(Car)regar.


Estar na estrada sempre foi uma rotina em minha história. Quando meus pais se separaram, eu era ainda muito menina — tanto que não levo nenhuma herança dos dois juntos. Dentre minhas escassas lembranças da primeira infância estão a de estar indo para/ voltando de alguma cidade, tendo em vista que, após a separação, minha mãe e eu mudamos de município. A memória mais antiga que tenho dessas viagens, é a de estar no fusca de meu pai, bastante enjoada. Cresci viajando e dando trabalho nas estradas por conta da cinetose e ansiedade. Estávamos sempre acompanhados, eu e meu pai, ora da minha avó, ora da minha madrasta: era sempre necessária uma presença para auxiliar minhas inconstâncias. Chegar era um regozijo, mesmo sofrendo um pouco nos trajetos.

Os anos passavam e a distância continuava presente. Meu pai mudou de estado e as viagens ficaram mais longas e exaustivas. Da Bahia para Minas, parávamos para dormir na estrada, eu agora com idade suficiente para tentar me cuidar, acatando dicas para não passar mal, uma vez que a medicação sozinha nunca funcionava. Vá no banco da frente, leve um limão para cheirar, não olhe pelos vidros laterais etc. Apesar do desconforto, ter meu pai naqueles momentos só nossos, inventar brincadeiras para o tempo passar mais rápido, cantar músicas, contar histórias, dar risadas, sentir o carinho e um pouco de preocupação misturados ao maior cuidado do mundo, me fazia ter coragem e ânimo para enfrentar quaisquer percursos longos demais. Tudo aquilo marcava em mim silenciosos sintomas de amor demais.

 

A felicidade em chegar, nos últimos dias já dava espaço à tristeza, pela proximidade da hora de partir. Sempre dei um jeito de camuflar os apetrechos e colocar as roupas no meu quarto ou no guarda-roupas do lugar onde ficava hospedada. Tentava esconder todos os possíveis vestígios de efemeridade, mesmo quando vez ou outra dava de cara com a mala ou a mochila ali, me lembrando que os prazos eram curtos e abrindo pequenas rachaduras em meu coração menino. Coração esse que ainda não sabia o tamanho imenso da distância que se daria em seguida, com meu pai voltando à Bahia depois de anos, e minha mãe, comigo, cruzando o país para uma nova vida em Roraima. 

 

As viagens norte-nordeste passaram a ser de avião, mas ainda tão demoradas quanto as anteriores. Aos dez anos de idade, encarava pela primeira vez, sozinha, doze horas de viagem com conexões e esperas. Os efeitos da cinetose? Pioraram. A diferença estava no fato de que as datas para voar passaram de feriados e férias de meio do ano para apenas o período das festas/férias de final de ano. Chegava de Roraima, passava as comemorações na casa de meu pai, depois pegava estrada para visitar os parentes maternos, divididos em outras duas localidades, e voltava para o pai com o choro engasgando a proximidade do adeus. As despedidas ficavam cada vez mais difíceis. Eu chegava sozinha. Voltava sozinha, mas com a bagagem sentimental transbordando — fui aprendendo a colocar nas minhas malas todos aqueles momentos que não eram fotografados.

 

A vida foi acontecendo e me vi de volta ao encanto da minha baianidade, com parte do coração permanecendo em Boa Vista. Aproveitei o retorno e saí pelo Brasil catando abraços em alguns cantos até então desconhecidos. Reconectada de vez ao tom do meu lugar, como se não bastasse, inventei de sustentar um romance à distância que me levava quinzenalmente à capital, onde acabei me fixando — sempre com a alma acordada em peregrinações. Anos depois, Salvador virou poesia e voltei às minhas raízes. A mala o tempo todo ali, quase ao pé da minha cama, em sua pose de amuleto, aguardando a próxima rota. Entre aeroportos e rodoviárias, sempre multipliquei o que senti enquanto me dividia. Essa mala que já foi travesseiro, cadeira e mesinha de centro. Que já foi extraviada. E que nunca deixou de me preencher, a cada vez que sento no chão para esvaziá-la. Pedaços essenciais do que me compõe, ela que trouxe.

 

A minha mala me carrega. 

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1 comentários

  1. A vida é mesmo uma viagem, literalmente.
    Mesmo com todos os desconfortos, estar com quem
    se ama é uma dadiva divina.
    Essa mal carrega preciosidades para sua vida inteira.
    Feliz de estar aqui.
    Beijos meus

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