05 novembro 2015

Quinta-feira.

Para que seja bom como já é.

[Pedido de Casamento – Arnaldo Antunes]

Porque hoje é quinta-feira, a centésima quinquagésima quinta quinta-feira, eu resolvi escrever a você. Porque as saudades vieram finalmente para as pontas dos meus dedos, pedindo que o amor seja escrito para encontrá-lo, já que a estrada continua a nos separar nesses quilômetros insistentes que em dias assim parecem ainda mais longos.

Porque hoje é quinta-feira e tem um sol bonito lá fora e eu consigo enfim respirar bem em meio a esse calor, arrumei um lugar ao lado do jardim e sentei com o computador no colo apenas para olhar as flores enquanto rabisco a tela: lembrei da gente, semanas atrás, no Farol - a Barra inteira era paisagem e o mar imenso refletia o nosso amor enquanto eu, aninhada no seu colo e deitada na grama, fazia aquele mundo de gente desaparecer, só conseguindo então sentir você, fotografar os minutos e contar cada um dos beijinhos e sorrisos que plantamos naquela tarde.

Porque hoje é quinta-feira e esse mês comemoramos mais um ano de vocêeeu, fui traçando lembranças dos nossos caminhos até aqui. Porque hoje é quinta-feira, mais uma, suavizada desde quando você resolveu começar a enfeitá-las no calendário, lá naquela primeira metade de novembro, eu hoje quis fazer poesia com o amor que foi derramado em mim sem intenção alguma – era manhã de sol intenso, numa cidade que virou você.

Porque hoje é quinta-feira, eu prometo te amar devagarinho, para que todas as demais quintas-feiras não tenham medo de chegar e se aproximem trazendo sempre essa mesma novidade, esse mesmo convite à pintura de um livro que, ainda que eu tentasse escrever, não seria tão bem-vindo. Porque é quinta-feira, eu refaço todos os votos silenciosos que nossos olhares entregam um ao outro - seu olhar continua a melhorar o meu.

Porque hoje é quinta-feira, reli meu texto preferido de Vinicius - Para uma Menina com uma Flor - e me vi de volta a um tempo onde um amor para amar assim parecia feito para a poesia e não para a vida. Aí me veio você, numa quinta-feira, e me mostrou que vida e poesia se mesclam quando o coração se deixa preencher. E então, algumas quintas-feiras depois, eu amei você.

Porque hoje é quinta-feira, depois de algumas dificuldades onde aprendemos que, de mãos, braços e corpos dados a gente supera o que vier, eu mandei abrir um arco-íris de boas novidades. Porque hoje é quinta-feira e existe essa certeza de que as coisas vão funcionar, eu consigo olhar o céu e enxergar um amanhã sem peso algum, basta resolvermos voar.

Porque hoje é quinta-feira e eu amo você, prometo continuar a acordá-lo com beijos e a empurrá-lo, cheia de mau humor, quando fizer o mesmo comigo. Prometo continuar a encher o saco para ir à praia de manhã cedo e a fazer bico quando você dormir demais. Prometo parar de reclamar da bagunça que faz na sala quando chega da rua (mentira) e achar fofo, de alguma maneira, o modo como demora para lavar os pratos ou fazer um sanduíche. Prometo não mais dizer que demora igual a uma mocinha pra se arrumar - mas só se você me levar frutinhas cortadas na cama todo dia de manhã. Prometo não deixar de dançar todas as músicas bregas que tocam enquanto estamos na cozinha – só para olhar sua cara de besta. Prometo continuar a beijar e abraçar você em todas as beiras, cantos e cômodos daquele apartamento – basta a gente se encontrar no caminho. Prometo também correr de você e fazer algum barulho para o vizinho de baixo notar que a gente também pode ser chato – aliás, prometo não deixar nunca de ser super chata, pra não deixar nunca de combinar com você. Prometo sempre fazer comidinhas e docinhos - e bolos de volta quando o forno voltar a funcionar – isso, obviamente, se a pipoca quentinha continuar a vir com todos os filmes que assistirmos. Prometo continuar ao seu lado durante os jogos do seu time - se você permanecer firme junto a mim nessa dieta difícil. Prometo continuar a te fazer feliz, dos pés até a ponta do nariz, da beira da orelha ao fim do mundo. Prometo que vamos continuar a falar dos outros na rua enquanto tomamos uma cerveja, um sorvete, um suco e ao mesmo tempo fazemos planos de um futuro engraçado, com coisas fofas e doces e simples – assim como somos nós dois (com um e outro estresse aleatório, pra combinar com nossa paciência fujona de sempre). Prometo continuar a insistir para minha vó que você não é anjo coisa nenhuma e a fazer dramas para minha mãe não gostar tanto assim de você, quando o almoço atrasar demais. Prometo continuar a fazer seu pai dar risadas das nossas conversas que ninguém entende e dar um jeito de trazer o seu avô pra perto só pra ouvir todas as histórias dele e sentir que as coisas podem ser tranquilas mais uma vez. Prometo que os nossos sonhos de um só se realizarão de uma maneira muito bonita. E que um dia virão os nossos brotinhos, quando estivermos prontos para regar nosso próprio jardim. Prometo esse amor feliz, juntinho, leve, com brigas idiotas – porque tá claro que a gente não sabe fugir disso - quente, cúmplice, ridículo, urgente, azul e prometo seguir achando lindos os seus gestos a cada quinta-feira. E sempre – porque as palavras grandes hoje já são usadas sem receio algum.


E por ser hoje quinta-feira, me prometo, mais uma vez, a você, amor.