Felicidade.

01:27


Tenho uma sapatilha vermelha que uso quando sei que vou pisar em caminhos de ir além. Tenho sonhos tranquilos, saudades mansas e muito amor bom. Numa autobiografia eu inventaria um monte de palavras amigas para conversarem entre si enquanto afagariam entre vírgulas e com muito carinho o coração de quem se derramasse nas minhas histórias de ser quem sou. Acho muito importante falar sobre sentimentos, mas nunca aprendi. No entanto, isso nunca me desviou da poética irregular de tudo o que é. Sinto muito, por isso escrevo.

Suspiro demais, transbordo com facilidade. É preciso muito pouco para me tocar. As emoções me dançam sem nenhum ensaio e fico sempre enfeitada de acontecências. Meu alimento maior vem pelas veias, como num fio invisível onde só as coisas de fazer bem são filtradas para recarregar meus próximos passos. Aprendi sobre felicidade num dia que nem me lembro, mas sei que era fim de tarde, pois já havia descoberto ser essa a melhor hora para amar. Daí então um monte de coisa sem nome nasceu dentro do que eu estava sendo, e fui feliz dentro de quem descobri ser, ali. Com ele. É importante o fato de que felicidade seja também gente, porque eu, desde que (re)nasci, aconteci de ser muitas pessoas.  

Felicidade é quando o amor voa pelo meu avesso e acende todas essas lanternas das vielas onde costumavam morar sentimentos bonitos que adormeceram, pois é fundamental que eles saibam que já é tempo de acordar. É quando um bocado de paz permite ladrilhar de azul bem claro todos os meus caminhos mais profundos. É quando na minha esquina principal percebo que me persegue tudo o que o olhar tão manso dele me entregou com um jeito de céu, quando o sol nasceu. Felicidade é quando todas as coisas muito lindas se juntam nesse interior inacabado que visto. Inauguro então uma casinha e na frente do espelho penduro tudo o que é de encanto. Quando o acúmulo se movimenta e me sinto habitar de tamanha completude, meu lado de fora sorri, porque reflexo sempre foi mágica.

Felicidade é quando nos descobrimos uma poesia mais leve e entendemos que, na cidade que somos, as construções internas são as mais importantes. E nos deixamos povoar.

(Im)possibilidades.

20:29


Pode ser que seja efêmero, João. Que no último cigarro ela não saiba mais quem você é. Pode ser que ela se apaixone, ou talvez só queira te engolir. Pode ser até que esqueça seu nome e não tenha anotado o número do seu telefone, enquanto as marcas de batom borram seu travesseiro. Pode ser que um sorriso dela caia no seu rosto, João, para disfarçar o desconforto que vai deixar enquanto você faz o café para ninguém e acabe cortando o dedo. Pode ser que o encanto seja poesia de ontem. Pode ser que não seja ela, João.

Pode ser que ela te faça sofrer. Que suba na mesa do bar e se declare para um amigo seu. Pode ser que vocês comecem voando e terminem com os joelhos ralados de tanto insistirem em seguir. Pode ser que ela te quebre um copo, João, que as verdades sejam de doer. Que você resolva ir embora. Ou que ela te peça para ir. Pode ser durante uma caminhada na praia, enquanto o sol se põe e você não encontre mais o que sentia. Pode ser que não seja eterno, João.

Pode ser que exista um ninho, uma doçura recém dolorida de estar junto. Pode ser que as personalidades se desafinem enquanto se engole uma bebida. Que o que brilhava seja ofuscado pelos cantos escuros do apartamento. Que as contas se embolem. Que vocês briguem pela bagunça na sala. Ou pior ainda, João, que vocês deixem de brigar. Pode ser que ela se canse, João, e você resolva ir até a esquina encontrar outra pessoa. Pode ser que ela encontre outra pessoa e te escreva uma carta explicando tudo o que não é mais. Pode ser que a vida estrague, João.

Pode ser no meio da festa, João, quando a música pausar em seus olhos. Pode ser que o tesão acabe e você sinta tudo congelar. Que ela borre a maquiagem enquanto um cometa rasga seus cílios. Que o seu botão descosture quando você dobrar as mangas. Pode ser que ela te abrace, João, procurando o que já não é. Pode ser que já não escutem mais o que um dia era a melodia de um dueto. Que ela sambe em outra roda, João, enquanto você resolve dormir. Pode ser que a luz acabe, João.

Pode ser pela insônia. Pelo reflexo no espelho. Ou ainda durante o sexo, quando ela fingir gozar. Pode ser que já não sejam mais quem eram e precisem se encontrar. Pode ser que ela saia de um mergulho do mar completamente despida de você. Pode ser numa epifania, no meio de um monólogo, quando você entende que tudo pode ser outra coisa. Pode ser que o sinal fique vermelho, João, e ela te ligue com saudades. E pode ser que nessa hora você já tenha outra metade. Pode ser que aconteça de novo, João.

Pode ser depois do cinema, quando ela seguir para o carro sem te dar as mãos. Pode ser pelo excesso de parágrafos mal pontuados. O almoço que ela fez e você não chegou a tempo de provar. Pode ser em qualquer cidade, João. Na sua estação preferida com um céu muito bonito, ou talvez no ponto de ônibus enquanto cai uma tempestade. Pode ser aquela palavra errada, João, que você usou na terça-feira à tarde. Pode ser que ela esteja lavando os cabelos e nunca mais sinta o seu cheiro. Pode ser que ela mude o perfume, João.

Pode ser que nada seja, João. Que o amor vire miragem. Pode ser que a vida não permita agora. Que todas as histórias se acabem. Pode ser que o poema seja falso. Pode ser que essa mulher escape, João, que nada valha a pena. Que você resolva encher a cara. Pode ser que o tédio seja imenso e você não tenha nada ao alcance dos seus braços quando for domingo à tarde. E pode ser que um dia, João, sua carteira já esteja vazia quando decidir pagar para ver.


Mas o que te dá mais medo, João, do que o quê pode acontecer se tudo funcionar?