Ainda Bem.

22:20


É que tem esse cheiro de vocêeeumisturados que fica no lençol todo sábado, porque é quando conseguimos passar mais tempo na cama. E sempre que você levanta, eu não abro os olhos, mas sinto cada passo dado minuciosamente leve, carregado desse cuidado em não me acordar, mesmo sabendo que já devo ter mesmo despertado. Puxo seu travesseiro para os meus braços, respirando teu cheiro ali esquecido e sorrindo sem nem perceber, porque é sábado e você vai voltar para mim dali a alguns poucos minutos.

É porque me olho nos seus olhos tão curiosos e penso que, meu Deus!, se tivermos um filho que olhe com essas mesmas lentes tuas, conseguirei um dia ser ainda mais feliz do que já sou. Hoje já consigo entender que a melhor maneira de prolongarmos o que somos é deixarmos (re)nascer esse amor de uma maneira tão real e palpável que o mundo inteiro vai conseguir enxergar e acreditar que sim, ele existe. E brota.

É que antes eu saía de casa sempre com essa sensação de estar esquecendo alguma coisa. Depois de você, nunca me esqueço, e ainda te levo - em mim. Porque é bonito. Bonito de um jeito que parece até poesia, mas é mais. E aí eu escrevo. Escrevo e enfeito e crio palavras e metáforas e faço tudo desse meu jeito de sempre fazer e algumas pessoas pensam: não existe amor assim. E quanto a mim, sempre quieta, no meu cantinho, vou acumulando textos desse amor que não existe, só para depois publicar um livro inteiro questionando sobre quando foi que o mundo ficou assim tão cego.

É quando lembro do imenso fracasso que foi nossa tentativa, lá no início, de não nos apaixonarmos, enquanto devorávamos um ao outro completamente despreocupados em entender esse acidente cósmico tão sôfrego de tanta coisa boa demais que duas pessoas podem, despretensiosamente, entregar uma à outra. E na falta de intenção eu nunca amei tão bem. Nem você. É por isso que ainda hoje, quando você me olha de cima, meu coração samba tudo o que teu peito pulsa quando nos tocamos. Sem nenhum ensaio, sempre soubemos nossos ritmos. Tem dança ainda para essa vida e todas as outras, eu sei.

É que enquanto você pensa em pintar as paredes, eu penso que uma estante amarela ia combinar muito bem com o sofá. E porque inexplicavelmente sempre que te vejo se olhar no espelho meus dentes sentem essa necessidade obscena de cravar na tua pele. Enquanto sorrio, sinto a vida me mostrando o quanto foi importante sempre ser inteira, não esperar metades. Hoje somos extensões um do outro e assim eu sei que chegaremos a qualquer lugar. E estamos indo.

É que eu acho que se hoje o amor parasse para observar quem somos, iria ficar mesmo muito encabulado de ter acertado tanto assim, já acostumado com suas miras tão erradas. E aí penso que o amor é muita coisa, muito jeito, principalmente uma enorme falta de jeito. Até que a gente se ajeita.


Ainda bem.

Que Seja.

15:10


Só venha se for para entregar amor. Fotografe, se puder me revelar o coração. Só olhe aquilo que possibilite enxergar além. Se tropeçar, pare um pouco e recomece diferente. Se o caminho agrada, enfeite-o cada vez mais. Se a cerveja é gelada, divida o copo. Se a paixão é quente, divida o corpo. Se for para descer do salto, que seja apenas para dançarmos aquele samba. Se for de inspirar, que seja poesia. E na hora de respirar, que os pulmões se alimentem de azul. Em qualquer composição, que exista um pouco de loucura. E quando a vida enlouquecer, que os delírios tragam sol.

Só grite se tiver fôlego para rasgar a garganta. Só cause algum efeito se estiver disposto a suportar minhas declarações. Acenda uma fogueira se decidir enfrentar minhas chamas. Voa, se não tiver medo de alcançar todo o imensurável tamanho do meu céu. E se for bater asas, chegue devagarzinho, porque delicadeza mora é na falta de pressa. Se for ter pressa, que seja de viver. Quando estivermos vivendo, que sejamos intensos o suficiente para existirmos. E que existamos, sem hesitar, pois é importante transcender.

Que nas noites de verão brote um jasmim no travesseiro, para que se benzam os sonhos. Que nas manhãs de inverno pulsem girassóis em cada veia, porque é preciso que se brilhe assim muito amarelo em meio aos dias cinzas. Que quando alguma coisa for explodir, que seja para renascer mais doce. Ao somar 1+1, que o resultado seja você e eu. Se tudo for muito correto, que as teorias se desalinhem. E se o universo é tão infinito, que caiam os pontos finais.

Só segure minhas mãos se estiver disposto a caminhar pelos meandros das minhas estradas. Faça música quando descobrir o mais alto volume do meu silêncio. Que minha gargalhada ecoe tão escandalosamente, que faça rir quem nela se esbarrar. E se for para esbarrar, que seja numa alma macia, cheia de permissão para fundir-se em. Se for para morar, escolha essa artéria mais bonita, onde habita a bateria do que me move. E se for para escolher, sempre escolha a mim.

Se me encontrar chorando, traga uma aquarela para os meus cílios tentarem uma nova imagem. Quando eu precisar ser muito celeste, que você também vire estrela. Se for escrever um livro, fale sempre sobre o amor. Quando for falar de amor, sinta. E quando for sentir, que a entrega seja absurda. Se for seguir um ritmo, que seja o dos meus passos. Se for contabilizar, que se enumere cada suspiro meu ao pensar em você. E se for pensar, viaje. Se for para fazer hora, que você seja relógio e meus braços, ponteiros que ali passeiam. E se chegar atrasado, me reinicie para ser sempre tempo.

Se não for me levar a sério, não brinque comigo. Se for reparar, repare em tudo o que não digo. Se quiser fugir, leve nossa história na bagagem. Se resolver ficar, que fujamos um para dentro do outro. E se for para fazer história, que ela só tenha começos. Quando for começar, meu bem, alucine. Quando alucinar, faça uma loucura tão castanha quanto nossos olhos. É no teu olhar que mora o meu reflexo. Se for para ser espelho, que seja da parte mais esotérica de tudo. E se for bonito assim, é porque já é.


E que seja.