Bordado.

16:55


Eu nunca gostei de ter um nome diferente, especificamente durante a minha infância. Não achava bonito ter um nome em sânscrito, porque ninguém sabia o significado. Quando alguém se interessava eu contava uma história misturada com Hare Krsna, mantras e qualquer coisa da Índia. Escolha de meu pai. Eu nunca gostei de ter um nome diferente até o dia em que me olhei no espelho e percebi nos meus olhos, no formato do meu rosto, que eu jamais aceitaria ser chamada por outro nome – que eu jamais atenderia, ao ser chamada por outro nome. Dentro do meu mundo, sou a única que responde quando entoam essas quatro pequenas letras. Não existe outra, apesar de existirem outras, em outros mundos. Aqui, na parede do meu quarto, ao lado da minha cama, sempre teve esse quadro: Krsna, hindu em todas as suas muitas cores. Um dos deuses que me abençoam, e para quem deve ser muito simples cantar o que me explica.

Eu sempre tive muito medo de amar, tanto ainda mais quando não tinha noção de que já nasci amando: nasci do amor, daí esse sufoco de coração. Eu sempre tive muito medo de amar porque sempre tive muito medo de doer, sem nem saber, entretanto, o quanto dói viver, independente do que/ a quem se ama. Foram muitos anos de defesas inconscientes até perceber que tudo é tão melhor quando ele coloca a mão na minha coxa e eu sinto que cada dia é mais bonito por poder transbordar meu melhor lado em alguém. Amor é uma espécie de fé: quando se tem, viver é preciso, correto, e o universo se enche de axé. O que sou, ao lado dele, o brilho dos meus olhos é quem sempre diz. Ele sabe onde fica cada uma das minhas pintas e eu construo pilhas e mais pilhas de palavras para falar sobre ele enquanto releio os livros que me deu de presente no último Natal.

A minha maior preocupação sempre foi ser. O que, como, porquê eu seria. Procurava entender a mecânica da alma tentando encher de ciência toda a minha falta de lógica. Doida ou santa, não entendia se pendia para a sorte ou para o destino. Foram amarrados desejos que só deixaram arranhões no meu teto de tanto que os encarei com a cabeça no travesseiro, fechando depois os olhos sem saber por onde caminhar. Caminhar, quando só queria mesmo é voar. Foi quando entendi: passarinho. Daí então me alimentei de tantas pequenezas que minha vida nunca mais foi igual. Uma distraída ave, delicada e transparente, chorando para brotar as sementes internas e catar frutos de poesia. Uma agonia cheia de intensidade por me saber perdida em uma época sem espaço para nos pesquisarmos. Tanta preocupação em ser, quando tudo eu já era. Tanto, eu já sou. E gosto quando ele chega e me olha como se eu fosse um feriado, porque é quando sei que é sempre tempo para tudo.  


Aí eu escuto meu nome, amo e sou, como num bordado, onde tudo se comunica. Tão viva que consola a vida. Jaya significa Vitória e eu escolhi só contabilizar os ganhos.

Jasmim.

07:33

Entrou já atrasada, descalça, segurando os sapatos de saltos muito altos na mão esquerda. Na mão direita, equilibrava a bolsa e um cigarro que tentava manter-se aceso entre o polegar e o indicador, apesar da chuva. Caminhava nas pontas dos pés, com os cabelos encharcados e a face em aquarela chorosa, pela maquiagem que escorria. Não quis toalha para enxugar o excesso de água, estava com muito calor - repetiu duas vezes. Sentou-se.

- Me protegi na marquise do prédio da esquina por quase uma hora, até que me descontrolei. Sou eternamente água em minhas vezes de sereia. Sol, ascendente, lua, Vênus: tudo água. Caminhei pela rua deserta em passos muito lentos, me deixando molhar na espera de que tudo o que ainda fosse broto acordasse dentro de mim. Tudo o que carrego quer amanhecer, principalmente no meio de uma madrugada muito amarela. Astrologia é uma das desculpas da vida. Hoje saí de casa querendo fazer parte de um musical, nadar pelada num rio de águas muito transparentes, me sentir plena, louca, solta, mulher – despudoradamente mulher. É necessário ser aceita, por ser. Afinal, não somos, todos? Saí querendo poder andar de bicicleta com meu salto agulha, que é tão frágil, mas equilibra o meu mundo – e só os deuses sabem o peso que o mundo tem. Saí querendo alguém que me queira gostoso, com olhos, nariz, boca, pele, sexo – e poesia. É preciso que se queira com poesia. Tenho sentido muito frio em dias com muito sol. Ando na expectativa de escrever um manual explicando que ninguém deve jamais ler a vida como um manual – não somos estáticos, nos fodemos e nos curamos dia e noite. Um coração partido se quebra para, na soma, multiplicar ainda mais de si. Tenho esses cacos todos, rachaduras profundas, já enlouqueci oitocentas e noventa e seis vezes nas últimas quatro horas. A loucura infinita se infiltrou em cada uma das minhas veias e escrevi um livro de ontem pra hoje, cento e dezenove páginas em nome da necessidade de me livrar de toda e qualquer história que ele ainda possa protagonizar na minha vida. Agora só tem espaço para mim – reticências infinitas para todos os novos roteiros que chegarão. Posso acender mais um cigarro? Me desculpe.

Enquanto falava, balançava muito as pernas. Soltava a fumaça entre os lábios bonitos que tinham um estranho formato de coração e parecia haver ali – atrás de toda a fumaça - um véu, através do qual eu peneirava seu desespero. Aquele delicioso desespero de quem vai. Ela estava indo.

- Acendo todos esses cigarros porque geralmente não sei o que fazer com as mãos, existe um vão muito grande e fico na ânsia de agarrar alguma coisa. Qualquer coisa. É tão importante que se tenha algo nas mãos! Você não acha? Talvez a ideia de possessão. De poder controlar algo. Sou tão intensamente descontrolada que meus olhos denunciam. Minha nudez maior eu carrego entre as pálpebras, sou transparente, muito clara, só me cubro para sonhar - é quando as pálpebras me vestem, então. Sentir continua a ser a única maneira que conheço de estar viva. Sentindo, não preciso fazer sentido algum. E não faço. Tenho visto todos aqueles filmes franceses, ensaiado uns puta delírios completamente europeus, entrado em transe a cada vez que uma coisa muito linda se aproxima. É incontestável a imensa beleza que tudo carrega. A minha ansiedade é desesperadora. Me livrei de promessas. As coisas agora acontecem quando me deixo engravidar por elas, preferivelmente ao engolir distraídos copos de cerveja e sentir a vida muito dócil, maleável. Minha gestação dura uma vida inteira. Carrego amor, o parto é eterno. Entre transtornos e felicidades: sobrevivo. Minha cama continua grande demais, meu coração cansado demais, minha vida um teatro com atores ruins demais. Um problema muito comum, uma vez que ninguém ensaia para cair no mundo. A gente sai da nossa redoma aos prantos. Nascer dói. Renascer, no entanto, é doce. Estou renascendo. Isso é bom pra caralho.

Levantou-se e saiu, assim: despetalada, exalando aquele seu cheiro louco, voando em plena tempestade, semente de si mesma, aguardando a próxima primavera.

Ensaio sobre ele.

15:10


Os olhos escuros, quando muito perto dos meus, ficam mais claros. Parecem acender luzes para me mostrar os caminhos por onde seguir. São olhos meninos, quando sorri bonito de coisas tão simples. Olhos atentos, quando me derramo neles. Olhos ousados, quando me olham de cima, piscando intenções duvidosas. Olhos de tela para tudo o que seu coração sente – e que o meu aprendeu a ler desde a primeira vez onde minha retina descansou junto à sua.

O abraço é o começo de todos os seus carinhos. Me aperta, me desmonta, me recompõe, me traz de volta para mim, quando me perco no fim da tarde de alguma segunda-feira cinza. O abraço tem a medida exata de onde nasci para caber. No seu peito, aninhada em seus braços tão seguros, tudo pulsa cheio de calma – até mesmo as urgências deixam de ter tanta pressa, só para sentir tamanha eficiência: o mundo para enquanto a gente brota um pouco mais, um dentro do outro.

Tem uma voz tão séria que às vezes chega a trovejar. Ao mesmo tempo, essa mesma voz se adapta a tudo o que ouve. Canta para mim, quando está feliz ou muito bobo. Sussurra doce, desfazendo meus nós mais difíceis. Diz que me ama com a maior afinação de amor que existe no mundo. A acústica das suas palavras são mais precisas quando caem nos meus ouvidos que nunca se cansam de ouvi-lo. E no silêncio, em meio a todo aquele cafuné dengoso, sonhos comuns se aconchegam em nossos colos de nuvem.

Quando chega em casa muito cansado, preparo um afago de duas mil horas. Beijo sua testa, seus olhos, mordo suas bochechas e entrego um beijo bagunçado, só para vê-lo sorrir. Quando faço cócegas nas suas costas, todos os pelos se arrepiam – daí então ele implora para não parar nunca mais. Fico ali, distraidamente concentrada, deixando seu cheiro alimentar tudo o que respiro. Depois dele, não acendo mais incensos. Toda a essência do que me tranquiliza, me acorda, me espiritualiza, me faz melhor, encontro ali, no seu cangote – um mundo a mais em meio a todos os mundos que seu corpo me permite conhecer.

Me escreve coisas sempre transparentes, num exagero de sinceridade, tão comum a tudo o que representa. Faz chover em meu rosto lágrimas muito satisfeitas, a cada vez que uma frase ou um verso seu nasce para mim. Sente a vida de um jeito tão encantado que às vezes tento pegar suas lentes emprestadas, só para enxergar um mundo tão manso assim. Em meio a toda a sua lucidez, consegue fantasiar o que todos os meus momentos pedem, só para fazer doer menos. A surpresa mesmo acontece quando a realidade abraça nossos sonhos e entendemos o poder de querer, em par.

Me ensinou a andar de mãos dadas, a pluralizar meus pronomes. Me faz brilhar diferente, enquanto ele mesmo reluz em mim. Consegue me tocar com uma suavidade que nem parece caber em seus gestos firmes. É minha família mais próxima. Meu melhor amigo. Cuida tão bem das minhas horas que devolvo cada segundo com um amor assombrosamente imensurável. Sou maior, tão grande assim, por sê-lo, além do que sempre fui. E somos.


Hoje, todos os meus parágrafos antigos sentem muitos ciúmes. Não fazem parte dessa história, a mais bonita que já escrevi - sobre o meu melhor amor.

O que Poesia.

16:48


Pudesse em tudo haver ternura, seu Zé, e a vida ia fácil. Pudesse em tudo haver amor e eu faria do mundo um imenso jardim onde em todos os olhares brotariam apenas flores. Pudesse uma criança me desenhar, aí então eu seria o que quisesse, pois nos pincéis dos pequenos é onde mora toda a poesia infinita de ser. Pudesse tudo o que sinto ser muito azul, daí então eu faria estrela em cada teto e abriria uma portinha de acesso ao paraíso, onde toda a felicidade que existe faria morada e as pessoas todinhas aprenderiam então a sorrir de verdade.

Pudesse a gente peneirar as lembranças, seu Zé, e as coisas não seriam tão de doer. Mas uma dorzinha até que faz bem de vez em quando, o senhor não acha? É porque eu penso assim: pudesse não haver lágrimas, de onde brotariam as coisas bonitas que somos todos? A gente nasce chorando é pra essa chuva de dentro molhar todo o adubo dessa amabilidade que os anjos preparam quando um novo coração bate no mundo. Pudesse juntar todo esse batuque e a gente faria um samba de amor demais.

Pudesse a gente ser sozinho no mundo, seu Zé, e que sentido haveria em ser? Eu preciso dos olhos dele me olhando para ver o deslumbramento acontecendo e acreditar em todas essas coisas muito encantadas. Eu me descuido de propósito, porque é ali mesmo, nele, onde me perco. Mas me encontro muito mais. O meu amor é passarinho, seu Zé. Corre solto por aí, já viu infinitos quilômetros de céu, voa leve e muito docilmente, e nunca esquece o caminho de volta. Tudo porque já fez ninho no lugar mais seguro do mundo: dentro dele. O meu menino. Pudesse todo mundo ter um encontro bonito desse e eu ia misturar todos os acasos para fazer deles um só destino comum e muito mágico.

Pudesse nada nunca mudar, pai e mãe sempre viver, vô e vó sempre dengar. Pudesse a gente enganar as saudades, seu Zé, e talvez nunca que a gente ia ler ou contar histórias muito belas sobre sentimentos contrariados e apressados de muita paixão. Pudesse a gente estar terminado, completo, de onde então que ia ser tirada a doçura de estarmos sempre nos (re)descobrindo? Pois então o senhor veja, imagine só, que eu não quero nunca ser completa. Coisa boa na história da gente é se estufar cada vez mais de muita vida que se vive o tempo todo. Terminar-se é aceitar que acabou, e os dias todos são um eterno recomeçar. Recomecemos.

Pudesse eu nunca ter aprendido a escrever, seu Zé, nem tampouco desenhar. Aí eu seria muito mais atrapalhada. É que na minha língua as palavras dançam e se atropelam sem mira alguma na hora de saltar. Na minha fala as palavras se perdem muito rápido em sua confusão imensa, daí então que escrever foi a maneira que encontrei de gravá-las para alcançar o mundo, mesmo quando eu não puder estar. E se hoje eu escrevo assim, meu já tão querido seu Zé, é porque foi a maneira mais gentil que encontrei de abraçar muita gente ao mesmo tempo, já que meus braços não se esticam tanto assim.

Pudesse não haver abraço, seu Zé, e meu coração nunca que ia saber conversar. Muito tagarela quando estou amando, o caso mesmo é que hoje, no abraço daquele moço, esse coração faz até poema. 

Deixa eu ir, que ainda falta é muito a se poesiar nesse mundão imenso.

Helena.

22:08


Dancei a noite inteira cheirando seu cangote de cheiros profanos e perturbadores. Desfiz a fita amarela que segurava seus cachos espantados e me deixei enfeitiçar por todos os seus movimentos. Nunca então havia cometido pecado mais doce que aquele: o de morar nos olhos claros de Helena. Requebrava de um jeito desequilibrado, com gestos bêbados e suaves, no meio da roda, me olhando de cima, cheia de desdém, mordendo os lábios e me implorando um verso doido. Fiz um concerto inteiro só para despertar sua emoção.

Para Helena, eu sempre tirava o chapéu. Ela passava e levava consigo tudo o que eu era. Meu sorriso, meus sentidos, meus assuntos. Já era dona do meu cavaquinho, cada uma das cordas havia decorado seu nome, só obedeciam ao ritmo que movimentasse seus quadris. Empenhei minha viola porque só sabia chorar por ela. Passava as noites em claro pensando em sua pele de Iracema, que acordava a cada toque meu. Fumava um cigarro, bebia uma aguardente, sentava no mesmo banco de sempre no boteco, e ficava ali, riscando o balcão com meu cotovelo de apoiar todos esses devaneios de amor demais.

Guardava meu dinheiro, economizava os miúdos, juntava meus poemas, comia na casa de Ana, dormia na casa de Rita, desenhava o corpo de Júlia, fazia tudo por Helena. Fui ficando a cada dia mais desajustado, a cada hora mais desapontado. Helena estava solta no meu coração de tantas prendas - tantas presas. Na sua eterna inquietude, espalhou-se por meu corpo inteiro e, ainda assim, não saciava. Era um anelo de vontades que me dominava o juízo ao mesmo tempo em que acabava por perdê-lo.

Já numa noite de muita graça, com a quermesse armada na praça central, veio Helena enfeitando o vento com seu jeito de se espichar e me atiçar. Usava uma saia rodada e um chinelo dourado. Pisava naquela rua de pedra como se o mundo acabasse de ser construído, só para cabê-la. Vinha numa avidez exausta, muito selvagem, deixando seu rastro. Parecia uma presa muito difícil, que jamais cairia na minha tocaia. Corri ao seu encontro, ofegante, rondando a caça, armado de carinhos. Seu corpo, suado de muitos passos, grudava sua blusa branca nos seios, deixando exposta uma provocação latente, tão dissimulada quanto ela mesma.

Foi atrás da igreja que nos descobrimos. Helena não se debatia, me deixava pegá-la; amansá-la ainda quando fazia suas vezes de bicho, rangendo os dentes e gemendo o som da sua raça de mulher voraz. Era tão faminta que salivava sua libido em minha boca. Nessa guerra tão lasciva, montamos ali uma trincheira, redoma para o prazer que vinha sendo descoberto. Debaixo da saia de Helena, a poesia me queimava. A heresia mais bonita e impetuosa foi essa que cometemos, abençoados por lua e estrela. Um teto de fulgor.

Depois era manhã e acordei antes do sol, para prepará-lo. Lustrei a ladeira toda só para que brilhasse o seu gingado. Fiquei na janela, ensaiando uma serenata com uma caixinha de fósforo nas mãos, falando muito torto, vestido em meu farrapo. Muito singelamente, soltei um verso no espaço, quando ouvi os primeiros passos. Num improviso vagabundo, Helena caiu em minhas mãos, exoticamente desarmada, me permitindo dedilhá-la ali, no meio da cidade.


Tão maluca e aturdida em sua própria magia, Helena sambou. Em mim.

30.

21:57


Dezenove de março, começo da noite, penúltimo dia de verão, renasci. Trinta anos. 

Aos cinco já sabia ler e escrever e sonhava os trinta anos de um jeito enfeitado. Queria crescer e ser igual a uma amiga de faculdade da minha mãe: cabelos pretos sempre soltos e expansivos, batom sempre vermelho e muitas pulseiras nos braços que faziam um barulho que muito me agradava e deixava hipnotizada por ela. Ana. Aos cinco, eu seria Ana aos trinta, e andava sempre com muitos anéis nos dedos e um estojo de maquiagem sendo carregado por onde ia. Aos cinco, às vezes acompanhava minha mãe na faculdade e me imaginava Bióloga, como ela, aos trinta. E obviamente queria logo ter trinta anos para poder usar calça jeans e fazer todas aquelas hidratações nos cabelos.

Aos dez, os trinta eram sonhados com muita graça, ao olhar meus pais, cada um com sua família. Aos dez, pensava que os trinta me trariam muita maquiagem e salto alto e uma vida corrida entre filhos e marido e trabalho intenso. Aos dez, pensava que aos trinta teria minha casa própria, um carro e faria viagens para visitar meus irmãos em todos os feriados. Aos dez, nos trinta eu seria Engenheira Agrônoma, para usar os livros do meu pai e da minha madrasta e falar muito sobre tudo o que sempre ouvia os dois falando, mas principalmente para plantar e fotografar todas aquelas folhas de sempre no campo. Aos dez, minha vida aos trinta já estaria completamente resolvida.

Aos quinze queria fazer Psicologia, Jornalismo e Letras, mas não amava mesmo nenhum. Só queria poder escrever. Aos quinze queria poder ter uma prévia dos trinta me mostrando como seria caso escolhesse uma dessas profissões. Aos quinze imaginava os trinta como um lugar onde eu saberia tudo o que precisasse. Aos quinze falava sobre os trinta com muita empolgação, seria independente, moraria sozinha num apartamento pequeno com muitas almofadas e um aparelho de som muito caro, e as paredes todas seriam uma estante com os meus muitos livros infinitos que já estariam sem onde caber. Aos quinze não imaginava os trinta com amor, mas seria experiente e teria uns dois namorados, porque casamento sempre pareceu mesmo dar muito trabalho e a vida já havia me apresentado alguns traumas.

Aos vinte e um fui feliz e me quebrei muito emocionalmente, ao mesmo tempo. Aos vinte e um não tinha mais jeito de sonhar uma profissão: um diploma inesperado estava quase me abraçando. Aos vinte e um já sabia o que seria aos trinta. Aos vinte e um, teria trinta com um mestrado e um concurso público e poderia viajar muito para a Itália, sempre que desse vontade. Aos vinte e um achava que aos trinta moraríamos juntos eu e Éden e a gente teria um lugar muito alternativo, colorido e massa. Aos vinte e um comecei a beber nos barzinhos e em festinhas e achava cerveja uma coisa boa pra caralho, mas não gostava de vinho. Aos vinte e um achava que aos trinta já gostaria muito de vinho, porque vinho e trinta anos parecia ser uma combinação perfeita.

Aos vinte e cinco descobri minha liberdade de ser, e sabia que teria muito mais asas aos trinta. Aos vinte e cinco me amei absurdamente, brilhando muito, já sabia que aos trinta minha luz seria imensa, intensa. Aos vinte e cinco a profissão se definiu oficialmente, por causa de um pedaço de plástico com minha foto: Advogada. Aos vinte e cinco sabia que aos trinta talvez estivesse sempre no TRT com uma pilha de Reclamações nas costas. Aos vinte e cinco não queria ainda saber de amor, completamente conformada com casualidades e vazios. Aos vinte e cinco conheci Namorado, mas eu só queria mesmo uma noite bonita e não teria espaço pra ele nos trinta. Aos vinte e cinco ir para o boteco era sempre o instante de maior poesia para a vida, e sabia que aos trinta já teria conhecido muito mais botecos e marcas de cerveja muito boas. Aos vinte e cinco uma editora apareceu no meu caminho me oferecendo uma oportunidade muito bonita, aí então publiquei meu primeiro livro, sabendo que aos trinta iria me arrepender disso. Aos vinte e cinco achava que os trinta demorariam muito mais pra chegar, porque com vinte e cinco eu não estava ainda sabendo de tudo e faltava pouco tempo para ser essa criatura tão sábia, como devem ser todas as criaturas de trinta.

Aos trinta, nunca usei batom vermelho e penduricalhos demais me irritam. Mas uso muito jeans, assim como minha mãe fazia. No entanto, tenho preferido vestidos. Aos trinta, um salto no pé é raridade, elegância é conforto e não aparência – amo sapatilhas e tenho um all star branco. Aos trinta todo mundo fala muito em ter. Matéria. Tenho muito pouco, mas sinto um tanto. Meus livros vão muito bem, Gabo ainda é o preferido, a coleção aumentou e ao contrário do que previ aos vinte e cinco, aos trinta o que brota é um novo livro meu, sem arrependimento algum. Eu não tenho um apartamento, moro em duas cidades. Não tenho um carro, ando muito de ônibus, mas principalmente a pé. Não tenho tantas mobílias assim, mas acabamos de comprar um sofá para deixar a casa com mais cara de ninho, porque o que importa para mim e para ele é o conforto de nos aconchegarmos em nós mesmos.

Aos trinta não sou mãe, quem sabe aos trinta e cinco? Ser tia é uma doçura. E sou. Aos trinta todo mundo me olha e fala da minha aparência física desses eternos vinte anos. Agradeço. Os trinta realmente não me pesam quase nada no corpo físico. Não me pesam em canto nenhum. A engrenagem não para. Aquelas asas de idades atrás são motivos de voos constantes. Aos trinta oscilo dos dez aos vinte em instantes. Todos os anos anteriores gritam e me poesiam, com essa mesma liberdade com a qual invento uma nova palavra. Delírio verbal. Trinta anos é idade cósmica, quem não mergulha não conhece o universo de si.

Aos trinta sou completamente mulher, solta, dona de tudo em mim. Aos trinta me aceito inteira, cada cicatriz, pelo, fio de cabelo. Aos trinta tem esse orgulho imenso em ser quem sou, simplesmente porque descobri o belo de nunca tentar me padronizar. Aos trinta meus projetos são infinitos, meus caminhos são variados, minha direção é o que me faz bem. Aos trinta tudo o que se sente é fome, com toda uma graça especial nos gestos. O mundo é alimento. Aos trinta tudo é muito sagrado, eu e todos os deuses, e o amor como única religião que abençoa.

Aos trinta ainda não gosto de vinho, mas bote essa cerveja que a gente leva sempre que der. Aos trinta um boteco ainda me soa muito mais interessante do que qualquer baladinha que nunca fui, nem irei. Aos trinta, muita gente misturada continua a me dar um silêncio enorme, prefiro olhar os olhos que me olham e sentir o que salta. Aos trinta me sinto muito solar, capaz de ser o que quiser, inventando um lugar, tal qual a Tigresa de Caetano. Aos trinta, o que não tem mais jeito, rejeito. E vou sempre que a vida me chamar. Aos trinta nada envelhece, tudo nasce, a beleza de ser cresce. Trinta anos e tudo em mim floresce.

Aos trinta o que mais interessa é o amor. Todo tipo de amor, mas principalmente esse que tenho plantado e cuidado ao lado de Namorado, aquele mesmo dos vinte e cinco, que seria uma noite só, e permanece desde então, todas as noites. E tardes. E dias. Aos trinta costurei um amor que nunca imaginei ser possível em nenhuma outra idade, logo eu, sempre tão impaciente com bordados e carregando um medo constante de suas agulhas. Aos trinta aprendi a amar por saber apenas que não tem como saber de nada: é coser linha nova para cada novo retalho e ter sempre uma estampa sobrando para ajudar a cobrir um pedacinho rasgado de qualquer coisa que possa doer. Aos trinta sinto meu amor (re)nascendo a cada novo ano, até os próximos trinta, e todos os próximos depois dele. Aos trinta, amo, porque sou o amor.

Poucos dias atrás, os trinta chegaram. Ele ali, ao lado, meia noite, beijou uma mulher de trinta anos. Beijou todas as mulheres que já fui, em todas as idades. Aos trinta meu beijo beija mais bonito. Meu abraço abraça mais sentido. Meus olhos olham mais tranquilos. Meu sorriso sorri mais carinho. Aos trinta sou todas as minhas idades deitadas no meu colo recebendo muito afago por terem me trazido até aqui.

Aos trinta, sou essa coisa assim, absolutamente possível. Numa acontecência acentuada e excessiva. Eu sou eterna e quero é mais.


(Des)amor.

16:22


Eu não estava preparado para acordar de manhã e confundir sua presença pela casa com tudo que iluminava o ambiente. Não estava preparado para abrir os olhos e sentir o cheiro de jasmim que entrava no quarto quando ela saía do banho. Para ouvi-la falando sobre o café enquanto passava um creme nas pernas e se levantava me beijando com todo aquele gosto de hortelã. Não estava acostumado a me vestir ouvindo aquele canto rouco de passarinha que vinha da cozinha junto com um aroma de muito carinho derramado.

Era linda de uma maneira nada óbvia. Se o mundo fosse cego, sua beleza seria ainda mais bonita, porque sentida. Era linda de um jeito que me esquentava o rosto e me esfriava as mãos com o simples gesto de ajeitar os óculos em cima do nariz. Usava roupas vermelhas todos os dias, sol ou chuva. Tinha um sotaque de lugar nenhum, porque não pertencia. Ouvia muito Billie Holiday - assobiava enquanto ouvia, distraída, solta. Viajava sempre, sozinha, com uma mala de livros de poesia. Falava o português mais bem dito que já ouvi, não corrigia ninguém. Andava por aí como se todas as estradas fossem de tijolos amarelos e tinha teorias mirabolantes sobre o modo como meus olhos lhe olhavam.

Nunca disse eu te amo, para ninguém. Não falava sobre solidão, sobre o tempo ou sequer fazia planos para o futuro. Vivia como se a vida nunca lhe houvesse doído. Gostava de dançar de olhos fechados, no meio da sala, superando todas as crises. Não sabia sentar-se como uma dama – como ousaram dizer que se senta uma dama. Os pés sempre ficavam em cima do sofá e ainda assim sua figura era imponente, rainha de si mesma. Os cabelos compridos estavam sempre desalinhados, como se, o dia todo, tivesse acabado de acordar - e sabia que a vida não era nada mais que isso, um eterno despertar de sonhos que se realizam ou esfarelam a cada segundo.

Não tinha televisão. Colecionava sonhos eróticos, haicais, óculos escuros e paixões efêmeras. No apartamento, um tapete com muitas almofadas e uma vontade constante de falar sobre as estrelas. Não gostava do escuro e tirava infinitas fotografias de tudo o que pudesse alimentá-la. Anotava recados nas mãos, desenhava no papel do pão, tatuava o sexo com seu corpo no meu. Morria de medo de avião, preferia ir de bicicleta. Tinha planos de comprar um fusca verde e um telescópio. A preferência para tudo o que se possa enfeitar eram sempre tulipas amarelas.

Gostava muito de morangos, água bem gelada e maçã do amor. Sorria como se tivesse nascido para fazê-lo. Me beijava destrancando todas as coisas mais deleitáveis guardadas nas minhas gavetas esquecidas. Rodopiava doida, cheia de asas, pelo corredor do prédio. Perdia horas na praça inventando histórias para os casais felizes. Fez um filme em plena segunda-feira só para dizer ao mundo que todos os caminhos dão sempre na mesma estrada: o outro. E carregava sua bandeira por aí, disposta a conquistar qualquer lugar que bem entendesse, pois havia descoberto ser uma mulher completamente possível.


Foi embora no domingo, final da tarde, naquele momento onde o coração lateja sem explicações. Foi embora depois de ler todo esse sentimento nas minhas íris indiscretas. Foi embora doce, poesia debaixo dos braços: morria de medo de morrer de amor.

Matéria.

20:00


Você dormindo, um calor intenso, a janela aberta, o teto tão cheio de céu, teu corpo cansado. A respiração tranquila parece narrar um sonho bonito. Teus lábios cerrados me pedem beijos de um jeito insistente, ainda que nada falem. Você muda de posição, a coberta desliza e me deixa desvendar tua pele. Você, em plena madrugada, vestido de si mesmo, cena para uma poesia que eu nunca vou saber escrever – melhor vivê-la ao teu lado.

Meu desejo se alarga, contorno teu mapa com as pontas dos meus dedos. Um rosto ainda tão moço, belo, suave. Tuas pálpebras acalmando teus olhos escuros e muito expressivos – agora fechados, acordando sonhos. Tuas sobrancelhas grossas, muito leves e tranquilamente repousadas. Tua barba inquieta desenhada ao redor da boca silenciada, guardando tua voz, macia, doce, tão acostumada a me chamar de amor. Bagunço teus cabelos e faço um cafuné, cheiro tua nuca, beijo cada canto. Você dormindo e tudo em mim sendo insônia só para te levar ao meu palco.

Me ajeito na cama e sinto tanto ardor – por você, por mim, por essa noite. Me ajeito na cama e meus olhos te procuram novamente em cima desses lençóis já muito usados de um casal acostumado a trepar demais. Sorrio. Eu tenho a sorte de um sentimento que sempre (re)começa. Hoje, eu amo você com uma lua em cada retina – e nesse novo sistema lunar, teu corpo é o centro do meu universo de vontades.

Você existindo é tão bonito. Puxo devagar o que a coberta ainda esconde e assisto. Teus olhos acendem. No vão entre as tuas costelas sinto o coração bater na palma da minha mão, que te acaricia. Meus pincéis aquarelam teus mamilos, tua barriga, tua virilha quente. Meu pé sobe pelas tuas pernas. Minhas mãos te perseguem, fauna e flora. Minha língua lambe todos os teus gostos. Meus olhos são teu melhor ornamento, tudo de mais mágico que existe em mim vai sendo derramado em você nesse esboço sem pressa. Me esqueço só para você me lembrar.

Eu aprendo você a cada dia, para acertar todas as tuas questões. Meus olhos curiosos e de olheiras já arraigadas, recordam teu caminhar pela casa, nu, iluminado, dançando, me abraçando, tirando a minha roupa para combinar com a falta da tua. Nós dois em frente ao espelho, tatuando nossas imperfeições que parecem tão perfeitas umas para as outras. Nossos pelos, nossas cicatrizes, nossos corpos que vestem tão bem nossas almas – tão violentamente bem alimentadas. Descanso no teu peito e escuto o que ressoa. Durmo, acordada dentro de você, que eu sonho. 

Eu aprendo você só para esquecer todas as desimportâncias que um dia decorei. É espontâneo. Instantâneo. Teu corpo, matéria - junção das partículas de tudo o que mais gosto de admirar. 

Cais.

12:13


De onde eu vim
Não tem mar
Onde eu vim parar?

Atraquei
Nesse cais
Por amor demais.

[Cais – Mallu Magalhães]

A Bahia nasceu para começar o Brasil e o nosso amor. Um país inteiro se fez ao redor de onde brotamos: você, na cidade onde o sol mais ofusca; eu, na serra onde o frio é mais intenso. Na mistura de climas, desembarcamos os dois em Salvador, completamente tropical, belamente Tropicália, só para colher o que Portugal mal sabia haver plantado: um bem-querer tão bonito assim.

Tudo o que aqui nasce, São Salvador abençoa para que cresça. São, no lirismo do cantador, trezentas e sessenta e cinco Igrejas, uma para abrir caminho a cada dia do ano – todas juntas para iluminar os passos que damos pelas ruas de uma área minuciosamente aquarelada, naturalmente observada pelos olhos de Oxum, mãe de tudo o que sorri em suas estradas. No sincretismo infinito de todas as coisas do mundo, nessa cidade o que transborda é sentimento. E a gente sente.

Numa mesa boêmia do Rio Vermelho, entre cervejas, acarajés, e a história que Jorge e Zélia contam ainda hoje ali sentados, Iemanjá costurava, do outro lado da rua, na Praia da Paciência, os primeiros pontos firmes de todos os enleios que se alinhavam dentro de nós. O Largo de Santana nunca foi tão cheio de graça. Era um céu escandaloso, do jeito que a Bahia mais gosta de ostentar. Anoitecemos ali, os dois, fazendo muito sol. Salvador precisou que eu deixasse minha alma andar descalça em suas terras de ariana intensa e louca para me presentear com as maiores doçuras que desejei a vida inteira. Novembro, feriado nacional, a colônia de pescadores havia decidido soltar no mar uma paixão cheia de vontades.

Em meio a tantas novidades morando em seus olhos, eu me entregava a você e me desmontava pelas curvas das esquinas, cambaleando, muito leve. Subimos o Lacerda e, já ao pisar naquelas pedras, senti o peito pulsar em todas as minhas veias. Estávamos no Coração da Cidade. Da minha serra cinza, sertaneja, de falas amenas e rostos desbotados, foi impossível não contrastar. Foi ali, no Pelourinho, que todos os meus pelos acordaram para ver de perto o que corria lindo entre os temperos de uma cidade inquieta. Com a mão enrolada na sua, senti uns formigamentos de ternura acordando minha pele, a cada passo dado naquelas ladeiras. Quando o Olodum saiu de casa com seus tambores, trovejando cantos do meu corpo que eu nem sabia existir, nas suas janelas abertas já moravam descompassos que se afinavam junto a toda a poesia das mobílias que eu queria guardar dentro em você. E guardei. Uma energia muito bem-vinda nos impregnou. Ali, então, em meio a todo aquele axé, há quatro anos, eu amei você.

Amei você depois, no Farol, com a Barra toda maquiada e meu coração sentindo um calor afável por estar enovelado ao teu. Amei você no saguão do aeroporto, no desembarque da rodoviária, com tanto abraço, tanto aperto, tanta urgência. Eu amei você enquanto andávamos por Itapuã e decorávamos os nomes bucólicos de suas ruas, quando ainda ali vimos Caymmi e Vinicius eternizados, quando nos beijamos em cima de suas pedras. Eu amei você ao observar o pôr do Sol no Solar do Unhão, quando o sol engravidava o mar de um jeito tão gentil e cinematográfico. Amei você em cada um dos acordes que a JAM tocou no MAM, enquanto tudo em mim já era completamente teu. Amei você enfrentando uma fila imensa só para tomarmos aquele sorvete famoso da Ribeira, porque a paisagem era muito bem desenhada. Amei você no Bonfim, quando amarrei aquela medida azul e desejei, em cada um dos nós, a sorte de um amor tranquilo, como o poeta desejou um dia. Amei você pela orla inteira, indo e voltando, voando. Amei você no Campo Grande, na Praça Castro Alves e mais ainda no Teatro, quando a Concha nos permitiu ser partitura um do outro. Amei você no carnaval, quando as marchinhas antigas tocadas por todos aqueles cabelos de algodão nos presentearam com um pouco do ontem em meio a tanto hoje. Amei porque era você. Eu amo você: na cidade toda e em todas as cidades.

Salvador há de ser sempre cais. Cais onde ancoramos você e eu, depois de tanto nadarmos. Cais onde ancorou o nosso amor, abençoado por todos os Orixás. 

Todo mundo ama.

10:23


Não ama quem não tem fé, quem nunca enviou aquele axé, quem nunca exaltou o amor. Não ama quem tem medo de ser pleno, de se perder no outro e ver o sentir ameno, sem ter noção da dimensão do amor. Não ama quem nunca foi ao cinema lotado, só para poder beijar mais demorado, fazer um carinho mais ousado, ficar mais íntimo da intimidade do amor. Não ama quem nunca deu um abraço eletrizado, que deixou o corpo inteiro eriçado, assombrado pelo fantasma do amor.

Não ama quem tem preconceito, quem não entende que se apaixona de qualquer jeito, seja qual for a cor, o sexo, a religião do amor – a maior religião é sempre o amor. Não ama quem nunca dançou juntinho, numa praça, no meio da sala, no escurinho, sem música nenhuma e no exato ritmo do amor. Não ama quem não vai nunca pra cozinha, e em meio a tanta ladainha, prepara coisinhas gostosas pro amor. Não ama quem nunca leu Vinicius e de tanto ouvi-lo falar da bem amada, quis ser a eterna namorada, mesmo quando não havia ainda nenhum amor. Não ama quem não passa o fim de semana na cama, num belo ciclo de ama e desama, se perfumando do outro e fazendo amor.

Não ama quem não conhece o mar, quem acha que é preciso saber nadar, e não mergulha nunca nas águas do amor. Não ama quem não sai por aí de mãos dadas, tomando qualquer caminho e dando muita risada, causando inveja no mundo por tamanho transtorno de amor. Não ama quem não sente ciúmes, quem não fica de cara fechada, quando o outro vira pro lado e dá aquela olhada, se distraindo então do amor. Não ama quem nunca pegou uma caneta, de maneira prática e improvisada, e fez um poema ou uma crônica ousada, falando do seu amor. Não ama quem nunca criou apelidinhos, amor, môzi ou benzinho, carinhos para tratar o amor. Não ama quem não tem liberdade, quem não sabe que a vida é prioridade e é muito melhor viver de amor.

Não ama quem tem frescura, quem se preocupa com a cura, e não se doa, com loucura, ao amor. Não ama quem não deixou a blusa marcada algum dia, em meio a todo o samba e poesia, quando o coração desmanchava em alegria ao ver passar o amor. Não ama quem nunca sentou à mesa do bar e engoliu, de virada, todas as borboletas desgovernadas, que caíram naquele copo de cerveja gelada que refrescava o amor. Não ama quem sai apressado, tão rápido que nem olha pro lado, deixando no meio da rua ser atropelado o amor. Não ama quem cria receita, segue passos e a realidade rejeita, achando que vai encontrar no sonho a verdadeira face do amor. Não ama quem não tem asa, quem não faz do mundo sua casa, quem não voa no céu azul infinito de amor. 

Não ama quem nunca chorou, quem nunca sofreu ou se rasgou e encontrou no outro um afago de amor. Não ama quem nunca fez um manifesto, quem nunca ensaiou um protesto, exageros para chamar a atenção do amor. Não ama quem não é bom sujeito, quem trata o outro com desrespeito, não lhe entrega rosas nem presentinhos de amor. Não ama quem não tem paixão, quem não olha pro outro com tesão, vive uma eterna combustão de amor. Não ama quem não sabe falar baixinho, chegar junto, fazer um denguinho, encher de beijinhos o amor. Não ama quem não faz do outro alimento, casa histórica, monumento, e propõe em pensamento: que tudo ali seja tombado de amor. Não ama quem tenta dar nome, quem sente e de uma vez não assume estar absolutamente consumido pelo amor.

Não ama quem nessa vida lascada, com tanta bobagem padronizada, não se permite caminhar na estrada para viver o grande amor.


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Escrito depois de transbordar em poesia
ao (re)ler, hoje, pela infinitésima vez,
Para Viver Um Grande Amor - saravá, Vininha!
e querer brincar de ser Poetinha.