Acidente.

No balanço da rede, nessa noite muito fria, resisto tentando olhar o céu. Lua cheia em Peixes e samba demais nas minhas melodias. Cinco meses de quarentena, várias estações e um inverno que me joga para essa vontade de ter você aqui, debaixo do edredom, reclamando dos meus pés que nunca esquentam enquanto te agarro e entrego todos os beijos que andei acumulando. Crio planos silenciosos imaginando toda essa tua geografia, buscando a existência de um território a ser conquistado, numa intenção abusada e anunciada de habitar um pedaço do teu mapa que ainda não desenhei, mas rascunharia cuidadosamente, com a ponta da língua e um carinho nos dedos. 

Não precisa ter medo, mordo devagar. Mas se você correr não irei atrás. O que sinto é agora, daqui a pouco eu talvez não caiba mais nesta f(r)ase. Aproveita enquanto te projeto assim, enquanto ainda não cansei de repetir as tuas cenas. Continuo a pausar naquela parte onde você sorri e suspira um desejo de estar em mim. No excesso de cinza dos dias, tuas cores me comovem. Se precisar de legenda, sinta a minha pele em braile. Tudo se explica com o toque. 

Entra aqui na minha jaqueta, aperta teu corpo no meu até que nossos hálitos se misturem, queimando essa poesia de nos fundirmos enquanto exalamos um vapor de você e eu, tão fugaz que me embaça os olhos. Atrás dessa cortina enxergo todo o não dito. Não use muitas palavras, pode se esconder nos meus cabelos. Segura a minha mão e me convida para fugir em cima de todas as horas, embaixo de intenções que leio nas suas necessidades confusas. Eu vim para complicar um pouco mais enquanto tento decifrá-lo. Meu desequilíbrio é irremediável. Sou perigosa, mantenha-se perto. 

Estamos trancados e loucos. Desaprendi meus jeitos de chegar, mas pode me desabotoar. No meu relicário algum achado pode refletir você. Me pega com cuidado e vê se não me deixa exposta. Me dê uma utilidade inevitável. Os próximos passos não precisam deixar marcas, imagina se a gente voa? Faz frio e eu resisto, tentando olhar o céu. Você aqui e talvez o verão caiba nas próximas horas. 

Meus caminhos andam congestionados de você. Por mais que eu tente desviar, findo esbarrando na tua rota. Decidi acelerar e tirar os freios, então. Sigo em sua direção. Não tenha cuidado, boy.

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6 comentários

  1. Que texto bonito de se mergulhar ou, melhor ainda: por meio do qual se levantar voo! E que saudade de voar...!

    Você sempre nos encanta, Jaya. E eu sempre agradeço. Muito obrigada, mesmo.

    E que passe logo, né, estes tempos sombrios e torturantes. Tá difícil saber quanto mais disso a gente aguenta.

    Um abraço enorme pra ti, continue escrevendo e fique bem!

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  2. Jaya minha amada,
    Sua essência é tão doce, que anda congestionada de levezas.
    Como é bom te ler. Você dança com a vida.
    A gente pode decidir por muitos caminhos nesta vida...uns mais fáceis, outros bem mais complicados...e diante de tantas escolhas, é preferível ir prosseguindo pelo caminho das doçuras, dos sorrisos, do olhar mais terno que conseguirmos..
    Te beijo daqui

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  3. Fiquei foi besta. Uma pessoa veio a minha mente em várias partes desse texto. Percebi que tô fudida. Ou quase. Você sempre dizendo o sentir de uma forma linda demais. Sou muitomuitomuito tua fã ❤️

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  4. Eu amo que a tua prosa tem um "q" de então-vou-me-jogar-e-fodasse-porque-é-tudo-que-eu-tenho-agora. A-g-o-r-a. E a gente vai junto, pra muitos lugares.

    Que sorte esse acidente que te colocou na minha vida, minha amiga. Sou seu fã.

    Te abraço enorme.

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  5. Eu li, mas confesso que foi de perder o fôlego. Menina, este texto tem uma urgência sabe, esse tipo de declamação que costumo ver em suas letras, quase um imediatismo de desejos que se fundem, acalentando aquelas texturas de amor que ainda efervescem o peito. Eu consegui imaginar todos os detalhes, porque você põe de uma maneira tão, tão real. O amor desenhado no céu, livre, que voa solto, sem amarras. Confissões que são, apenas. O que mais a gente quer é se acidentar assim. A cura vem logo rsrs
    Você é perigosa. Perigosamente talentosa.

    Beijão amiga! =)

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  6. Eu tô lendo um livro fantástico de Manoel de Barros, onde ele conta o que é ser poeta. E eu lembro de você o tempo todo. Porque quando eu leio um texto como esse, eu fico pensando que é muito incrível o que você consegue fazer colocando palavrinha com palavrinha e formando o que Cris Lisbôa chama de "cordão luminoso chamado frase". E aí tudo termina de brilhar, formando textos como esse.

    Manoel de Barros disse que "só os poetas podem salvar o idioma da esclerose". E é muito isso que você faz todas as vezes que senta pra escrever qualquer coisa. Você salva o idioma. Sorte minha.

    Eu sei que tô atrasada, mas é que eu não tava conseguindo sentir o inteiro.

    Um beijo com vários tons de saudades,

    Ty.

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