16 junho 2008

Durma, medo meu.


Já havia temperado meus sonhos com teus melhores sorrisos. Era um gosto bom. Mas a vontade derreteu-se na chuva. A vontade poderia ter sido amor. A chuva? Qualquer coisa que dançava em ritmo de saudades. Me fazia pensar nesse vento de toda hora, que chega sussurrando histórias e espalhando afeições. Aí depois, quando bem entende, leva tudo embora. Só não leva embora o medo. Esse medo que faz da coragem um eclipse.

Tudo ficou escuro do lado de cá. Me perco nesse deserto de nós dois. Escutam-se rumores de um final que ainda não quer se convencer. As imagens ficam desbotadas e eu deixo as palavras repetidas se perderem, soando tão ocas. Repito você. Não tem mais ninguém para preencher esse vão que minhas mãos faziam, como se através desse gesto desatasse todos os meus nós.

Me contaram que um mundo teu existe. E existe dentro, em mim. O medo chega a quase adormecer com essa noção. Meus sentidos se desmontam. Minha alma amanhece essa noite morena, teus olhares pousam em meus movimentos, e nem se sabe mais onde mora o vazio dos abraços. Me embalo ao teu som, entre esse cafuné delicado em meio aos meus cachos tão inconstantes quanto minhas palavras. Seus dedos parecem beijar meus cabelos, enquanto eu só sei pensar em enfeitar você. E o medo ali, observando através dos olhos meus.

Minha confusão descabida chega a achar que o medo não vence. Não estamos sós. Parece que assim, juntinhos, você cabendo em meu espaço e eu me encaixando no teu, dublaríamos paixões do nosso próprio filme. Fico pensando em te convidar a voar perdido comigo.

Enquanto isso, mantenho esse campo de idéias inefáveis, onde estrelas e vaga-lumes se confundem, ali, num cantinho escondido, que visito desacordada. Sabe? É como naquelas fábulas que ainda não escreveram. Não escreveram porque ainda não vivemos, e o livro é nosso.

Queria dizer chega para tanta suposição de céu. Deixar o medo eternizar seu sono. Já não tem graça enxergar o amor como uma miragem.