Problema seu.


É perigoso, João, amar alguém que escreve: haverá sempre uma poesia pronta para ser jogada na sua cara. Só não é tão perigoso quanto a audácia de amar uma mulher livre, com os sentidos aflorados, que gosta de cerveja muito gelada, músicas antigas, sorrisos abertos, livros antes de pegar no sono e pessoas de coração bom. Essa mulher não caberá na sua história, João, mas você insistirá em tê-la, talvez por vários motivos tão banais quanto a vida que você leva, mas principalmente por nunca ter visto de perto uma mulher assim, recheada de tudo o que você precisa. Ela não é para o seu bico, João, mas a autoestima do macho hétero é mesmo algo espantoso e quem sabe ela caia na sua lábia de rapaz mediano que leu algumas poesias enquanto driblava o vício em pornografia.

Não pense nem por um segundo, João, que você irá enganá-la. Nunca esqueça que o poder de uma mulher vai sempre além. Ela sabe que você aumenta histórias, conta mentiras, não consegue debater sobre coisas sérias sem posar de vítima e coloca uma maquiagem pesada dentro de toda a sua insegurança, como se, por exemplo, a quantidade de mulheres que você já levou pra cama um dia realmente significasse alguma coisa. Não precisa impressionar, João. Quando uma mulher decidir que vai dar para você, não precisará de motivos: ela só quer gozar. Basta que você saiba comê-la. Uma dose de prazer e a vida segue, não se emocione.

Ela vai deitar na sua cama, João, como ninguém nunca deitou antes. Vai te fazer sorrir um futuro que você nunca imaginou ter. Essa mulher não pode escapar, João, mesmo com tanta estrada. Ela vai se entregar antes de você, porque é assim, decidida, e reconhece paixões. Ela vai transbordar, João, sem ligar ou não se você vai dar conta. Você vai dizer eu te amo, ansioso e imbecil, de um jeito que nunca foi, e ela vai te beijar. Você vai enlouquecer, chorar e encenar. Ela nunca fará representação alguma dentro da sua autenticidade. Ela vai sacar sua carência e necessidade de amparo afetivo. Vai tentar suprir a qualquer custo todas as suas faltas. Ela vai te ensinar sobre amor, doação, confiança e cumplicidade. Em troca, você vai tentar partir seu coração ao meio dizendo palavras nocivas as quais nem mesmo você estava ainda preparado para acreditar. Mas ela vai voltar.

Você vai desaparecer por algumas horas deixando-a sozinha numa cidade estranha. Ela vai voltar. Você vai deixá-la de escanteio e dançará com outra pessoa numa festa para a qual ela foi ainda doente. Ela vai voltar. Você vai deixá-la vulnerável e traumatizada e sentindo uma culpa inexplicável por algo que ela não conseguirá entender. Ela vai voltar. Você vai mandar mensagens desejando algumas amigas e ela vai ler. E voltar. Ela vai saber que você foi atrás de absolutamente todas as suas ex-namoradas. Ela vai voltar. Você vai gritar com ela no meio da rua de um jeito tão grosseiro que as pessoas ao redor vão se assustar. Mas ela volta. Vai perdoar. Vai sofrer por coisas piores e/ou parecidas e vai voltar. Vai sofrer com um tratamento tóxico causado por pessoas próximas a você. E voltar. Ela vai ter crises, gastrites e insônias. E vai continuar voltando.

Ela vai cuidar de você, João, porque você repetirá todos os dias que ela é a coisa mais importante da sua vida. Porque você dirá, com os olhos cheios de lágrimas e olhando no fundo dos olhos dela, que você nunca irá machucá-la. Porque você vai falar de amor e sobre como é encantado por ela e tudo o que ela ressignificou na sua história. Porque sabe-se lá como, você conseguirá fazê-la acreditar que será doce e para sempre. Porque vocês planejarão um futuro e já terão escolhido o nome do primeiro filho. Porque todas as pessoas ao redor vão olhar e sentir que ali existe um casal que será eterno e que saberá dar uma utilidade bonita ao amor. Mal sabem, João, que as palavras não terão tanto sentido assim, uma vez que suas ações não casam. Mal sabem que grande parte de tudo nada mais será do que um gaslighting sutil, que ela não conseguirá identificar tão rápido assim.

Ela sempre voltará, João. Em um momento obscuro, ela quase irá embora de si mesma e você ficará perdido e abraçado a um medo diferente. No entanto, deixará que ela mergulhe enquanto você vai se retirando de dentro daquele mar de novidades pesadas. Na pior fase da vida dela, você resolverá que o mais certo será agir como louco, que será mais interessante ter um surto, que será mais educado falar palavras feias e doentes. Mas... Calma aí, João, existe um limite! Dessa vez ela, surpreendentemente, não ficará. Ela terá coragem, João, de ir embora. E irá. Você não imaginará que ela ainda terá esse poder, mas ela voará. Asas assim nunca se atrofiam, João, olha quanto céu! Ela irá embora e você tentará culpá-la, claro. Você vai enumerar desculpas para justificar uma retirada típica de um boy lixo, entregando a ela o extrato de uma conta cujo saldo nunca baterá. Não existirá lógica, João. Todas as culpas serão suas, exceto aquelas que ela assumirá, mesmo quando chegar ao ponto de ser extremamente venenosa ela mesma, como naquela vez onde pedirá que você exclua alguém da sua vida. Tudo o que dará errado, João, será você. Você é o cara errado, João, talvez devesse ser interditado.

Essa mulher, João, cuidado, vai escrever sobre você. O primeiro texto você vai mostrar a todo mundo. Vai dizer, completamente incrédulo, por todos os lados, sobre uma mulher foda que apareceu na sua vida, que é diferente de tudo o que você já viu acontecer ao seu redor, que renovou em você a capacidade de ser feliz, que abriu em você caminhos azuis e saiu plantando poesia dentro de uma alma que já não acordava. Ao lado dela você vai elaborar uma planilha de sonhos. Você vai contar sobre essa mulher e vai amá-la todos os dias da sua vida. Vai amá-la com uma dor e um arrependimento fodidos por ter vacilado com uma pessoa que, você bem sabe, João, não vai mais encontrar por aí.

Ela, do outro lado, vai jogar numa mesa de bar, no banco do carro, no balanço daquele café novo que abriu, na beira do mar, na cama com o celular na mão, e principalmente, numa sequência infinita de textos, rascunhos sobre um João que ela conheceu há alguns anos. Ela vai jogar e vai se esvaziar. Vai derramar você por aí, João, até secar o que ainda não sabe por onde escorrer. Vai dizer que um dia percebeu o coração desarrumar e o êxtase de sentir foi tão maluco que se apaixonou perdidamente pela ideia de estar apaixonada. Vai dizer que amou e que só foi bonito porque ela escrevia. E vai sorrir enquanto engole recomeços, zombando da cara dos casais ao redor, enquanto diz, ainda sem saber se acredita, que todos têm um João na vida: um macho hétero que acaba sendo escroto em algum momento (ou vários); que conta mulher como vantagem; que diz ter alguma ex-namorada louca; que leva para o relacionamento e despeja em você traumas, sentimentos mal resolvidos, medos e transtornos; que pega você pra fazer papel de pai, mãe, irmã, terapeuta; que suga todas as suas melhores qualidades e nem sequer consegue te dar um orgasmo por semana.

A vida é mesmo ingrata, João. Às vezes sentimos que as coisas vão desabar e saímos de perto antes que tudo caia em cima das nossas cabeças. Acontece que, também às vezes, existem mais pessoas debaixo daquele teto. Pessoas essas que talvez não façam muita ideia do que pode desmoronar, pois enxergam apenas as rachaduras mais superficiais. Salvar vidas é importante, João. Você não entendeu, entrou, pegou suas insignificâncias e no final bateu a porta, deixando tudo ceder em cima de quem ainda estava lá dentro: o amor. Ele não sobreviveu aos entulhos, João. Ela sim. É importante que você saiba disso.

Ela escreve, João. E você, vê se não fode.

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14 comentários

  1. Puta que pariu. Não tem outra expressão pro seu texto. Você vomitou, uma parte importante do que é preciso entender e aceitar pra deixar ir, deixar escorrer mesmo sem saber por onde, não é? Tudo que vem de vc é forte, é lindo e mexe lá dentro, e coincidentemente sempre vem em momentos em que a gente precisa ler aquilo pra refletir sobre nós mesmos. Não te descobri do nada, dona moça, tenho certeza disso. Mesmo doendo, você consegue ser linda se expondo assim. Sou completamente apaixonada por tudo que vem de você. Obrigada por escrever. E o João, ah, ele que se foda sim. Um beijo.

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  2. Impecável! Estou sem palavras. A única coisa que eu consegui fazer, depois que terminei de ler, querida Jaya, foi compartilhar esse texto no meu Twitter. Porque essas palavras precisam ser lidas por todos. Esse tema é sério e atual. E tu conseguiste escrever com extrema delicadeza e sensibilidade.

    Uma belíssima semana.
    Beijinhos...

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    1. Aline,

      Eu fico sempre muito feliz quando você vem aqui e sente tudo desse jeito tão bonito. É tão bom poder falar sobre essas coisas e ser entendida e aceita. Obrigada por me motivar a seguir!

      E olha, não estou conseguindo comentar no seu blog. Você fechou pra comentários?

      Um beijo.

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  3. eu só consigo pensar em uma coisa lendo esse texto perfeito: MEUDEUS, COMO ELA É FODA!

    esse texto é carregado de uma força incrível de acompanhar. eu quase consigo pegar, de tão presente. você, se esvaziando desse tanto, derramando tudo isso, se libertando. você, sendo livre. você ACONTECENDO! não tem nada que acalme mais o meu coração.

    "Olha quanto céu!", amiga da minha vida! Bora voar!

    amo você.

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  4. Jaya, você escreve muito bem. Bem pra cacete, mesmo! As frases se confundem, se completam, se satisfazem. E agente leva um soco na cara. Um cuspe no nariz.

    João... Parece que sou eu. Mas ao mesmo tempo eu sou a mulher forte do texto. Precisamos ser.
    Eu absorvi tudo. Tô tentando entender, ainda. Vai levar um tempo, eu sei!

    Amo entrar aqui e te ler...

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  5. Você desnuda todas as minhas dores passadas. Hoje eu "tento" dar o melhor de mim pra dormir em paz; com ou sem lua. Eu faço o meu céu.
    Você linda, intensa e delicada. Forte e frágil. Muito mais forte do que frágil. Ahhhh moça, se eu pudesse lhe dar alguma coisa da vida, lhe daria a capacidade de ver a si mesmo através dos meus olhos. Só então você perceberia como é especial para mim e pro mundo.
    Queria te abraçar bem apertadinho,
    Beijos daqui

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  6. Eu li esse texto assim que você postou. Fiquei sem palavras. Doeu em mim. Senti tudinho. Parecia um filme passando na minha cabeça com personagens bem conhecidos, pra mim.
    Como é leve quando a gente voa de uma vez por todas. Tomara que a gente ainda se encontre por aí, nesse imenso céu azul, num voo lindo.

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  7. Consigo nem descrever o quanto esse texto me deixou impactada.

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  8. É perigoso, é...
    E eu que o diga!

    Saudações poéticas!

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  9. Jaya minha querida!
    Que texto!
    Que profundo!
    Um relacionamento deveria trazer paz... Mas vemos por aí tantas tempestades.Tantos barcos que se permitem naufragar sabendo que o mar está a lhe fazer buracos na polpa. É tão importante que esses barcos saibam que tem a força suficiente para remar para longe desses mares revoltos.
    Eu não teria estômago para engolir um João desses, e não tive...
    "Até que um dia aquele passarinho aprendeu a abrir as trancas da gaiola, e voou. Fugiu do amor pequeno que o prendia, e ganhou a imensidão do céu. Fugiu da frieza das grades que o cercavam, e ganhou o carinho quente do sol. Fugiu do pouco, ganhou o mundo.
    Voa pra longe passarinho, voa alto coração!
    Há de encontrar outro a voar também, e um ninho numa árvore bela. Porque do ninho pássaro também voa... E amor de gaiola tira a vontade de cantar." (Agosto de 2016)

    Graças aos Céus que fugi... E agora encontrei com quem voar!

    Abraço apertado Jaya!!

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  10. Caramba.

    Sério, caramba.

    Que texto, que força, que recado! Que bom seria se os João todos entendessem, de uma vez por todas...

    O final foi o melhor, eu adorei, haha!

    Parabéns, Jaya. Você é maravilhosa.

    Sobre empoderamento feminino e "reconstruções", posso te indicar um canal? Talvez você até já o conheça, mas vale deixar aqui o link: https://www.youtube.com/channel/UChgY3VJqic8v0OI9FG45alQ

    Abraço enorme, querida.

    Fique bem, mantenhamo-nos incríveis sempre!

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  11. É triste, mas tem uma Joana por aí também. Mora comigo.

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    1. Te desejo sensibilidade e assertividade para conseguir contornar essa situação, Bruno.

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