Bordado.

16:55


Eu nunca gostei de ter um nome diferente, especificamente durante a minha infância. Não achava bonito ter um nome em sânscrito, porque ninguém sabia o significado. Quando alguém se interessava eu contava uma história misturada com Hare Krsna, mantras e qualquer coisa da Índia. Escolha de meu pai. Eu nunca gostei de ter um nome diferente até o dia em que me olhei no espelho e percebi nos meus olhos, no formato do meu rosto, que eu jamais aceitaria ser chamada por outro nome – que eu jamais atenderia, ao ser chamada por outro nome. Dentro do meu mundo, sou a única que responde quando entoam essas quatro pequenas letras. Não existe outra, apesar de existirem outras, em outros mundos. Aqui, na parede do meu quarto, ao lado da minha cama, sempre teve esse quadro: Krsna, hindu em todas as suas muitas cores. Um dos deuses que me abençoam, e para quem deve ser muito simples cantar o que me explica.

Eu sempre tive muito medo de amar, tanto ainda mais quando não tinha noção de que já nasci amando: nasci do amor, daí esse sufoco de coração. Eu sempre tive muito medo de amar porque sempre tive muito medo de doer, sem nem saber, entretanto, o quanto dói viver, independente do que/ a quem se ama. Foram muitos anos de defesas inconscientes até perceber que tudo é tão melhor quando ele coloca a mão na minha coxa e eu sinto que cada dia é mais bonito por poder transbordar meu melhor lado em alguém. Amor é uma espécie de fé: quando se tem, viver é preciso, correto, e o universo se enche de axé. O que sou, ao lado dele, o brilho dos meus olhos é quem sempre diz. Ele sabe onde fica cada uma das minhas pintas e eu construo pilhas e mais pilhas de palavras para falar sobre ele enquanto releio os livros que me deu de presente no último Natal.

A minha maior preocupação sempre foi ser. O que, como, porquê eu seria. Procurava entender a mecânica da alma tentando encher de ciência toda a minha falta de lógica. Doida ou santa, não entendia se pendia para a sorte ou para o destino. Foram amarrados desejos que só deixaram arranhões no meu teto de tanto que os encarei com a cabeça no travesseiro, fechando depois os olhos sem saber por onde caminhar. Caminhar, quando só queria mesmo é voar. Foi quando entendi: passarinho. Daí então me alimentei de tantas pequenezas que minha vida nunca mais foi igual. Uma distraída ave, delicada e transparente, chorando para brotar as sementes internas e catar frutos de poesia. Uma agonia cheia de intensidade por me saber perdida em uma época sem espaço para nos pesquisarmos. Tanta preocupação em ser, quando tudo eu já era. Tanto, eu já sou. E gosto quando ele chega e me olha como se eu fosse um feriado, porque é quando sei que é sempre tempo para tudo.  


Aí eu escuto meu nome, amo e sou, como num bordado, onde tudo se comunica. Tão viva que consola a vida. Jaya significa Vitória e eu escolhi só contabilizar os ganhos.

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8 comentários

  1. Tem texto teu que a gente até suspira quando termina. De tão lindo. De tão cheio de poesia. Amo tanto o teu nome. Mas amo saber que tu pra mim é única, amiga. Sempre será ♥

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  2. Seu nome é tão você de tantas maneiras que fica impossível imaginar outro. São quatro letrinhas que significam tanto! Não precisa de muito alarde e nem de pompas para ser. Te traduz inteira assim. (toda vez a moça do banco diz: "Jaya! Que nome bonito, né?") E eu sempre sorrio com um orgulho meio besta não só pelo nome, mas é que, cara, é minha amiga! E ela nem imagina o tanto que tem ali naquele nome tão pequenininho. <3

    Me lembro que uma vez Victor me disse que você é especial demais e todo mundo quer sempre por perto. E é exatamente isso, sabe? Depois que a gente te conhece, fica o tempo todo te querendo por ali. E nem é por nada não, é só por ser você mesmo. Esse tanto de coração brilhando sempre. A gente acaba brilhando também.

    Daqui eu te mando um tanto bem grande de carinho.
    E um tanto bem mais de muito amor. Sempre.

    Ty.

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  3. O teu nome é muito lindo e forte. Sempre achei. E o significado, que agora sei, só me encanta mais. Eu me vejo em partes desse belo texto. Já tive os mesmos medos. Já observei melhor quem eu sou. Quando a gente passa ser, começamos dar a devida importância para esse sentimento genuíno que é o amor.

    Eu sempre saio daqui encantada. Sou tua fã, Jaya.

    Um belo domingo.
    Beijinhos.

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  4. Como é que pode, um dia, não ter gostado de ter um nome diferente [e LINDO] desse, meu Deus? Cara, teu nome é lindo. Sempre achei. Forte e doce, ao mesmo tempo. Tu não poderia ter outro nome, não. E, olha, facinho facinho eu dar teu nome pruma filha minha. Hahahaha.

    Teu nome é lindo. Só não é mais lindo do que ver você transbordando amor. Vivendo um amor tão bonito.

    Tu é toda linda, Jaya Maria. 💛

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  5. Eu vim.. Jaya. E pra mim você é unica, mesmo tendo outras Jayas.
    O tempo hidrata os sonhos, cura mazelas, reforça desejos.
    O tempo brinca,Tens no peito, um coração que não bate.
    Declama. Declama alegria por viver.
    Adorei saber o significado do teu nome, eu ja sabia.
    Aproveito e deixo o significado do meu, Bandys: Vencem dores! ☺
    beijos gata

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  6. Nosso nome, nossos medos, defeitos, qualidades, manias, nossos olhos, olhares, sorrisos... E tudo quanto somos, em algum momento dessa caminhada passa a fazer sentido, tanto sentido que chegamos a pensar "como não percebi antes?!"... Uma hora a gente percebe e a alma sorri!
    Que texto leve, lindo!
    Abraço carinhoso.

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  7. "Jaya" é um nome maravilhoso, tão cheio de poesia quanto a poetisa linda que ele nomeia!

    Obrigada por mais um texto encantador.

    Abraços e uma excelente semana para você!

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  8. Moça, a tua poesia sempre me dá essa sensação, de "que é sempre tempo para tudo".

    Te abraço enorme, do tamanho do amor que você emana.

    Do lado de cá, eu vou melhorando. Te saber me ajuda. Axé, uai!

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