. O céu tem uma cor errônea, parece nem caber no que vejo. Algumas estrelinhas desmaiam no chão e decido guardar a lua entre meus cílios. Preciso levá-la comigo. Preciso que seja morada junto aos sonhos que escorrem por minhas pálpebras enquanto se fecham. Às vezes, teimosas, tentam prender dentro em si uma estrela cadente que, inquieta, dança com seu rabicho e me faz virar luz mesmo sem querer.

Eu, hoje, faço muito tempo. Sou lembrança. Um tom sépia, um cheiro de história contada por alguém numa cadeira de balanço, enquanto um e outro olhar atento tenta decifrar as memórias do que é antiguidade. Talvez meu lado de dentro seja um relicário. Talvez alguém, um dia, diga que meus lábios sempre sopraram beijos. Meu coração só registra carinhos e nunca dorme.

Há algum tempo caminho por aí sem relógios. Meu amor é conjugado no infinito. Minhas orações já não se subordinam. E nessas noites sem sentido, como a de hoje, eu só sei observar. Viro plateia de mim mesma. Vejo várias de mim e me perco naquela que não sou. Se tocasse um samba, eu sorriria e cairia na roda, levantando o copo e sendo um sorriso. São coisas internas. Minhas maneiras de fazer folia. Eu ardo e solto poesia com meus passos tortos. Fico invisível com um fechar de olhos. Em silêncio. Num sussurro.

Meu esconderijo é aqui. São as letras. É o excesso de movimento que me joga para o meu quarto, com essa parede verde que me ensina a enovelar a vida. É o ponto, a formação de palavras, a ausência de sentido no que escrevo. Apenas a necessidade de rabiscar o papel em branco. Preciso escorrer. Gosto do mal explicado. Nunca gostei dos parênteses. Me retiro e me coloco em aspas quando bem entendo.

Quando menor, era o céu desabar e eu rabiscar vários sóis de giz, na calçada. Eu resolvia o problema. O cinza ia embora e trazia arco-íris. Eu também sempre contei estrelas, apontando com o indicador, nunca levei a sério as superstições. E acho muito justo acreditar que meu nome e o dele dentro de um coração desenhado a lápis guarda o amor e cria uma redoma para todas as peculiaridades escondidas que a cumplicidade faz brotar.

Eu decidi apostar no mundo, então. Imperfeito. Mesmo que alguns dias sejam assim, tão carregados com esse gosto de domingo. Agora mesmo queria comer amoras que despencam doces de um canto cheio de sombra. É noite, mas tá fazendo sol. Meu rosto vira um jardim. Flores, flores, flores. A primavera sempre soube caber nas demais estações. Eu gosto de me apaixonar à tarde.

Não sei o que esperar. Espero tudo. Quero tudo. E vou. De mãos dadas com o que sinto, nunca soube me economizar. Vai ver, assim, eu acabe sendo possível.

Minha caneta é sempre azul.

O problema...

22:40

...é que eu te amo.
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto.

[Nando Reis - Meu mundo ficaria completo (Com você)]

De uns dias pra cá, os ponteiros mal anunciam o meio-dia e eu já me apaixonei trinta e três vezes. Algo muito natural, tendo em vista o óbvio: te querer bem é fácil. Um deslize. É macio. E não duvido que o céu, ao me ver tão vermelha, fique todo encabulado e resolva amar também. Eu percebo. Enquanto olho pela janela, eu percebo. Percebo ainda quando as borboletas enfileiradas vêm morar em meu estômago e eu, distraidamente, começo a gostar.

Às vezes eu não preciso de motivos muito lindos para te trazer para mim. Às vezes basta dar risada sozinha pela lembrança de uma bobagem que você disse na noite passada. Bastam uns primeiros motivos. Ou a cena de te ter ao meu lado sem me ver. Às vezes, também, é tudo exagerado demais. Eu, jogada aos teus pés com mil rosas roubadas. O que justifica? Essas coisas por aqui, todas cheias. Tá tudo transbordando. Ali, embaixo da cama; nas estrelas abertas do mural branco de amores; na rachadura do vidrinho da janela; no teto; entre os lençóis e o edredon que me aquecem, e principalmente, dentro do meu travesseiro. Ninguém vê. Eu sinto.

É o excesso. É um espanto. Um susto. Porque, para mim, o problema é a junção de todas essas pequenezas desarrazoadas. O problema é que, eu mal acordo, e já lavo o rosto com um sonho. O problema é meu corpo teimar em soluçar no teu abraço. O problema é que eu esteja tão assim, perdida em você. É querer te levar para um canto azul, todinho azul. É tocar minha boca com um guardanapo e notá-lo ainda mais leve depois de ter amparado o eco distraído do meu riso que fala de você o tempo inteiro. O problema é querer sentar ao teu lado, muda, beijar teu ombro e logo em seguida me aninhar nele, ao mesmo tempo em que encaixo minha mão à tua e me invada uma vontade boba de ser feliz. De ser muito feliz. O problema é que eu resolva te levar para as estrelas. Ou que você pense muito em mim. O problema é que a gente passe a saber qual parte de nós dois nos tem em maior quantidade. O grande problema é acabarmos descobrindo que são todas.

O problema também pode ser que você acabe gostando do meu riso fácil. Ou do meu rosto sério. O problema é que todos os teus melhores sorrisos podem vir a ser meus. O problema é o teu gesto mudo que esconde os dentes, fazendo formar aquelas ruguinhas no canto da tua boca. O problema é teu cheiro que já aprendeu a vir embora comigo. Tuas mãos. Teu caminhar. O problema são teus olhos claros que me moveram sem me abrir. E a minha mania de quebrar bolachas dentro do iogurte de morango para comer lendo poesia. O problema é você achar isso bizarro. É você com uma coca-cola e eu com um suco de maracujá. O problema são as manias, e meu gosto pela rotina. O problema é que eu não vou mudar. Nem você. O sorvete ainda é de cajá, a pizza de atum e o sanduíche tem que vir com frango, porque eu não gosto mesmo de hambúrguer. O problema são todas essas bobagens. E as coisas sérias também.

O problema mesmo é gostarmos pra caramba um do outro. É fazer um carinho em tua nuca e, uma vez estando ali, não saber/querer mais voltar. É pensar em te ver cochilando no sofá e te beijar a testa logo após cobrir teu corpo com uma manta macia. O problema é o aquecimento global dar o que falar, e eu só pensar em te escrever textos como esse, a vida inteira. O problema é você, que tem muito a cara de ser para sempre o meu benzinho.

O problema, ainda, é essa vontade que bate de vez em quando, de querer nossos sapatos envelhecendo juntos. O problema é que cheguemos ao ponto de compreendermos todos os nossos atos antes mesmo que ousemos fazê-los. O problema é que tudo pareça estupidamente justo. Deliciosamente genuíno. O problema é não perdermos nossos endereços. É descobrirmos a variedade que podemos ser, e não nos desvincularmos da nossa unidade. O problema é a morte instantânea de todas as pessoas ao redor a cada vez que você aparecer pra mim. O problema talvez seja encontrar um cílio teu dentro do meu livro preferido, ou o desejo de sujar a ponta do teu nariz com um pouco de cobertura. É gostar de te irritar. O problema é você esquecer teus olhos em cima dos meus e que resolva cuidar de tudo que é teu, em mim.

O problema é a cidade se calar. É a gente começar a rir de coisas que ninguém mais entende. O problema é a gente desistir de dificultar tudo. Querer se livrar das atitudes psicopatas que temos para com o nosso amor. O problema é a vontade insana de querer dilacerar esse sentimento o tempo inteiro. O problema maior é que a gente já sabe que ele é imune. O problema é a gente entender que pode, inclusive, se apaixonar a qualquer tempo, mas sabermos que o que temos é maior. Um bem maior. O problema é que não vamos fugir. O problema é que você seja mesmo tudo aquilo que me faltava, e acabemos, definitivamente, construindo um novo planeta onde saibamos caber. O problema é que resolvamos, num fim de semana qualquer, passar as horas inteiras trancados no apartamento, vivendo de amor-filmes-poesia-pipoca-pirraças-e-beijos, e esqueçamos o mundo lá fora. O problema é você me ver passar as mãos nos cabelos e notar que, mais que uma mania, esse gesto já decifra o quanto já sou de você. O quanto você é de mim. O problema é todo esse sentimento louco e improvável. É essa cadência bonita das letras que nos escrevem.

O problema pode ser eu gostando do engarrafamento e até pedir maior demora, porque com você ao lado o fuso é sempre outro. O problema é tudo acabar dando certo. O problema é a gente acreditar demais um no outro. O problema é o telefone tocar e o coração ir para a beira do penhasco. O problema é ouvir teu nome em outras bocas e pensar que a única imagem que cabe nele é a tua. O problema é o você e eu, a fusão. É minha vontade de mordiscar teus lábios. É você vermelho diante de minhas declarações atrevidas. O problema é que eu cuide do que é meu, em você. O problema é que todas as horas sejam certas demais. O problema é sempre nos inaugurarmos. É te olhar e pensar: eu escolhi você. E que você acabe me escolhendo também. O problema é te ver novamente, te pesquisar, e descobrir que, se um dia o amor resolvesse observar, olharia desse nosso jeito. O maior problema de todos, é que, só te ver, eu penso em trocar a minha TV num jeito de te levar a qualquer lugar que você queira. E daí?

É por isso que, às vezes... Às vezes eu nem preciso de uma poesia para lembrar de você. Às vezes é só o baixar das minhas pálpebras, todo esse som mudo das pestanas, e os tais dos probleminhas. [E que eles não tenham solução].


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Escrito depois de ler um texto lindo de um blog que não existe mais nas internetes.

Vovô Arthur.

23:00

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...

[Manuel Bandeira, em: Cartas de meu avô].

Pode nem parecer para quem olha de fora, mas dentro de mim eu sei: amar você foi a coisa mais linda que eu aprendi assim que me trouxeram para o mundo. São vinte e dois anos, vô. São lembranças verdes. Verdes, do jeitinho que imagino a grama daquela fotografia preto e branco, onde você está deitado numa pose de moço sério. Um moço sério que também pulava o carnaval, naquela cidadezinha, entre fantasias e histórias bobas. Histórias que você traz de longe e faz chegar aos meus ouvidos com um gosto saudoso. Que me faz querer saber mais. Saber de você.

E eu te sei tão bem! Sei do coração que quase nem é teu, de tanto que é da gente. Da festa que faz quando chega, por sempre ter um doce no bolso. Do jeito como sempre me recebe com um sorriso e uma frase engraçada. Da maneira de contar as coisinhas de minha vó e do amor bonito que eu não canso de notar a cada vez que a cozinha se enche com a presença de vocês, ou o modo encantado como se entregam a Deus durante todos os dias, mas principalmente aos domingos. Sei também das reclamações, do jeito ranzinza de alguns instantes, dos sustos. Dos sustos de agora, mais ainda, que deixam meus olhos arregalados. Tão arregalados que, ao te ver imerso no sofá branco, olhando a rua e espiando o livro, sinto o amor te doendo em paz.

Eu gosto mais é de lembrar você com as plantas e daquelas tardes amarelas no meio dos cafezais. Gosto de lembrar dos passarinhos e do periquito quase da família, parte da infância minha e de Gabriel. E do dia em que você chegou com um pintinho verde e um cor de rosa, para cada um de nós. Motivo de alegria por semanas. Gosto de sorrir vendo você dar boa noite aos apresentadores de telejornais. Da maneira como sou recebida quando descobrem que sou neta de seu Arthur. O Tuzim dos seus, menino ainda que sempre será. Gosto quando dizem que você continua forte e que não mudou nada.

E você não mudou mesmo não. É o mesmo moço que chegava da feira aos sábados enquanto eu acabava de acordar e me fazia babar com os biscoitos mais gostosos do mundo. São as melancias que me lambuzavam no quintal, aos domingos. O coquinho quebrado entre conversas. O moço que me fazia cócegas quando eu buscava um afago em seu colo. O mesmo que me servia de boneca, enquanto assistia televisão e me deixava amarrar seus cabelos, enfeitar com laços, e sorria de mim, menina. Que me contava que meu nome ainda estava escrito na minha árvore preferida do antigo sítio. Aquele que dançou comigo a valsa da minha primeira colação de grau. Em círculos, lembra? Eu te amei tanto nesse dia! Você, para mim, vai sempre ser o mesmo moço de cabelos de algodão, que chora quando sente vontade e tenta disfarçar uns olhos vermelhos que não deixam nunca de emocionar. Aí eu inevitavelmente penso: se todos fossem no mundo iguais a você...

Porque é lindo, vô. É lindo caminhar ao teu lado e ver todo mundo te cumprimentar alegre. Ver as crianças te chamando de vô, como aquele dia quando descíamos a rua ao lado. Aquele sorriso banguela que te perguntou cadê meu doce? E a maneira como sorriu ao receber de você uma moeda para comprá-los. Foi linda a maneira como você disse à moça que essa é minha neta. E o jeito como ela me parabenizou falando que ele é muito querido por todo mundo. Lembro dos teus olhos nos meus, nessa hora. Eu gritava um eu te amo urgente. Ainda hoje acho que você entendeu. É um orgulho, vô, é um orgulho ter muito do teu sangue correndo misturado ao meu.

Para agora, eu só quero que você não deixe de caminhar teus dias. Vira essa cidade de cabeça para baixo, com teu corpo gasto de vida. Ainda há tanto a se gastar! Chega com tua sacola nas mãos. Toma teu café de cheiro delicioso, me oferece um biscoitinho, senta ao meu lado no sofá, pergunta sobre minha mãe, minha outra família. Senta comigo na cama também e espalha todas as fotografias que remontam nossos momentos furtados do mundo. Ensina Pedro a soltar o pião, põe no corpo tua túnica e serve a Deus daquele jeito que me fez chorar na Igreja quando te vi pela primeira vez ali. Vai deixando tua imagem bem grudada em cada canto daquela casa que já veste você. Vai tomando meu amor, me dando o teu, assim, desse jeito mudo e explícito. E se faltar alguma coisa, a gente inventa. Vai. Deslumbra esses dias azuis de Conquista, que amanhã eu passo aí para te beijar.

Bença, vô.

Daqui, hoje, todo o meu amor avesso.

Do berço,

Jaya.

Vitória da Conquista, dois de dezembro de dois mil e nove. E uma lua bonita no céu.