A Casona.

17:46

Me aconteceu de um dia morar nessa casa. Miúda, cheia de cachos e um olhar um pouco triste, já quando cheguei, ganhei minha primeira irmã. Estava ali, pronta, feita de um amor novo, me sorrindo de um jeito que me ganha até hoje, mais de vinte anos depois. Não fosse ela e meus olhos talvez não tivessem nunca melhorado e passado a ver as coisas um pouco mais bonitas.

A Casona é um monumento histórico – pelo menos assim sentimos, dentro da minha família. Fecho os olhos e consigo desenhá-la em todos os seus muitos detalhes. As paredes da frente costumam geralmente estar brancas, com janelas, portões e portas amarelas, que é para combinar com o Sol, habitante mais antigo e popular de toda a cidade que leva seu nome. É uma casa feita de muitas histórias. Basta sentar à mesa da cozinha, preferencialmente aos domingos, antes do almoço e com uma bebida na mão, que elas começam a despencar ao redor daquele fogão à lenha. A mágica acontece quando gargalhadas se espalham, quando a campainha toca com mais um pedindo abrigo, quando uma voz fala mais alto que outra, quando o bom gosto musical deixa evidenciar trilhas sonoras muito bem escolhidas, quando surge um violão, quando se mostra um livro, quando se indica um filme, quando as opiniões se desencontram e eu paro um pouco afastada, só para observar. A mágica acontece e parece passar despercebida. Enquanto isso, meu coração documenta mais uma história para contar nos próximos anos.

As paredes são muito grossas, as portas e janelas muito altas, o teto parece que foi construído querendo alcançar o céu. O que ninguém entende é que tudo teve que ser feito exatamente assim, para caber. Para caber histórias dos meus tios, que ali se criaram. De bisa Iracema, matriarca, que nem cheguei a conhecer, mas deixou tanta raiz que parece ter respingado um pouco de si, em todos nós. Para caber aquelas manhãs e fins de tarde com vovô Henrique sentado com seu radinho que tocava assim tão alto. Para caber o jeito tão manso, carinhoso e gentil de tio Eden, que nunca soube me entregar uma palavra que não me fizesse querê-lo um bem cada vez maior. Para caber a melhor e mais gostosa risada do mundo, que geralmente vem acompanhada de um abraço no qual temos vontade de nos desmontarmos e nunca mais sairmos dali de dentro – e se existe outra tia assim, eu não conheço. A minha chamo de Lourdes. Para caber Elias, que sempre me deixou bem só de poder dividir o mesmo espaço com ele, ao notá-lo falando sobre tudo de um jeito tão empolgante que me faz acreditar por um tempo que a vida tem, sim, muita coisa boa – coisa de energia. E para caber Mônica, aquela ali do início, minha primeira irmã, espelho de tanto do que sou, pessoa na qual encontro um pouquinho de alicerce quando a vida insiste em me tirar o chão – e hoje mãe de duas crias que refletem todos os seus mais lindos lados. 

A Casona é assim, tão imensa, porque abriga todas essas outras casas, pessoas as quais a gente faz questão de habitar, afinal, encontrar lares tão bem projetados, com medida certa para acolher quem somos, é raridade. Então terminamos todos, de alguma maneira, ali morando. E comentando, entre nós: em Jequié é como se aquela casa fosse um pouco nossa. E é. Porque todo esse sentimento que transborda é conexão que não precisa de fio algum para funcionar.

Na Casona todo mundo é artista. Vai ver por isso, uma vez ali, até o silêncio fala mais alto comigo. Na Casona se escreve, pinta, desenha, toca. E ama – arte maior, da qual todos compartilham. Na Casona existe um quintal meio encantado, daqueles que só se enxerga bem com uma lente de infância. Nesse quintal a poesia de viver sempre correu livre e tive o privilégio de saber o que é um mundo inventado, com uma liberdade intensa para crescer para qualquer lado que eu quisesse. E se hoje sonho tanto assim, se escrevo tão azul, é porque trago nas mãos pincéis desse tanto de ontem que vivi ao redor daquele tamarineiro muito grande, com suas várias folhas sendo tapete do meu chão.

Me aconteceu de um dia morar nessa casa. De aprender um pouco mais sobre ser gente. De acender fogueiras em vésperas de São João, de chamar um novo ano que se iniciava. Fui chamada de tia pela primeira vez, ganhei uma nova versão de mim junto com o nascimento de Maria Luiza. Comemorei conquistas, minhas e de todos eles. Chorei uma vez ou outra, mas todos os sorrisos sempre compensaram. Deixei muito de mim, sempre saí de lá curada. É meu socorro, meu melhor encontro. É para onde fui, pela primeira vez, miúda. É para onde sempre volto, hoje, tão grande, como me dizem todos ali. É por onde passa a história do que/ de quem sou. E de todos os muitos presentes ainda tive o privilégio tão distraído de poder, naquela cozinha (mágica, como disse), em meio a tantas histórias, ter abraçado pela primeira vez quem viria a ser, tempos depois, a pessoa com a qual agora compartilho minha vida. A Casona é o lugar onde, além de tudo, encontrei esse Amor, que me poetiza de cima a baixo.

E é por isso que, uma vez ali naquela cidade, quando o táxi sobe a ladeira e entra naquela rua, eu faço questão de apontar: é ali, na esquina, aquela Casona, com as janelas amarelas. E saio já recebendo alguns dos sorrisos mais bonitos que alguém pode receber, quando o portão se escancara de coisas tão boas que eu consigo até sentir o cheiro do que respirava há mais de vinte anos. E ainda hoje me alimenta.

Eu acho que o mundo seria mais de viver se todo mundo existisse um pouquinho numa Casona assim.


Para Môni, Elias, tia Lourdes, tio Eden.
Obrigada por terem sido e continuarem sendo partes de quem sou.
Só posso sorrir alguns dos maiores e melhores momentos
 da minha vida porque vocês existem.


Com amor, sempre.

Bordado.

16:55


Eu nunca gostei de ter um nome diferente, especificamente durante a minha infância. Não achava bonito ter um nome em sânscrito, porque ninguém sabia o significado. Quando alguém se interessava eu contava uma história misturada com Hare Krsna, mantras e qualquer coisa da Índia. Escolha de meu pai. Eu nunca gostei de ter um nome diferente até o dia em que me olhei no espelho e percebi nos meus olhos, no formato do meu rosto, que eu jamais aceitaria ser chamada por outro nome – que eu jamais atenderia, ao ser chamada por outro nome. Dentro do meu mundo, sou a única que responde quando entoam essas quatro pequenas letras. Não existe outra, apesar de existirem outras, em outros mundos. Aqui, na parede do meu quarto, ao lado da minha cama, sempre teve esse quadro: Krsna, hindu em todas as suas muitas cores. Um dos deuses que me abençoam, e para quem deve ser muito simples cantar o que me explica.

Eu sempre tive muito medo de amar, tanto ainda mais quando não tinha noção de que já nasci amando: nasci do amor, daí esse sufoco de coração. Eu sempre tive muito medo de amar porque sempre tive muito medo de doer, sem nem saber, entretanto, o quanto dói viver, independente do que/ a quem se ama. Foram muitos anos de defesas inconscientes até perceber que tudo é tão melhor quando ele coloca a mão na minha coxa e eu sinto que cada dia é mais bonito por poder transbordar meu melhor lado em alguém. Amor é uma espécie de fé: quando se tem, viver é preciso, correto, e o universo se enche de axé. O que sou, ao lado dele, o brilho dos meus olhos é quem sempre diz. Ele sabe onde fica cada uma das minhas pintas e eu construo pilhas e mais pilhas de palavras para falar sobre ele enquanto releio os livros que me deu de presente no último Natal.

A minha maior preocupação sempre foi ser. O que, como, porquê eu seria. Procurava entender a mecânica da alma tentando encher de ciência toda a minha falta de lógica. Doida ou santa, não entendia se pendia para a sorte ou para o destino. Foram amarrados desejos que só deixaram arranhões no meu teto de tanto que os encarei com a cabeça no travesseiro, fechando depois os olhos sem saber por onde caminhar. Caminhar, quando só queria mesmo é voar. Foi quando entendi: passarinho. Daí então me alimentei de tantas pequenezas que minha vida nunca mais foi igual. Uma distraída ave, delicada e transparente, chorando para brotar as sementes internas e catar frutos de poesia. Uma agonia cheia de intensidade por me saber perdida em uma época sem espaço para nos pesquisarmos. Tanta preocupação em ser, quando tudo eu já era. Tanto, eu já sou. E gosto quando ele chega e me olha como se eu fosse um feriado, porque é quando sei que é sempre tempo para tudo.  


Aí eu escuto meu nome, amo e sou, como num bordado, onde tudo se comunica. Tão viva que consola a vida. Jaya significa Vitória e eu escolhi só contabilizar os ganhos.