Chega de saudade.

20:26



Não foi ontem que se escutou o decolar do avião no aeroporto ao lado. Não foi uma daquelas lições de despedida. Não foi. O avião partiu com um pedaço de coração, mas não desgrudou nada ali dentro. Não teve olhar o céu, não soube fazer o adeus. Ou talvez só quisesse enganar o coração deixando-o continuar a fantasiar presença.

Já era escuro. Nem estrelas apareceram naquela noite, em meio àquele verde que já dividiram. A ausência rompeu no instante, trouxe consigo aquela áurea de incompletude. Ele não estava ali. Não está. Partiu. E minha parte?

Amar a madrugada não ajudou a fazer dela uma festa. Chuviscou. Nem a natureza funciona direito em meio à clareza da distância. Nem o coração.

Nem é só pelo ombro que entendia os suspiros. Pela sensação de almas abraçadas, pela paz que vinha e ia embora de repente, pelo sorriso que se levava e se devolvia, pelas seriedades e palhaçadas. É mais pela noção do bem tratar. Do macio que era entregue ao chão, do conforto da voz. Perfis desenhados quando a tela do cinema iluminava os traços. Era a noção de presença. Suporte. Amizade.

- Cadê você que não está? – foi a pergunta lançada. E não veio resposta.

Tomar de lembranças pelas mãos. Se acontecer um aventurar na roda-gigante como daquela vez, e um balbuciar de nomes lá de cima, não vai haver sorriso bonito do chão, e espera. Então resta o recordar de quando o tempo escapava por entre os dedos enquanto as afinações fundiam-se em músicas únicas.

Lembrar. Um. A dois. Os dois. Só. Um conto deles. Uma ilustração do laço firme que não sabe mais desamarrar. Um sonho possível.

Uma vontade dividida com Tom e Vinicius: acabar com esse negócio de você viver sem mim. Vamos deixar desse negócio de você viver assim. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim.Permanece a certeza de dividir um pouquinho de mundo entre eles.

O ombro. Abrir-se. Seus abraços.

Desembarque.

You Might Also Like

23 comentários

  1. Oi, moça!

    De blog em blog vim parar no seu, e não posso sair sem elogiar essa sua forma leve e poética de escrever. Seu post me envolveu do início ao fim, por ser rico em detalhes e rebusacdo nas palavras! Parabéns, mesmo! Voltarei mais vezes! :)

    Beijos e boa semana fria!

    ResponderExcluir
  2. Obrigado por me avisar, Jaya! Também ando numa correria tão grande que às vezes demoro a passar por aqui.
    Mas, quando venho, fico um bom tempo, recuperando os posts perdidos.
    E sei que sempre saio bem mais leve, suave como uma pluma.
    Bjooooooooooooossssssssss!!!

    ResponderExcluir
  3. assim que eu gosto! você escrevendo textos lindos de novo!
    muito lindo...
    quanto ao template, se você quiser mesmo mudar a gente pode achar uma imagem nova, usar um outro template, sei lá... no momento tô meio ocupada por causa do tcc e das provas que estão chegando. mas quando te encontrar no msn a gente se fala melhor!
    beijos!

    ResponderExcluir
  4. Ei!

    Mais uma vez me encontro nas suas palavras e percebo que você entende tanto do meu universo e das minhas angústias que resolve até escrever sobre mim, rs. A vida é cheia desses desencontros chatos. E eu não sei se o avião realmente parte e se o que resta é apenas fantasia. Se for, pelo menos ficam os sonhos tão bonitos. E de sonhos também vivem os humanos. E as lembranças são a melhor parte. Resta como brincadeira na alma da gente. Dói um pouco, mas arranca suspiro e traz o sorriso de outrora. Lembrança é saudade. E saudade é uma espécia de velhice, como diria Riobaldo.

    Obrigado pelo prazer de ler você novamente. Como lhe disse, isso me trouxe alívio. Suas palavras me fazem bem, você nem imagina o quanto.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  5. Você sempre com o dom de escrever palavras tristes e, ainda sim, doces.
    Enxerguei-me nas entrelinhas do teu texto e senti a saudade da não prensença...
    Feliz, pois, o avião já está chegando e sei que ele irá desembarcar. Trazendo de volta estrelas e noites de luar.

    ResponderExcluir
  6. Algumas viagens são necessárias, outras não.

    beijos daqui...

    ResponderExcluir
  7. A dor da partida é esquecida após o desembarque.

    Beijos!

    ResponderExcluir
  8. Palavras que transportam ao interior da alma .. Curti e me identifiquei com a viagem !!
    Abraço, Jaya !!

    ResponderExcluir
  9. Oi, Jaya!

    Obrigada pela (também) visita, elogio e palavras tão doces! Vc é muito simpática! :)

    Sobre o cara do texto, bom ele existe sim, de certa forma. Sempre me inspiro em algo antes de dar asas à imaginação. Mas o cara em questão é meu noivo, xiii! hahahaha

    Voltarei sempre por aqui, já que teus textos também me encantam muito - andei lendo alguns deles! Pra isso, colocarei um link do seu blog nos meus favoritos, tudo bem?

    Um beijo!

    ResponderExcluir
  10. ...olá, Jaya, como vai? Pelas cifras do teu texto, percebo que há calma mesmo quando parece haver interferências constantes ao longo do caminho. Mas não é assim que a vida segue, desencontrando tudo e a todos, conectando alguns pontos que já se haviam perdido um do outro, abafando saudades latentes? É claro que nem sempre se pode viver no estado de vigília que precede o bom augúrio, contudo é fato que, se for com serenidade, no mínimo as coisas podem ser menos dolorosas (e quem sabe até belas?). Beijo carinhoso pra ti, querida (e sempre obrigado pelas palavras tão doces...)...
    PS: e não, não tem importância. Você pode pegar o que quiser lá do mundo...

    ResponderExcluir
  11. Oi, Jaya!

    Pode me chamar de Mi, sim! Aliás, é só como gosto que me chamem! Michele é para os momentos das broncas... trauma de infância, sabe como é! hahaha

    Aguardo um novo textinho de linhas tão bonitas por aqui! :)

    Beijos todos, Já! (E eu, posso te chamar assim?)

    ResponderExcluir
  12. 'Uma vontade dividida com Tom e Vinicius...' ótimo isso.

    Adorei o nome do teu blog.
    =D

    ResponderExcluir
  13. Teu texto é muito bom de ler! :D

    Aliás, a-d-o-r-e-i o seu blog, menina! Os posts são muito bons. Certeza que eu volto aqui mais vezes :)

    Beijo.

    ps: tbm tenho um blog, a propósito, é o www.caralimpa.wordpress.com

    Vou te add por lá ;)

    ResponderExcluir
  14. Oi, Já!

    Vim avisar que indiquei seu blog para alguns mimos, mas acho que vc já tem todos! Vc é muito premiada, gente! hahaha

    Beijocas!

    ResponderExcluir
  15. Que bom que vc gostou dos selos, querida! :)


    Aproveite o fim de semana! Ao menos o sol deu as caras por aqui, quem sabe continua assim? hehehe


    Beijocas,
    Mi

    ResponderExcluir
  16. andando por aí, acabei encontrando seu blog...
    adorei!!! adorei a forma como escreve, como é envolvente, e os assuntos...
    realmente adorei!!!
    e lindo o texto... me senti emocionada ao final...
    parabéns ;)

    ResponderExcluir
  17. Oi Jaya, poderia dar uma passada pelo Imperfeito ? Tem presentinho para voce lá. beijo

    ResponderExcluir
  18. jaya, eu fico pasma de como você encontra as palavras que eu não sei dizer. essa sensação conhecida ai do post, tão familiar... parece q vc fala por vários.

    ResponderExcluir
  19. ai, esses comentários excluídos são meus. pc de faculdade é uma maravilha :P

    @ sobre o item da lista, socializar e tal, pra mim é super difícil. nem sei como tenho amigos e namorado hehehe.

    bjones.

    ResponderExcluir
  20. Jaya....!!!

    Senti junto com vc a saudade apertar o peito.
    E o avião lá, longe, levando os abraços não dados pro céu...

    É, dói... Mas no seu caso, dor bonita de se ler.

    Bjs!!

    ResponderExcluir
  21. Jaya querida que escreve com o coração. Sabe aquela frase né: Quem inventou a distância não conhecia a saudade.

    Tem gente que tem a capacidade de levar metade da gente consigo. Você carrega um pouquinho de mim em todas as tuas palavras. Tuas palavras falam por mim.

    liiiiinda
    :)))

    ResponderExcluir
  22. O desemparque às vezes é até bom, por mais que doa e/ou seja difícil. Mas o fato é que nós precisamos aprender a nos rompermos; como um grito de liberdade, ainda que vez ou outra encontremos uma teia de aranha. Sorte que temos os panos que vezes nos servem para tirar o pó, ou para cobrir nossa alma como numa atitude de defesa, de amor a si mesmo. E acho válido sim! Foi lindo, lindo! Bjos e chatices!

    ResponderExcluir