(Des)amor.

16:22


Eu não estava preparado para acordar de manhã e confundir sua presença pela casa com tudo que iluminava o ambiente. Não estava preparado para abrir os olhos e sentir o cheiro de jasmim que entrava no quarto quando ela saía do banho. Para ouvi-la falando sobre o café enquanto passava um creme nas pernas e se levantava me beijando com todo aquele gosto de hortelã. Não estava acostumado a me vestir ouvindo aquele canto rouco de passarinha que vinha da cozinha junto com um aroma de muito carinho derramado.

Era linda de uma maneira nada óbvia. Se o mundo fosse cego, sua beleza seria ainda mais bonita, porque sentida. Era linda de um jeito que me esquentava o rosto e me esfriava as mãos com o simples gesto de ajeitar os óculos em cima do nariz. Usava roupas vermelhas todos os dias, sol ou chuva. Tinha um sotaque de lugar nenhum, porque não pertencia. Ouvia muito Billie Holiday - assobiava enquanto ouvia, distraída, solta. Viajava sempre, sozinha, com uma mala de livros de poesia. Falava o português mais bem dito que já ouvi, não corrigia ninguém. Andava por aí como se todas as estradas fossem de tijolos amarelos e tinha teorias mirabolantes sobre o modo como meus olhos lhe olhavam.

Nunca disse eu te amo, para ninguém. Não falava sobre solidão, sobre o tempo ou sequer fazia planos para o futuro. Vivia como se a vida nunca lhe houvesse doído. Gostava de dançar de olhos fechados, no meio da sala, superando todas as crises. Não sabia sentar-se como uma dama – como ousaram dizer que se senta uma dama. Os pés sempre ficavam em cima do sofá e ainda assim sua figura era imponente, rainha de si mesma. Os cabelos compridos estavam sempre desalinhados, como se, o dia todo, tivesse acabado de acordar - e sabia que a vida não era nada mais que isso, um eterno despertar de sonhos que se realizam ou esfarelam a cada segundo.

Não tinha televisão. Colecionava sonhos eróticos, haicais, óculos escuros e paixões efêmeras. No apartamento, um tapete com muitas almofadas e uma vontade constante de falar sobre as estrelas. Não gostava do escuro e tirava infinitas fotografias de tudo o que pudesse alimentá-la. Anotava recados nas mãos, desenhava no papel do pão, tatuava o sexo com seu corpo no meu. Morria de medo de avião, preferia ir de bicicleta. Tinha planos de comprar um fusca verde e um telescópio. A preferência para tudo o que se possa enfeitar eram sempre tulipas amarelas.

Gostava muito de morangos, água bem gelada e maçã do amor. Sorria como se tivesse nascido para fazê-lo. Me beijava destrancando todas as coisas mais deleitáveis guardadas nas minhas gavetas esquecidas. Rodopiava doida, cheia de asas, pelo corredor do prédio. Perdia horas na praça inventando histórias para os casais felizes. Fez um filme em plena segunda-feira só para dizer ao mundo que todos os caminhos dão sempre na mesma estrada: o outro. E carregava sua bandeira por aí, disposta a conquistar qualquer lugar que bem entendesse, pois havia descoberto ser uma mulher completamente possível.


Foi embora no domingo, final da tarde, naquele momento onde o coração lateja sem explicações. Foi embora depois de ler todo esse sentimento nas minhas íris indiscretas. Foi embora doce, poesia debaixo dos braços: morria de medo de morrer de amor.

Matéria.

20:00


Você dormindo, um calor intenso, a janela aberta, o teto tão cheio de céu, teu corpo cansado. A respiração tranquila parece narrar um sonho bonito. Teus lábios cerrados me pedem beijos de um jeito insistente, ainda que nada falem. Você muda de posição, a coberta desliza e me deixa desvendar tua pele. Você, em plena madrugada, vestido de si mesmo, cena para uma poesia que eu nunca vou saber escrever – melhor vivê-la ao teu lado.

Meu desejo se alarga, contorno teu mapa com as pontas dos meus dedos. Um rosto ainda tão moço, belo, suave. Tuas pálpebras acalmando teus olhos escuros e muito expressivos – agora fechados, acordando sonhos. Tuas sobrancelhas grossas, muito leves e tranquilamente repousadas. Tua barba inquieta desenhada ao redor da boca silenciada, guardando tua voz, macia, doce, tão acostumada a me chamar de amor. Bagunço teus cabelos e faço um cafuné, cheiro tua nuca, beijo cada canto. Você dormindo e tudo em mim sendo insônia só para te levar ao meu palco.

Me ajeito na cama e sinto tanto ardor – por você, por mim, por essa noite. Me ajeito na cama e meus olhos te procuram novamente em cima desses lençóis já muito usados de um casal acostumado a trepar demais. Sorrio. Eu tenho a sorte de um sentimento que sempre (re)começa. Hoje, eu amo você com uma lua em cada retina – e nesse novo sistema lunar, teu corpo é o centro do meu universo de vontades.

Você existindo é tão bonito. Puxo devagar o que a coberta ainda esconde e assisto. Teus olhos acendem. No vão entre as tuas costelas sinto o coração bater na palma da minha mão, que te acaricia. Meus pincéis aquarelam teus mamilos, tua barriga, tua virilha quente. Meu pé sobe pelas tuas pernas. Minhas mãos te perseguem, fauna e flora. Minha língua lambe todos os teus gostos. Meus olhos são teu melhor ornamento, tudo de mais mágico que existe em mim vai sendo derramado em você nesse esboço sem pressa. Me esqueço só para você me lembrar.

Eu aprendo você a cada dia, para acertar todas as tuas questões. Meus olhos curiosos e de olheiras já arraigadas, recordam teu caminhar pela casa, nu, iluminado, dançando, me abraçando, tirando a minha roupa para combinar com a falta da tua. Você me comendo. Nós dois em frente ao espelho, tatuando nossas imperfeições que parecem tão perfeitas umas para as outras. Nossos pelos, nossas cicatrizes, nossos corpos que vestem tão bem nossas almas – tão violentamente bem alimentadas. Descanso no teu peito e escuto o que ressoa. Durmo, acordada dentro de você, que eu sonho. 

Eu aprendo você só para esquecer todas as desimportâncias que um dia decorei. É espontâneo. Instantâneo. Teu corpo, matéria - junção das partículas de tudo o que mais gosto de admirar.