Que Seja.

15:10


Só venha se for para entregar amor. Fotografe, se puder me revelar o coração. Só olhe aquilo que possibilite enxergar além. Se tropeçar, pare um pouco e recomece diferente. Se o caminho agrada, enfeite-o cada vez mais. Se a cerveja é gelada, divida o copo. Se a paixão é quente, divida o corpo. Se for para descer do salto, que seja apenas para dançarmos aquele samba. Se for de inspirar, que seja poesia. E na hora de respirar, que os pulmões se alimentem de azul. Em qualquer composição, que exista um pouco de loucura. E quando a vida enlouquecer, que os delírios tragam sol.

Só grite se tiver fôlego para rasgar a garganta. Só cause algum efeito se estiver disposto a suportar minhas declarações. Acenda uma fogueira se decidir enfrentar minhas chamas. Voa, se não tiver medo de alcançar todo o imensurável tamanho do meu céu. E se for bater asas, chegue devagarzinho, porque quando se é passarinho a delicadeza mora é na falta de pressa. Se for ter pressa, que seja de viver. Quando estivermos vivendo, que sejamos intensos o suficiente para existirmos. E que existamos, sem hesitar.

Que nas noites de verão brote um jasmim no travesseiro, para que se benzam os sonhos. Que nas manhãs de inverno pulsem girassóis em cada veia, porque é preciso que se brilhe assim muito amarelo em meio aos dias cinzas. Que quando alguma coisa for explodir, que seja para renascer mais doce. Ao somar 1+1, que o resultado seja você e eu. Se tudo for muito correto, que as teorias se desalinhem. E se o universo é tão infinito, que caiam os pontos finais.

Só segure minhas mãos se estiver disposto a caminhar pelos meandros das minhas estradas. Faça música quando descobrir o mais alto volume do meu silêncio. Que minha gargalhada ecoe tão escandalosamente, que faça rir quem nela se esbarrar. E se for para esbarrar, que seja numa alma macia, cheia de permissão para fundir-se em. Se for para morar, escolha essa artéria mais bonita, onde habita a bateria do que me move. E se for para escolher, sempre escolha a mim.

Se me encontrar chorando, traga uma aquarela para os meus cílios tentarem uma nova imagem. Quando eu precisar ser muito celeste, que você também vire estrela. Se for escrever um livro, fale sempre sobre o amor. Quando for falar de amor, sinta. E quando for sentir, que a entrega seja absurda. Se for seguir um ritmo, que seja o dos meus passos. Se for contabilizar, que se enumere cada suspiro meu ao pensar em você. E se for pensar, viaje. Se for para fazer hora, que você seja relógio e meus braços, ponteiros que ali passeiam.

Se não for me levar a sério, não brinque comigo. Se for reparar, repare em tudo o que não digo. Se quiser fugir, leve nossa história na bagagem. Se resolver ficar, que fujamos um para dentro do outro. E se for para fazer história, que ela só tenha começos. Quando for começar, meu bem, alucine. Quando alucinar, faça uma loucura tão castanha quanto nossos olhos. E saiba: é no teu olhar que mora o meu reflexo. Se for para ser espelho, que seja da parte mais esotérica de tudo. E se for bonito assim, é porque já é.


E que seja. 

A Casona.

17:46

Me aconteceu de um dia morar nessa casa. Miúda, cheia de cachos e um olhar um pouco triste, já quando cheguei, ganhei minha primeira irmã. Estava ali, pronta, feita de um amor novo, me sorrindo de um jeito que me ganha até hoje, mais de vinte anos depois. Não fosse ela e meus olhos talvez não tivessem nunca melhorado e passado a ver as coisas um pouco mais bonitas.

A Casona é um monumento histórico – pelo menos assim sentimos, dentro da minha família. Fecho os olhos e consigo desenhá-la em todos os seus muitos detalhes. As paredes da frente costumam geralmente estar brancas, com janelas, portões e portas amarelas, que é para combinar com o Sol, habitante mais antigo e popular de toda a cidade que leva seu nome. É uma casa feita de muitas histórias. Basta sentar à mesa da cozinha, preferencialmente aos domingos, antes do almoço e com uma bebida na mão, que elas começam a despencar ao redor daquele fogão à lenha. A mágica acontece quando gargalhadas se espalham, quando a campainha toca com mais um pedindo abrigo, quando uma voz fala mais alto que outra, quando o bom gosto musical deixa evidenciar trilhas sonoras muito bem escolhidas, quando surge um violão, quando se mostra um livro, quando se indica um filme, quando as opiniões se desencontram e eu paro um pouco afastada, só para observar. A mágica acontece e parece passar despercebida. Enquanto isso, meu coração documenta mais uma história para contar nos próximos anos.

As paredes são muito grossas, as portas e janelas muito altas, o teto parece que foi construído querendo alcançar o céu. O que ninguém entende é que tudo teve que ser feito exatamente assim, para caber. Para caber histórias dos meus tios, que ali se criaram. De bisa Iracema, matriarca, que nem cheguei a conhecer, mas deixou tanta raiz que parece ter respingado um pouco de si, em todos nós. Para caber aquelas manhãs e fins de tarde com vovô Henrique sentado com seu radinho que tocava assim tão alto. Para caber o jeito tão manso, carinhoso e gentil de tio Eden, que nunca soube me entregar uma palavra que não me fizesse querê-lo um bem cada vez maior. Para caber a melhor e mais gostosa risada do mundo, que geralmente vem acompanhada de um abraço no qual temos vontade de nos desmontarmos e nunca mais sairmos dali de dentro – e se existe outra tia assim, eu não conheço. A minha chamo de Lourdes. Para caber Elias, que sempre me deixou bem só de poder dividir o mesmo espaço com ele, ao notá-lo falando sobre tudo de um jeito tão empolgante que me faz acreditar por um tempo que a vida tem, sim, muita coisa boa – coisa de energia. E para caber Mônica, aquela ali do início, minha primeira irmã, espelho de tanto do que sou, pessoa na qual encontro um pouquinho de alicerce quando a vida insiste em me tirar o chão – e hoje mãe de duas crias que refletem todos os seus mais lindos lados. 

A Casona é assim, tão imensa, porque abriga todas essas outras casas, pessoas as quais a gente faz questão de habitar, afinal, encontrar lares tão bem projetados, com medida certa para acolher quem somos, é raridade. Então terminamos todos, de alguma maneira, ali morando. E comentando, entre nós: em Jequié é como se aquela casa fosse um pouco nossa. E é. Porque todo esse sentimento que transborda é conexão que não precisa de fio algum para funcionar.

Na Casona todo mundo é artista. Vai ver por isso, uma vez ali, até o silêncio fala mais alto comigo. Na Casona se escreve, pinta, desenha, toca. E ama – arte maior, da qual todos compartilham. Na Casona existe um quintal meio encantado, daqueles que só se enxerga bem com uma lente de infância. Nesse quintal a poesia de viver sempre correu livre e tive o privilégio de saber o que é um mundo inventado, com uma liberdade intensa para crescer para qualquer lado que eu quisesse. E se hoje sonho tanto assim, se escrevo tão azul, é porque trago nas mãos pincéis desse tanto de ontem que vivi ao redor daquele tamarineiro muito grande, com suas várias folhas sendo tapete do meu chão.

Me aconteceu de um dia morar nessa casa. De aprender um pouco mais sobre ser gente. De acender fogueiras em vésperas de São João, de chamar um novo ano que se iniciava. Fui chamada de tia pela primeira vez, ganhei uma nova versão de mim junto com o nascimento de Maria Luiza. Comemorei conquistas, minhas e de todos eles. Chorei uma vez ou outra, mas todos os sorrisos sempre compensaram. Deixei muito de mim, sempre saí de lá curada. É meu socorro, meu melhor encontro. É para onde fui, pela primeira vez, miúda. É para onde sempre volto, hoje, tão grande, como me dizem todos ali. É por onde passa a história do que/ de quem sou. E de todos os muitos presentes ainda tive o privilégio tão distraído de poder, naquela cozinha (mágica, como disse), em meio a tantas histórias, ter abraçado pela primeira vez quem viria a ser, tempos depois, a pessoa com a qual agora compartilho minha vida. A Casona é o lugar onde, além de tudo, encontrei esse Amor, que me poetiza de cima a baixo.

E é por isso que, uma vez ali naquela cidade, quando o táxi sobe a ladeira e entra naquela rua, eu faço questão de apontar: é ali, na esquina, aquela Casona, com as janelas amarelas. E saio já recebendo alguns dos sorrisos mais bonitos que alguém pode receber, quando o portão se escancara de coisas tão boas que eu consigo até sentir o cheiro do que respirava há mais de vinte anos. E ainda hoje me alimenta.

Eu acho que o mundo seria mais de viver se todo mundo existisse um pouquinho numa Casona assim.


Para Môni, Elias, tia Lourdes, tio Eden.
Obrigada por terem sido e continuarem sendo partes de quem sou.
Só posso sorrir alguns dos maiores e melhores momentos
 da minha vida porque vocês existem.


Com amor, sempre.