Atemporal.

17:26


Eu só queria era saber, seu Zé. Quem é que inventou esse tal de tempo? Porque se o senhor parar e pensar aqui mais eu, deve ter dado um trabalhão bem grande, viu? Repara bem: às vezes ele passa voando, como se estivesse apostando uma corrida muito importante. Não dá nem pra (vi)ver direito. Quando isso acontece eu fico meio angustiada, querendo ser bem rápida para alcançá-lo. Outras vezes ele parece que só quer descansar, aí fica quase parado, dando passinhos lentos, como se pedisse uma canção de ninar. Nessas horas eu imagino cá comigo que, se fosse possível, dava um impulso cheio de força para ele cumprir seus prazos. Não entendo o motivo desse tempo ser assim, tão indeciso. Por esses dias aí, ouvi um moço dizendo na rua que não teria tempo para ir ao aniversário da filha e logo sonhei: se tivesse alguém vendendo o tempo que não usa, poderia emprestar um pouco a esse moço. Seria um presente muito bonito, o senhor não acha? O tempo pode ser tanta coisa, seu Zé. Por exemplo. Quando chove, dizem que vai fazer tempo ruim; quando o céu é amarelo, dizem que o tempo está muito agradável. Viu que confusão mais doida? Tem adjetivo que nem cabe. Gosto muito de chuva e não acho nada feio. O céu também tem suas horas de choro. Eu mesma às vezes choro quando estou muito feliz e fico tão ensolarada nessa hora! Pois então o senhor veja, se até eu consigo ser feliz com os dois tempos juntos, o tempo só pode ser sempre bom. Mesmo quando fica instável, depois ele acaba sorrindo. O arco-íris é a maior prova disso: ele é mesmo é o sorriso do céu. Quando o sol vem mais a chuva, o que acontece é aquarela e mais nada. O tempo é arte, seu Zé.

Outra coisa. Quem toma conta do tempo podia aprender a dividir tudo bem certinho com todo mundo e dar um pouquinho de autonomia. Porque se no meio dessas coisas todas que ele é, cada pessoa puder ter e controlar o seu tempo, fica mais fácil resolver a vida de muita gente. Vejo os trem acontecendo, seu Zé. A minha mãe mesmo vive dizendo que queria que eu ficasse pequenininha por mais tempo, mas ela nem sabe que alguns tempos não voltam mais e isso não deve ser uma coisa triste. Ela pode sempre vivê-lo quando olhar nossas fotografias - pedacinhos furtados de tempo, como o senhor bem disse. Ou então basta fechar os olhos. O meu pai é outro: queria ter mais tempo pra levar a gente numa viagem nas férias, sem nem notar que todos os domingos ao seu lado são o meu melhor roteiro -  e nessa ocasião o tempo é uma festa. A minha avó queria ter mais tempo para conhecer os filhos que eu vou ter quando crescer, mal suspeitando que independente de onde ela estiver, estará também neles só pela herança que deixou arraigada em mim. E eu mesma queria ter mais tempo sobrando quando nos encontramos, só para fazer uma lista de suposições e questionamentos que o senhor sempre chama de poesia. Mas na poesia o tempo é sempre, né? Eu já sei. Na verdade, seu Zé, eu acho mesmo é que o tempo é poesia. E quem vai entender uma coisa dessas? Todo mundo queria ter mais tempo, mas ninguém nem presta atenção nele. Vai ver toda essa reclamação é na verdade porque ninguém entendeu ainda que pode fazer mágica. Cá entre nós, fora em situações muito inevitáveis, a gente acaba criando tempo, como num feitiço. Eu tenho até um segredo: atraso meu relógio quando é hora de amar e nem ligo. No amor é sempre tempo, seu Zé. Para o amor, o tempo sempre será.

Teve um dia meio esquisito uma vez, quando meu avô foi morar no céu e disseram que o tempo dele aqui já tinha acabado. Dizem que quem tem os cabelos branquinhos assim que nem o do senhor, é porque já viveu muito tempo. E se o tempo é algo que a gente vive, como então que ninguém para e faz um monte de pergunta a ele? Por que é que as pessoas falam que não dá mais tempo de fazer alguma coisa se tá todo mundo bem vivinho e sendo? O tempo é estar. Existe sempre um instante pra tudo, seu Zé. Mesmo quando não dá tempo, ainda dá. Isso eu entendi sozinha. E um fato que vem sendo muito conhecido meu é o seguinte: o tempo de ninguém é igual. O senhor, mesmo. Agora escolheu morar na roça e cuidar das suas plantinhas, mas a minha vizinha, que tem um tempo muito parecido com o seu, resolveu que agora era a vez dela de começar a ser tudo o que achou que perdeu. Não sei se estou explicando direito... Eu só queria que todo mundo entendesse que não existe hora marcada para que nada aconteça. E se na sua vez aconteceu de um jeito, na vez do outro pode acontecer tudo diferente e ser muito bom também. O tempo a gente é quem faz, seu Zé. Agora entendi foi tudo.

O tempo é sempre uma vantagem. O que aprendi muito com meu avô foi que, uma das mais bonitas vantagens do tempo que passa, é que podemos guardar tudo o que passou aqui, bem dentro da gente. Daí tudo fica. É nessa hora que nos enchemos de vida, seu Zé. Eu enxergava direitinho nos olhos dele todo mundo que ele foi no tempo antigo. Cada história que ele jogava pra dentro de mim, era um jeito de me presentear com um pouco do seu tempo. O senhor não acha maravilhoso o fato de que sejamos assim, cheios de tempo de ontem para espalharmos pelo tempo que ainda virá? As minhas idades todas estão aqui, bem guardadinhas dentro do que eu sou. Essa é outra vantagem do tempo: podemos ter a idade que quisermos, pois elas seguem em quem somos. O tempo do meu avô, seu Zé, hoje mora no meu coração. Tudo fica e ele fi(n)cou. A cada vez que falo sobre ele, tudo vira parte do meu tempo de hoje. Então a verdade mesmo é que o tempo de ninguém acaba, porque somos sempre continuação do que já aconteceu. O senhor concorda que também somos, nós mesmos, o tempo? Daqui a pouco, seu Zé, vou continuar também o senhor e alguém vai continuar nós dois quando tirar um pouco do seu tempo para ler essas nossas palavras.

O tempo é contínuo. E só somos assim, tão eternos quanto ele, porque sempre haverá alguém levando um pouco dos nossos contos. Dos nossos casos. Sempre existirá pelo menos um coração onde seremos infinitos. E nesse infinito, seu Zé, somos todos atemporais.