Patchwork.

13:37

Amor é corte e costura.

[Achiles Neto/ Conrado Pera]

Não acredito em almas gêmeas. O mundo é tão infinito que sempre me soou meio impossível a teoria de que, diante de tamanha imensidão, houvesse apenas uma pessoa para amar – romanticamente - a vida inteira. Antes de você, eu amei. Antes de existirmos, nós dois, existimos nós e outras pessoas. Em outros caminhos e em outras épocas, a vida teve cuidado em nos moldar através de outros olhares, outros toques, inúmeros erros e alguns acertos. O passado soube ressignificar o presente através de uma silenciosa lapidação dos nossos sentimentos para que estivessem prontos – ou pelo menos mais seguros - quando nos encontrássemos. E nos encontramos. Na fase da minha vida onde me amei e me entendi como jamais soube ser possível, em meio a instantes onde nada era buscado além de continuar sorrindo firme e satisfeita, seus olhos, sempre tão abertos, me enxergaram. Inaugurou-se ali um jeito novo de olhar.

Amor não é só bom. É um sentimento maior que absorve em si todos os demais sentimentos, até aqueles que temos vergonha de admitir que existem. Quando amamos, procuramos sempre tratar com carinho tudo aquilo que guardamos e entregamos. Amor é lidar com o que existe além. Não existe maquiagem, conhece-se cicatrizes. Amor cura em par. Foi ao seu lado que comecei a conhecer algumas das várias versões do amor. O amor que ama, o amor que irrita, o amor tão doce, o amor que não suporta, o amor que faz sorrir, o amor que faz doer, o amor que está, o amor que reclama, o amor apaixonado, o amor entre lágrimas, o amor com muito tesão, o amor bobo, o amor à distância, o amor grudado, o amor que entende, o amor que discute, o amor que acalma, o amor azul, e o amor que vence todos os demais – esse, que permanece. Esse que me dá uma certeza às vezes um pouco tímida de que não importa qual versão apareça no meio do caminho: se você encostar seu coração no meu, como sempre fez, tudo vai acabar ficando bem.

Com você aprendi com muita tranquilidade que um relacionamento é patchwork. Cada um chega com seus muitos retalhos já vividos e tudo vai sendo remontado com a bagagem do outro. Não precisa combinar ou fazer sentido. Basta encaixar. Enfeitar. Basta que haja alguma cor. Basta haver eu e você e todos os nossos sonhos. E essa vontade eterna de seguirmos em frente, juntos. Lutando. Com você entendi que é preciso muita atenção ao nos interpretarmos para sabermos as palavras certas das próximas páginas. Porque amar é fácil, todo mundo consegue. Mas construir uma história de amor exige uma edição especial. Revisão. Ajuste. Adaptação. A mágica não é vista pela capa: maior esmero está no conteúdo. E para ser leve assim de ler, eu não poderia ter escolhido coautoria melhor. As entrelinhas só nós dois sentimos.

Sigo escrevendo sobre o som da sua risada, que equaliza todas as alegrias que seguimos acumulando. Minha pele já reconhece a sua, sabe mapear cada curva do teu corpo. Você me beija antes de sair para o trabalho e o corredor do apartamento ecoa vários tons de euamovocê recém acordados. Gosto da maneira como você me equilibra. O seu jeito inquieto diante da minha calmaria ou sua serenidade quando sou inteira ansiosa.  Nossas diferenças são tão iguais que o oposto vira ímã. Aprendi a caminhar de mãos dadas porque você me ensinou a voar com os pés no chão. Passei a usar o nós como se desconhecesse o singular de qualquer coisa. Vibro a cada novo passo seu como se eu mesma estivesse caminhando. Sou feliz por continuar esse amor em você só para senti-lo prolongando-o em mim.

Obrigada por ser o meu melhor amigo. Meu melhor amor. Por chegar tão perto. Por me segurar tão firme, quando firme é a única coisa que não consigo ser. Obrigada por acreditar tanto assim em mim. Por comprar meus sonhos. Obrigada pelo jeito como você me vê – é tão bonito ser reflexo dos teus olhos. Obrigada por cuidar do que somos. Por aceitar o amor que a minha família entrega e saber corresponder desse seu jeito tão doado. Obrigada por ser a minha família. Por querer ser sempre melhor, para nós dois. Por despertar o melhor do que sou. Obrigada por me fazer mais feliz. E, principalmente, por ser quem é. Para mim. Comigo. Mas principalmente porque é o que te faz único. E nada mais é tão importante.

Eu não sei se seremos nós dois, para sempre, mas quero muito que seja. Foi com você que a poesia maior aconteceu em mim: o impossível passou a ser, também, questão de prefixo.

Página.

16:55


Quando é outono o tom da vida fica sépia e minhas horas mais suaves. É a estação onde me sinto mais sã, quando o tempo sopra um pouco mais manso e consigo desacelerar alguns sentidos para fazer história do que foi passando até aqui. É essa a época que escolho para remontar minhas epifanias mais intensas e para reaprender a desengasgar meu coração. No outono as coisas caminham sem pressa para os seus lugares preferidos e refaço mentalmente todos aqueles bons projetos que me pegam pelas mãos e me empurram para frente a cada dia um pouco mais, porque é sempre tempo de.

Quatro horas da tarde e o céu começa a mudar. Chove. Tudo o que derrama em mim é muita coisa, mesmo eu sendo assim tão rasa dentro dessa profundidade de emoções. A vida não é mais a mesma e sei que pelo menos uma coisa jamais será igual. Uma lágrima cai. Entro tão para dentro de mim mesma que resolvo fazer um bolo só para que a casa possa soltar por todos os cantos esse cheiro acolhedor de muitas memórias. A receita já está decorada, basta tatear um monte de ontem e consigo mixar vozes e sorrisos. Passo a passo tudo se remonta em minhas mãos e na mistura de sensações minha vida acaba sendo doce. Forno quente, o apartamento começa a ser preenchido enquanto exala um aroma de muitos dias bons pelos quais passei. Daí então meu coração se acalma e eu me sinto mais perto. De tudo.

Quando ele chegou, foi guiado por toda essa poesia palatável. O que escrevo nem sempre é palavra e ele sempre entende. Me abraça perdido no meio das minhas inúmeras guerras particulares e sofre quando não sei pelo que sofro. Ele fica, mesmo assim. Nessas horas me dá uma certeza besta e distraída de que fiz a escolha certa. E continuo a escolhê-lo, todos os dias. Sem romantizar tanto assim, vivendo a realidade, pagando contas, olhando para o lado na rua, sentindo enjoos, quebrando paradigmas dos versos alheios. Ele reclama que me chama para dançar e não danço, sem nem suspeitar que foi o único a quem já permiti guiar muitos dos meus passos. A gente se tem e é bom. Não existe garantia e é muito importante que nós dois saibamos disso. Não existe manual, a cada instante algo vai se encaixar diferente num lugar onde a gente nem sabe que existe. Amar não basta e tudo é soma. Não precisa ser fácil. Só precisa ser.

É fim de tarde e no outono o amarelo do sol é mais bonito. Sirvo um pedaço do bolo e tento lembrar aquela música com letra engraçada que ouvi tocar no rádio, sem sucesso. Decido escrever enquanto coloco as roupas na máquina de lavar e penso em comprar florais e flores. Refaço meu mapa astral buscando explicar algumas confusões, mas nunca consigo entender nada. É sempre azul o lugar que me atrai.

Hoje escrevi pela primeira vez uma carta de amor, e ela foi endereçada a mim.