22 agosto 2016

Teresa.



Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

[Teresa – Manuel Bandeira]

Espalhava sua sandice pelas ruas de terra, cantando, enquanto caminhava carregando o sol em seus ombros, equilibrando um balde na cabeça. Teresa só ouvia o que o coração ditava, não se dava muito com a racionalidade das coisas. Sorria dia e noite, todos os dias, doendo ou latejando. Contrariava todos os nãos que ouvia e sabia que era esse o motivo de lapidar em si asas cada vez maiores. Teresa ia voar para conhecer o mar.

O amor de Teresa por tudo e qualquer coisa não pedia autorização. Mesmo nos dias onde a vida ia difícil, ela amava porquê sim. Coisas do sertão, que lhe permitia ser tão. Fazia suas orações em silêncio e agradecia tão bonito por todos os segundos, que nem relógio precisava usar. Teresa chegava bem em todas as suas horas, atraso não existe quando se vive assim – os minutos eram tão seus amigos que aprenderam a preparar o tempo para recebê-la. Teresa é quem ditava os seus ponteiros. Não tinha pressa, sabia que o para sempre não se mede. E era atrás do sempre que ela sempre vivia.

Ia casar de vermelho, com uma rosa bonita nos cabelos pretos. Enquanto isso, combinava flores com todos os vestidos das horas de labuta. Quando as pétalas murchavam, Teresa sentia-se anoitecer; era quando a lua caía depressa em suas retinas, cheia. Daí então a poesia disparava como um alarme dentro do seu peito, que andava sempre estufado de coisas boas, todas ajeitadas ali, empilhadas em suas estantes internas - estantes de bem querências. Nessa hora Teresa nem desconfiava que seus olhos nasceram antes só para alimentar suas lentes azuis de tanto.

Os carinhos mais doces que encontravam nas redondezas tinham alugado suas mãos calejadas para morar. Ali, misturados ao endurecimento das batalhas, a ternura sempre vencia. Não havia quem não quisesse o colo de Teresa para fazer um ninho bom. Era tanta melodia suave que saía de sua boca que logo descobriram: além de tudo, passarinha também inventara de ser.

Teresa acordava antes do sol. Depois vinha ele no horizonte, cheio de ciúmes, querendo brilhar mais que toda aquela luz que via de longe. O azul dos seus olhos era imediatamente ofuscado pelo brilho que vinha em sua direção, momento onde ela lembrava o mar – de quem tanto ouviu falar e de quem tinha apenas uma fotografia em preto e branco. Teresa e suas asas e o azul de seus olhos, ela ia. Um dia.

Os anos passaram, os tempos mudaram, e toda essa vida sem parar. No vilarejo mais bonito de todo aquele sertão Teresa tinha feito sua história. Quando era vista de longe já anunciavam: lá vem Teresa, toda ocupada em sua festa de ser quem é. Teve um dia então onde enviaram do mundo um espelho bem espelhado, presente de quem lhe gostava e achou que a imagem de duas Teresas, uma dentro e uma fora do espelho, faria de toda aquela seca um tempo muito de primavera. Foi quando Teresa pode finalmente olhar seus olhos bem de perto. E só viu vantagem: todo aquele anil morando entre suas pálpebras. O mundo inteiro morando dentro de si. Abriu suas janelas e transbordou em água e sal – era mar. Seu sonho que já tinha nascido antes, só para lhe fazer morada. Teresa a vida inteira fantasiou o que já vestia-lhe pelo avesso.

E foi tanto preparo, tanto sorriso, tantas danças e rodopios de saia, que até choveu. Foi tanto amor amado, tanto conto contado, tanta flor que floriu, arco-íris nasceu, tanto céu que azulou, que Teresa voou. E ninguém nem viu.