O que Poesia.

16:48


Pudesse em tudo haver ternura, seu Zé, e a vida ia fácil. Pudesse em tudo haver amor e eu faria do mundo um imenso jardim onde em todos os olhares brotariam apenas flores. Pudesse uma criança me desenhar, aí então eu seria o que quisesse, pois nos pincéis dos pequenos é onde mora toda a poesia infinita de ser. Pudesse tudo o que sinto ser muito azul, daí então eu faria estrela em cada teto e abriria uma portinha de acesso ao paraíso, onde toda a felicidade que existe faria morada e as pessoas todinhas aprenderiam então a sorrir de verdade.

Pudesse a gente peneirar as lembranças, seu Zé, e as coisas não seriam tão de doer. Mas uma dorzinha até que faz bem de vez em quando, o senhor não acha? É porque eu penso assim: pudesse não haver lágrimas, de onde brotariam as coisas bonitas que somos todos? A gente nasce chorando é pra essa chuva de dentro molhar todo o adubo dessa amabilidade que os anjos preparam quando um novo coração bate no mundo. Pudesse juntar todo esse batuque e a gente faria um samba de amor demais.

Pudesse a gente ser sozinho no mundo, seu Zé, e que sentido haveria em ser? Eu preciso dos olhos dele me olhando para ver o deslumbramento acontecendo e acreditar em todas essas coisas muito encantadas. Eu me descuido de propósito, porque é ali mesmo, nele, onde me perco. Mas me encontro muito mais. O meu amor é passarinho, seu Zé. Corre solto por aí, já viu infinitos quilômetros de céu, voa leve e muito docilmente, e nunca esquece o caminho de volta. Tudo porque já fez ninho no lugar mais seguro do mundo: dentro dele. O meu menino. Pudesse todo mundo ter um encontro bonito desse e eu ia misturar todos os acasos para fazer deles um só destino comum e muito mágico.

Pudesse nada nunca mudar, pai e mãe sempre viver, vô e vó sempre dengar. Pudesse a gente enganar as saudades, seu Zé, e talvez nunca que a gente ia ler ou contar histórias muito belas sobre sentimentos contrariados e apressados de muita paixão. Pudesse a gente estar terminado, completo, de onde então que ia ser tirada a doçura de estarmos sempre nos (re)descobrindo? Pois então o senhor veja, imagine só, que eu não quero nunca ser completa. Coisa boa na história da gente é se estufar cada vez mais de muita vida que se vive o tempo todo. Terminar-se é aceitar que acabou, e os dias todos são um eterno recomeçar. Recomecemos.

Pudesse eu nunca ter aprendido a escrever, seu Zé, nem tampouco desenhar. Aí eu seria muito mais atrapalhada. É que na minha língua as palavras dançam e se atropelam sem mira alguma na hora de saltar. Na minha fala as palavras se perdem muito rápido em sua confusão imensa, daí então que escrever foi a maneira que encontrei de gravá-las para alcançar o mundo, mesmo quando eu não puder estar. E se hoje eu escrevo assim, meu já tão querido seu Zé, é porque foi a maneira mais gentil que encontrei de abraçar muita gente ao mesmo tempo, já que meus braços não se esticam tanto assim.


Pudesse não haver abraço, seu Zé, e meu coração nunca que ia saber conversar. Muito tagarela quando estou amando, o caso mesmo é que hoje, no abraço daquele moço, esse coração faz até poema. 

Helena.

22:08


Dancei a noite inteira cheirando seu cangote de cheiros profanos e perturbadores. Desfiz a fita amarela que segurava seus cachos espantados e me deixei enfeitiçar por todos os seus movimentos. Nunca então havia cometido pecado mais doce que aquele: o de morar nos olhos claros de Helena. Requebrava de um jeito desequilibrado, com gestos bêbados e suaves, no meio da roda, me olhando de cima, cheia de desdém, mordendo os lábios e me implorando um verso doido. Fiz um concerto inteiro só para despertar sua emoção.

Para Helena, eu sempre tirava o chapéu. Ela passava e levava consigo tudo o que eu era. Meu sorriso, meus sentidos, meus assuntos. Já era dona do meu cavaquinho, cada uma das cordas havia decorado seu nome, só obedeciam ao ritmo que movimentasse seus quadris. Empenhei minha viola porque só sabia chorar por ela. Passava as noites em claro pensando em sua pele de Iracema, que acordava a cada toque meu. Fumava um cigarro, bebia uma aguardente, sentava no mesmo banco de sempre no boteco, e ficava ali, riscando o balcão com meu cotovelo de apoiar todos esses devaneios de amor demais.

Guardava meu dinheiro, economizava os miúdos, juntava meus poemas, comia na casa de Ana, dormia na casa de Rita, desenhava o corpo de Júlia, fazia tudo por Helena. Fui ficando a cada dia mais desajustado, a cada hora mais desapontado. Helena estava solta no meu coração de tantas prendas - tantas presas. Na sua eterna inquietude, espalhou-se por meu corpo inteiro e, ainda assim, não saciava. Era um anelo de vontades que me dominava o juízo ao mesmo tempo em que acabava por perdê-lo.

Já numa noite de muita graça, com a quermesse armada na praça central, veio Helena enfeitando o vento com seu jeito de se espichar e me atiçar. Usava uma saia rodada e um chinelo dourado. Pisava naquela rua de pedra como se o mundo acabasse de ser construído, só para cabê-la. Vinha numa avidez exausta, muito selvagem, deixando seu rastro. Parecia uma presa muito difícil, que jamais cairia na minha tocaia. Corri ao seu encontro, ofegante, rondando a caça, armado de carinhos. Seu corpo, suado de muitos passos, grudava sua blusa branca nos seios, deixando exposta uma provocação latente, tão dissimulada quanto ela mesma.

Foi atrás da igreja que nos descobrimos. Helena não se debatia, me deixava pegá-la; amansá-la ainda quando fazia suas vezes de bicho, rangendo os dentes e gemendo o som da sua raça de mulher voraz. Era tão faminta que salivava sua libido em minha boca. Nessa guerra tão lasciva, montamos ali uma trincheira, redoma para o prazer que vinha sendo descoberto. Debaixo da saia de Helena, a poesia me queimava. A heresia mais bonita e impetuosa foi essa que cometemos, abençoados por lua e estrela. Um teto de fulgor.

Depois era manhã e acordei antes do sol, para prepará-lo. Lustrei a ladeira toda só para que brilhasse o seu gingado. Fiquei na janela, ensaiando uma serenata com uma caixinha de fósforo nas mãos, falando muito torto, vestido em meu farrapo. Muito singelamente, soltei um verso no espaço, quando ouvi os primeiros passos. Num improviso vagabundo, Helena caiu em minhas mãos, exoticamente desarmada, me permitindo dedilhá-la ali, no meio da cidade.


Tão maluca e aturdida em sua própria magia, Helena sambou. Em mim.