Escrevo.

A primeira lembrança que salta quando procuro explicar a palavra em mim, é a de estar cercada de livros, canetas, lápis, revistas, papéis e um aparelho de telefone antigo ao lado. Tudo isso na casa de vó. Não recordo a idade, mas lembro que ainda não escrevia: rabiscava folhas e mais folhas, simulando letras e preenchendo páginas em branco. Casualmente, atendia ao telefone sem linha, como se fosse uma pessoa muito ocupada, porém sem jamais desviar a atenção dos meus papéis. Esse processo às vezes durava horas — e assim eu era feliz, brincando de redigir. 

 

Me alfabetizei aos quatro anos, já então sabendo ler e escrever. Minha relação com a literatura se dava desde muito antes, mas quando fui capaz de decifrá-la, passei a entender os livros como pedaços muito mais preciosos. Era o mais novo e mais fácil jeito de passear sem precisar me levantar do sofá. Sempre encontrei em casa uma fonte de estímulo para aprender — vó, pai, mãe, todos professores. Sempre existiram prateleiras de exemplares diversos ao meu redor. Quando finalmente me vi senhora das minhas palavras, comecei a sonhar também com a minha estante, montada com as minhas escolhas. Todos os livros ganhados era guardados numa grande pasta vermelha, naquela parte da estante que poderia ser trancada com uma chave. Era meu tesouro. Meu cuidado. Se me demoro nas recordações, consigo sentir o cheiro da madeira daquele espaço reservado para depositar meus companheiros de jornadas.

 

Novamente na casa de vó, depois de muito insistir para usar sua máquina de escrever, fui atendida — agora eu já sabia o que fazer. Queria organizar tudo sozinha: rolar a página, padronizar a fita, sentir o aroma das misturas. Passei os primeiros minutos admirando as letras nos ganchos de ferro, assimilando o movimento de apertar o dedo na tecla para ver o salto até o papel. Pedi um livro para que pudesse copiar frases e alimentar a lauda. Achei complicado digitar, acabei desistindo em algum momento. Não conseguia exibir aqueles barulhos bonitos que ouvia quando alguém batia um texto inteiro. No computador era muito mais fácil, aprendi a usar os demais dedos além dos indicadores, praticando em trabalhos escolares e aplicativos de mensagens instantâneas. Todavia, ainda hoje sonho ter uma máquina de escrever.

 

Pouco depois da alfabetização, paralelamente à leitura, comecei a ser presenteada com diários. Logo dei a eles todos bastante utilidade. Todo final de ano, o primeiro item da minha lista de presentes era um diário/agenda. Assim narrei todas as minhas histórias até completar os catorze anos. A vontade de escrever ainda pulsava enquanto recebia elogios pelos textos produzidos nas aulas de redação e nas felicitações para os amigos. Descobri na Internet os blogues. Fiz o primeiro, não era divulgado, sentia como apenas uma extensão do antigo diário, acrescido de análises críticas dentro do cotidiano adolescente. Numa nova plataforma, agora aberta ao público e com novas vivências e descobertas literárias, sem nem perceber, estava escrevendo crônicas e recebendo comentários dentro de um estilo que chamavam de prosa poética. Todas as influências absorvidas iam moldando aquelas letras até que, numa publicação em outro espaço literário, alguém disse ter identificado ser meu aquele texto, já no primeiro parágrafo. Foi quando tive a sensação ilusória de ter descoberto minha própria identidade. Nunca mais parei — de escrever e de tentar descobrir.

 

Para muito além de preencher páginas em branco, escrever sempre foi um processo terapêutico. Não consigo me distanciar das letras, me coloco teimosamente em todas as pontuações. Para uma pessoa que cresceu vivenciando uma infância e adolescência bastante introvertidas, a escrita adquiriu o status de poderosa forma de comunicação. Muitos assuntos difíceis e inevitáveis de épocas importantes foram tratados por e-mails. Dos amigos de infância, guardo ainda hoje as cartas trocadas. Prefiro mandar uma mensagem escrita a atender uma ligação telefônica. Li uma vez uma entrevista de Gabriel García Márquez, a quem carinhosamente chamo de Gabo, e ele dizia: “sou escritor por causa da timidez. Minha verdadeira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. De qualquer maneira, as duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde que eu era criança: que meus amigos pudessem me amar mais.” Senti como se houvessem aberto meu coração e fotografado. Caminho por esse mesmo lugar de amor, sem nenhuma pressa, de modo que, distraída, um dia publiquei um livro. Para presentear os meus. Para poder estar, materializada, nos dias onde não posso entregar meus braços. Escrevi para abraçá-los.

 

Escrevo pela poesia e também por não saber desenhar. Porque escrevendo viro eu mesma aquarela. Escrevo para chegar, ainda que na grande maioria das vezes não saiba sequer para onde estou indo. Escrevo, sim, para que meus amigos possam me amar mais. Para ver nas palavras espelhos de mim. Para ser nas palavras o oposto de mim. Para ser. Escrevo, porque sou.

 

Escrevendo sou possível. Aconteço.

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6 comentários

  1. Eu estou chorando igual a uma criança, a criança no meio dos papéis e livros em casa de professor, a criança que começou a ler com quatro anos e que hoje escreve para ser possível. Quando vi pelo Instagram os trechos da postagem, contei as horas pra sair do trabalho e ler inteira no blog. Obrigada por acordar coisas lindas. Nada do que escrever vai dar a dimensão do que estou sentindo, mas é algo muito bom e muito grande.

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    1. Receber esse retorno de você é tão bom, Gabi. Me sinto muito abraçada por esse encontro. Obrigada. Muito obrigada!

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  2. passei pra dizer que SEMPRE que você escreve


    eu te amo mais.

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    1. Obrigada, rainha dos comentários lindos AND perfeitos!

      É recíproco.

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  3. Jaya, muito bom ter te conhecido primeiro por tuas palavras. Impossível não te amar sentindo todo o amor que você põe nelas.

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    1. Tu é tão bonita em tudo. Sentir que tu sente assim me faz sentir igual. Você é um presente!

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