09 dezembro 2016

Vovó Alice.

De todo o amor que eu tenho
metade foi tu que me deu.

[Dona Cila - Maria Gadu]

Fui a primeira a te chamar de vó. O teu colo foi primeiro meu, depois de ter sido antes de meu pai e de tia Ju. Todos os que vieram nos anos seguintes, ansiosos pelos teus carinhos, tiveram que se adaptar à forma que criei enquanto me esquecia nos teus braços. Nos teus abraços. Nos teus olhos azuis que ainda hoje carregam todo o infinito que aprendi a enxergar. Tudo o que mora dentro de você não acaba, nem vai nunca acabar, porque se derramou na gente, que te prolonga.

Em alguns momentos da minha vida, alguns deles muito importantes, eu só me senti completamente segura e protegida porque sabia da certeza do teu amor. Do teu zelo. Do teu cuidado. Do teu jeito tão natural e doce de me fazer sentir a pessoa mais importante de todas. Quando o medo era maior do que toda a minha coragem, era em você, sempre, em quem eu me abrigava para me proteger do mundo. Ao seu lado sempre existiu um mundo à parte. Um mundo de você, tão Alice que é, mas sem as fantasias de um mundo inventado. Ao seu lado, o mundo é seu e de seu Arthur e a gente cabe muito bem ali dentro, como se a vida inteira vocês tivessem preparado tudo só para receber a mim – e a Gabriel, Daniel, Carol, Pedro e Amanda.

Você foi/é  minha segunda mãe. Em alguns momentos, tão mãe e responsável por mim que inúmeras vezes fez o papel da primeira – e eu nunca vi alguém se sentir tão confortável dentro desse papel. Isso porque eu tenho essa certeza muito exata de que a cada vez que um de nós nascia, nascia em você mais um coração. É nessa coleção de sentimentos que eu aprendi a me espelhar. Você é um verdadeiro bordado das coisas mais lindas que já permitiram a uma pessoa sentir. E você sente. Pela gente. E se agora eu escrevo cheia de lágrimas nos olhos, é porque não sei te ofertar nada que seja diferente disso. De todo o amor que existe em mim, metade certamente veio de você. A metade mais bonita, talvez. Eu amo você tão lindo, vó, que é impossível desenhar. Por isso escrevo.

Esses dias, vendo fotografias do passado tão menino e distante, mas que ao mesmo tempo parece tão atual, notei que, mais do que qualquer outra pessoa que me acompanhou até aqui, a presença mais constante sempre foi a tua. Mesmo nos anos onde morei fora, com todas as tuas cartas, todas as tuas lembranças, todas as tuas palavras que me chegavam e me faziam forte, maior, melhor. Tudo o que veio de você para mim, sempre, chegava em forma de fôlego. Era e continua sendo mais tranquilo e leve respirar sabendo que em qualquer lugar do mundo que eu esteja, existe você em outro ponto. Existe você há oitenta anos, quase oitenta e um, e mesmo nos anos onde eu ainda não era, sinto que já estava em você.

Todo mundo que me conhece, conhece você de alguma maneira. Porque em muitas das minhas conversas existe o trecho: a minha vó Alice... Porque é o que me compõe. Eu sempre fui partitura para aprender a assimilar todas as tuas notas. O que sempre toca quando me lembro de você é isso: música. Porque você é a vó mais inteligente que existe. Mais esperta. Mais bonita. Mais engraçada. Mais implicante. Mais emocionada. Mais doada. Mais colocando sempre as necessidades de todo mundo em primeiro lugar. Mais companheira para chorar de rir enquanto joga baralho e rouba sem saber disfarçar. Mais jovem – na mente, na alma, nas reinvenções, nas aceitações. Mais narradora para contar histórias e levar a gente a um tempo onde não existíamos mas queríamos ter presenciado para conhecer mais de você. Mais controlando as coisas que vovô Arthur come. Mais agradando a gente na cozinha. Mais rápida em aprender a usar o whatsapp e fazer a gente ver que não tem graça nenhuma um dia onde se acorda e não tem mensagem sua para ler. Para sorrir. Porque ter um pouco de você, em qualquer canto, em qualquer lugar, não é nunca muito. Pode ser sempre mais.

E aí eu fico aqui, fechando os olhos, lembrando, vendo teus olhos em cima dos meus... Viro menina outra vez. Enxergo meus cachos soltos, minhas mãos cheias de anéis, minha bota, minhas poses para fotografias, minhas imitações de Xuxa, minha alfabetização, meu braço com gesso verde, seus sucos cor de rosa, as saladas de frutas, o Ponto de Encontro, eu dormindo na sua cama, no meu cantinho, abraçada a você, ouvindo sua voz me contando histórias, nós duas rezando o Pai Nosso. Você me ensinou a acreditar. A ter fé. A sentir orgulho de toda a sua história, seus caminhos, suas conquistas, suas dificuldades que nos trouxeram até aqui. Você me faz querer dar um sentido muito importante e especial à minha própria vida, para poder, quem sabe um dia, ter uma neta tão besta por mim como eu sou por você.

Sei que na nossa família os sentimentos ficam muito guardados, raramente são ditos, falados. Mas a gente sente. Enxerga nos olhos, nos gestos. A cada vez que você me liga e eu atendo dizendo: oi, amigaaaa! Ou quando eu te ligo e você me diz: ah, lembrou que tem vó, foi? E a gente se fala praticamente todo dia. E dá risada. E conversa sobre tudo. E eu fiquei lembrando agora que, para mim, uma das cenas mais bonitas é te ver tirando os óculos para secar as lágrimas de tanta risada dada com nossas besteiras de sempre.

Aqui tem amor num tanto, vó. Tu nem imagina! Amo de um jeito que eu ensaiei esse texto há anos, mas sempre achava tudo muito pouco e evitava gravar no papel. Pensava: como pode caber vovó Alice em palavras? Mas aí eu resolvi hoje pelo menos tentar mostrar o quanto você é – porque é muito, extremamente necessário que você saiba disso. O tanto que representa. O quanto me orgulho em ser a neta da professora Alice. Linda, como só ela sabe ser. Linda de um jeito tão arraigado nela inteira, que de vez em quando parece que nem existe.

Se alguém me perguntar um dia qual o maior presente que já recebi, eu direi, carregando um orgulho muito poderoso: a vida. Ter nascido dentro da minha família. Ter nascido neta de Dona Alice. A Licinha, dos seus.

Amo você do berço,

Jaya.


Salvador, 9 de dezembro de 2016, uma tarde amarela de céu azul.