Dezembro.

21:46

Eu sei que o tempo anda difícil
e a vida tropeçando
mas se a gente vai juntinho, vai bem.
Eu não sei se você sabe
mas eu ando aqui tentando
e a gente tem o eterno amor de além.

(Olha só, moreno - Mallu Magalhães)

Dezembro nunca foi um mês fácil. É a época onde algumas coisas vêm para a superfície e começam a latejar ao mesmo tempo em que os enfeites de Natal saem das suas caixas para enfeitar o mundo. Em dezembro meu coração sempre perde o compasso e a vida segue um tanto desafinada. Apesar de, você sabe que gosto de montar a árvore com a família reunida e retratar mais um momento de abraço e comunhão de amor, mesmo com a melancolia me absorvendo sem avisos.

Não durmo noites inteiras há algumas semanas, repasso a vida a limpo sempre que o ano vai chegando ao fim e às vezes não consigo segurar todo esse imenso peso de sermos. As olheiras denunciam essa insistência em fazer as contas de uma matemática que nunca terá lógica. A ansiedade não me deixa fechar os olhos e sonhar acordada é um desconforto do qual não consigo me desvincular. Esse ano foi mais difícil que todos os outros, mas poderia ter sido pior se não houvesse você para segurar todas essas ondas mais selvagens ao meu lado.

Obrigada por me ensinar um pouco mais sobre parceria. Por me dar forças para continuar remando. Por fazer sol em todos os dias onde chovi desprevenidamente e sem intervalos. Obrigada por me pegar pelas mãos e me levar por um caminho diferente enquanto improvisava um passo de dança no meio de qualquer rua. Obrigada por rasgar a seriedade do meu rosto com os melhores sorrisos que alguém poderia ter de mim. Por encostar tão perto do que sou, desse jeito tão seu, sem curvas, dispensando meandros, sabendo exatamente o que preciso para não atrofiar essas asas que insisto em preservar.

Obrigada por me abraçar sem deixar escapar nenhum pedaço - sinto toda essa proteção porque já entendi que o teu amor é o manto onde me sinto mais confortável ao ser coberta. Obrigada por tentar aprender sobre as minhas loucuras e não questionar tanto assim a falta de explicação para o que nem eu mesma consigo dizer. Obrigada por me apontar a direção quando todas as minhas bússolas falham. Por não me deixar desviar do tão cansativo caminho que insisto em seguir. Por acreditar em mim de um jeito tão bonito – saiba que às vezes você enxerga o que ainda nem sou e isso me motiva a tentar sê-lo, e acabo sendo. Obrigada por me ver tão grande, tão possível, tão vocêpodesertudooquequiser – porque às vezes esqueço mesmo e você é sempre esse espelho que insiste em me mostrar o melhor tom para existir. Eu te olho e a vida é boa de novo.

Obrigada por mais um ano lado a lado. Por aceitar a minha família como extensão do que sou e receber de braços abertos todas as coisas lindas que escolheram entregar a você. Obrigada por cuidar de tudo o que amo como se fosse também um amor seu – e alguns acabaram mesmo sendo. Obrigada por me mostrar porque decidi estar aqui. Porque continuo a escolher, todos os dias, estar aqui. Por deixar o meu copo sempre cheio, a minha boca sempre com um beijo e o meu corpo inteiro preenchido desse sentimento tão maluco e intenso que, mesmo quando oscila, eu ainda quero sentir. E sinto. Por você.

Obrigada por todos os dezembros que superamos, principalmente o último. Por todas as mudanças que vivemos juntos. Todas as crises que a vida real trouxe e que domamos de pés firmes. Essa nossa evolução a dois tem sido o maior aprendizado que já tive sobre todas as coisas da vida - e ainda assim não é nada, perto do tanto de mundo que nos espera. Obrigada por querer ser sempre mais, por você, por mim, pela gente. Obrigada por nunca deixar nada apagar essa sua luz tão intensa que me faz brilhar inteira. Obrigada por me aceitar e me permitir carregá-lo por todas essas estradas por onde tenho passado. O meu presente é você. Em todos os sentidos. Em todos os dezembros.

Eu te olho, meu amor, e esse tão incômodo último mês de todos os anos fica querendo ser um mês diferente, cheio de recomeços e histórias felizes. Penso até em enfeitá-lo com alguma poesia futura. Só por causa de você. Eu vou.

Atemporal.

17:26


Eu só queria era saber, seu Zé. Quem é que inventou esse tal de tempo? Porque se o senhor parar e pensar aqui mais eu, deve ter dado um trabalhão bem grande, viu? Repara bem: às vezes ele passa voando, como se estivesse apostando uma corrida muito importante. Não dá nem pra (vi)ver direito. Quando isso acontece eu fico meio angustiada, querendo ser bem rápida para alcançá-lo. Outras vezes ele parece que só quer descansar, aí fica quase parado, dando passinhos lentos, como se pedisse uma canção de ninar. Nessas horas eu imagino cá comigo que, se fosse possível, dava um impulso cheio de força para ele cumprir seus prazos. Não entendo o motivo desse tempo ser assim, tão indeciso. Por esses dias aí, ouvi um moço dizendo na rua que não teria tempo para ir ao aniversário da filha e logo sonhei: se tivesse alguém vendendo o tempo que não usa, poderia emprestar um pouco a esse moço. Seria um presente muito bonito, o senhor não acha? O tempo pode ser tanta coisa, seu Zé. Por exemplo. Quando chove, dizem que vai fazer tempo ruim; quando o céu é amarelo, dizem que o tempo está muito agradável. Viu que confusão mais doida? Tem adjetivo que nem cabe. Gosto muito de chuva e não acho nada feio. O céu também tem suas horas de choro. Eu mesma às vezes choro quando estou muito feliz e fico tão ensolarada nessa hora! Pois então o senhor veja, se até eu consigo ser feliz com os dois tempos juntos, o tempo só pode ser sempre bom. Mesmo quando fica instável, depois ele acaba sorrindo. O arco-íris é a maior prova disso: ele é mesmo é o sorriso do céu. Quando o sol vem mais a chuva, o que acontece é aquarela e mais nada. O tempo é arte, seu Zé.

Outra coisa. Quem toma conta do tempo podia aprender a dividir tudo bem certinho com todo mundo e dar um pouquinho de autonomia. Porque se no meio dessas coisas todas que ele é, cada pessoa puder ter e controlar o seu tempo, fica mais fácil resolver a vida de muita gente. Vejo os trem acontecendo, seu Zé. A minha mãe mesmo vive dizendo que queria que eu ficasse pequenininha por mais tempo, mas ela nem sabe que alguns tempos não voltam mais e isso não deve ser uma coisa triste. Ela pode sempre vivê-lo quando olhar nossas fotografias - pedacinhos furtados de tempo, como o senhor bem disse. Ou então basta fechar os olhos. O meu pai é outro: queria ter mais tempo pra levar a gente numa viagem nas férias, sem nem notar que todos os domingos ao seu lado são o meu melhor roteiro -  e nessa ocasião o tempo é uma festa. A minha avó queria ter mais tempo para conhecer os filhos que eu vou ter quando crescer, mal suspeitando que independente de onde ela estiver, estará também neles só pela herança que deixou arraigada em mim. E eu mesma queria ter mais tempo sobrando quando nos encontramos, só para fazer uma lista de suposições e questionamentos que o senhor sempre chama de poesia. Mas na poesia o tempo é sempre, né? Eu já sei. Na verdade, seu Zé, eu acho mesmo é que o tempo é poesia. E quem vai entender uma coisa dessas? Todo mundo queria ter mais tempo, mas ninguém nem presta atenção nele. Vai ver toda essa reclamação é na verdade porque ninguém entendeu ainda que pode fazer mágica. Cá entre nós, fora em situações muito inevitáveis, a gente acaba criando tempo, como num feitiço. Eu tenho até um segredo: atraso meu relógio quando é hora de amar e nem ligo. No amor é sempre tempo, seu Zé. Para o amor, o tempo sempre será.

Teve um dia meio esquisito uma vez, quando meu avô foi morar no céu e disseram que o tempo dele aqui já tinha acabado. Dizem que quem tem os cabelos branquinhos assim que nem o do senhor, é porque já viveu muito tempo. E se o tempo é algo que a gente vive, como então que ninguém para e faz um monte de pergunta a ele? Por que é que as pessoas falam que não dá mais tempo de fazer alguma coisa se tá todo mundo bem vivinho e sendo? O tempo é estar. Existe sempre um instante pra tudo, seu Zé. Mesmo quando não dá tempo, ainda dá. Isso eu entendi sozinha. E um fato que vem sendo muito conhecido meu é o seguinte: o tempo de ninguém é igual. O senhor, mesmo. Agora escolheu morar na roça e cuidar das suas plantinhas, mas a minha vizinha, que tem um tempo muito parecido com o seu, resolveu que agora era a vez dela de começar a ser tudo o que achou que perdeu. Não sei se estou explicando direito... Eu só queria que todo mundo entendesse que não existe hora marcada para que nada aconteça. E se na sua vez aconteceu de um jeito, na vez do outro pode acontecer tudo diferente e ser muito bom também. O tempo a gente é quem faz, seu Zé. Agora entendi foi tudo.

O tempo é sempre uma vantagem. O que aprendi muito com meu avô foi que, uma das mais bonitas vantagens do tempo que passa, é que podemos guardar tudo o que passou aqui, bem dentro da gente. Daí tudo fica. É nessa hora que nos enchemos de vida, seu Zé. Eu enxergava direitinho nos olhos dele todo mundo que ele foi no tempo antigo. Cada história que ele jogava pra dentro de mim, era um jeito de me presentear com um pouco do seu tempo. O senhor não acha maravilhoso o fato de que sejamos assim, cheios de tempo de ontem para espalharmos pelo tempo que ainda virá? As minhas idades todas estão aqui, bem guardadinhas dentro do que eu sou. Essa é outra vantagem do tempo: podemos ter a idade que quisermos, pois elas seguem em quem somos. O tempo do meu avô, seu Zé, hoje mora no meu coração. Tudo fica e ele fi(n)cou. A cada vez que falo sobre ele, tudo vira parte do meu tempo de hoje. Então a verdade mesmo é que o tempo de ninguém acaba, porque somos sempre continuação do que já aconteceu. O senhor concorda que também somos, nós mesmos, o tempo? Daqui a pouco, seu Zé, vou continuar também o senhor e alguém vai continuar nós dois quando tirar um pouco do seu tempo para ler essas nossas palavras.

O tempo é contínuo. E só somos assim, tão eternos quanto ele, porque sempre haverá alguém levando um pouco dos nossos contos. Dos nossos casos. Sempre existirá pelo menos um coração onde seremos infinitos. E nesse infinito, seu Zé, somos todos atemporais.