Outra cama.

21:16


É tudo tão confortável 
— esse fazer amor, 
esse dormir juntos, 
a suave delicadeza…

[Bukowski]

Eu ficava ali, dançando. Como se não existisse tempo, olhos ao redor. Eu só ficava ali, dançando. Três horas da manhã, as pessoas todas em bandos, falando alto, sorrindo muito, jogando fumaça pra cima, música ruim, alguém enchendo meu copo, alguém recitando poesia, vários rodopios, uma garrafa quebrada, todo mundo se atrevendo. Eu me desfazia e dançava entre cometas, bêbados e vagabundagem.

Me desesperei quando ele entrou e sentou-se sozinho no fundo do bar. Acendeu um cigarro, virou uma dose e o mundo se resumia então àquele momento. Tentava pegar seus olhos, inventar um motivo para me aproximar, dizer alguma frase decorada, fingir que acreditava em qualquer coisa que ele dissesse e atuar em relação a todo esse lance atrativo entre o que se pensa e o que se diz. Quem sabe ele se comovesse ao notar minha maquiagem suja e borrada, minha boca vermelha, meus olhos mendigos.

As coisas foram se desprendendo de mim. Ele me ofereceu uma bebida e deixei claro meu desejo. Guardava em sua pose a esperança bonita daqueles que não se escondem. Nossos sentimentos foram abafados pelo arrastar de mesas e cadeiras e novos corpos que se juntavam àquela multidão. Muita coisa sobressaltava, todos se entendiam, abraçavam a loucura abstrata do instante e se desvinculavam de tudo o que ousasse ser humano. Éramos além.

Mais uma dança, a bebida caindo do copo, suas mãos passeando em mim de cima a baixo, rascunhando como que num último retoque todo o meu corpo. Eu seria dele ali mesmo, naquele instante, debaixo de toda a provocação que estava sendo entregue. Me beijou num misto de fúria, drama, comoção, exagero, furtando toda a história pervertida que até então estava sendo guardada em minha língua. Aquelas luzes, aquela sensação de sermos inflamáveis, uma explosão conjunta prestes a acontecer. Já estávamos à beira. Eu despencaria fácil. 

Tocava minhas pernas, firmava meus quadris, lambia meus lábios, mordia as pontas dos meus dedos, recitava sacanagens, ia me amarrando nele, assim, como se houvesse espaço para nós dois debaixo daquela jaqueta preta. Afoguei minha intensidade em seus braços e permiti, repetindo muitas vezes, que ele poderia ultrapassar. Que toda aquela pinta de imensidão dava acesso ao que era muito raso. Ele poderia ultrapassar, poderia ler minhas histórias, poderia zombar da minha cara de quem acredita em romances, poderia me deixar seriamente emocionada. Ele poderia ousar, montar suas putarias em meu pescoço e me fazer desamarrar todas as letras desordenadas que nunca foram ditas a ninguém. Que ele viesse. Que eu fosse.

Me puxou pelas mãos e eu apenas segui, sem saber o caminho. Sem querer saber o caminho. Esbarrei em toda aquela gente, nas gargalhadas que ao tocar meu rosto me faziam sorrir, nos cheiros doidos de coisas que floresciam e iam se impregnando em minha pele, derrubei uma cadeira, traguei um cigarro que outra mão segurava e ouvi a porta batendo atrás de mim, enquanto atravessávamos a rua, correndo. Ele amassava minha mão, meu coração.

Caminhamos até a estação de metrô mais próxima, pegamos o primeiro destino, sentamos e ficamos olhando um para o outro enquanto o céu era inteiro feito de labaredas. As cadeiras vazias, os fantasmas a observar nossa mudez. Todo aquele silêncio me enchia de palavras. Descemos e fomos andando até meu apartamento. Indecências no elevador, convites para trepar na escada, sussurros para não acordar os vizinhos e um passo de tango mal feito no meio do corredor.

Conheceu meu corpo como se nada fosse novidade, como se ele próprio tivesse moldado todos os detalhes naquela manhã que nascia. Seu peso era o peso que eu nasci para medir. Enquanto ele afastava numa carícia os cabelos que caiam em meu rosto, meu queixo se apoiava em seu peito e não sabíamos se era melhor juntar ou separar tudo antes que alguma coisa se quebrasse. Levantei, amarrei as dúvidas junto com os cabelos e escrevi na parede com meu batom vermelho um verso que rasgou meu pulso e deixou muita coisa a mostra. O resto eu havia esquecido na mesa do bar.

No chuveiro, a água deixou que escorressem as marcas do que foi feito. Ficamos abraçados e sua pele ia aquecendo minhas extremidades. Aquele rosto bonito, a fumaça, nossos pés, nossa volta para a cama, o chão molhado e a gente se olhando sabendo que seria a última vez. Gravando vozes, medindo os tons, identificando as cores, colocando pimenta, adiando a hora de ir embora. Queríamos chuva para passarmos o dia em cima do colchão vivendo de prazer, música, doce e conversas sobre coisa nenhuma.

Nos olhamos de perto, lembramos nosso olhar de longe, olhava já com saudades, agarrava com as pernas, com os braços, com todos os movimentos. Mordia, arranhava, feria para fazer carinho. As palavras foram diminuindo e a porta bateu. Um morango explodiu em minha boca, pacote de souvenirs. Fiquei ali, dançando, numa violência sutil, como se não existisse tempo. Misturei tudo com fogo. Falaria de amor no próximo passo. 

Numa próxima cama.

Irritando.

20:45



Barulho quando quero dormir. | Luz acesa quando quero dormir. | Que o mundo exista, quando quero dormir. | Insônia. | Ser avaliada. | Que devolvam algo que emprestei em outro estado que não aquele que a coisa tinha ao ser emprestada. | Que perguntem porque não escrevo na linha. | Que fiquem atrás de mim no computador. | Que fiquem pescoçando quando leio uma revista ou livro. | Que toquem nos meus pés. | Que toquem nos meus cabelos. | Que falem pegando em mim. | Bebida muito doce. | Comidas de São João. | Comidas doces e salgadas misturadas. | Comidas com milho. | Andar de avião. | Unhas dos pés pintadas de cor escura. | Pessoas forçadas. | Pessoas que não sabem escrever e falar e corrigem quem fala e escreve errado. | Quem tem preconceito. | Quem se arruma demais. | Quem usa maquiagem demais. | Paula Fernandes. | Quem critica alguma coisa sem nunca ter lido/visto/assistido àquilo. | Que duvidem daquilo que digo com convicção e certeza. | Arnaldo Jabor. | Que me deixem explicar uma coisa durante um tempo enorme e no final digam não ter entendido nada e peçam para explicar de novo. | Quem eu não tenho intimidade e me visita sem avisar. | Visita em geral que não avisa que vem visitar. | Falar ao telefone. | Telefone. | Natal. | Reveillon. | Conversa séria de manhã cedo. | Redes sociais. | As informações irrelevantes das redes sociais. | Pessoas que constroem uma vitrine nas redes sociais - e saiu dali, é só o oco, manequim. | Quem valoriza o parecer e despreza o ser. | A moda Clarice e Caio que não acaba nunca. | Que façam a piada do mudo - nossa, como você fala demais, não aguento ouvir sua voz - diante de uma pessoa calada. | Que falem demais. | Que me perguntem porque escolhi a profissão que escolhi. | Esquecer o que ia falar. | Que me digam o que eu deveria fazer. | Que me peçam para fazer algo e fiquem analisando todos os passos. | Macarronada sem queijo ralado. | Acarajé frio. | Uva passa.| Que comentem no blog sem ler o texto. | Maria Gadú. | Homens de abadá, bermuda, pochete e óculos escuro na cabeça/pescoço. | Quem acha bonito ficar bêbado. | Quem não está bêbado e paga de bêbado só pra ter uma espécie de justificativa para fazer merda. | Quem bebe para fazer merda. | Micareta. | Carnaval. | Cigarro. | Homens que ligam o som do carro no volume máximo enquanto tomam cerveja no posto de gasolina e chamam as piriguetes para dançar ao redor. | Piriguetes. | Quem pensa que meu ouvido é penico. | Quem é feliz demais. | Quem é animado demais. | Quem é triste demais. | Quem é fútil demais. | Quem é inteligente demais. | Quem reclama do meu problema com gente - beijos. | Quem reclama que eu acho tudo normal demais. | Que falem mal dos meus amigos. | Que julguem. | Quem me conhece depois de conhecer o blog e acha que eu devia ser uma pessoa lírica, fofa, meiga e doce. | Que me perguntem: e aí? O que conta de bom? ou E as novidades? | Meu joelho esquerdo. | Quem me chama pra ver filme e prefere a opção dublado. | Filme dublado. | Que não entendam porque gosto de ver filme nacional com legenda. | Que insistam em tirar fotos quando não quero tirar fotos. | Zeca Camargo, Hebe Camargo, Wanessa Camargo. | Hipocrisia. | Chegar atrasada. | O momento de ir embora de um lugar muito cheio. | Quem ama uma música brega na voz de cantores que não são bregas, mas que quando descobrem que é brega, desprezam. | Crise de enxaqueca. | Doente conversando com outro doente disputando para ver quem está mais doente. | Comida sem cebola. | Não conseguir escrever. | Shopping. | Ver alguém jogando lixo na rua. | Sentar na cadeira da frente, no cinema. | Que puxem conversa comigo no ônibus. | Vendedores da Americanas, Riachuelo e derivados perguntando se não quero fazer o meu cartão. | Perder a tampa da caneta. | Caneta preta. | Ter que depender de alguém para qualquer coisa. | Ir ao banco. | Encontrar pessoas que há muito não se vê e ter que encenar o eterno - vamos marcar? Vamos mesmo. Precisamos. - que nunca dá em nada. | Semi-conhecidos. | As risadas virtuais hehehe e rs. | Que não prestem atenção quando estou falando. | Que me interrompam quando estou falando. | Quem mede a dor alheia e acha que está sofrendo mais. | Que entrem no meu quarto sem bater na porta. | Quem discorda de tudo só para discordar de tudo. | Pisar em chiclete. | Escovar os dentes para dormir, sentir fome, comer, sentir sono e ter que escovar os dentes de novo. | Jô Soares. | Quem acha que ver novela é brega, mas assiste a seriados. | Quem acha ruim que todos tenham acesso à internet e às redes sociais [grandes merda]. | Quem diz que sente saudades mas não move uma palha para mudar a situação. | Pessoas falsas. | Que fucem minhas coisas. | Que resolvam me falar uma coisa e depois digam: nada não, deixa pra lá. | Que descubram que tenho um blog. | Não achar o prendedor de cabelo. | Perder um lado do par de brincos. | Caio Castro. | Poesia que rima. | As redes de TV brasileiras. | Quem gostava do Menudos e critica o Restart. | Quem mastiga de boca aberta. | Telemarketing. | Falta de respeito. | Galvão Bueno. | Cólicas menstruais. | Pessoas grudentas demais. | Atendentes de repartições públicas. | Boates. | Que me acordem. | Pernilongo. | Tempo frio demais. | Animais domésticos. | Levar a culpa por algo que não fiz. | Tosse. | Perguntas pessoais demais. | Quem faz drama com o horário de verão. | Quem faz drama, com qualquer coisa. | Quem concorda com tudo. | Quem discorda de tudo. | Crianças que agem/ se vestem como adultos. | Dor nas costas. | Dor no joelho. | Qualquer dor física. | Tormentos musicais [aquelas músicas toscas que grudam na mente]. | A mulher do Avast falando das definições de vírus. | Fãs póstumos [tipo a moçada que começou a amar Amy Winehouse/ Steve Jobs por esses dias].  | Quem me imita. | Quem tem mais de 20 anos, lê Crepúsculo e ama. | Quem reclama de tudo. | Quem reclama de gente que reclama de tudo. [Minha lista é pra reclamar, não me insira aí - HAHA]. | Esmalte descascando. | A sensação de ter esquecido alguma coisa e depois descobrir que de fato esqueci alguma coisa. | Miguxês. | Quem insere espaço entre as palavras e as pontuações. | Quem se acha superior. | Rixas entre fãs de Guns e Nirvana. | Quem não sabe ouvir. | Blogs de moda feitos por gente que não sabe nada de moda. | Blogs piscantes, com música, anúncios, frufrus, fotografias, buzinas, faixas e promoções. | Que me chamem de blogueira. | Slides no powerpoint com mensagens de autores famosos que nunca escreveram nada daquilo, por e-mail. | Domingos. | Quem faz dieta sem precisar fazer dieta. | Que me digam que eu estou magra. | Pessoas espaçosas. | Estudantes de Medicina que acham que são/serão o Dr. House. | Estudantes de Direito que se acham juízes. | Estudantes de Jornalismo que fazem um blog e acham que sabem escrever apenas por fazer Jornalismo. | Sentir fome. | Casais que brigam em público. | Quem não tem tempo para nada. | Quem acha que é status não ter tempo para nada. | Qualquer um que por ter nível superior acha que sabe mais que os outros. | Generalizações. | Pessoas insistentes. | Regina Duarte. | Pessoas que me elogiam demais. | Que não tenham senso de humor. | Que me subestimem. | Cerveja em copo de plástico. | Repertório de artistas que tocam em barzinho. | Quem não larga o celular. | Quem não fala palavrão. | Que o controle remoto não esteja ao meu lado quando estou deitada e quero mudar de canal. | Que assistam TV zapeando como se não houvesse amanhã. | Embalagens que façam barulho quando não quero chamar a atenção. | Religião. | Quem acredita em tudo o que a mídia diz e não aceita correções. | Cults que só leram a wikipédia. | Multidões. | Falta de educação. | Discussões polêmicas: aborto, política, pena de morte, meio ambiente, união homoafetiva, melhor time, melhor marca de catchup. | Flamengo. | Torcedores do Flamengo. | As doutrinas majoritária e minoritária no âmbito jurídico. | Trotes em universidades. | O clima instável da minha cidade. | Que levem tudo a sério. | Números ímpares. | Carro estacionado na calçada, me fazendo andar no meio da rua movimentada. | Que digam: na minha época não era assim. | Neymar. | Pessoas com carência afetiva. | Cu doce. | Joguinhos para conquistar alguém. | O fato de estar na moda ser nerd e todo mundo achar que é, principalmente se rolar uma blusa xadrez e um par de óculos com aro colorido. | Guetos propositais. | Encontrar pedaços de osso do frango em qualquer coisa recheada de frango. | Times New Roman. | Que não justifiquem o texto ao formatá-lo. | Letra branca em fundo preto. | Os que acreditam piamente em astrologia. | Que me chamem de querida, amiga, flor, meu bem. | Aeroportos. | Maconheiros pseudohippies. | Jornalistas que acham que podem e sabem falar sobre todos os assuntos. | Pessoas indecisas. | Quem não é nordestino e imita o sotaque nordestino [principalmente no cinema, TV]. | Quem exalta os demais países e menospreza o Brasil. | Indiretas. | Dentistas. | Quem canta errado, em inglês. | Comprar uma coisa e depois passar em frente à loja e ver que o mesmo produto está pela metade do preço. | Esperar. | Luana Piovani. | Quem fica mordendo o canudo quando acaba a bebida. | Quem acha que ser popular é sinônimo do que não presta. | Quem faz esforço para não ser amado e querido por muita gente para manter a pose de alternativo, inalcançável. | Quem acha que me conhece. | Quem traça minha personalidade com base no que lê, vê e escuta, mas nunca conversou comigo. | Quem acha que me irrito fácil. Magina! Logo eu?

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Escrito após ler as irritações de Romova e ver as minhas saltarem daqui, para fazer par.

Alinhavando.

13:29


Retalhos do que fi(n)ca.


Eu: uma das coisas mais bonitas de minha vida é ter nascido brasileira. Além de brasileira, nordestina. Além de nordestina, baiana. Quero mais nada.

Amigo: você tem cara de quem vira um copo de uísque sem nem fazer careta.

Amigos e família: deixa de ser chata.

Sergio: minha sobrinha preferida, e só é sete anos mais nova que eu.

Eu para Éden: e mesmo se eu ficar careca e sem dentes, você ainda vai sair comigo?

Amiga: você tem cara de ser muito mãe deles. [Dos meus irmãos].

Primo: olha a cara dela, desprezando todo mundo. Mas eu gosto. É uma das primas que eu mais gosto, mesmo ela me tratando assim.

Mãe: nossa família é a gente. Eu tô morrendo de saudades de vocês.

Sergio: o problema dela é que ela é muito seletora. [Sobre minha análise dos caras ao redor].

Amigo: eu gosto de você mesmo você gostando de Los Hermanos.

Avô materno: você ainda vai ser grande, minha filha. Vai ser alguém maior.

Éden: para de falar assim. A pessoa mais romântica que eu conheço, desacreditada no amor. Para com isso.

Amigo: quer ver a Jaya xingando? É só dar um aparelho que ela não saiba mexer.

Tio: eu gosto demais de você. Não esquece disso nunca. [Abraçando e beijando].

Colega: ela não faz de propósito. É só o jeito dela, com todo mundo. [Me apoiando em defesa ao meu jeito brabeza de ser].

Eu amando: eu vou pulando de pogobol até a porta da sua casa.

Mãe: vem aqui, sua insuportável. Como é que pode ser minha filha?

Eu e Sofia: ela me abraçando e me levantando, no dia em que fui embora.

Pepê: olha que eu trouxe pra você. [Uma caneta, uma bala ou alguma coisa que ele lembre que eu disse estar precisando/com vontade].

Tia Rita: os meninos todos ciumam quando digo que ela é a sobrinha que eu mais amo. Mas o que eu posso fazer, se é mesmo?

Eu: já escutei muito Asa de Águia. Amigo: eu te perdoo.

Tio: você não tem que ligar pra nada disso, não. A gente sabe o que você é. Pra gente, você é.

Avô materno: você tá magrinha demais, não pode ficar sem comer. Nina, traz lá aquele biscoitinho pra ela. 

Eu: Cumpadi Washington moldou o meu caráter.

Avó materna: o que? Você conseguiu? Repete pra mim, não acredito! Deus abençoe, minha filha.

Eu para Éden: eu faço tudo por você.

Primo: tem esses que aparecem às vezes, por obrigação, por necessidade. Você, não. Você é nossa.

Mãe: vai dar tudo certo, fica tranquila. Você tem a gente, minha filha.

Eu para Agnes: eu gosto de gente que sonha. Que vai, mesmo sem pensar, mesmo que seja maluquice. E você vai.

Tio: a gente pirraça, grita, xinga, mas a gente ama muito. A gente ama vocês demais, me dá um abraço e vem ouvir essa música aqui.

Mãe: vai querer comer o que quando chegar? Vou fazer aquele doce que você gosta também.

Avó materna: bordei isso aqui com seu nome, olha. Vou terminar pra você levar.

Mãe: você sempre foi assim, desde miudinha. Quando dizia que acabou, não voltava atrás. E não volta.

Manu: conversei com ele sobre amizade e nos demos por satisfeitos. É como se, nesse campo, já tivéssemos encontrado nossas almas gêmeas. Ele encontrou M. Eu, você. Não precisa mais ninguém.

Mãe: Rebeca ainda fica muito emocionada, não consegue falar com você. Quando escuta sua voz, quer abraçar o telefone.

Avô paterno: vixe, mas tá pisando bonito. Sapato novo? [Toda vez que uso salto].

Primo: você é uma desnaturada, toma vergonha! Não tem mais família não? Trata de vir aqui visitar a gente e deixar de ser ingrata.

Avô paterno: olha aqui essa foto de você quando era pequena, vem ver.

Glau: eu sinto sua falta como se tivéssemos passado mil anos juntas.

Avô materno: a mais bonita de todas nessa foto aí é Jajaya.

Eu para o mundo: foda-se, sabe?

Avó paterna: você é a minha. [Quando eu falei sobre todos serem os prediletos de alguém].

Mãe: você é a amiga que eu tenho aqui. É a minha melhor amiga. 

Avó paterna: vou pra missa. Rezar por você.

Manu: você passa tão zen por essas situações. Eu não aguentaria. Às vezes acho que você é o próprio Buda.

Amigo: você é uma das pessoas mais inteligentes, ternas e sensatas que eu já conheci.

Avó materna: você tem que parar com isso, tem que ser simpática com as pessoas, deixar de ser bicho do mato. [Sobre minhas eternas fugas para não fazer o social com parte da família que não me interessa].

Eu para minhas avós: eu não sou obrigada, não sou política, não preciso ser falsa com quem eu não gosto e não tenho que conviver.

Daniela: vou sentir sua falta. Falta dos seus dramas, das suas oscilações de humor, da sua risada.

Éden: é que eu te amo, sua besta. [Recado deixado no meu mural, na parede do quarto].

Manu: não fui me despedir porque não tive coragem. Na verdade eu tinha a esperança de que você não fosse ter coragem de ir.

Amiga: você não pode desistir dos seus sonhos. Nunca.

Ethel: hoje fui fazer uma prova e a pessoa que sentou na minha frente usava o seu perfume. Lembrei de você, na hora.

Amiga: você nem precisa dizer nada. Não consegue disfarçar. Suas emoções ficam muito estampadas na sua cara.

Tio: eu gosto muito quando você vem ficar aqui com a gente.

Tia: Jaya morou lá em casa uma época, quando era pequena, e aí ela e Mônica viraram irmãs. Mas são irmãs mesmo, um amor doido. Malu chama ela de tia. [Me abraçando e contando nossa história para alguém].

Môni: Malu acordou essa noite chamando você. Acho que consegui passar pra ela todo esse nosso amor.

Môni: essa aqui é minha amiga, minha prima, minha irmã de coração. [Quando me apresenta a qualquer pessoa].

Malu: eu vou com você, tia Jaya.

Môni: eu não sei exatamente o que seria da minha vida sem você. Eu te amo.

Pai: você não precisa fazer isso, se não quiser. Só tem que ficar tranquila, tenta dormir. [Durante minha crise de ansiedade e choro, três horas da manhã].

Amigo: I love you to the bones.

Amiga: eu queria ser sincera no que sinto em relação a todo mundo, assim como você é. 

Agnes: vamos. [Em resposta a qualquer convite que eu faça. Sonho ou realidade].

Lua: a Jaya seria um especial de fim de ano, mas dirigido pelo Selton Melo. Fotografia boa, umas ideias simples, e uma melancolia só pra dar o tom. [Sobre transformar as vidas em coisas televisivas].

Professores: você escreve bem, mas sua letra é muito pequena.

Eu amando: vou dizer que te amo só pra ver como fica.

Colega: ave Maria, você é tão linda. Eu sou assim, quando vejo alguma coisa bonita tenho que falar, não consigo ficar quieta.

Eu: não escrevo na linha, não consigo. Mas também nunca pisei no chão.

Cora: a Jaya vai? Então o filme vai ser ruim. Todo filme que a gente assiste com ela é ruim.

Éden: sem você sou pá furada. [Cantando ao meu lado e de mãos dadas comigo durante a execução da música no show de Los Hermanos, em 2010].

Vinícius: a todos que de algum modo tornaram este livro possível. Especialmente, Eliana e Jaya, pelos incentivos. (...) [Na dedicatória do seu primeiro livro].

Padrasto: Jaya, escreve um livro, Jaya.

Mãe: ele chegou aqui em casa encantado com sua poesia, dizendo como tudo era lindo, falando dos textos. E eu disse pra ele: ela sempre escreveu bem. Eu sempre soube. Não para de escrever não, viu?

Eu para Manu: eu nunca vou falar nada pra ele, não quero arriscar o que existe. Eu estou feliz só por estar sentindo.

Amiga: você não acredita em você? Eu acredito em você. Olha aqui pra mim: você tá preparada, oxe. Vai chegar lá e vai arrebentar. Depois você vai me contar e a gente vai dar uma festa e gritar nesse espaço inteiro.

Mara: mas é pirracenta, olha a cara dela. Nunca vi atentar tanto.

Eu: não tenho mais cabeça pra isso, cansei, vou parar, essa é a última vez. [E depois levantar no dia seguinte, recomeçando].

Tia Ju: parece que foi ontem que você era aquela menina que cantava e dançava as músicas de Xuxa no meio da sala.

Amorzinho: você nunca diz eu te amo. Eu sempre falo antes, você só diz: eu também. [Sem saber que isso nunca havia sido dito, a ninguém, em voz alta].

Cora: você parece a Salma Hayek no filme Frida, mas sem a monosobrancelha.

Eu: nada disso me importa tanto assim, eu só quero poder viajar sempre.

Felipe: você é foda. Se eu fosse mulher, ia querer ser você.

Clarinha: certas pessoas, as da espécie dela, nasceram com um potezinho especial de luz e, sem saber, eles se iluminam e nos iluminam de uma forma mágica, fraterna. [Numa das linhas mais bonitas que já me (d)escreveram].

Kalyua: só na casa da Jaya pra ter um almoço de jovens ao som de Chico Buarque, Vinicius, Toquinho e Tom Jobim. [Durante um almoço baiano sem axé, há alguns anos].

Avó paterna: ave Maria, essa menina não gosta de nada, como que engorda assim?

Mariceli: hoje é seu aniversário? Lembrei que você me disse que nasceu no dia de São José. Olha, parabéns! Você pra mim já é uma pessoa especial e eu nem sei explicar o porquê. Gosto muito de você. [19 de março de 2010, numa ligação inesperada que me fez chorar].

Eu para Cacá: se tu lavar a louça depois do almoço, te dou dez reais.

Cacá: cadê meu dinheiro? Vou falar pra mamãe.

Mundo: seu nome é lindo/exótico/estranho/bonito/éapelido/oquesignifica?

Amiga: é tão bom te encontrar e poder te dar um abraço.

Mãe: tá sem fome? Só pode estar apaixonada.

Eu: é Jaya. J-A-Y-A.

Renato: vem cá, deixa eu te apertar pra ver se você existe mesmo. [Ao me conhecer, em BH].

Eu acreditando: ele nunca disse que me ama, mas eu sei que ama. 

Madrasta: pega aqui esse copo. Quando a gente chegar mais perto, você tenta colocar aqui dentro. [Numa viagem onde eu, criança, queria pegar um pouco de nuvem enquanto o carro ia subindo a serra].

Amigo: não vai embora, não. Fica aqui com a gente.

Eu para a amiga: ele é tão lindo que se vier falar comigo eu vou cair da esteira. Melhor ele me ligar, assim não tem acidente.

Pai: quando ela era pequena, foi escrever o nome dela e escreveu Jaya Magaya. [Pirraçando, quando eu era menor].

Amandinha: eu lembro que quando eu era pequena eu dizia que quando crescesse queria ser que nem tu.

Colega: ei, nem olha pra ela. Não fala com ela não. Ela é minha amiga, conheci primeiro.

Paquerinha: já disse que você é linda? Eu: não, diz aí.

Amigo: com ela você vai, comigo não. Nunca me convidou. [E eu morrendo de amores por ele].

Senhora da lanchonete: ela sempre vem aqui, gosto dela, principalmente quando abre esse sorrisão.

Eu: não sou feliz, não. Mas às vezes eu fico.

E quando a costura termina, tenho um manto de lembranças. Brilham todas. Me cubro e vou. Sempre fui/foi assim.


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Descaradamente imitado e inspirado no texto Momentos, de Cristal.

(Re)inventar.

17:18


Inventou amor
Dentro dela
Não conseguiu tirar

O mundo ficou pequeno.

[João Paulo Cuenca]

Aproximou-se aquele dia, depois de tantos dias, para me devolver o livro que esqueci em seu quarto. Não notou que meus cabelos balançavam uma crise existencial no meio de todo aquele gesto, de todo aquele sorriso largo, de toda essa coisa confortável que sua presença me trazia. Nunca foi muito bom em notar, na verdade. Bebeu do meu suco: senti o hálito de estrelas adormecidas no céu da sua boca. Trocamos algumas palavras enquanto meus dedos brincavam com a borda do copo e ele comentava alguma coisa sobre o último parágrafo de algum capítulo. Acendeu um cigarro, fez um samba batucando na caixinha de fósforos e eu pensando em como seria bom deixá-lo tomar conta de tudo o que guardo. Ele ficava ali, muito parado, muito bonito, me olhando.

Daquele instante, não teve convite nenhum. Não ousou me olhar com outros olhos, com olho algum. Apenas pegava minha mão, fazia um carinho, dava um cheirinho, me convidava para mais uma noite de música. Era importante porque deixei que se tornasse. Deixei que me apanhasse em casa todas as noites que quis. Nunca precisou perguntar nada, eu não dizia nada. No final, me abraçava, pontuando tudo. Era só o que eu precisava. Depois do abraço, ninguém notava, mas sempre voltávamos trocados: um levando o coração do outro. Eu já pensava muito nele. Ele, que me tocava, me sorria, me desmantelava. E eu ia amando, serena, disfarçada, com medo de gritar. Ele gesticulando enquanto dirigia e eu falando de tempos antigos, sobre a vida ser uma invenção fantástica, sobre as saudades das praias, minha vontade de ir embora, meu descaso com os sentimentos. Arrumava desculpas para colar sua pele na minha só para ver o que despencaria de tamanha fusão.

Não espalhamos nossos amores no chão do quarto, mas deitávamos juntos na cama estreita para assistirmos ao mesmo filme pela enésima vez. Ele guardava meu sono. Jamais soube das minhas pieguices. Não me viu chorar no teatro no meio daquela história de amor e caras pintadas. Me ouviu dizer que todas as histórias são de amor e ficava feliz quando eu estava feliz. Me fotografou, provou do meu doce, espalhou seu perfume em minha casa, misturou seu cheiro nas minhas blusas preferidas. Jamais soube das minhas neuroses. Implicava com meu sotaque, me ouvia falar da Bahia. Jamais soube da minha vontade de beijar as pontinhas dos seus dedos. Não sabe que quarta-feira é dia de Iansã e meu dia preferido. Jamais soube que alguns meses depois, três horas da tarde, quando cantarolei o trecho daquela bossa que ele assobiava, eu já estava completamente perdida. Me sentia bonita, toda luzindo e meio azul, porque eu sentia. Até a última gotinha, eu sentia. E pintava tantas vontades naquela tela, com tanta pressa, que os sentimentos se borravam todos e ficava só aquela mancha vermelha de coisa feita para arder.

Veio então esse instinto de convidá-lo para fugir. Mas preferi ficar ali, enquanto ele me falava de constelações, astrofísica, sopa, a cor dos olhos de Chico, futuro, cinema. Eu, atenta, morando naqueles olhos escuros, pensava num abajur barato. Pensava em como francês é lindo. Quis rabiscar as paredes da sala, pregar o botão que caiu da sua roupa, que ele me acompanhasse, que me perguntasse aquele monte de coisas doidas que não pergunta a mais ninguém, que me deixasse aninhá-lo em meus braços. Pensava em gastar aquela grana comprando uma vitrola antiga, discos. Imaginava que tudo o que precisávamos era um tapete enorme, algumas almofadas e uma parede de fotografias. Pensava em colocar uma bandeira com nossos nomes na lua. No fim, só acabava puxando-o pelo sorriso até a próxima esquina.

Foi meio aquela história de avencas e samambaias e crescimentos insuspeitados. E eu inventando histórias aleatórias e muito intensas enquanto ele ia tomando conta de mim e eu pensava nas cartas que escrevi para o meu primeiro namorado, sem saber de nada da vida. Não sei de nada da vida. Sentava na escada com meu caderno, desenhava estrelas de caneta bic e pensava em como o cheiro do pescoço dele me pervertia. Pensava em passar as horas ali, ouvindo Novos Baianos e completamente viciada em falar de amor.

Lembro muito da noite em que segurei um cálice de vinho, olhei em seus olhos e adiantei as saudades só para que elas acabassem se confundindo, na esperança de que depois não soubessem por onde caminhar. Me embriagava e repetia: está tudo bem, coração. Tudobemtudobem. E vinha essa vontade de chorar, fugir para alguma cidade no interior de Minas, publicar um livro só para contar que tinha achado um amor e ainda sentia. Repetiria em uma folha inteira: ainda sinto. Ad infinitum. E provaria que nada mais é tão importante assim.

No momento em que minha língua adormeceu de tanta poesia, meus gestos lhe explicaram que existem pessoas que ainda acreditam, sentem, deitam na grama, enlouquecem, caminham sem rumo, abraçam, se importam. Existe o sempreamar. E enquanto for assim, vale a pena estar vivo. A vida. Essa vida, em todas as cores-dores-energias-sinceras. A punição não é outra senão carregar esse coração cada vez mais arregaçado de tanto. De tudo.

Coisa mais frágil, entregue, irresponsável, amara. O amor. Dura o tempo de um para sempre.

E começa outra vez.

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Junho de 2011, republicado.

O amor mais bonito da cidade.

13:30

Os plágios mais irritantes da internet.

Plágio: crime. Previsão: Código Penal e Lei de Direitos Autorais. Quer saber número e artigo, joga no google ou leia aqui, não quero me repetir. Esse já é o quarto texto que escrevo sobre esse tema infeliz [os anteriores foram deletados]. Andava com preguicinha. Andava espiando meus plagiadores preferidos, dei uns gritos, sumiram. Daí vieram outros, mas em blogs sem pernas, sem sentido, sem acesso: pra que me estressar, não? É um precinho por se publicar na internet. Dei um tempo, deixei de lado, voltei hoje. Parasitas existem em todos os cantos, mas não sei o motivo de tanta preferência pelo Líricas. Preciso me benzer.

Todos dizem: escrevi, voou, é de quem lê. Tá, sempre achei assim. Eu só quero os créditos, só isso. Não tenho ciúmes. Repito: se não quisesse vê-los espalhados, jamais publicaria na internet. Escrevo porque existe amor. Escrevo para receber amor, para doá-lo. Talvez ninguém tenha uma noção tão profunda do quanto o Líricas. já me acrescentou na vida. Um amor para amar, umas amizades de vidas inteiras, uns carinhos necessários. Uma reciprocidade que faz tudo parecer a coisa mais certa do mundo. Eu não quero um livro, não tenho pretensão de ser escritora: eu prefiro isso aqui. Essa não-responsabilidade, esse sentimento solto, essa coisa nossa, esse contato. Gosto de reservas. Não divulgo o blog em nenhum outro espaço. Pessoas que me conhecem a vida inteira nem sabem que isso aqui existe. Já até apanhei quando descobriram. [Oi, Mariceli!]. Então, tenham noção do quanto esses textos aqui são minha alma. São bobos, são restritos, são insignificantes, são despretensiosos, mas são meus. Têm uma mãe. Nasceram daqui, preencheram a página em branco de uma maneira incrivelmente pessoal. Não são anônimos.

Quando descubro plágios, vou aos locais, salvo, dou print, comento [se permitem comentários e não tiver má-fé explícita], peço a autoria e as pessoas atendem, às vezes. Mas sempre tem uma galera, como a que falarei abaixo, que não está dando a mínima. Geralmente essas pessoas carregam um blog inteiro plagiado. Pessoas amáveis, purinhas, sem malícia. Que delícia existir gente assim no mundo, não? Fico logo morrendinho de amores. Hoje, vim dar uma dica: estou aguardando que coloquem os créditos nos meus textos. Que deletem, tanto faz. Não fazendo, vai todo mundo parar aqui. Nas mãos do blogger e demais legislações acerca. Além disso, tem uma licença lá embaixo, depois do texto, tá vendo? Espia ali. A licença exige: nome, link, mimimi, nhem nhem nhem. Ai, que preguicinha de ter que ensinar isso a vocês. Até porque, vários utilizam essa porrinha em seus espaços. Já sabem.

Após os primeiros plágios no Líricas., os textos ganharam registro e passaram a ser protegidos, bem como a gerar uma lista com os direitos autorais, data, horário e demais coisinhas automáticas sobre a postagem. Várias regras. Tudo arquivado. Caso alguma dessas pessoas honradas queiram contestar, colo as provas na testa de cada um. Ontem descobri uma nova ferramenta que me deixou boquiaberta. Até então, a melhor das que já utilizei. Essa noite insone fiquei fuçando. Me senti mal. Só deu tempo de checar os textos de 2011 e: decepção define. Gente, qual o sentido de fazer isso? É tão perceptível que aquilo não é seu, sabe? Você se sente bem se enganando dessa maneira? Se sente feliz recebendo elogios por uma ideia que nunca foi sua? E no meu caso, quando o texto é meu, você pode pintar como quiser, eu reconhecerei. Reconheço. Reconheci. Como eu consigo? Fácil: EU quem criei. Saiu de DENTRO. Só não identifica quem não é responsável pelo parto.

É uma pena que seja assim. Apesar de, quero agradecer aos que aceitaram os comentários e alteraram a autoria. Aos que me procuraram via e-mail e resolveram tudo de maneira clara e sincera. Agradeço até mesmo aos que se envergonharam e deletaram o blog [os dessa espécie, sempre voltam com novo blog fazendo a mesma coisa, como já aconteceu].

Para os amigos blogueiros que sofrem do mesmo mal, uma listinha de ferramentas úteis:

Copyscape: útil, mas fornece pouca oportunidade de pesquisa.
Plagiarism: a ferramenta mágica que me mostra até os textos que você copia em sua casa, no seu caderno.
Quem me ama: mais fraco de todos, mas melhor que nada.
FairShare: coisa mais linda, indicada por Carol. Semanalmente, gera um feed com as porcentagens de cópias que seus textos sofreram, por palavras e tudo mais. A parte mais bonita? Te mostra, no conforto do seu lar, os links dos sites que fizeram as tais cópias. Não é lindo? Um beijo para quem inventou isso.

Abaixo, os nomes dos textos aqui publicados e os links para as cópias que a mossada jovem fez, ao lado:

1. Kihodara Nascimento: @kihodara. [Deletou o twitter e as postagens no Facebook após essa publicação e manifestações de amigos lindos: aqui e também no twitter].

Uma moça que twitta uma e outra coisa (?)  daqui como sendo tweets dela. [Inclusive, Lu, no meio do caminho tinha a cópia de um comentário seu, feito no meu texto O problema... . Que fofo, né?]. Enviei vários recados, tentei contato, esperei dias, não obtive retorno. O que fazer? Divulgar. Certeza que aqui ela vai acabar lendo.

Condicional: https://twitter.com/#!/kihodara/status/92045348125675520 [com aspinhas: clap clap].

E, no Facebook dela, terão acesso à cópia feita da postagem “Para uma menina com uma Flor”, onde comentei sobre o bom de ter Vinicius de Moraes na minha vida e ela copiou esse simples comentário:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=167568619989786&set=p.167568619989786&type=1&theater

Aqui, ela copiou um texto que fiz para minha primairmã. O texto leva o título "Môni". Quero muito que Kihodara, que julga ser tão sensível e parece posar como tal, deixe de ser tão [insira aqui uma palavra que defina isso, eu já nem sei]. Após esse gesto, é bem claro que ela talvez seja a pessoa mais insensível da cidade. Por não ter a capacidade de entregar seu próprio amor, e furtar o meu, em letras. E, principalmente, por tudo que leva daqui e pinta como sendo dela. Esse é um dos piores plágios que o Líricas. já sofreu. Quando pegam textos pessoais demais, para os meus, eu chego a chorar. E xingaria absurdos nesse momento, mas não o farei. [Mentalmente já esgotei o dicionário de palavrões, óbvio]. Ela não merece nem isso. Não merece nem nada. [Merece que eu junte num só processo danos morais e plágio. Repetindo: mesmo que delete, tem print de tudo]. Olha:

http://www.facebook.com/photo.php?fbid=171137159632932&set=p.171137159632932&type=1&theater


Colega, na boa: Freud explica. Ou não.

2. Esse tumblreca, praticamente meu. Vi textos da Srta. Midlej por lá, também. [Deletado após essa publicação. Não sei se pelo próprio "autor" ou se após minha denúncia diretamente ao tumblr].


Tenso, amigo.

3. Aqui, por uma falha de uma divulgação no Facefuck, tem um trecho de um dos textos, “Condicional”, divulgado como sendo de Caio Fernando Abreu. É, o queridinho de toda essa mossada jovem atual. Se você bota uma coisa dramática, doente, sofrida, e dá uma xingada, todo mundo já diz que é de Caio e acha UAU. Haha. A pessoa ainda tentou meter meu nome ali no meio, mas, tarde demais: quando isso caiu no tumblr, virou o caos, mais de 50 reblogagens. Tumblr é uma coisa fodida, aliás. A gente não pode nem comentar. Modinha é uma coisa triste. Parem com essas porras e voltem a escrever em blogs. Escrever, tá? Copiar não. Espia:



4. Esse bolinho de gente [deixei alguns de fora porque acredito que modificarão]:

É de mágica: http://meninabem-te-vi.blogspot.com/2011/07/fantasia.html [Mistureba lok]. [Trancou o blog após essa publicação, fechou o perfil, mas o twitter tá aqui: Ariana Fernandes].
Marias: http://portodassaudades.blogspot.com/2011/05/nao-venha-roubar-minha-solidao-se-nao.html [De novo, moça?] [Deletou a postagem após essa publicação].

Memes, tumblr, fotologs: queimaria todos se fossem feitos de papel. Desejo uma pane no sistema e que vocês nunca mais consigam acessar essas merdas.

Tudo lindo, não? Eu acho. E outra: não é assim que vocês conseguirão o meu amor. Podem partir para outra estratégia de conquista. Muahaha.

Só mais uma coisa. AMORES:

1. Internet é domínio público. A desculpa imbecil de que o que nela se encontra pode ser usado de qualquer maneira é lenda. Continua nessa que eu amo mais.

2. Se o texto foi tirado do MEU blog ele é MEU. Os raros que não o são encontram-se devidamente identificados.

3. Com essa nova ferramenta eu descubro o mundo. Segurem seus cus na bunda que eu vou gritar sempre.

4. O blog tem um programa espião. Sei o IP de todos os que acessam, sei qual navegador utilizam, a conexão, o local (cidade, estado e país) e o tempo que permanecem no blog. Sei o que vocês fizeram no verão passado.

5. Véi, na boa.

6. Engraçado que quando o texto é de gente famosa, de clássicozinhos blogueiros como Caio F. [luv ya, Caio], a galera faz questão de botar a autoria. O que há de errado em identificar autores meio-anônimos, hein?

7. Reli o texto hoje, 23 de setembro, e estava sem o 7. Aí vim aqui colocar. Haha.

8. Espero que os meus amores, que sei que continuam a frequentar o Líricas., façam o que pedi. Não foram vocês quem escreveram nada daquilo, então, né. Por gentileza. [Só Deus sabe o quanto estou me esforçando para ser uma lady, completamente phyna e não descer do salto nesse momento].

9. Puriçoo ki o Braziu n cmnha, mano. Coleh a di vosses? [Variando a escrita, porque vai ver copia porque não sabe escrever, daí].

10. Dica de filme: O Homem que Copiava. [Brinks].

11. Aprendam que: os autores dos trechinhos, versinhos, coisinhas que coloco no início de cada texto, escrevem APENAS aquilo ali. Parem de publicar meus textos creditando como sendo de Rodrigo Amarante e etc. Aprendam a ler.

12. Não tem 12. É só pra não fechar a lista com número ímpar, tenho TOC.

E é isso.

FECHEM A INTERNET!

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Perdão aos que comentam, que se importam. Queria aproveitar para dizer que o Líricas. tem uma característica incrível e essencial: as palavras de vocês. Me importam mais que todos os textos juntos. Não existe outro blog com pessoas tão fantásticas. Com comentários tão queridos. Esse espaço é mais de vocês do que meu. Eu só volto, porque é uma delícia esperá-los a cada publicação. Sou absurdamente grata a cada uma dessas visitas. Caminhamos juntos. Quando esses textos são expostos nesses lugares acima citados, perdem o significado. Vai incompleto. Falta vocês.

Aos amigos de sempre, muito carinho. Aos que chegam agora, venham sempre. A todos: OBRIGADAS. Aberto, grande, extenso, sincero: OBRIGADAS.

Carn(av)al.

22:21

Sem olhos, sem boca
sem dimensão.

[Drummond, em: Um homem e o seu carnaval]

O batuque, a poesia jogada passando de raspão. As vozes misturadas, sonhos embaralhados, paixões enlaçadas, multicores. Brilhos, um beijo em cada esquina, uma lua morando no mar. Versos loucos escorrendo pelas ladeiras. Cada uma das gentes, em suas belezas, pareciam ser patrimônio local. Desconfia-se que tenham nascido para participar aquilo. Todos os cheiros se enroscam e o feitiço ambiente faz de tudo um grande samba. Até o chão, num tímido movimento espontâneo, levanta suas faíscas de poeira para entrar na dança.

Os sentimentos doidos varridos encontram labirintos e também se perdem, outros se (re)encontram. Foi assim que ele dobrou aquela esquina. Eu havia acabado de fazer um pedido, e ele dobrou naquela curva, quando a rosa amarela despencou dos meus cabelos. Viu, veio me entregar, entregou-se. Observou meus olhos escuros cansados de guardar estrelas que cintilava euforicamente vários tons tresloucados de amor. Sorrimos, nos abraçamos, cantamos juntos e recitamos, tontos, todo aquele exagero do poeta que falava sobre essa coisa quimérica que era o fato de estarmos ali, dependurados nos cabelos azuis de fevereiro.


Naquela noite fiz questão de estar presente em todas as suas interjeições. A cada vez que ele me tocava, eu usava o gesto como desculpa para me aconchegar. Daí então as horas passaram e declaramos desejos debaixo de muita luz. Não sabíamos ao certo o que fazer com as mãos: acabávamos sempre conexos, pertencentes, doados. Acarinhava sua face atrasando os ponteiros de todos os relógios que nem existiam debaixo daquele céu espantosamente bonito, e meu coração já pulsava na garganta quando me desesperei no meio daquele povo. Daquilo tudo que treluzia. Ele, atrás de mim, observava as fantasias: me disse que todo aquele nosso disfarce era a maior revelação.

Deslizei meus dedos em seus lábios, medindo as possibilidades de doçura morando em sua boca. Provoquei o que também ardia em minha língua, deixei que seu nariz fizesse um carinho manso no meu, e mostrei-lhe como as pálpebras também beijam lembranças bonitas. De lá pra cá, fazendo história em toda aquela rua de pedra, mentimos um para o outro afirmando dominar o amor. O frevo, os confetes ao nosso redor, os rodopios. Estávamos perdidos. Sem olhos, sem boca, sem dimensão. A poesia já passava apertada, impossível desviar-se. Sentamos na calçada, tomamos emprestado todos os delírios encontrados próximos ao meio-fio. Ele acendeu um cigarro e eu pesquisava seus sentidos.

Parecia um sentimento que já morou em mim na época onde eu sorria melhor e mais bonito. Parecia um desencontro, um mapa mal direcionado. Parecia uma notícia bonita. Uma poesia nova. Um beijo dado bem devagarzinho. Parecia a vontade que eu tenho de ser feliz. Parecia carregar um pedaço concentrado do que sou, sem ter a mínima noção de tanto. Parecia ter esbarrado em meu peito. Deixou minha alma balançando, desatada.

E dançamos. Pulamos sem deixar que as almas voltassem para seus lugares, caímos no chão, trêbados, enquanto eu reclamava dos pisões que levava nos pés. Era nosso passo, nossa ausência de ensaios. Não havia tempo para não viver. Ele entendia minhas mímicas de amor não dito enquanto brincávamos de ser criança e nos apaixonávamos a cada piscar de olhos. Tudo parecia uma citação grifada no meu livro preferido. Virei a página: dois suspiros mais distantes dali, meus cabelos balançaram vontades muito vermelhas. Ouvíamos o som abafado da rua já distante, fogos riscando o céu e os tambores batendo ainda dentro em nós.

Um dedilhar primário, um reconhecimento: seus anseios em meu vestido, cujas alças deslizaram mostrando os ombros nus que agora carregavam, leves, suas urgências. Me convidou com seus olhos, me tocou com sua respiração. Suas mãos em minhas mãos, seu suor em minha pele, os corpos inteiros bocas. Dedos, línguas, dentes, um pecado tatuado em minha virilha. Um enlevo em comum e dois murmúrios enleados sem nem notar que já havíamos enlouquecido faz tempo, ali, entrelaçados, sôfregos. No primeiro abrir de olhos, entoamos duas dúzias de palavras mágicas e o amanhã já chegava, fazendo sol sob os jornais. Vestiu-se de fumaça, vesti-me com sua blusa. Daquela vez, como se fosse a última, a única. Observamos pela janela e vimos que em passos trôpegos, pisando em toda aquela alegria esparramada, apresentava-se a quarta-feira, já cinza de toda aquela chama.

Fevereiro passou. De azul que era, encarnou-se. Guardamos poemas nas pedras daquelas ruas de ser feliz, lembrança de um tempo onde havia coisas lindas. É tudo sempre parte de um dos ritos do amor: carnaval e tê-lo. (E)ternamente.

Leve.

21:37

Quantas vezes nós dissemos eu te amo
pra tentar sobreviver?

[Aparências - na voz de Belchior]

Eu só queria dizer que me importo. Com todo mundo. Todo o mundo. Dizer que queria poder cuidar, amansar. Queria que soubessem o tanto de amor que tenho, porque tenho. Porque fui moldada em abraços e palavras precisas. Em gestos suaves, frágeis e tão transparentes, que amarro com pequenos nós, em cada cílio, todos os afetos que me são entregues. Derramam-se em mim a cada piscar. Queria que soubessem que se não existir amor nesse mundo, eu faço outro, tantos mundos quantos forem necessários, com o meu amor. Queria que soubessem que tem que ter brilho. É tudo feito para brilhar, você entende? Que soubessem, por último, que as lembranças, todas elas, me infinitam. Razão de tanto coração. E eu preciso muito ir. Tem esses acúmulos transbordando e quando uma só pessoa não dá conta de segurar, é preciso que se espalhe. O problema, tão inocente e clarinho, é que talvez não tenha problema nenhum, apenas - e tão somente, como se isso fosse pouco e descartável - sensibilidade demais.

Meu primeiro carinho, é o sorriso. É também o primeiro carinho que levo.

Leve.

Autorretrato.

10:40

Colômbia, 1966.

Meu nome, senhor, é Gabriel García Márquez. Sinto muito: também não gosto do nome, porque é uma sequência de lugares-comuns cuja conexão nunca fui capaz de fazer. Nasci em Aracataca, Colômbia, há quarenta anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Peixes e minha esposa é Mercedes. Essas são as duas coisas mais importantes que aconteceram na minha vida, pois, graças a elas, pelo menos até agora, tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Sou escritor por causa da timidez. Minha verdadeira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. De qualquer maneira, as duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde que eu era criança: que meus amigos pudessem me amar mais.

No meu caso, ser escritor é uma realização excepcional, porque escrevo muito mal. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de oito horas de trabalho; luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão teimoso que consegui publicar quatro livros em vinte anos. O quinto, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre meus credores e minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Nunca falo sobre literatura, porque não sei de que se trata; além disso, estou convencido de que o mundo seria o mesmo sem ela. Por outro lado, estou convencido de que ele seria bastante diferente sem a polícia. Penso, portanto, que teria sido muito mais útil para a humanidade se, em vez de escritor, eu fosse um terrorista.


[Gabo, o mais escritor. Ponto].

Condicional.

22:48

Alguma coisa a gente tem que amar.

[Condicional - Rodrigo Amarante]

Eu sempre achei que amor era o mais importante. Essa necessidade de sentir para ganhar sentido. Acho que é aí, nessa hora, que você consegue sacar a vida: quando ama. Aí que tem essa delícia plena de notar-se sempre com treze anos quando descobre-se que aquele alguém também gosta de você. Essa coisa bonita de sorrir e ser sorrido, até que, num piscar, os sorrisos se embaraçam num beijo. É essa possibilidade fantástica de enfiar-se no campo magnético daquela outra pessoa e sentir-se protegido porque estar dentro daquilo é muito bom. E as primeiras investigações. Recitar um diálogo juntos e maldizer aquela poesia que todo mundo gosta e idolatrar aquela música brega e sair dali assustado com o mundo ao notar que ainda existem coisas encantadas. Que dividir um pacote de pipocas no cinema é a melhor desculpa para deixar as mãos se tocarem pela primeira vez. Tenho essa necessidade de ter alguém e sentir que todas as peças desencaixadas de dentro de mim poderiam ser montadas naquele momento, com uma intensidade despreparada ao redor. Daí os outros me dizem das minhas precisões antigas. Das minhas necessidades antigas. Ninguém recorda que quando nasci não teve anjo nenhum me dizendo nada, como Drummond e Chico tiveram. Só me dizem que é foda. Que adoece. Fuço numa lembrança e vejo que sim, já sofri pra caralho, já senti essa dor quase física quando fui deixando um amor partir. E todo mundo já sentiu também porque essa dor é uma dor coletiva. É em torno disso que o mundo gira, por mais que se disfarce. Esse meu amor não foi vivido, mas milimetricamente fantasiado. Coisa ficcional demais que possibilita uma porrada de histórias. Naquela época cheguei a pensar que, cara, o que vai ser de mim se tudo isso minguar? E passou e eu sobrevivi. Agora tem todo esse medo de pirar, porque, honestamente, sinto muito, mas não sinto porra nenhuma. Fico numa angústia, naquelas de estar down e pensar que nunca vou amar ninguém e puta que pariu. Eu comprei essa história. Já briguei. Não consola, disse o verso. Então eu penso e invento de escrever uma canção dizendo que estou sozinha, apaixonada. Para lançar no espaço sideral. Um sentimento no vácuo. Objeto não identificado. Fico nessa onda de sair de mesa em mesa tentando pescar qualquer migalha de amor nos copos alheios, tentando me interessar por pessoas e coisas óbvias quando isso não tem nada a ver comigo. E não tem nada mais patético, nada mais agressivo a si mesmo do que catar raspas e restos desinteressantíssimos. Porque não. Não tem mais nada, cara? E o sentido maior da vida? Questões e um desespero estonteante porque saio de uma cidade para outra acreditando que agora eu vou entender essas existencialidades malucas que se agarram em minhas entranhas. Mas, olha só aqui pra mim, que tal essa pose? Ideologiaeuqueroumapraviver. Fico aqui, parada, cada vez mais só, porque é o que acontece quando se acha mais da metade do mundo vazia demais, superficial demais. Ao mesmo tempo em que me invade essa certeza de ter nascido blues demais. Mas não se preocupa não, ainda tenho essa paciência para acreditar, para amansar a dor, para sepultar um sentimento e regar o outro que nasce. Eu não atendo o telefone, não consigo. E também não tenho para quem ligar no meio da noite e dizer que tá doendo pra caralho, vem me ver, por favor. Ninguém para atravessar a cidade por mim. Eu preciso chorar com coisas lindas, como quando assisti à peça Aqueles Dois e saí dali desnorteada de tanto amor por um dos atores. Preciso de muita energia mágica concentrada, como naquele outubro debaixo do céu de Salvador com Marcelo Camelo berrando que Deus vai dar aval sim e o mal vai ter fim. E Deus, meu Deus? Porque sou muito centrada, muito doada, muito osoutrosdepoiseu. E nesse mês de abril recebi tantos socos, afoguei tantos sonhos nos meus travesseiros, suei frio de tantas saudades, perdi três quilos. Amor é meu tarja preta, mas tá em falta e eu sou completamente viciada. Sentir sempre foi a minha droga, onde será que encontro uma embriaguez levinha? E ainda tem essa obrigação filha da puta de ficar contente porque se você quer se isolar e sofrer tudo da maneira como tem direito, ninguém deixa. Aparecem os colos necessários, os convites para um porre, mas também tem muito conselho que não serve para nada porque as pessoas ainda não entendem que sempre que alguém está doendo vai achar que não tem dor maior no mundo do que a sua própria. O que, aliás, eu acho muito justo. Ser egoísta na dor é necessidade. Aí fica assim, a realidade toda fodida e eu sem nem sequer saber como me iludir. Só me iludo na hora errada, na hora da paixão, quando começo a ficar cheia de asas e a espalhar excesso no meio das fantasias. A realidade do sentimento é sempre mais fraca, o que salva é a poesia. O que a gente pensa oferece abertura a tendências que se desviam do que de fato é. Dois níveis - emoção e razão. E é tudo tão doído também, tão perverso. Tem essa correria, essa loteria, essa minha pressa em sair de casa quase esquecendo de levar o coração junto. Amar é tão de graça, cara. Eu sei porque já estive lá. Sei que existe. Existe todo esse blábláblá e clichês e mimetismos. Vai ver estou andando pelos lugares errados. Não tenho nada nas mãos, aqui. Lugares geográficos, esse é o problema. Não caibo. E sempre estrago tudo. Porque quando a coisa fica bonita demais eu vou me autossabotando até não existir mais nada. Medo do que me faz bem, de ser bom. Não tenho esse dom de atuar em cima da vida pagando de normal, de ahcomoesseassuntoéinteressante, mecontamaissobrevocê, porque não rola. Não tem espaço. Eu preciso chegar, olhar no olho e dizer, benzinho, estou loucadevocê. As projeções que comprei ao longo do tempo, malditas, diminuem qualquer emoção real. Deixa pra tocar o chão depois, sabe. Sonho não se dá, diz o Ruivo. As medidas do Bonfim, tantas, ainda hoje não me valeram. E a cada uva que conhece minha boca nos finais de ano, é um amor que engulo em pedido. Já andei exausta de tanta ternura. Desmantelada. Hoje, meu amor é um casaco jogado no chão, de braços abertos, esperando quem saiba vesti-lo.

Existe alguém para me libertar.

Marias.

22:20

E amizade dada é amor.

[João Guimarães Rosa]

Disseram que amor é mesmo assim: quando consegue deixar caber pessoas em suas letras, aperta tanto que o jeito é ficar de mãos dadas, lá dentro. Fica fazendo pose de sem-fim. De querer fincar e ter asas, ao mesmo tempo. E as demais palavras do vocabulário, todas elas, ficam envergonhadas, disfarçando o medo de perder sentido diante dessa palavrinha que diz um mundo. Que sustenta um sentir inteirinho. Disseram que amor é palavra grande, quase nem cabe. E o que é a amizade, senão amor duas vezes? Amor acostumado.

Eu poderia fazer uma canção. Um sambinha manso sobre essas pessoas encantadas que hoje carregam um tiquinho da minha bagagem. Mas minha música eu faço é assim, no papel. Cada um coloca a melodia que entender melhor. Importa é conseguir tocar. E junto a isso, fico pensando também em falar sobre afinidade, que foi quando reconheci o que também era meu, nelas. E na maneira fantástica como um cheirinho de alegria tomou conta do meu sorriso assim que foram, uma de cada vez, estrelas que são, penduradas em meu coração, tão ansioso por novos enfeites. Hoje, ao tê-las por perto, alugo os brilhinhos de cada uma. O pagamento é gentileza, sortida, a longo prazo.

A primeira delas, quando caiu, carregava ternura pendurada em cada cacho daqueles cabelos compridos. Um exagero de delicadeza e palavras que só me impulsionavam a querê-la bem. Muito bem. Um respeito pelos sonhos em comum que se casaram e passeiam juntos, ainda hoje. As outras duas vieram misturadas, por outro caminho. Uma miudinha, bailarina, feitinha em todos os detalhes para o amor. Daquele tipo de poeminha que, se não tivessem feito, eu trataria de inventar. A outra, leve, levinha, pintada de azul e branco, sorrindo paz e entendendo muito de mim. A mais doce criatura de todas as que levam seu nome. A quarta delas, pousou depois, chegou me desarrumando com aquela alma menina. Levava um jardim no rosto e um abraço nos olhos, abrigo para mim. Presentes. Coisa já traçada. Pessoas inevitáveis.

Eu tive tempo de ir firmando devagarinho cada detalhe. Desembrulhei cada uma com muito cuidado e coloquei no canteiro, para observar crescer. Até que enraizou. De brotinhos pequenos que eram, hoje os frutos são colhidos em qualquer estação. São quatro espécies, quatro tons, quatro afagos. Quatro Marias. Sentimento já convencido, sorrindo um para o outro.

Hoje existe essa alegria a cada vez que posso olhá-las, desarmada. Hoje me sinto mais aqui, porque me sinto nelas. Existe aquele orgulho em apontar de longe e dizer: são minhas amigas. Amigas. Extensões de mim. Esses retalhos já tão bem alinhavados, porque dessas coisas bonitas, na vida, a gente costura é com afeto.

O tempo, apesar de meio desmantelado, deu seu jeito e fez tudo parecer a hora certa. Porque sobra essa capacidade de ir atrasando o relógio e mergulhar no passado enquanto o futuro é tela. É no presente que eu remonto a ausência de não ter vivido nos primeiros anos de cada uma. Não estávamos lá nas primeiras recordações, não sabemos de onde vieram as primeiras cicatrizes. Mas temos tempo. Temos histórias do nosso tempo. Nossas mesas de bar com tantos sorrisos despencados, bobagens caídas debaixo das mesas. Nossas vozes misturadas, nossos silêncios, cinema, teatro, viagens. Uma super lua no céu, quando no primeiro encontro de todas debaixo do mesmo teto.

Temos o Líricas., com essa poesia das horas antigas no agora. Essa vontade mútua de sermos um tanto bem maiores. E além do que temos, que venha o que queremos. E que nesses quereres possam caber (re)encontros, pés descalços, gargalhadas, pôr-do-sol, tons de vermelho, bossa nova, um brega depois de algumas doses, dança, letras, suavidade, sonho, festas de realizações, saudades matadinhas, livros, aniversários, manhãs enluaradas, noites amanhecendo, flores, fotografias ridículas, abraços, teatro, clareza, conforto. E mais todas aquelas palavras que eu nunca vou conseguir dizer. Falta nome. Sobra coração.

Eu vi. Vi quando cada uma delas dobrou as asas para sentar ao meu lado.

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Para Agnes, Mariceli, Mai e Quel.

Um obrigada tremendo por fazerem essa cidade sorrir.
Por fazerem de mim, uma cidade que sorri,
enquanto compõem morada na rua mais clarinha.

Vê se tá bom de açúcar.

14:24

O meu mínimo olhar
me enche de sensação.
E o mais pequeno som,
seja do que for,
parece falar comigo.


[Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)]

Eram várias palavras dentro da minha bolsa, cada uma com duas asinhas, seu Zé. É esse, então, o motivo de não conseguir guardá-las por muito tempo: as histórias acabam voando. Fico observando a capacidade que tudo tem de ser assim, inacreditável. Meus cílios conversam entre si a cada vez que meus olhos piscam e acabam se abraçando quando demoro num sonho, trazendo pro lado de dentro um pouquinho de presente bonito para que o futuro possa desembrulhar. Sei que o senhor sabe como é.

Falando nisso, às vezes fico tentando desenrolar um texto, fazendo parecer fácil essa mania de procurar frases no chão como se olhasse o céu. Porque tem horas que os papéis se invertem mesmo e fico sem saber desembaraçar. Tudo parece andar de mãos bem dadas, como naqueles amores antigos que caminham por aí com seus cabelinhos de algodão.

De vez em quando, seu Zé, eu fico assim, muito triste e chorona, e a vida perde os motivos, perde a graça, perde a mim. Fico querendo achar por aí, derramada sem querer, uma porção de felicidade. Podia ser a granel, para entregar a todo mundo, porque muita gente precisa mais que eu. E aí não saio contando pra ninguém das minhas amarguras, que é pra não ficar circulando ao meu redor, sabe, seu Zé? Procuro tratar das coisinhas pequenas e vou me esquecendo quando vejo um sorriso. No final está todo mundo sorrindo junto e isso é o que importa.

Eu disse ontem mesmo que o mundo é grandão e incrível. As coisas só existem porque acreditamos nelas. Sorrio muito para isso, viu? A gente precisa é de fé. E de pessoas. Porque me sinto meio vazia de pessoas, pessoas dessas que fazem festa na gente, que fazem a alma bater palmas. Pessoas que entendam esse meu jeito de não fazer muito alarde, de chegar sem espantar as borboletas. Eu tenho uma joaninha no dedo indicador e essa sensibilidade ardendo nos ombros desde muito tempo, seu Zé.

Eu confesso: se o senhor quer saber, quero uma casinha à beira-mar, numa cidade miudinha. Bastava caber meu coração, porque eu tenho sim esse amor que dá para cobrir o azulzinho inteiro daquele mundaréu de água. Assim tudo caberia. E lá eu nem ia ficar arrumando CD's, livros e guarda-roupas na tentativa de me reorganizar internamente, porque tudo seria o meu avesso. A vida não ia precisar ficar empilhada num canto. Eu imagino que mesmo quando anoitece, na praia a gente é sempre uma pessoa solar. O senhor não acha?

Me deixa quietinha aqui, nesse canto do sofá, já que tem esse cheiro de jasmim em volta. E se os pelos do meu braço se arrepiarem quando um sentimento novo se encostar em mim, já vou saber da necessidade danada que eles têm de espiar o que foi que andou estilhaçando o gelo que já andava trincando aqui dentro. E daí então se essa pessoa falar de sol, arco-íris e sorvete, vou ficar gostando tanto das palavras dela, que não vou nem me preocupar em dançar no silêncio que de tão branco vai parecer levelevelevíssimo. Silêncio diz é coisa, seu Zé.

Não sei se o senhor sabe, mas tenho um menino nos olhos. Ninguém entende que ele está sempre cheio de cor na curva das minhas pálpebras. Aliás, se tudo tivesse cor, eu talvez desistisse da vontade de saber usar os cílios para varrer as desventuras que vez ou outra me caem nas retinas.

Sinto a realidade assim, hoje: já consigo caminhar na lucidez. É como quando se tira as rodinhas de apoio da bicicleta, o senhor lembra? A gente pedala sozinho sem nem notar. E vai. Só que eu não sei pedalar de braços abertos, ainda. Medo, parece. Quando aprender, eu conto. Vou sair abraçando o mundo como quem quer costurar amor em tudo. Mas, ó, eu tenho ido. É que já tenho asa e isso ninguém nem sabe.

E no mais, vambora contando nossas gigantices sem a vulnerabilidade de nos empequenarmos ao cruzar com essas pessoas pequenas. Sejamos nós dois os maluquinhos que ainda ouvem a voz do passarinho pousado no fio, mesmo com esse tantão de barulho na rua.

Olha aqui bem dentrinho de mim, ó: deixa sempre esse sorriso sabido do senhor esquecido no cantinho do pirex que apoia a xícara de café. O senhor nem sabe, mas esse é o segredo que faz deixar a bebida sempre quentinha.

Eu vou é pendurar mais um tiquinho de coisa boa ali no varal, seu Zé. Tem tanta coisa esbarrando nesse coração que daqui uns dias não vai ter outra alternativa senão dividi-lo.

Vê aí se tá bom de açúcar.

18:20



Eu me sinto como num lugar errado, num tempo errado. Num tempo veloz, em que é melhor ter muito, muito rápido, que criar raízes lentas, cultivar aos poucos e manter por anos a água, o sol. Feito uma árvore. Que precisa estar firme, e pode estar só. Não somos mais firmes. Nunca estamos sós. As pessoas vão esquecendo que só existe EU porque existe TODO. A extrema necessidade de constante companhia cria uma profunda solidão, crônicaguda. E eu sou lenta, sou antiga. Eu quero o cuidado, a morosidade, o i-n-s-p-i-r-a-r-e-x-p-i-r-a-r. Quero ter calma para chorar, quero sofrer tudo. Quero ter tempo de o sangue coagular e a pele nascer. Sem pontos. Sem artifícios.

Não somos apáticos: tem muito tesão, tem muita paixão. E de que vale impulso se não tem porquê? Paixão é desculpa do medo, tesão é desculpa da pressa. Falta tempo para o Amor. Falta respeito ao Amor. Falta Amor. E demorou um tempo pra eu entender que é preciso definir. Porque tudo tem peso, tudo tem nome. Porque não se fazer entender é criar mentiras sobre si.

Que seja feito, que seja livre, que seja romântico. Que seja eterno, platônico, carnal. Que seja Uno, que seja Pluro. Mas que seja
sempre. Que seja o mote, o motivo, que dê c-o-e-s-ã-o à existência.

Amor [s.m.] comunhão íntima, coesão com o universo (com ou sem conotação religiosa).

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Que eu sinto, em silêncio. E ela vai escrevendo por mim. Sobre nós.